Actions

Work Header

Conte as estrelas para se lembrar de mim

Summary:

Faz um ano que Pomba sofreu uma grande perda, o luto o consome até que ocorre algo e muda o eixo de sua vida.

 

ou

 

Pomba recebe ajuda das estrelas.

Notes:

Oi, eu sei que faz um milhão de tempo que não atualizo minha outra fic, mas estava me cobrando muito e não saia nada. No final não adianta ficar se forçando.

Então decidi tentar escrever outra coisa, uma história sobre luto e esperança.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Conte as estrelas para se lembrar de mim.

 

Era uma manhã tranquila de julho quando Pomba acordou, o tempo estava frio e nublado e lentamente abriu seus olhos, onde um cansaço habitual o abraçava, algo que tinha se tornado recorrente no último ano. Era impossível esconder ou até mesmo tentar disfarçar um pouco as olheiras escuras e profundas que surgiam ou a tristeza que existia em seu olhar.

Era perceptível que algo não estava bem.

Havia uma bela mistura que refletia as suas emoções internas junto com o caos que sua vida tinha se tornado desde o incidente.

Já não chorava mais pelo o que tinha ocorrido, mas a melancolia sempre aparecia quando se perdia em pensamentos. Vinha e o consumia por inteiro, um abismo que o atraia e era impossível de escapar, e sem que percebesse sua mente se inundava com lembranças que eram boas e felizes, mas que atualmente só ocasionam dor.

Revisitar seus momentos felizes era aterrorizante, gerava um incômodo em sua garganta e seu corpo não parecia mais seu, como se agulhas perfurassem sua pele.

Quando não estava nesse estado, um vazio tomava conta de si, nada parecia certo, nada estava certo. Nada fazia mais sentido, às coisas que antes amava era apenas mais uma tarefa, uma obrigação cumprida em uma lista sem fim.

Ler, desenhar, respirar, trilhas…

Tudo era sem vida, muito complicado como se tivesse um peso enorme em seus ombros e toda sua motivação era inexistente.

Era como um passageiro preso em um vagão de metro sem rumo aparente, que nunca parava em nenhuma estação, apenas um observador sem poder.

Refém do ambiente e de suas emoções.

A contragosto, abandona o calor de sua cama e decide se levantar em um movimento lento e quase de forma robótica, seu corpo se sentia estranho e pequenos tiques involuntários de seus músculos acompanhavam toda a ação.

Ao lado de sua cama havia uma pequena mesa de cabeceira contendo um único ítem, um pequeno porta retrato bem delicado de madeira, que estava virado para baixo. Era um presente e a simples presença dele gerava sentimentos que ainda não sabia lidar.

Uma voz surgia atormentando o silêncio, 'covarde' ela dizia, quase como um sussurro o fazendo lembrar de seu luto, ecoando no fundo, como um parasita preso em sua mente, se alimento cada vez mais de sua dor, ele que só estava querendo fugir dos seus problemas, querendo fugir de si mesmo.

A voz era inconfundível, era Ele…

Mas essas palavras cruéis nunca teriam sido ditas…

Era sua mente, esse era o maldito problema, querendo destruir uma de suas mais belas memórias, que era impossível revisitar sem um gosto amargo em sua boca.

Em um sábado qualquer, tinha uma palestra para ir, essa era a desculpa que utilizou para não se encontrar com ninguém, amava seus amigos e seus irmãos, mas não aguentaria o olhar de pena ou as mesmas perguntas de sempre.

"Está tudo bem?"

"Como você é forte "

"Tudo vai dar certo"

E mais um monte de baboseira, não o entendam mal, as primeiras vezes ouvidas realmente o ajudaram um pouco. Mas agora parece um disco arranhado preso na mesma música, que um dia fora sua favorita, mas agora é só insuportável de escutar.

Não queria se levantar, queria passar todo esse dia não fazendo nada esperando que assim passasse mais rápido, entretanto a palestra valia horas complementares e todo universitário nos períodos finais de curso estavam desesperados por qualquer atividade que diminuísse a absurda carga total. E Pomba era apenas mais uma vítima disso, o último ano tinha sido exaustante.

Tinha se perdido, o luto não era apenas pela pessoa querida como também pela pessoa que deixou de ser. Uma risada nervosa escapou, quase não se reconhecia mais.

Era quase uma piada, "você não me ensinou a te esquecer", sabia existir antes de o conhecer mas agora não fazia ideia como sobreviver sem sua presença, como se uma parte de si mesmo tivesse sido arrancada e não soubesse como se recuperar.

