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Uma Experiência Formidável

Summary:

Depois de se esconder nas sombras, Alastor tenta, mais uma vez, convencer Vox a comer algo saudável. Mas entre ser chamado de “cervinho”, debater a idade exata em que morreram e receber uma lista de prioridades de Vox — que inclui bolo e um boquete —, ele se pergunta quando perdeu o controle da conversa. Afinal, como exatamente eles acabaram conversando sobre um kit de facas? E sobre as taras que praticavam?

Notes:

Eu pensei em postar na outra fic como um cap 2, tanto que isso é claramente uma continuação direta do capítulo 1, mas fiquei receosa de alguém não gostar do quão... direto o Vox é neste capitulo.

Percebi tarde demais que escrever o Vox com esses hormônios é praticamente impossível ficar em algo de boas, porque graças a essa televisão maldita isso se tornou M rapidinho. Estou receosa de postar esse capítulo, mas é o que saiu.

E eu estou pensando se vou escrever algum hot, porque embora eu não faça ideia se conseguiria, eu tenho vontade de tentar. E se caso escrever, com certeza eu vou colocar nessa fanfic (e atualizar as tags, claro) porque essa tensão [tesão] precisa ser resolvida.

Sei se vai acontecer? Não sei. Mas eu tenho esperança de que a musa da inspiração vai me visitar! Em algum momento... provavelmente.

Estou muito cansada, porém satisfeita com o que criei. Mentalmente exausta depois da semana que eu tive e dos 5 dias escrevendo isso sem parar, mas feliz! Nossa, não me lembrava de ficar tanto tempo focada em um capítulo desde uma fanfic específica, de uma fem!oc.

Enfim! Espero que gostem desse capítulo 🌺 mas se possível mantenham as expectativas baixas.

Eu sou uma escritora jardineira. Significa que metade disso foi os personagens tomando a caneta da minha mão e a outra metade foi minha mente falando "apaga e começa de novo" e eu falando "nem fudendo", porque já tinha escrito 1500 palavras e eu me recusava a começar isso de novo.

Fiz o que faço de melhor: abraçar o caos!

Aliás, talvez eu revise isso de novo depois, quando acordar, embora posso não acontecer. Mas se acontecer, aconteceu. 🤸

Ok, chega de falar! Boa leitura 💖

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Um tempo se passou antes que Alastor tomasse a frente, tentando novamente: — Você vai se levantar?

 

Suspirando profundamente, Vox ergueu o queixo e encarou o teto da cozinha. Agindo como se estivesse fazendo uma prece aos Céus. Ou talvez amaldiçoando o próprio marido. Não tinha como ter certeza. — Se eu falar que vou… você vai calar a maldita boca?

 

— Acredito que você saiba qual será a minha resposta. — O sorriso de Alastor esticou nos cantos, seus dentes amarelados parecendo mais afiados.

 

— Infelizmente sei — murmurou para si mesmo. Em seguida, Vox o olhou com uma cara de desagrado claramente fingida, e disse de repente: — Me dê sua mão.

 

Alastor ergueu uma sobrancelha, meio curioso com o que Vox tinha em mente, mas o fez. Atrás dele, a sombra se desprendeu novamente e os observou, tão curiosa quanto seu dono.

 

Vox fingiu não ver isso e segurou a mão estendida, seus dedos contornando o pulso do cervo. Alastor notou como ele tomou certo cuidado com as garras, porém sabia que era melhor não comentar.

 

— Me levanta. Meus pés estão me matando.

 

Alastor bufou para si mesmo, levemente incrédulo com a mudança de atitude. Entretanto o carinho no som não passou despercebido por nenhum deles. Apesar disso, ele o fez sem qualquer dificuldade, o sorriso intacto e a postura impecável.

 

Vox se levantou, apoiando uma mão no balcão. Mas nunca o soltou.

 

— Bom cervinho. — Um sorriso arrogante cruzou sua tela, seus dentes praticamente brilhando.

 

Alastor revirou os olhos. — Adorável, embora não muito criativo — falou, atento à reação do outro. Vendo que não haveria uma explosão, completou: — Você consegue pensar em algo melhor.

 

— Não foi isso que você disse ontem à noite.

