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Dessa Vez Não

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Aparentemente, uma semana não foi suficiente para esquecer qualquer ressentimento. Faltava um dia para o simulado, e Sieun ainda era provocado pelo garoto de sobrancelhas grossas, Jeon Yeongbin.

Sua camisa de educação física sumiu. O trio colocava o pé para fazê-lo tropeçar, os sapatos eram jogados em suas costas, e eles esbarravam no seu ombro nos corredores sempre que podiam.

Ele ainda tentou pensar de onde vinha esse rancor e, no fim, a única conclusão veio da competição interna de matemática.

Sieun ficou em primeiro lugar, e Yeongbin em terceiro.

Era um motivo ridículo, mas, na verdade, Yeongbin não precisava de muito para intimidar alguém.

Yeon Sieun abandonou a terceira lei de Newton. Se reagisse, Yeongbin pagaria capangas e, no final de tudo, Suho estaria envolvido — não apenas Suho, mas também, de alguma forma, Oh Beomseok.

Oh Beomseok era o mais perigoso. Sieun sentiu profundamente sua conspiração contra eles. Afinal, o menino de óculos enxergou os amigos como inimigos depois que se juntou aos próprios agressores.

Fosse esse o motivo ou não, Yeon Sieun queria o garoto bem longe de Suho. Mas Suho chamava atenção por si só, já que Beomseok lançava olhares furtivos em sua direção.

Sieun só teria que aguentar até o fim do ensino médio. Yeongbin e seu grupo não faziam nada quando Suho estava por perto. Ao que parecia, a sala passara a temer o garoto depois da briga do outro dia.

Isso era bom.

Yeongbin não passaria dos limites.

Era um dia úmido. Gotas de chuva batiam nos vidros da janela. O som constante era um bom ruído de fundo enquanto Sieun praticava cálculos na caderneta. Não lavava mais de dois minutos para passar para o próximo.

Ele parou assim que sentiu vontade de usar o banheiro.

Estava na pausa entre as aulas quando fechou a caderneta e levantou. Sieun olhou brevemente para a carteira do Suho antes de sair. O garoto não estava lá.

Dentro do banheiro, Sieun usou a última cabine antes de lavar as mãos na pia. Ele molhou o rosto e encarou a própria imagem no espelho.

Depois que Suho entrou no coma, Sieun passou a ter olheiras profundas debaixo dos olhos. Ele não conseguia dormir mais de três horas quando não engolia pílulas psiquiátricas. Dormia durante as aulas. Ficava acordado até muito tarde da madrugada.

Sieun melhorou depois de consumir o magnésio que Juntae lhe deu. Ele até mesmo comprou recentemente um frasco para si mesmo, quando o sono piorou ao acordar no passado, e uma dor de cabeça persistia por causa da falta de sono.

Agora, ele encarava um rosto apenas com uma marca leve arroxeada debaixo dos olhos. Os traços voltaram a ser magros e delicados. Na verdade, nunca tinha deixado de ser assim, mas suas bochechas estavam mais cheias antes de ser atropelado.

Sieun contraiu involuntariamente os ombros quando a porta do banheiro foi aberta com um chute. Ele encarou as três pessoas na entrada e suspirou ao ver seus sorrisos maliciosos.

“Olha só.” Yeongbin aproximou-se. “Se não é o Yeon Sieun. Onde está seu namorado? Finalmente deixou de se esconder atrás dele?” 

Os outros dois pareciam ter ouvido uma grande piada quando as paredes do banheiro ecoaram com suas risadas. 

Sieun apertou a mandíbula e cerrou os punhos. 

“Me deixem em paz.” 

Sieun voltou a se encarar no espelho. 

O grupo não percebeu o olhar de Sieun endurecendo, a postura se endireitando aos poucos e os nós dos dedos ficando brancos. O plano era se conter, mas Sieun estava chegando ao limite.

Pelo reflexo, ele viu o sorriso de Yeongbin se alargar. Era como falar com uma parede.

“E perder toda a diversão?” Yeongbin estalou a língua com humor. Em seguida, assentiu para o garoto mais alto ao seu lado, Han Tae-hoon.

Tae-hoon se aproximou. Parecia ter acabado de ganhar o melhor presente de Natal enquanto ajustava o punho.

Sieun recostou as costas na parede, prendendo a respiração. Não sabia se estava se preparando para recuar, revidar ou para aguentar o soco.

A antecipação foi quebrada de forma seca.