Já foi algo inteiro, agora mal era uma metade.

Fazia exatamente um ano que seu namorado tinha morrido, não foi necessariamente inesperado mas foi muito rápido e doloroso. Foram poucas semanas da descoberta da doença até sua inevitável morte, pelo menos partiu sendo ele mesmo.

''Não temos mais nada que podemos fazer, está no estágio 4…"

Essas palavras ainda o perturbavam, foi tão rápida a piora. Se tivesse sido mais atento e percebido os sinais ou mais incisivo com a importância da sua saúde, talvez houvesse uma possibilidade, mesmo que minúscula de se recuperar…

Riu novamente, quase gargalhando, nada disso importava agora. Não adianta ficar imaginando outras realidades ou universos que ainda tivesse seu amado consigo, só iria se machucar ainda mais.

No piloto automático se preparou e se arrumou para ir para sua faculdade, se esquivando de qualquer pessoa que tentasse contato consigo. Tanto pessoalmente quanto digitalmente, onde morava principalmente o problema. As notificações das mensagens saturaram seu celular, que foram todas prontamente ignoradas, queria passar o dia sozinho.

Ou melhor, precisava disso.

O percurso até seu destino é um borrão, o metrô lotado de pessoas sem rostos e barulhentas perdidas em sua própria ignorância. A única coisa que o trouxe de volta para a realidade foi quando esbarrou em alguém quando saia e no meio da desculpa percebeu.

Vestida com uma camiseta de uma logo que reconheceria em qualquer lugar, a banda underground que tinha perdido seu guitarrista no último ano.

A surpresa o paralisou, seus olhos se arregalaram e seu corpo travou, pessoas passavam por ele esbarrando querendo ir o mais rápido possível em direção às escadas.

Com o coração acelerado e sem conseguir respirar, as portas do metrô se fecharam e Pomba viu o vagão partir e ele ainda preso sem conseguir se mexer. O desconforto em sua própria pele acrescentava ao quão forte tinha sido a experiência, quem imaginaria que só de ver isso desencadearia um gatilho tão forte.

Só queria sumir, desaparecer, se esconder em sua cama quentinha e nunca mais ser visto em sociedade.

''Sua linda cabecinha é um dos seus maiores dons meu bem, mas também o que trazia suas maiores angústias …" Falava a coisa mais sábia e depois soltava um palavrão do mais absurdo possível, que faria qualquer freira ou crente assustada. Mas que sua gentileza os surpreenderiam mais ainda, que os babacas falariam que não combinava com sua aparência.

Que saudades: de sua presença magnética, de seu calor intenso, de sua voz rouca e de fumante, de seu sorriso fácil, de seu humor quebrado, dos seus beijos fofos e do seu amor, que o envolvia completamente e não deixava dúvidas do quão honesto era.

As horas na palestra passam tediosas e cheias de ruídos de conversas paralelas, se sente como um fantasma preso em outro plano astral, não pertencendo ao lugar. As anotações saem confusas e desconexas, porque era difícil se manter no presente.

"Que perdedor "

Uma voz se destaca dos sons ao fundo, um pouco distorcida, mas era inegável que era Ele, reconheceria em qualquer lugar. Procurou, mesmo sabendo que não era real, a pessoa que a pertencia.

Olhou em todas as direções, ansioso, esperando o impossível.

Não era Ele, tinha que constantemente se lembrar disso, sua voz era animada e gentil, o chamando de nomes doces relacionados às constelações e ao cosmos. Era um nerd incurável, que passaria horas pesquisando seus interesses para poderem conversar depois.

Ainda se lembra dos 10 documentários sobre dinossauros que assistiu para ter assunto e coragem de o convidar para sair.

Era tão dedicado, não deixou de sorriu ao se lembrar, e Pomba não conseguia nem prestar atenção na maldita palestra, que era importante para seu curso.

"Que inútil "

A voz estava ainda mais distorcida e cada vez mais alta, querendo sobrepor qualquer outro pensamento, fazendo que seus ouvidos começassem a doer, estava tonto, precisava sair daquele local, se sentia sufocado.

Tudo era demais, sua respiração estava acelerada.

Enlouquecendo.

De forma apressada sai do auditório, deixando para trás os ruídos, mas as sensações nunca se afastam completamente.

Estão lá, o deixando desconfortável o lembrando que nada estava bem.

No banheiro joga água em toda a sua face, esperando que com isso volte a si e as vozes se calem. Isso ajuda e por alguns instante sua mente fica vazia e consegue perceber melhor ao seu redor.