 

— Ora, é claro. — Com a mão livre, ele bateu a bengala no chão uma vez, apertando-a suavemente. O sorriso em sua boca tornou-se amável de um jeito maldoso. — Eu estava no hotel, lidando com uma crise de última hora.

 

O sorriso de Vox caiu. — Ah, vai se foder. Você é um desmancha prazeres.

 

— Prefiro isso a ser chamado de cervinho. Mas vindo de você… é quase um elogio. — Atrás dele, sua sombra se aproximou mais do casal e acenou; o sorriso aumentou, distorcendo-se, enquanto os chifres se esticavam ao lado das orelhas, tão longos que pareciam galhos.

 

De soslaio, o radialista olhou rapidamente para a Sombra, ambos tendo uma rápida conversa com um olhar.

 

Vox ignorou a troca esquisita entre eles com uma facilidade irritante. — Ótimo. Prefere que eu te chame do que? Bambi? — A pergunta retórica foi acompanhada de uma expressão cética. — Você nunca assistiu esse filme.

 

— Ambos os insultos são de um gosto duvidoso.

 

— São melhores do que caixa falante. — Vox cruzou os braços, lançando-o uma expressão descontente. Mas Alastor considerava isso como progresso, visto que nenhum talher foi jogado em sua direção.

 

As orelhas dele se ergueram, inclinando-se na direção do demônio tecnológico, curiosas; estudando o comportamento dele para ter certeza de que não era uma mágoa disfarçada de brincadeira. Em seu interior, sentiu falta do toque em seu pulso.

 

Ele apertou o microfone nas mãos, afagando levemente o objeto enquanto pensava numa resposta. — Não era um insulto. Eu realmente não sabia distinguir a sua forma demoníaca na época — explicou, genuíno. Ao menos, torcia para Vox perceber a verdade em suas palavras. — Era… uma observação.

 

Vox não respondeu por um longo minuto. Continuou encarando o parceiro, a expressão descontente firme no rosto. Os segundos se estenderam ao redor do casal como um elástico.

 

Até que um pequeno sorriso fechado brilhou no canto da boca de Vox. — Boa resposta. Escapou bem.

 

Alastor ergueu uma sobrancelha, percebendo o tom usado; era o mesmo tom de quando Shok.wav aprendia um truque novo e ganhava um petisco. Internamente, se perguntou se foi de propósito ou se saiu naturalmente, porque ambas as respostas pareciam totalmente plausíveis com o Vox atual.

 

Apesar das dúvidas, o radialista optou por mudar de assunto. — Então! Voltando ao assunto que estávamos conversando… O que acha da minha sugestão anterior?

 

— Acho uma sugestão burra.

 

Ele não desistiu. Aumentou o sorriso e se aproximou, satisfeito quando Vox não se afastou. — Não estou dizendo para você comer apenas legumes até o fim da gestação. Não seria justo com você ou com o bebê. Mas comer apenas salgadinhos, fast food e bolos de casamento encomendados da… Madame Gulosa não é a escolha mais saudável.

 

Alastor não perdeu os lábios de Vox se espremendo, claramente segurando a risada que queria sair com a maneira sofrida que ele pronunciou o nome da doceria favorita de Vox.

 

Era sempre assim quando essa loja era mencionada por qualquer um deles. O desgosto de Alastor por aquele lugar era óbvio, apesar de todas as suas tentativas de esconder tal sentimento teimoso.

 

Ignorando o olhar divertido de Vox, o radialista simplesmente continuou, tocando a ponta dos dedos levemente no antebraço dele: — Um pouco de fibras ou carboidratos na sua dieta me deixariam… mais tranquilo com relação a sua saúde. Você poderia pelo menos tentar.

 

Ele ergueu uma sobrancelha, lançando a Alastor uma expressão que o Demônio do Rádio só pode interpretar como avaliadora. — Aprendeu isso com a princesa, hein? Cacete, falou bonito. Quase fiquei de pau duro.

 

— Charlie não– — tentou começar, mas ao ver o rosto do marido se tornando repreendedor, parou. Erguendo a mão, Alastor limpou a garganta e apertou a bengala uma vez por reflexo. Só então tentou novamente, aceitando que mentir ou desviar do assunto não acarretaria em nada bom. — Certo... Talvez eu tenha conversado com Charlie sobre algumas coisas.

