Work Text:
Estar sozinha em casa na noite de Halloween ainda era novidade para Melissa.
Quando morava em São Paulo, costumava levar a data muito a sério.
Não por gostar de pedir doces ou ser uma fã da estética assustadora — na verdade, ela odiava o terror —, mas por aquele ser o único dia em que podia sair com quem quisesse, para onde quisesse e com a roupa que quisesse, já que tinha o álibi perfeito para convencer sua mãe: a festa à fantasia da escola.
Mas desde que se mudou para Inquisidor do Vale, há dois anos, Melissa não tem por que manter a tradição. Ela não precisa mais de um álibi para sair com quem quiser, para onde quiser e com a roupa que quiser.
E nem se quisesse conseguiria ir a uma festa aquela noite. Tinha acabado de chegar de uma aula exaustiva da faculdade e sua mente implorava por um descanso.
Por isso ela havia escolhido estar sozinha em casa, se preparando para maratonar filmes de comédia romântica até cair no sono.
Ela ainda usava o suéter cuja paleta de cores se assemelha à bandeira lésbica e a saia branca pliasada, trocando apenas os tênis apertados pelas suas pantufas da Hello Kitty.
Melissa jogou o saco no micro-ondas e apertou o botão escrito “Pipoca”. Quase no mesmo instante, seu telefone tocou. Estranho. Eram quase 23h da noite.
“Quem me incomoda?”, murmurou no caminho até a sala.
Ela nem tirou o celular de cima do rack, apenas digitou a senha rapidamente para ver quem estava ligando.
Número desconhecido.
Melissa desligou e bloqueou a tela. Não estava com paciência para trotes ou spam.
Se virou em direção à cozinha, mas assim que deu o primeiro passo o toque voltou a soar.
A loira suspirou impaciente e agarrou o aparelho, arrastando a bolinha verde antes de levá-lo ao ouvido.
— Alô?
Silêncio.
Estava prestes a desligar novamente quando a pessoa do outro lado da linha se manifestou.
— Alô. Quem tá falando?
Melissa franziu as sobrancelhas.
— Com quem você quer falar?
— De quem é esse número?
— Para qual número você ligou?
— Eu não sei — admitiu com um risinho nasalado.
Alguma coisa no jeito que aquela pessoa falava era estranhamente atraente.
Seu tom beirava um sussurro, sua voz conseguia ser masculina e feminina ao mesmo tempo; soava quase ensaiada, mas não de um jeito forçado.
Melissa também riu por educação. — Acho que você digitou o número errado.
— Capaz.
— Tudo bem, acontece. — E desligou.
Ela largou o celular na bancada e abriu a geladeira, pegando a garrafa d'água e se servindo um copo.
Assim que o líquido encostou na sua boca, o toque insistente quebrou o silêncio pela terceira vez.
Mesmo número. Ela bufou antes de atender.
— Alô.
Colocou a chamada no viva-voz e andou até o armário.
— Desculpa, acho que liguei para o número errado.
— Então por que ligou de novo?
— Para me desculpar.
Melissa sentiu os cantos da boca se curvarem para cima, soltando um sopro curto pelo nariz. Ela procurou pelo balde de pipoca vazio e o levou até a bancada.
— Não precisa se desculpar. Tchau.
— Espera, não desliga.
— Por quê?
— Eu quero conversar com você.
A garota inclinou a cabeça para o lado, ainda sorrindo.
— E quem disse que eu quero? Nem sei quem você é — brincou.
A pessoa riu de leve. — Fala o seu nome que eu falo o meu.
— Você primeiro.
Silêncio.
— Que barulho é esse?
A loira olhou por cima do ombro para o micro-ondas, onde os grãos de milho já estouravam num ritmo constante.
— É pipoca.
— Você vai entregar pipoca em vez de doces?
Melissa riu. Uma risada de verdade dessa vez. — Eu vou ver um filme.
Ela apoiou os cotovelos na bancada e tirou o celular do viva-voz, levando-o ao ouvido de novo.
— Um filme de terror?
— Nah, odeio filmes de terror. Nunca nem assisti um completo.
— Sério? Que pena..
— Por quê? Você ia me chamar para ver um filme de terror? — Ela andou lentamente em direção ao espaço vazio que ligava a cozinha e a sala.
