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E então, fechou os olhos e sorriu...

Summary:

Feng Xin estava com Mu Qing apoiado em seus braços, um corte profundo em seu abdômen, sangrando sem parar. Não importava o quanto pressionasse ou quanto poder espiritual compartilhasse, o ferimento não dava sinais de que iria se curar.

Notes:

História escrita para a FengQing week 2022, com o tema Reencarnação.
Se não for pra fazer personagem sofrer um pouco, eu nem começo!
Brincadeira... me dói fazer meu bebê sofrer, mas alguém precisava ir.

Boa leitura!

Work Text:

Não importava o quanto estivessem preparados para uma batalha, ou o quanto treinassem e se esforçassem, não importava que soubessem que muitas vidas seriam perdidas, porque no final das contas, uma morte era sempre triste, era sempre uma perda. E a morte de alguém querido era extremamente mais dolorosa que a de um simples conhecido.

Feng Xin estava com Mu Qing apoiado em seus braços, um corte profundo em seu abdômen, sangrando sem parar. Não importava o quanto pressionasse ou quanto poder espiritual compartilhasse, o ferimento não dava sinais de que iria se curar.

Sentiu sua vista embaçar, pequenas gotas caindo sobre o corpo do outro general lhe explicando qual era o motivo. Abraçou-o com mais força, sacudindo-o, chamando seu nome, de novo e de novo.

Aquele idiota não podia abandoná-lo! Ainda tinham muitos séculos pela frente. Era assim a vida de oficiais celestiais. Eles não morriam, não é? Tinham muitos motivos pelos quais discutir e brigas para travar. Precisavam confirmar sempre quem era o mais forte, o mais habilidoso, o mais rápido.

Ainda havia tanto que queria dizer a ele… sentimentos que guardou por tantos anos. Décadas. Séculos… Esperando que os tempos de paz chegassem para que pudesse se confessar… E agora se arrependia por ter guardado tudo para si, por não saber expressar, por não ouvi-lo direito, por não praticar o que queria dizer.

Feng Xin sabia que tinha esse péssimo hábito de pensar uma coisa, mas dizer o completo oposto quando as palavras chegavam aos seus lábios. Mu Qing tinha esse efeito sobre ele. Conseguia deixá-lo desorientado de tal forma que, quando voltava a si, quando recobrava a calma, o estrago já estava feito.

Claro que nem sempre era ele quem começava as brigas, mas não negava sua parcela de culpa.

Ouviu um gemido baixinho, esfregando os olhos rapidamente para secá-los. Mu Qing ia zombar se o visse chorando. Não podia dar essa vantagem ao inimigo. Amigo. Pessoa querida. O que eles eram depois de todo aquele tempo? O que poderiam vir a ser se tivessem mais tempo?

– Mu Qing? – tentou chamá-lo novamente, baixinho e com uma gentileza que não costumava demonstrar, seu coração falhando uma batida ao notar que o outro general abriu os olhos – Eu vou te levar de volta para a Corte, ok? Aguente mais um pouco!

Feng Xin olhou ao redor, para a batalha que ainda desenrolava à sua volta. Ia abandonar seus amigos, deputados e tudo mais para salvar o homem em seus braços? Conseguiria carregá-lo através de tudo e todos?

Claro que sim! Ele podia voltar depois, quando tivesse certeza que Mu Qing estava fora de perigo. Não ia ser tarde demais para voltar à batalha. Só precisava mantê-lo a salvo!

Virou novamente o rosto ao sentir dedos frios tocando sua face, sua respiração suspensa. Aqueles olhos escuros e profundos haviam perdido o brilho. Os lábios bem desenhados se moviam devagar, mal conseguindo formar palavras coerentes, mas Feng Xin aproximou-se mais, ignorando o som da batalha para ouvir.

– Se… eu reencarnar… podemos… lutar… juntos… de novo?

Feng Xin apertou os lábios numa linha fina, tentando conter as lágrimas que voltavam a se formar. Desgraçado! Por que ele estava falando aquelas coisas? Ele não ia morrer! Não em seus braços!

– Feng… Xin… nós…

– Sim. – Nan Yang assentiu, impedindo-o de repetir a pergunta. Não queria cansá-lo. Não queria preocupá-lo, muito menos contrariá-lo – Nós podemos. Nós dois e Sua Alteza também.

– Bom… – Mu Qing pareceu satisfeito, soltando um suspiro após fechar os olhos, um vinco se formando entre suas sobrancelhas.