 

— Isso é praticamente um milagre vindo de você. Você odeia pedir ajuda. — comentou, como se fosse algo tão simples quanto respirar. Então seu olhar se tornou sarcástico, quase maldoso. — Que bonitinho seu desenvolvimento de personagem.

 

Alastor tinha pleno conhecimento do que Vox estava fazendo. Ele conhecia aquela televisão teimosa há tempo suficiente para reconhecer os padrões. Sabia que era uma provocação. Que era uma cutucada em seu ego.

 

E mesmo assim…

 

— Eu não odeio pedir auxílio para as pessoas. Isso me soa tão… — desviou o olhar para qualquer ponto da cozinha e contornou a curvatura do microfone; ponderando as próximas palavras com cuidado. — drástico quando dito dessa forma. Há outras maneiras de dizer isso.

 

Sem paciência para o show, Vox revirou os olhos. — Voce é drástico, Alastor. E dramático.

 

Alastor franziu o cenho, ofendido. Entreabriu a boca, pronto para se defender de todas as acusações infundadas. Atrás dele, sua sombra riu, se divertindo com o sofrimento do dono.

 

Vox simplesmente continuou despejando palavras em cima dele. — Também é um pouco controlador. Mas eu também sou, então é justo. Estamos quites. — Deu de ombros. — Mas você é puritano demais. Você tem mais de cem anos, não quarenta.

 

— Nós dois morremos com quarenta anos, Vox.

 

Ele ergueu um dedo, pontuando. — Ah, não, não! Eu morri com 39 anos. Você morreu com 40. — Apontou o mesmo dedo para Alastor, uma seriedade que não cabia nas palavras. — São coisas completamente diferentes.

 

Uma expressão indiferente estava exposta no rosto de Alastor. — Eu morri com 44 anos.

 

Vox paralisou, piscando várias vezes. Franziu o cenho, virando-se para o cervo. — Seu mentiroso do caralho! Estou velho, não senil. É esse o exemplo que vai dar pra nossa filha?

Alastor separou os lábios, puxando o ar para os pulmões desacordados, com pelo menos sete perguntas na ponta da língua. Entretanto, desistiu de argumentar e simplesmente disse: — Sim.

 

Vox pareceu horrorizado — os olhos se arregalaram de pavor, uma mão ergueu até o peito, a boca entreabriu, e um suspiro ecoou pela cozinha. Ambos sabiam que isso não passava de drama.

 

Percebendo que ele não diria mais nada, Alastor tomou a frente de novo, voltando ao assunto principal: — E os legumes? — Cruzou seu olhar com o de Vox, ignorando ativamente a expressão de desagrado que ele mostrou. Era como se a pergunta fosse a coisa mais chata de todo o Inferno. — Você realmente não estaria disposto a pelo menos pensar nisso?

 

— Ah, me erra, porra! Larga esse osso!

 

Ironicamente, a menção a osso fez Alastor se lembrar da outra opção. Que era tão importante quanto os legumes, é claro!

 

— Oh! É verdade. Quase me esqueci desse tópico. Você está disposto a comer mais carne? Proteínas são muito importantes! — Vendo o quão intenso era o desgosto na expressão dele, Alastor decidiu usar a única carta que tinha em mãos. — Eu poderia até preparar alguns dos pratos que li em um livro que comprei recentemente. Dou a minha palavra de que seu novo paladar vai adorar! Se você preferir, é claro.

 

Surpreendentemente, Vox parou e colocou a mão no queixo, ponderando a possibilidade. — Vou pensar no seu caso.

 

— Perfeito! — Seu sorriso aumentou, tornando-se mais genuíno. Atrás de Alastor, a sombra acenou de novo, animada com a possibilidade da proposta ser analisada.

 

Isso chamou a atenção de Vox. Franziu o cenho e olhou para trás do Demônio do Rádio, encarando a sombra por um tempo. Não parecia irritado, apenas curioso. Talvez com o que aquilo significava.

 

Alastor se aproximou mais e apertou suavemente o ombro de Vox, transmitindo seu agradecimento. — Isso é tudo que eu peço.

 

Piscando, Vox saiu de seus pensamentos e voltou a olhá-lo. O observou por mais algum tempo, ainda parecendo não aturar aquela ideia.