— Hm… depende. — A pessoa riu. — Você tem namorada?
A loira levantou as sobrancelhas; um rubor leve se espalhou pelo seu rosto.
Melissa não sabia por que estava dando corda. Quer dizer, ela provavelmente nunca falaria com aquela pessoa de novo. Talvez fosse um trote, um adolescente entediado querendo zoar alguém. Ainda assim, ela não queria desligar.
— Não… — respondeu depois de um segundo de hesitação, deixando a frase incompleta.
A pessoa do outro lado fez um som de aprovação.
— Por que você deduziu que eu teria uma namorada? — a garota perguntou, enfatizando a última letra.
— Por esse suéter que você está usando.
Melissa parou no meio do passo. Sua expressão endureceu aos poucos enquanto ela tentava processar as palavras. Ela abriu a boca, mas sua voz não saiu.
O micro-ondas começou a apitar na cozinha. Ela ignorou.
— O quê? — foi o que ela conseguiu murmurar depois de algumas tentativas falhas.
— Ah, eu viajei? Perdão, pensei que a paleta de cores fosse uma mensagem implícita.
O ar saiu trêmulo pela sua boca. Um quase–riso sem humor entre incredulidade e medo.
— É você, não é, Jorel?! — ela ralhou; tentou parecer indiferente, por mais que sentisse um nó na garganta.
Era improvável que fosse Jorel. Eles nem haviam se visto hoje, como ele saberia a roupa que ela estava usando?
Por outro lado, ele sabia que a garota usava aquele suéter em toda oportunidade, já que foi um presente da sua melhor amiga. Estava frio. Não era um tiro no escuro assumir que ela o vestiria.
Além disso, quem mais estaria na outra linha? Ayla e Shanyqua estavam numa festa de Halloween e, mesmo que não estivessem, têm mais o que fazer. Jorge e Mike nunca conseguiriam passar um trote sem cascar o bico nos primeiros segundos. E Lúcio até poderia estar gravando um vídeo idiota para o canal dele, mas nem com modificador de voz ele conseguiria disfarçar aquele sotaque de bicha.
— Quem é Jo–
— Isso não tem graça, seu idiota! — interrompeu, afastando o celular para desbloquear a tela.
— Não desliga na minha ca–
Ligação encerrada.
A garota guardou o telefone no bolso e puxou o ar com força.
Melissa sempre odiou ser assustada; ainda mais agora, morando sozinha numa casa que pertenceu à sua falecida tia, cercada por muito mato e a 200 metros da residência mais próxima. Todos os seus amigos sabiam disso.
Ela passou a mão pelo rosto. Seu coração ainda pulsava forte em seu peito, o som quase ecoava pelo cômodo.
Quando fez menção de se virar para a cozinha, sentiu a vibração dentro da sua saia.
Puta que pariu.
— Escuta aqui, arrombado…
— Não, escuta você, sua putinha — a pessoa vociferou, e Melissa teve a confirmação de que ele não era o Jorel ou qualquer outro conhecido.
— Eu disse para não desligar, não disse?
— Porra, quem é você?! — berrou.
— Shhhhh! — a pessoa sibilou, fazendo ela engolir em seco. — Não se preocupe, você já vai descobrir.
Elu deu um risinho sádico, perigoso, que fez as pernas da garota fraquejarem.
Melissa suspirou trêmula. — O que você quer?
Um longo “hmm” lhe escapou, como se estivesse escolhendo entre muitas opções.
— Eu quero me divertir com você. O que você acha?
Uma lágrima escorreu pela bochecha da loira. Ela olhava para um ponto fixo, temendo que se piscasse, muitas outras caíram.
— Onde você está? — perguntou. Seus membros congelados pelo choque voltaram a obedecer seus comandos, ela aproveitou e correu até a porta de entrada.
Tentou a maçaneta, mas como esperava, estava trancada.
— Se eu disser, não vai ter graça. Por que você não me procura?
Melissa não respondeu, estava ocupada procurando o molho de chaves. Ela lembrava de tê-lo visto em cima do rack mais cedo, mas não estava lá.
— Acho que eu tenho algo que você quer.
Ela ouviu um ruído metálico do outro lado da linha.
Puta que pariu. As chaves.