A porta da segunda cabine se abriu com força. O metal atingiu o rosto de Tae-hoon, que recuou no mesmo instante, enquanto a figura saía.

Suho saiu e se colocou entre o grupo e Sieun. As mãos estavam nos bolsos quando encarou Sieun, antes de desviar o olhar para o trio.

“O que é isso?” 

O trio recuou um passo.

Sieun apertou os lábios. Não sabia que Suho também estava no banheiro. Obviamente, ele ouvira a forma repugnante como o grupo falara sobre eles.

“Eles estão te incomodando, Sieun-ah?” Suho perguntou, ainda olhando para os três, a voz lenta e rouca.

Sieun suspirou. Os ombros caíram. Os dedos relaxaram. Ele se aproximou e segurou o braço dele. “Vamos embora”, disse, mas Suho não se moveu.

O silêncio pesou. A troca de olhares se estendeu, tensa.

Yeongbin sorriu, mas a curva estava trêmula. Sieun sustentou o olhar. Jeon Yeongbin deixava um aviso — uma ameaça. Pouco depois, o trio deu as costas e saiu do cômodo.

Restaram apenas os dois.

Sieun voltou-se para Suho quando ele se curvou levemente em sua direção, com uma careta, e tossiu seco.

Sieun amparou seus ombros.

“Você está bem?” perguntou, o semblante marcado por uma linha profunda entre as sobrancelhas.

Suho parecia doente.

“Sieun-ah… por que você deixa esses idiotas te incomodarem assim?”, o garoto murmurou, envolvendo-o pelos ombros. “Você abaixa a guarda, e é tudo o que eles querem para avançar.”

“Esqueça isso.” Sieun ignorou a pergunta. “O que você estava fazendo aqui desse jeito?”

O rosto de Suho estava vermelho, quente. Ele irradiava calor mesmo através da roupa. “Acho que exagerei no trabalho ontem… peguei muita chuva.” Suho deu de ombros, leve, e o movimento desencadeou um espirro. “A sala estava barulhenta hoje, então vim pra cá.”

Sieun lançou um olhar breve à pequena janela do banheiro. Ainda chovia lá fora. “Vem. Vou te levar para a enfermaria.” Ele passou a conduzi-lo pelos corredores vazios.

Suho não protestou.

Apoiou-se mais em Sieun, virando o rosto para espirrar outra vez. “Ei, Sieun, você não me respondeu.”

“Esqueça isso. Cuide-se primeiro.” Ele ignorou o resmungo.

Sieun apertou os braços ao redor da cintura dele. Era difícil acreditar que Suho ainda insistia no assunto enquanto negligenciava a própria saúde — como se não fosse nada.

 

 

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A enfermeira da escola, a Sra. Kim, atendeu brevemente o Suho. Não era nada grave: uma leve febre por causa de um resfriado. Receitou uma cartela de pílulas nada muito forte e depois orientou cuidados básicos para uma melhora mais rápida ─ Sieun foi o único que ouviu atentamente, já que Suho se lamentava ao lado.

Como Suho não tinha condições de voltar para a aula, e Sieun não o deixaria ir embora sozinho, ele voltou para a sala, pegou as mochilas deles e encontrou Suho no pátio, esperando-o com uma careta.

“Não precisa fazer isso, Sieun-ah”, ele espirrou e, em seguida, coçou levemente o nariz vermelho. “Sei que você se dedica muito com suas notas.”

“Minhas notas estão boas”, ele dispensou o comentário, como se não fosse nada demais. Logo, segurou o braço do outro. “Vamos. Quanto mais cedo você descansar, melhor você se recupera.”

Eles caminharam até o estacionamento. Sieun estava com o peito apertado; ver Suho desse jeito era como desencadear o mesmo sentimento que sentiu após o desastre — um acidente que estava evitando acontecer uma segunda vez.

Quando chegaram perto da motocicleta de entrega de Suho, ainda chovia do lado de fora — um chuvisco leve, mas ainda perigoso para ele pegar. Sieun pegou a capa de chuva no encosto da moto e empurrou para o peito do garoto. O capacete também.

“Vista-se e me dê as chaves”, Sieun disse, colocando o segundo capacete vermelho na cabeça.

“Você sabe pilotar?” perguntou Suho, hesitando em entregar as chaves.

Sieun o encarou fixamente por um breve momento. Era irônico que quem o ensinou a andar de moto foi o próprio Suho, como uma brincadeira de fim de tarde. Mas era uma lembrança perdida, que apenas Sieun guardava na memória.