 

Até que um suspiro escapou, e algo no som fez as orelhas de Alastor se inclinarem levemente, animadas. Descruzando os braços, um sentimento brilhou no fundo dos olhos de Vox. — Poderia me pedir pra matar alguém, eu ficaria bem mais feliz.

 

Erguendo uma mão até a boca, Alastor deixou que uma risada bem humorada saísse; ele não perdeu o sorriso que cresceu no rosto do demônio tecnológico, mas optou por não comentar nada. — Pensei que você preferia escolher os seus próprios alvos, Vox.

 

— Eu prefiro — concordou, acenando com o queixo. Alastor refletiu o movimento sem pensar, embora a próxima fala de Vox o tenha surpreendido um pouco: — Mas também gosto quando você me dá opções. Você sabe escolher alvos bons.

 

Algo no tom dele fez o Demônio do Rádio ficar atento. No entanto, tentou ignorar a sensação que cresceu em seu interior e limpou a garganta. — Ora, eu–

 

Vox não o deixou terminar — se aproximou mais e segurou um de seus pulsos, a outra mão pousando na bancada, próxima a cintura de Alastor. Isso o impedia de se afastar, poderia mantê-lo ali por horas se fosse necessário. Seus olhares se cruzaram, seus rostos tão próximos que conseguiam sentir a respiração um do outro.

 

Um sorriso cheio de segundas intenções cresceu na tela dele ao ver a surpresa no rosto do parceiro.

 

Contra todos os seus instintos, Alastor não se afastou, nem se fundiu às suas sombras. Continuou no mesmo lugar, esperando para ver o que o outro faria a seguir.

 

— Alvos excelentes — sussurrou Vox, num tom que fez um sentimento ardente crescer dentro de Alastor; seu corpo ansiava por algo, e ele sabia o que — tanto pela familiaridade quanto por não esperar a mudança repentina. Contudo, não conseguiu fazer mais do que apertar a bancada da cozinha com mais força, sentindo a respiração de Vox tão próxima, o corpo quase colado no seu.

 

Vox viu isso, dado como desviou o olhar para a mão de Alastor — a mesma que ele segurava o pulso. O sorriso dele ficou maior, tão extenso que seus olhos se transformaram em fendas.

 

O cervo engoliu em seco e o corpo enrijeceu, ponderando as próximas ações. Fugir usando as suas sombras ainda era uma opção, embora pudesse deixar seu marido bastante irritado. Ou triste. Ou decepcionado.

 

Com os hormônios na gravidez, era muito difícil ter certeza de qual seria a reação de Vox.

 

Era um tormento não saber o que fazer, como reagir, quais palavras usar. Ele mal sabia dizer se aquilo era realmente sério, considerando o quanto Vox havia reclamado nas últimas semanas com relação a dores — e em muito lugares, o que fez o radialista ter várias dúvidas, comprar uma montanha de livros para entender.

 

Sem mencionar sua força de vontade naquele momento, porque lidar com o desejo de levar o flerte para frente era tão difícil quanto, mas Alastor estava colocando o conforto de Vox em primeiro lugar.

 

Se ele pelo menos tivesse certeza… isso os pouparia de muita coisa.

 

— Eu consigo ouvir você pensando.

 

Voltando ao Inferno, ele não se surpreendeu ao encontrar Vox com uma expressão estranha iluminando seu rosto — quase parecia entediado, se não fosse a irritação no fundo do olhar.

 

Contra tudo que faria normalmente, Alastor respondeu: — Uma habilidade louvável.

 

Tanto Vox, quanto a Sombra, bufaram ao mesmo tempo. Mas ele completou com um revirar de olhos: — Puta merda… Você não consegue parar de pensar por cinco segundos? — Ele não o deixou responder. — Quer dizer… sei lá! Relaxa um pouco!

 

— Estou perfeitamente relaxado. — Mesmo que isso tivesse soado bem (o que não foi o caso, mas ele não estava pensando nisso agora), seu sorriso tenso traiu a falsa confiança nas palavras. A maneira como sua postura estava rígida e as garras seguravam o balcão também não eram nem um pouco discretas.

 

O som que Vox soltou ficou entre um resmungo mal humorado e um xingamento em outra língua. — Pra um demônio, você mente mal pra caralho.

