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Querido Pa...Senhor;
Cometo um pecado lhe escrevendo esta carta porque reconheço que o senhor preferiria uma conversa mano a mano em vez de palavras costuradas dentro de um papel incolor. Mas eu faço essa blasfêmia porque eu reconheço quão covarde eu sou como filho e como um alfa.
Estou escrevendo textos e mais textos que ficaram entalados na minha garganta desde a tenra idade. Eu não sei se o senhor vai se dar ao trabalho de lê-los como eu dei o trabalho de escrevê-los. Meus dedos clamam por respiro, meus pulsos doem e minhas pernas estão dormentes.
Tentei iniciar a minha carta de diversas formas, foram tantos papéis jogados fora e esquecidos no limbo da minha lixeira. Algumas vezes, fiquei tão frustrado e acabei os empurrando para o chão, enquanto escrevo, ainda jazem aos meus pés.
Estou escrevendo em meio a palavras silenciadas e confissões censuradas, mas o senhor não se importaria com o pequeno cemitério plantado ao redor dos meus sapatos.
Não, o senhor sempre preferiu o barulho. Os tiros nos filmes de faroeste que víamos, as discussões acaloradas no clímax de um filme de ação, as aventuras debaixo do cobertor de suas atrizes favoritas e a guitarra cortante da sua banda favorita de rock.
Eu odiava os sons, eram tão barulhentos e caóticos. Atravessavam as paredes do meu quarto e cochichavam no meu travesseiro, mas eu aprendi a tolerar e com o tempo, passei a gostar.
Achava que ter os seus gostos me faria um bom homem, um bom alfa. Eu memorizei cada detalhe daqueles heróis marrentos dos seus filmes favoritos, fiquei obcecado com cada curva das atrizes que desejava, dedilhei as notas fantasmas das músicas que gostava.
Queria estar perto de você como um filho que admirava o pai. Mas tinha um lado seu que eu não queria copiar, que me fazia cobrir os ouvidos, me esconder debaixo da cama, que me deixava noites e noites sem dormir.
O lado que gritava as piores ofensas já ouvidas, que esbofeteia, que quebra as coisas, beberrão e autoritário. Eu imaginava que esse era seu lado lobo, a fera que surgia após a meia noite como as lendas diziam.
E eu tinha medo, pavor seria mais apropriado. Sabe por quê ? Porque esse seria eu futuramente, uma besta descontrolada que passa por cima de tudo e todos, virando trocentas garrafas de uísque, quebrando móveis e aparelhos e machucando quem mais amo.
Eu rezei tanto, me ajoelhei várias vezes na missa do lado da minha mãe. Rezando fervorosamente para que Deus tivesse piedade pela minha alma e que me levasse quando completasse 18 anos, para que eu não causasse sofrimento aos meus amigos e família.
Contudo, ele me ignorou, esnobou minhas preces e riu do meu desespero. Ele me deixou aqui, cuidando de uma mãe enferma e procurando um pai ausente. Mesmo assim, não parei de rezar.
Até que eu finalmente desisti e eu chorei copiosamente. Eu berrei, esperneei e soquei a parede. Foi uma sensação estranha e humilhante eu diria, mas eu senti um alívio tomando conta do meu corpo e naquele momento, eu entendi.
Estava condenado. Fui julgado por um júri, um juiz e um executor sem chance de defesa e me proferiram a minha sentença.
Eu seria igual a você, não tinha jeito. Eu seria uma cópia sua e de seus parentes alfas nojentos, nada impediria isso, nem as divindades e nem as autoridades terrestres.
Eu te odiei tanto, mas logo compreendi que você está dominado pela fera e a maldição. A família Hwang estava amaldiçoada, uns carregavam um monstro dentro de si e sofriam com ele e outros apenas sofriam.
Eu caí na primeira categoria e pela primeira vez da minha vida, me senti próximo de você. Eu tinha uma fera incontrolável que poderia sair a qualquer momento e ferir quem eu amo.
Mas eu vou ser diferente do senhor, pai. Eu vou reagir e não deixarei ela tomar conta de mim.
Beberei sua taça maldita, mas eu nunca levantarei um dedo contra uma pessoa inocente.
Quebrarei o meu coração, mas eu nunca maltrataria quem eu amo.
Protegerei os meus e assim, eu ponho fim à maldição.
Não terei filhos, nenhum deles herdará esse sangue podre e o meu legado terminará em pó.
Fiz a minha decisão, senhor e seguirei com ela.
Com amor,
Hyunjin.