— Sabe, você devia tomar mais cuidado. Com objetos jogados por aí… janelas abertas…
A garota se inclinou contra a porta, respirando fundo para não desabar em lágrimas.
— Olha só — ela ofegou —, eu vou chamar a polícia.
A pessoa gargalhou. Todos os pelos do corpo da garota se arrepiaram.
— Você pode tentar — brincou. — Mas não vai servir de nada. Só vai me fazer ter mais pressa.
Melissa não conseguia mais conter o choro.
— Por que você está fazendo isso? — forçou as palavras, segurando os soluços.
— Eu já te disse, só quero me divertir. Estou entediada.
A loira fechou os olhos com força, como se esperasse acordar de um pesadelo a qualquer momento.
— Então, como vai ser? — a voz caiu num tom aveludado, quase sedutor. — Gostosuras ou travessuras… Melissa?
Um frio percorreu todo o seu corpo.
— Vai se fuder, sua psicopata! — foi o que ela respondeu antes de apertar o botão de desligar e correr para a cozinha mais uma vez.
Ela abriu a gaveta de talheres e procurou cegamente por uma faca, agarrando a primeira que alcançou.
Olhou em volta, incerta sobre o que fazer a seguir. Não sabia onde o assassino estava escondido, e para piorar, a parede que separava os cômodos lhe ocultava a visão de mais da metade sala.
E se elu estivesse lá, só esperando?
Chutou as pantufas para longe; se ia correr pela sua vida, era melhor não estar com aquilo nos pés.
Caminhou em passos leves por entre o fogão e a pequena mesa no centro do cômodo, se aproximando da quina da parede.
Inclinou o corpo na tentativa de ter uma visão mais ampla do outro lado. Ainda não conseguia ver as escadas e boa parte do sofá.
Respirou fundo, reunindo coragem. Segurou o cabo da faca com força, contou até três e correu.
Quando estava prestes a contornar a parte de trás do sofá em direção às escadas, a porta do banheiro abriu de vez.
Um gritinho de susto lhe escapou ao ver a figura a sua frente.
Elu era pouca coisa mais alto, vestia um sobretudo vermelho de couro e segurava uma grande faca de caça.
Seu capuz projetava uma sombra que cobria todo o seu rosto, onde um “X” vermelho flutuava de forma inexplicável, desafiando todas as leis da física.
A pessoa avançou, e Melissa reagiu de modo quase involuntário, saltando por cima do sofá e caindo de pé entre ele e o rack. Pelo visto, seus vários anos de ginástica artística não foram em vão.
O movimento deu à garota alguns segundos de vantagem, já que o assassino teria que arrodear o móvel ou arriscar imitá-la.
Ela aproveitou e subiu as escadas para o segundo andar. O assassino não ficou muito para trás, seus passos eram audíveis a poucos metros de distância dela. Elu era rápido. Muito rápido.
Faltavam apenas dois degraus quando a loira foi agarrada pela cintura e arrastada para baixo, fazendo-a perder o equilíbrio.
Num piscar de olhos ela estava caída sobre os degraus, com a figura misteriosa em cima dela.
Elu ergueu o punhal e tentou golpeá-la no ombro, mas ela desviou a tempo. Agarrou firmemente sua própria faca e traçou um corte para cima.
O ataque pegou o assassino de surpresa. Elu se esquivou num reflexo absurdo, mas ainda assim a lâmina riscou uma linha fina de sangue pela sua bochecha.
Melissa ergueu o joelho contra o estômago delu, que deixou escapar um arfar de dor. A garota aproveitou o momento de vulnerabilidade para deslizar por baixo delu. Acabou soltando a faca no processo.
A figura tentou puxá-la. Ela desviou, mas cambaleou para o lado e caiu novamente, desta vez por cima do assassino.
Ela tinha abaixado o capuz delu por acidente na tentativa de amortecer a queda. Os olhos de ambos se arregalaram.
Melissa engoliu em seco. A pessoa embaixo dela tinha uma aparência extremamente jovem. Elu tinha traços de origem asiática, seu cabelo era escuro e curto com uma franja bagunçada que caía sobre sua testa; usava uma maquiagem exótica, para dizer o mínimo: sombra preta em toda parte de cima do rosto, um batom vermelho-sangue nos lábios e uma pintinha perto da boca que a loira não tinha certeza se era real ou falsa.
