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É pacífico estar nos braços de Dante, é bom estar em casa. O pesadelo finalmente acabou e sua família está bem. Arthur está bem. Ivete está bem. Dante está bem. Agatha está bem. Todos seguros, perfeito.
A noite pela primeira vez não o intimidava com sua escuridão, seus olhos se perdiam na pequena fresta entre as cortinas de sua janela e vislumbravam as estrelas enquanto se deixava ser acariciado pelas mãos tatuadas que o abraçavam com tanta firmeza. Não importa o que aconteça, Arthur não deixará Dante por nada nesse mundo, nem mesmo pela paz mundial.
Quer dizer…talvez ele o faça, assim ele terá mais tempo com o seu amor.
O som do coração de Dante é a melhor melodia que já ouviu, seus batimentos são acelerados, mas, ao mesmo tempo, tranquilizantes o suficiente para o fazer se sentir sonolento. Arthur não se impressionaria se já passasse das duas da manhã, ele finalmente conquistou sua merecida folga após semanas tentando resolver inúmeros problemas que definitivamente não merecem ser lembrados da ordem e tudo o que mais quer neste momento é ser abraçado pelo seu namorado.
É pedir muito?
De repente, um longo suspiro escapou dos lábios do loiro e Arthur levanta sua cabeça momentaneamente para averiguar sua expressão apenas para ter seu rosto posicionado em seu peito novamente, o músico bufou por não conseguir vê-lo.
– Tá tudo bem? – Indagou preocupado, forçando seu torso para cima somente para Dante o empurrar gentilmente para baixo novamente. Um sorriso brincando em seus lábios.
– Sim, eu só…tô pensando – murmurou, a voz rouca de sono.
O moreno franziu as sobrancelhas, mais problemas? É sério? Arthur grunhiu escondendo o rosto na camisa azul clara alheia, Dante deu uma risadinha e brincou com seu cabelo.
– No que você tá pensando? – perguntou finalmente, um pingo de hesitação em sua voz.
Não sabia se seria capaz de aguentar uma resposta ruim.
– Você acha que a Agatha ia aceitar usar roupa social?
Arthur franziu as sobrancelhas, que tipo de pergunta era aquela? Ele se levanta (um pouco a contragosto) de cima de Dante e se senta ao seu lado para o encarar melhor.
– Eu acho que sim – mesmo afirmando, sua resposta definitivamente tinha tudo, menos certeza – por que isso agora?
– Pro nosso casamento – deu de ombros, simples.
Oh.
Oh.
Isso é real? Dante realmente está…não, não é possível…
Seus olhos começaram a queimar, tudo aquilo parecia tão…inalcançável, estar em casa, Dante…tudo isso é dele. Arthur está bem, ele é digno de ter um futuro em paz com sua família.
Wow.
Sua família.
Ainda é estranho isso, perceber que após tantos anos perdendo cada vez mais pessoas, lutando contra monstros horríveis e se perdendo no meio do caminho, sua família continua de pé. Viva.
Às vezes, a culpa consome seu peito com uma dor imensurável, de vez em quando é até mesmo capaz de ouvir seus amigos chamando-o. Liz nunca teve a chance de pedir ajuda quando Gal a matou, Thiago sequer hesitou ao se sacrificar na caverna, Kaiser…Cesar, seu melhor amigo…ele sequer pôde se despedir. Joui…ah, como doi lembrar…
Se ao menos tivesse sido mais forte, se tivesse sido o suficiente…se tivesse sido mais corajoso…ele ainda seria perdoado?
Ele não consegue respirar.
O ar se recusa a entrar.
Ele precisa de ajuda.
Sua família está bem.
Inspire.
Ivete está salva.
Expire.
Agatha está dormindo no quarto ao lado.
Inspire.
Dante está ao seu lado.
Expire.
Isso não acaba?
Inspire.
Thiago estaria decepcionado.
Expire.
Liz estaria desapontada.
Inspire.
Cesar o odiaria.
Expire.
Joui não o reconheceria.
Inspire.
Ele falhou com seus melhores amigos.
Expire.
Há um gosto amargo em sua boca, é tão injusto ele estar vivo enquanto seus amigos imploraram para viver. Eles tinham uma vida pela frente, era para Arthur estar recebendo o convite de casamento de Liz e Thiago, não planejar o seu enquanto o mundo desmorona. Não é justo.
– Arthur – uma voz o chama ao longe, mas ele não consegue o alcançar.
Há mãos em seu rosto…dedos acariciam suas bochechas, alguém está sussurrando algo. Onde ele está mesmo? O toque persiste, ele não luta contra. É reconfortante e familiar.
Seus olhos se abrem (quando foi que ele os fechou?), e um par de orbes azuis o encara de volta. Azul no verde. Castanho no azul. Dante está o segurando. A luz fraca da luminária amarela ilumina seu semblante preocupado, Arthur sente seu coração fraquejar.
Está tudo bem, ele está seguro.
Ivete está segura.
Dante está seguro.
Agatha está segura.
Todos estão bem.
Respire. Inspire. Respire. Inspire. Respire. Inspire. Expire. Inspire. Expire. Inspire. Respire. Inspire. Respire. Inspire. Expire. Inspire. Expire. Inspire. Respire. Inspire. Respire. Inspire. Expire. Inspire. Expire. Inspire. Respire. Inspire. Respire. Inspire. Expire. Inspire. Expire. Inspire. Expire. Inspire.
Está tudo bem.
Seus pulmões queimam, é fisicamente doloroso respirar. Dante continua apertando seu corpo contra o dele, seu coração é acelerado e há algum tipo de vibração vinda de seu peito, é como uma música, só que…áspera.
Foi então que se deu conta que ele estava falando.