 

Mesmo sabendo que era uma péssima ideia, Alastor estudou o tom usado; havia um sentimento no fundo das palavras de Vox que o fez inclinar o queixo e estreitar os olhos, curioso. A ponta de suas orelhas se moveram, tão atentas quanto.

 

Vox percebeu isso, dado como revirou os olhos outra vez. Então, para a surpresa de Alastor, disse: — Se vai me analisar durante o sexo, pelo menos disfarce.

 

— Eu não estava– — Ele se interrompeu ao ouvir o suspiro profundo que o outro soltou. E ao notar que Vox ia se afastar, Alastor estendeu a mão e tocou no braço dele, mantendo-o no mesmo lugar. Sabia que o microfone seria pego pela sombra, então não faria diferença se importar com isso agora. — Tudo bem. Eu estava te analisando, mas não como você pensa.

 

Vox ergueu lentamente uma sobrancelha, esperando a explicação.

 

— Digamos que eu esteja… receoso em fazer qualquer coisa. Não porque não quero, mas porque você está sensível, e eu presto atenção nos sinais. Ontem você estava com fortes dores na pélvis e eu me lembro de você repetindo que as suas mãos estão inchando cada vez mais. As últimas semanas foram difíceis pra você, isso está evidente tanto no seu humor quanto nas suas atitudes. — Alastor ficou levemente chocado com a quantidade de palavras que saiu de sua boca, mas agora que tinha começado, decidiu terminar. — O que me garante que isso não vai te causar mais dores? Que a dor não vai piorar?

 

Vox franziu o cenho, mas não parecia irritado, apenas confuso. Ficou encarando Alastor por tanto tempo que o cervo começou a esperar por qualquer coisa; uma série de xingamentos, uma expressão irritada, ou até expulsá-lo da torre.

 

Entretanto, ele soltou outro suspiro e encarou o teto por um breve momento antes de voltar olhar para Alastor.

 

— Primeiro de tudo, isso foi meio fofo. Não muito, mas o bastante pra eu não te mandar tomar no cu. Segundo, sua honestidade é comovente, sua atitude adorável, mas você fala como se eu fosse feito de vidro! — A frustração vazou no final, seu rosto se contorcendo em uma emoção que fez as orelhas de Alastor baixarem, envergonhadas. — Eu tenho boca, consigo te dizer se algo estiver errado. Você não podia simplesmente me perguntar?

 

— Vox, nós… — Começou lentamente, porém se interrompeu; seu sorriso pareceu menor, mais rígido. Por reflexo, apertou o ombro do marido uma vez, ponderando. — Quer dizer… você realmente acha que…?

 

Uma descarga elétrica fez todas as luzes do apartamento piscarem, deixando bem claro o que Vox sentia. — Pare de pensar demais e apenas fale a porra que quer falar! O que te preocupa tanto? A asfixia? Ou a tara com sangue? — Ele não o deixou responder e continuou: — Na verdade, finge que eu não disse isso. Não seria tão perigoso. Já fizemos coisas bem piores do que isso.

 

Ambos sabiam que isso era verdade. Afinal, com a imortalidade e a regeneração do Inferno também vinha a coragem de tentar o que bem quisesse, do jeito que os dois achassem melhor.

 

Mesmo sabendo disso internamente, Alastor não conseguiu se impedir de franzir o cenho, indignado com a afirmação. — Não seria tão perigoso?! Você não pode soar tão calmo enquanto fala sobre se cortar com facas, principalmente estando grávido!

 

Vox revirou os olhos. — Viu? O que eu disse antes? Pessimista agora foi adicionado à sua lista de defeitos. Eu estava me referindo à asfixia, não às facas. Minhas facas são para ocasiões especiais — falou, tão calmo como se estivesse falando sobre o tempo. — Além disso, eu jamais pensaria em ferir o bebe. Você iria cortar o meu braço, não a minha bolsa.

 

— Você realmente acabou de… — Sua voz foi morrendo conforme notava (e internamente aceitava) que Vox tinha refletido na logística daquilo tudo, o que significava que ele já estava excitado há um tempo. Alastor piscou uma. Duas. Três vezes antes de suspirar para si mesmo, sem acreditar. — Oh, meu Deus. Há quanto tempo você está pensando nisso?