As portas estavam quebradas e faltavam partes, o cheiro era horrível de urina e fezes, os espelhos trincados e embaçados e o chão estava molhado.

Simplesmente nojento, mas isso que o ajuda a se manter focado no agora, quase como uma âncora.

Sua aparência já esteve pior, pondera. Olhando seu relógio decide que era a hora perfeita para ir em um local que não visitava a algum tempo, mentiria se não assumisse que estava o evitando de propósito.

O silêncio do lugar o perturbava um pouco, dando um contraste tão grande com o caos de sua cabeça. Mas precisava estar lá hoje, era importante.

Queria chegar rápido e era relativamente perto para os padrões de São Paulo, então decide chamar um Uber. Onde uma viagem de 30 minutos se passa em um piscar de olhos, o que o surpreende um pouco porque acabou perdido na paisagem cinza e melancólica dos prédios. A voz do motorista é o que faz perceber que tinha chegado em seu destino.

O cemitério estava vazio, o que era esperado pelo horário e por conta do dia da semana, que era famoso pelo descanso. Quem sairia de casa nesse tempo triste para sofrer mais? A passos lento e incertos se aproxima da entrada, com um olhar cansado observando o céu nublado, será que ia chover? Suspirando continua seu caminho.

Dentro era ainda mais pesado o ambiente, como se esse local estivesse em um próprio compasso, muito devagar e arrastado, e quanto mais tempo se mantinha ali mais preso nessa nova velocidade ficava. 

Era cheio de flores murchas e lápides mal cuidadas, a imagem do abandono. Será que as pessoas só morriam de verdade quando eram esquecidas? Difícil acreditar nisso quando olhava ao redor, parecia só uma forma de resolver um problema, um descarte. Já tinham sido esquecidas a muito tempo.

Passou alguns minutos procurando a lápide certa, tinha um cheiro de morte que era inconfundível junto com um de grama molhada, até que avista uma figura conhecida. Que não o vê a quase um ano, eram amigos de amigos no final das contas e quando o elo morreu só se afastaram, não existia mais motivos para um relacionamento.

"ALÊ?" Pomba pergunta nervoso, não esperava encontrar com ninguém. Bem, esse era o plano, ainda mais com o loiro que era famoso por sumir, ainda mais que não faltava tanto tempo assim para fechar. 

Alê lentamente levantou seu olhar do livro que estava em seu colo e quando reconheceu quem era começou a juntar suas coisas para se levantar e um buquê de girassóis chamou sua atenção.

Suas flores favoritas e por consequência de seu namorado também, que de acordo com ele lembrava Pomba, radiante e brilhante. Mas essa descrição não era verdade a muito tempo, agora era um dia nublado e frio, não existia mais um calor em si.

Tinha se apagado.

Um toque em seu rosto o tira de seus pensamentos, Alê estava estranhamente perto e nada de sua expressão dava alguma ideia do que estava pesando ou por que estava agindo daquela forma. A confusão devia estar estampada em sua cara, porque o loiro oferece o buquê para ele.

''Para mim?" Pomba ainda tentando processar o que estava ocorrendo pergunta, onde Alê apenas concorda com a cabeça em um movimento leve, logo se afasta e começa a caminhar pelo caminho que o moreno tinha vindo.

''Que? ALÊ, o que isso significa" Pomba tenta conseguir uma resposta, gaguejando um pouco, mas o outro já estava longe. Era muito rápido ou apenas estava em choque que perdeu a noção do tempo.

E novamente se encontrava sozinho, suspirando volta a reparar nas flores que foram praticamente jogadas em sua direção. As pétalas tinham um amarelo intenso, realmente lembravam o sol era…

''O que?...'' Entre os ramos tinha uma ponta de algo, parecia um papel? De uma tonalidade vermelha bem intenso que o lembrava a cor do seu cabelo. De forma desengonçada puxa um envelope de dentro e com esse movimento algumas pétalas se desprendem do buquê, caindo graciosamente no chão.

Pomba

 

No envelope apenas seu nome estava escrito de maneira desajeitada e com uma caligrafia extremamente familiar, sem dúvida nenhuma era a letra Dele… mais como era possível? Por que só agora seria real? Sentiu uma fraqueza em suas pernas, se manter em pé era quase impossível. 

Se arrastando cai de forma abrupta com tudo perto da lápide, o buquê fica esquecido em seu colo e o papel é segurado com força, suas mãos tremiam pelo conteúdo que poderia ter dentro.

O medo está presente, mas a dúvida e a curiosidade são maiores do que ele.