Ele claramente estava desconfortável e com dor. Precisava fazer alguma coisa. Precisava se mover! Passou os braços sob seus ombros e joelhos, começando a erguê-lo, mas estacou ao ouvir outro gemido dolorido.

Mu Qing não ia aguentar ser movido. Correr e pular pelo campo de batalha ia exigir demais do corpo ferido, por mais cuidadoso que fosse ao carregá-lo.

Pegou-lhe a mão apoiada no colo, pressionando contra seu rosto mais uma vez. Sem calor. Dedos longos e finos, delicados na mesma medida em que eram extremamente fortes, hábeis.

Um lampejo passou por sua mente, a única maneira que sabia que podia usar para amenizar o momento. Para confortá-lo. Para se dar um alívio também, pois sua consciência o acusava.

– Mu Qing? – chamou baixinho, esperando que ele reabrisse os olhos, mas não obteve reação – Mu Qing… está me ouvindo? Na sua próxima vida, nós podemos… podemos ser amigos de novo?

Feng Xin sabia que aquilo sempre atingia o outro general de uma forma intrigante. Mu Qing, que passou 800 anos esperando uma oportunidade para dizer à Xie Lian que queria ser seu amigo. Mu Qing, que sempre achou que não tinha nenhum. Que sempre teve dificuldades de confiar nos outros. Que sempre foi visto como alguém suspeito. O quanto a vida dele teria sido mais fácil se soubesse, desde o ínicio, que podia contar com os dois para qualquer coisa?

A expressão de Xuan Zhen amenizou enquanto os olhos escuros voltavam a se abrir, uma leve risada saindo de seus lábios.

– Claro…

Oh, céus, ele estava sorrindo.

 

Quando sua vez de morrer chegou, algumas décadas mais tarde e de forma menos dolorosa, Feng Xin ainda carregava consigo o arrependimento e aquele sentimento único. Pensou que com o tempo iria amenizar, mas não foi o que aconteceu, pois a cada dia, a cada ano, se sentia mais solitário e vazio.

Esperava que, onde quer que o amigo estivesse, que nessa nova vida estivesse feliz e rodeado de pessoas que o amavam.

* * *

Acordou sobressaltado, a mão pressionando um ponto específico em sua barriga, sentindo-se sem ar enquanto se esforçava para sentar, acendendo o abajur ao lado da cama.

Aquele pesadelo de novo.

Passou a mão pela testa, afastando os fios escuros da frente dos olhos. Inclinou-se contra a cabeceira da cama, respirando fundo enquanto seu olhar pousava no teto. Se fechasse os olhos, conseguiria rever aquelas cenas em sua mente. De todos os sonhos que costumava ter, aquele era um dos poucos que se lembrava com detalhes, o único que lhe causava uma estranha dor real no abdômen.

Já havia se perguntado diversas vezes e até comentado com um amigo se podia ser algo de sua vida passada. Era real demais para não ser… Mas sempre ouviu histórias que as pessoas levavam a cicatriz de sua antiga morte para a vida seguinte e ele não tinha nenhuma marca no local. Sua pele era livre de marcas, mal tendo sardas pelo corpo, quanto mais a cicatriz de um corte que parecia tão profundo.

– Quantas horas? – uma voz ao lado ecoou debaixo das cobertas, uma mão surgiu, tateando até encontrar o celular, um palavrão vindo a seguir – Porra, ainda é madrugada…

– Não queria te acordar. – Mu Qing resmungou, revirando os olhos, voltando a apagar a luz e se deitar. Esperava conseguir dormir de novo. Precisava trabalhar em poucas horas.

Suspirou fundo, a mão ainda pressionando o local, massageando. Havia procurado um médico certa vez, mas não havia nada que explicasse a dor. Sua saúde estava em ótimo estado.

– Pesadelo? – um par de mãos puxou-o pela cintura após ouvir o murmúrio de confirmação, a palma pousando acima da sua, no local onde doía, mas que estranhamente formigava quando era o outro quem tocava, enquanto os corpos se encaixavam de conchinha – Eu protejo você.

Mu Qing bufou uma risada, se sentindo seguro nos braços do namorado. Havia contado sobre aquele pesadelo durante uma conversa e, sempre que acordava assustado, ele dizia que iria protegê-lo.

Havia aquele rapaz no sonho também, que o segurou em seus braços e o confortou, mas não se lembrava bem do rosto dele. Contudo, a sensação de segurança era a mesma, tanto no sonho quanto ali, deitado naquele abraço.