Chapter Text
Ele abre os olhos e imediatamente se arrepende quando sua cabeça lateja, arrancando um gemido dolorido de seus lábios. Percebe que suas mãos estão presas por correntes fortes, penduradas no teto, enquanto uma dor surda se espalha por todo o corpo.
— Merda, merda, merda… — murmura, forçando as correntes, já sabendo que elas não cederiam.
Fechando os olhos novamente, tenta se lembrar de como chegou até ali… mas nada vem à sua mente. A única coisa de que se recorda é do próprio nome: Buck.
Ele não sabe de onde veio, quem é ou como acabou algemado e inconsciente no porão sujo de um navio.
Suspirando, sente as forças o abandonarem e desmaia novamente, com a vaga impressão de ouvir passos pesados no teto acima de sua cabeça.
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— E então? — Eddie diz, olhando com asco para o navio à sua frente. — O que me diz?
— Eles estão nos desafiando. — Chimney responde, abaixando a luneta e se virando para o capitão.
— Esses piratas Scar são desprezíveis. — Ravi se aproxima da proa, apoiando-se na amurada, os olhos semicerrados contra o reflexo do sol no mar.
Eddie sabia muito bem como os piratas Scar agiam; atacavam e matavam sem propósito real, mesmo quando o vilarejo saqueado se rendia. Nem crianças ou mulheres eram poupadas.
— Não acho que seja uma boa ideia responder ao desafio. Ainda estamos cansados por causa da emboscada desta manhã, e eles estão em maior número. — Hen comenta, prática como sempre.
— Eles podem ser mais numerosos, mas nós somos mais organizados e melhor treinados. — Chimney dá de ombros. — E imagina o que vão dizer por aí se recusarmos?
— Chimney tem razão. — Eddie se afasta para içar a bandeira de sua tripulação — uma enorme caveira sobre um fundo vermelho — aceitando o desafio. — Não matem ninguém, a menos que seja estritamente necessário. Deixem-nos vivos para que todos saibam que perderam para os Demônios Rubros do Mar.
Eddie sorri ao ver os preparativos começarem. Não foi ele quem escolheu o nome da tripulação, mas a bandeira escarlate e a sequência de vitórias improváveis fizeram com que fossem conhecidos assim. E, honestamente, ele gostava.
Quando se aproximam o suficiente do outro navio, Ravi é o primeiro a saltar para a embarcação inimiga, espada em mãos e um sorriso largo no rosto, desferindo golpes com a parte chata da lâmina contra cabeça e abdômen dos oponentes.
Eddie pula logo atrás, aparando ataques traiçoeiros vindos pelas costas de Ravi.
Hen e Chimney se encarregam de puxar os inimigos caídos e amarrá-los com cordas grossas ao mastro.
— Hen, cuidado! — Eddie grita, atingindo com o punho da espada a têmpora de um pirata que se aproximava demais.
Hen se vira a tempo de ver um garoto — não mais que vinte anos — avançando em sua direção com a espada erguida. Sem alternativa, levanta a própria arma para aparar o golpe, mas, com a força do ataque, a ponta de sua espada acaba perfurando o peito do rapaz, que cai arfando, tossindo sangue.
— Foi mal, capitão. Não foi minha intenção.
— Hen diz, pesarosa, olhando do garoto para Eddie.
— Se tiver que escolher entre eles e você, escolha sempre você, Hen. — Eddie responde, arrastando o último tripulante caído até ela. — Vejam se há algo que valha a pena levar. Barris de rum e cerveja são bem-vindos, mas ouro e prata são prioridade.
Ele caminha lentamente pelo convés, lançando um olhar carregado de deboche ao capitão inimigo, que o encara com ódio.
Ravi segue para o porão, provavelmente atrás de bebidas, enquanto Hen e Chimney vasculham a cabine do capitão.
— Capitão… — a voz de Ravi ecoa da entrada do porão.
— Sim, Ravi. Alguma coisa? — Eddie se aproxima.
— Acho melhor o senhor vir ver.
Curioso, Eddie o segue pela escada de cordas. O porão é escuro, sujo e úmido, com rachaduras no casco deixando entrar filetes de água salgada.
Ao contornar um dos pilares de sustentação, ele para abruptamente, o ar fugindo de seus pulmões.
Preso por correntes de ferro fixadas ao teto, está um homem de aparência frágil, pele pálida marcada por vergões avermelhados — sinais claros de chicotadas — e um filete de sangue escorrendo da têmpora até a bochecha.
— Ele está vivo, mas muito fraco. — Ravi se aproxima, erguendo com cuidado o rosto do jovem.
O rapaz — porque, para Eddie, ele não parecia mais do que isso — geme baixo e abre os olhos. Azuis. Intensos como o próprio mar.
— Quem são vocês? Por que me prenderam? — consegue dizer antes de sucumbir novamente à inconsciência.
— Vá ver se consegue encontrar a chave dessas algemas, Ravi. — Eddie ordena, aproximando-se.
— Senhor… — Ravi franze a testa. — Pretende levá-lo conosco?
— Você espera que eu o deixe aqui para morrer? — Eddie arqueia as sobrancelhas. — Vá logo. E chame a Hen. Ela é quem entende mais de medicina.
Eddie observa Ravi se afastar e solta um suspiro contido. Não esperava encontrar um prisioneiro… mas também não podia simplesmente virar as costas.
— Vai ficar tudo bem. Nós vamos cuidar de você. — murmura, afastando uma mecha de cabelo claro do rosto do rapaz, seus olhos pousando na marca avermelhada acima de sua sobrancelha.
É… Eddie Diaz, capitão dos Demônios Rubros do Mar, estava lascado.