Segurando a respiração abre o envelope e dentro continha uma carta escrita à mão, com uma letra tremida e que falhava em certas partes, mas que irradiava o amor em cada pedaço dela.

 

Ei, tudo bem? Quanto tempo meu solzinho!!!

 

Como sentia saudades desse apelido carinhoso, conseguia ouvir perfeitamente sua voz pronunciando essas palavras. Seus olhos ardem, mas nenhuma lágrima cai.

 

Um ano já, espero que esteja melhor que as últimas semanas que estivermos fisicamente juntos. Mesmo que tentasse ser forte, eu sabia que você estava sofrendo, mas não queria demostrar isso de forma alguma para mim.

 

Quem estava morrendo era você, como eu me sentia não importava… Apenas que seus últimos dias fossem tranquilos e felizes… meus sentimentos eram insignificantes…

 

Passamos tantos momentos felizes juntos, não queria que nossas últimas memórias fossem dolorosas ou que se lembrasse de mim apenas como alguém doente.

 

Você era a minha felicidade, depois que se foi eu não sei mais o que é isso… continuar a carta era difícil, dolorido, mas não poderia parar. 

 

Você sempre foi a estrela mais brilhante nesse céu imenso.

 

Meu brilho se apagou… quando seu coração parou… Hahaha… hahahaha…

 

Não existe medidas suficientes para medir meu amor por você, qualquer número ou quantidade parece ridículo, nada dessa porra chega perto dos meus sentimentos, nem todas as estrelas no céu seria o bastante para medir meu amor por você.

 

Bobo, bobo demais. Era cada vez mais difícil segurar as lágrimas.

 

Eu tive tanta sorte de ter você em minha vida, mas pelo jeito eu era uma estrela cadente. Brilhei intensamente e partir um pouco cedo hehehe… Mas eu não parto com nenhum arrependimento, eu tive uma vida feliz. Você me fez feliz

 

Eu queria ter dito mais tempo, passado uma vida inteira ao seu lado… Por que eu não pude… isso é tão injusto.

Quero você aqui comigo…

 

É o que eu espero para você, que seja feliz no agora e para sempre no futuro

 

Eu ainda não aprendi… ainda não sei viver sem você. Um trovão pode ser ouvido ao longe.

 

Tenho tantas perguntas… Você está se alimentando bem? Dormindo? A faculdade está difícil? Como vão seus irmãos? Muitas pessoas dando em cima de você? Não responda, não quero saber !!!

Brincadeira, espero que um dia consiga se abrir para o amor novamente …

 

Impossível, impossível, estou apenas sobrevivendo sem sua presença…

 

Se abrir para todas as experiências que você merece ter.

 

Vo-cê… como… a-mor…

 

Espero que essa carta ajude você de alguma forma, benzinho

Eu amo você muito, muito mesmo. Queria ter tido a chance de te beijar pela última vez e sempre que a dor e a saudade for muita…

Eu amo você tanto, queria milhares de beijos e abraço é onde sempre me senti em casa…

 

Conte as estrelas para se lembrar de mim

 

Do seu eterno,

Franco.

 

Pomba não conseguiu mais segurar as lágrimas e uma cascata vazava de seus olhos porque a dor era tanta, tão grande quanto seu amor por ele, enquanto agarrava fortemente a carta contra seu peito, como se um pedaço de seu amado estivesse ali. Sua visão fica embaçada e não consegue mais ver nada, nesse momento já tinha escurecido e pequenas estrelas começavam a pintar o céu.

E uma percepção passa pela sua mente, suas pintinhas, que lotavam seu rosto era como as estrelas…

Você realmente pensou em tudo né…

Me conhece bem demais, meu amor…

Sabia que precisaria disso…

''Jovem, já estamos fechando" Um senhor mais velho, provavelmente o coveiro, apareceu tirando Pomba de sua contemplação .

'Desculpe, já vou saindo" Pomba fala apressado recolhendo as coisas e agora olhando com muito mais carinho para as flores que ganhou do seu namorado. Em um único movimento começa a ir em direção a entrada novamente, mas agora com um sentimento diferenciado.

A dor do luto ainda está lá, mas agora não é a única coisa que existia… tem o amor infinito de Franco e dele próprio.

Pegando o seu celular que estava no seu bolso liga para um número que vinha ignorando nos últimos meses.

"Oi Lena, quanto tempo… eu só queria dizer…que não ando muito bem…"

As estrelas acompanharam Pomba naquela noite e todas as próximas…

Fim

Notes:

Foi isso, espero que tenham gostado.
(a outra fic não foi abandonada)
#umdiasai