Ele assentiu e pegou as chaves da mão estendida.

Sieun montou e ligou a moto. Esperou um momento enquanto Suho vestia a capa de chuva e o capacete e, em seguida, ele montou na garupa.

O ar estava friorento, e a sensação se intensificou quando gotas finas de chuva molhavam seu uniforme. No entanto, Suho não hesitou em abraçá-lo. Ele estremeceu com a ventania, e seus braços apertaram a cintura de Sieun um momento depois.

Sieun fingiu não dar atenção a isso enquanto seguia as instruções do endereço do rapaz.

Ele já tinha ido algumas vezes à casa do Suho — visitas breves. Mas agir como se já conhecesse o caminho seria suspeito para um colega.

Quando chegaram, Suho ainda se apoiou em seu ombro para caminhar até a entrada. Sieun bateu na porta, porém Suho tirou as chaves do bolso e destrancou a fechadura.

“Minha avó não está em casa”, disse ele, passando pela soleira e ligando as luzes. “A filha de uma amiga teve um bebê recentemente. Ela está em Busan.”

Sieun assentiu enquanto fechava a porta. Eles tiraram o capacete e ele colocou o objeto no gancho na parede quando Suho fez o mesmo.

“Toma um banho morno e vista roupas folgadas e confortáveis”, Sieun disse, lembrando-se das instruções da enfermeira.

“Tá bom, mãe”, Suho disse, sumindo pelo corredor.

Sieun revirou os olhos.

Se fosse em outra ocasião, daria as costas e iria embora. Mas, como Suho era negligente com a própria saúde, não seria aconselhável deixá-lo sozinho.

Sieun não perdeu tempo observando o ambiente. Foi até a cozinha, pegou um copo de água e caminhou até o quarto de Suho. Deixou a água na mesa de cabeceira, tirou a cartela de remédio do bolso e colocou ao lado do copo.

“Sieun-ah.”

Ele estava prestes a sair do quarto quando o chuveiro parou e a porta do banheiro se abriu.

"O que? Eu estava─" o restante da frase ficou preso na garganta.

Sieun engoliu em seco.

Isso era… novo.

O garoto passou por ele, indo até o armário. Havia definição nos braços. Nos ombros. Sieun desviou o olhar ao ver o abdômen.

Sieun perguntou a si mesmo por que estava assim. A sensação subiu rápido, apertando a garganta.  Suho estava doente.

“Você deveria tomar banho também.”

Sieun piscou. “Hum?”

Suho se virou, vestindo uma blusa de moletom com uma careta.

"Tomar banho. Você pegou chuva, seu uniforme está molhado", ele esfregou o nariz enquanto se sentava na beirada da cama. “Posso te emprestar uma muda de roupa.”

Sieun abriu a boca, estava prestes a dizer que não precisava — porque já estava indo embora —, mas Suho continuou, esfregando levemente a mão no rosto. "Aí... odeio ficar assim. Não tenho vontade de fazer nada, e nem é uma gripe de verdade."

“Acho que me enganei”, disse Sieun.

“Hum?” Suho o encarou.

“Você não é um garotão”, Sieun não conseguiu conter o sorriso pequeno. “Você é um molenga, Suho-yah.”

"Ei! Isso não é uma coisa que se diga a um doente, Sieun."

Um riso soprado escapou dos lábios de Sieun.

"É sério. Você me magoou profundamente."

Ele observou Suho tocar no próprio peito, com uma careta fingida. Sieun assentiu, não se sentindo comovido. Suho ainda conseguia brincar. Isso acalmou um pouco a aflição dele.

"Beba o remédio. Eu já vou indo."

Ele já tinha entrado no corredor quando Suho falou de novo.

“Sieun-ah.”

Sieun parou e o encarou. "Hum?"

Suho tinha aquele olhar. Ele não precisa sorrir para parecer sincero. “Obrigado…”

Ele parecia querer dizer algo a mais, porém Sieun assentiu mesmo assim.

Do lado de fora, sieun respirou fundo. Não chovia mais quando ele sentou no ponto de ônibus. O celular vibrou em seu bolso; ele sorriu quando viu a mensagem de Suho.

Vou comprar duas porções de bulgogi para você amanhã ;)

Você tá bem magrinho .

Ele guardou o telefone de volta no bolso quando o ônibus chegou. Ainda dava tempo de ir ao cursinho.