A voz de Dante sempre foi uma âncora, e ele sabe disso. Suas fraquezas não estão sendo usadas contra Arthur. Eles estão bem e juntos, ninguém poderá os separar agora.
– …por favor fala alguma coisa… – a preocupação era escancarada em seu tom, o homem se obrigou a suspirar, culpado.
– Desculpa… – murmurou rouco.
Os braços do loiro o envolveram com mais força ainda, se é que aquilo ainda era possível. Arthur apenas se permitiu cair no abraço e ser segurado por mais um tempo, era bom estar em casa.
O silêncio era intimidador, mas, ao mesmo tempo, confortável. No fundo, os dois sabiam como aquela conversa aconteceria, Arthur continuaria pedindo desculpas, Dante o acolhendo e dizendo que é a partir da perda que encontramos a coragem para continuar. Mas, parte de Cervero duvida muito que ainda é possível ser corajoso.
A coragem é parte de seu trabalho, não quem ele é.
Por um momento, o único barulho audível eram suas respirações compassadas, as mãos tatuadas passeavam preguiçosamente pelos cabelos curtos alheios e a aura tranquila o deixava cada vez mais sonolento. Talvez esse seja o seu final feliz, ou o mais próximo que será capaz de atingir.
– Dante – chamou baixinho, o outro apenas resmungou em resposta – o que você acha de tulipas?
– Tulipas? – Indagou confuso, conseguia ouvir suas sobrancelhas franzindo – eu acho elas lindas amor, por que?
Arthur sorriu para si mesmo.
– Tava pensando em qual flor a gente vai colocar no casamento – comentou sereno.
Dante se moveu, o carinho em seus cabelos parou, o que o deixou com um bico discreto nos lábios. O loiro o encarava com uma expressão surpresa, o que é justificável devido ao seu surto de alguns minutos atrás.
– Você…quer mesmo falar sobre isso? – a animação contida em sua voz era disfarçada com a confusão em seu tom, Arthur concordou em um risinho.
– Eu só fiquei pensativo – deu de ombros – às vezes eu só…fico pensando em como tudo mudou e…a gente merece ser feliz também.
Um vislumbre contornou os olhos de Dante, um sorriso se alongou por seu rosto e Arthur sentiu seu estômago se revirando com pequenas borboletas imaginárias. Suas bochechas queimaram ao sentir os dedos pálidos acariciando seu rosto, como se fosse ensaiado, o músico leva sua mão em direção a bochecha alheia e o puxa para perto, deixando um pequeno selar em seus lábios.
Arthur não sabia dizer se era possível se apaixonar pela mesma pessoa duas vezes, mas, naquele momento, foi como se conhecesse-o pela segunda vez, e tal qual aconteceu no primeiro dia que se viram, Arthur sorriu. Talvez Dante tivesse lançado algum tipo de ritual enquanto adormecia, porque Cervero não acredita ser possível que alguém como ele poderia ter alguém como Dante como seu namorado.
O mundo ao seu redor parecia ter desaparecido momentaneamente, por enquanto, eram apenas os dois orbitando a mesma órbita em perfeita harmonia. Eles funcionam juntos não apenas como uma equipe, mas como família e por agora, isso basta.
De repente, batidinhas na porta os chamam de volta para a realidade. Um pouco a contragosto, Arthur se senta na cama com uma expressão emburrada que logo se desfaz ao ver o rosto de Agatha aparecendo timidamente no quarto.
– Cês tão de roupa, né? – a voz rouca perguntou em um tom desconfiado.
Arthur sufocou uma risada ao ouvir Dante engasgando.
– Pode entrar, gracinha – respondeu enquanto batia no colchão.
Mesmo estando no auge de seus dezoito anos, Agatha sempre seria sua eterna menininha. A pelúcia do shadow embaixo de seus braços contrastava com a camisa dos Gaudérios Abutres e shorts de panda, uma bela combinação para as leis da moda.
Em passos tímidos, a menina se esgueirou para o meio deles e se aconchegou perto de Dante, que apenas a abraçou de volta. Arthur ergueu uma sobrancelha com a visão, normalmente era ele quem recebia os abraços, não Dante.
– Cadê o meu abraço? – A indignação era evidente em seu tom, fingiu não ver a tentativa de Dante de manter uma expressão calma enquanto Agatha abraçava a pelúcia contra o peito.
– O pai tem o melhor abraço, Arthur – retrucou dando de ombros.
Os homens se entreolharam silenciosamente, o choque estampado em suas faces. Agatha nunca escondeu que eles eram as figuras mais próximas de um pai que ela teve, e ambos honram muito bem os seus títulos, mas…ela nunca os chamou desse jeito, especialmente Dante, com quem ainda era um pouco mais tímida.
Arthur observou os olhos de Dante brilharem, seu peito se aqueceu e balançou a cabeça. Dessa vez, ele deixaria a traição de sua própria filha passar, mas na próxima vez, vai ter revanche!
– Eu vou fingir não ter escutado isso – resmungou enquanto se aproximava da garota que apenas riu em resposta.
Finais nunca foram a minha coisa preferida, o sangue clama pela intensidade e pelos começos, nunca pelo fim. Finais são chatos e nada divertidos, totalmente o contrário do que realmente prefiro, no entanto, eu não chamaria isso de fim, talvez apenas uma pausa.
Arthur finalmente conseguiu uma folga do trabalho e consegue descansar com seu futuro marido e filha, o paranormal ainda assombra a sua vida e continuará o perseguindo até os seus dias finais…mas, hoje eu me sinto misericordioso, e permitirei com que ele tenha um bom momento para relembrar antes de meu retorno. Por agora, espero que se contentem com o que lhes posso entregar, mas, não esperem que eu esteja sempre de bom humor.