 

— Pensando no que? Nas facas? — perguntou, se afastando levemente. Não muito, apenas o bastante pra conseguir apoiar as mãos na bancada, ao lado da cintura de Alastor. — Eu não pensei nelas em nenhum momento até agora. Nem sequer sei onde o meu kit está! Só pensei nisso por causa de você.

 

Alastor não tinha certeza se aquilo tornava a situação melhor ou pior. Provavelmente as duas coisas, de formas completamente diferentes. Porque significava que Vox só tinha refletido sobre objetos cortantes por sua causa.

 

Alheio a isso, Vox continuou: — A única coisa que eu tenho em mente é… na verdade são duas coisas. Erro de cálculo. — Um pequeno sorriso cresceu na sua tela por um instante antes de cair, sendo substituído por uma expressão neutra. — A primeira delas é ir pra sala, ligar a televisão, pegar um grande pedaço do bolo e comer enquanto vejo alguma série tosca. A segunda delas é um boquete.

 

— Você… poderia ter me dito isso antes.

 

Ele encolheu os ombros. — Eu estava meio ocupado jogando uma colher em você. E posso fazer de novo se você me irritar mais.

 

Apesar do tom bem humorado de Vox e do grande sorriso em seus lábios, Alastor não tinha dúvidas quanto aquela afirmação.

 

— Então? — Vox voltou a dizer, erguendo as sobrancelhas. — Foi tão difícil assim ter essa conversa?

 

Sim. Foi absolutamente torturante, o pensamento foi limpo, sem nenhum floreio que geralmente vinha acompanhado. E por isso mesmo fez Alastor arregalar os olhos, sua sombra virar-se para ele, encarando-o como se estivesse entre rir dele ou ficar preocupada por ele.

 

Alastor não se importava em saber a definição da expressão de sua sombra. Então, escolheu aumentar seu sorriso, fazendo o possível para parecer relaxado e controlado. Em seguida, estendeu as mãos até tocar na gola da camisa branca de Vox e disse, agindo com uma serenidade que não sentia: — Foi… uma experiência formidável.

 

— Com formidável você quer dizer horrível. — Não era uma pergunta.

 

O cervo aumentou o sorriso, concordando com um aceno suave.

 

Vox suspirou de novo. — Voce é um idiota.

 

— Tenho certeza de que você já sabia disso antes de se casar comigo.

 

— Sim. Eu sabia. Isso não te torna mais idiota.

 

— Concordo em discordar.

 

Um sorriso nasceu no canto da boca de Vox e ele revirou os olhos, uma expressão amorosa se formando. Em seguida, para a surpresa de Alastor, ele estendeu uma mão e coçou atrás de uma orelha vermelha, atento às reações do parceiro; não pareceu nem um pouco surpreso quando observou Alastor relaxar aos poucos — sua respiração se acalmou e o corpo saiu do modo de alerta, as garras soltando a gola da camisa branca que apertava entre os dedos.

 

Foi naquele momento que o cervo percebeu o quão tenso estava.

 

Desviando o olhar, Alastor deixou que o silêncio ao redor deles durasse um pouco, o suficiente para conseguir murmurar baixinho: — Obrigado.

 

— De nada. — Ele não viu a expressão de Vox, mas o tom foi suave e gentil de uma forma que não deveria combinar nele. Mas combinava. E fez um arrepio subir pela sua espinha.

Notes:

Só para deixar registrado: eu pensei em mudar a fala do kit de facas, porque na minha cabeça o mais propenso dos dois a ter um kit de facas é o Alastor. Não que seja impossível o Vox ter esse tipo de coisa, mas entre os dois? O que faz mais sentido é o Alastor. ☝🏻🤓

Como deu pra ver... eu decidi não mudar. Por quê? Pq eu achei engraçado. É por isso! KAAOASKOSK

Eu achei engraçado, ok? Mesma coisa deu recebendo a informação de que o Vox usou o mesmo tom que usa com o Shok.wav com o Alastor. Eu achei isso hilário quando escrevi, porque não tenho dúvidas de que o Vox fez de PROPÓSITO. Eles vivem para se cutucar, claramente.

Ok. Preciso tomar um café e descansar. Obrigada por ler!! 💖