Mas estava certa sobre uma coisa: aquela era de longe a pessoa mais linda que ela já viu.
O momento pareceu passar em câmera lenta; por um segundo, Melissa quase esqueceu que estava no meio de uma perseguição e não de um momento íntimo. Quase.
Quando elu fez menção de erguer o braço, ela se levantou num pulo e correu novamente. Como esperado, ele não ficou para trás.
Ela praticamente chutou a porta do seu quarto — que estava escorada — e entrou, mas antes de conseguir fechá-la, o assassino a empurrou com tudo do lado de fora.
Melissa segurou a maçaneta com força, jogando todo seu peso contra a madeira que rangia com os impactos de ambos os lados.
Seus pés começaram a deslizar sobre o chão, e o desespero tomou conta do seu corpo de novo. Elu claramente era mais forte que ela. Ela não aguentaria muito tempo.
Boom!
A porta praticamente explodiu contra ela, que cambaleou para trás. O assassino entrou, empurrando a madeira atrás de si lentamente até ouvir o click metálico da fechadura. Melissa estava encurralada. Não tinha para onde fugir.
A garota deu um passo para trás. A figura acompanhou. Ela olhava fixamente para o X vermelho, como se temesse perdê-lo de vista.
O assassino deu outro passo à frente. Outro.
No terceiro, Melissa tentou correr.
Ela era rápida. Mas elu era mais.
A loira gritou quando foi puxada pelo pulso e jogada contra a parede.
Uma das mãos delu se fechou ao redor do seu pescoço. A outra mantinha o punhal posicionado contra as suas costas, por pouco não cortando a pele.
— Shhhh — o assassino sibilou contra o seu ouvido, e algo dentro dela pulsou.
— Não… — ela soprou, quase inaudível.
O assassino deu um risinho nasalado. As pernas dela se cruzaram quase involuntariamente. A esse ponto não sabia se estava tremendo de medo ou tesão. Provavelmente os dois.
A pressão no seu pescoço aumentou repentinamente, fazendo-a arfar. Atrás do X flutuante era possível enxergar um grande sorriso vermelho; a única parte visível do seu rosto.
— Por favor… — ofegou, se esforçando para puxar o ar pela boca.
A figura balançou a cabeça. — Eu ainda nem fiz nada e você já tá implorando?
Apesar da provocação, a mão delu relaxou o suficiente para deixá-la respirar. As coxas dela já ardiam de tanto se apertarem uma contra a outra.
Então a pressão cessou por completo. A garota o empurrou, fazendo questão de abaixar o capuz.
Elu não tentou impedir ou revidar. Apenas olhou para ela com uma expressão indecifrável. Melissa sentiu o rosto queimar. Não era justo uma assassina ser tão bonita.
Depois de alguns segundos apenas ouvindo as próprias respirações, elu andou até a garota e a empurrou contra a cama atrás dela.
Melissa tentou lutar, mas era inútil. O assassino se posicionou em cima dela, segurando seus pulsos acima da sua cabeça com uma mão.
A lâmina gelada do punhal encostou na barriga dela por baixo do suéter. Elu aproximou o rosto do dela até que seus narizes quase se encostassem, então sussurrou:
— É isso que você quer?
Porra, sim.
— Eu…
Ela suspirou trêmula; mal conseguia formar um pensamento. Seus quadris se contorciam quase involuntariamente, buscando alguma fricção contra o calor crescente entre as suas pernas.
O assassino riu baixinho. — Você tem o instinto de sobrevivência de uma pedra.
Então elu moveu o punhal, traçando um corte na pele da garota. Ela gritou e se debateu contra a figura, que a manteve imobilizada com facilidade.
— Agora estamos quites — elu disse com um sorriso sádico enquanto rasgava sua pele pela segunda vez, formando um “X” na região da cintura dela.
Melissa gemia de dor, mas a pulsação só parecia aumentar.
Elu guardou a faca em um dos bolsos do sobretudo, repousando a mão livre sobre a sua coxa por baixo da saia. O rosto delu se aproximou da sua orelha.
— Shhhh. Você reclama demais.
A garota engoliu em seco. Sentiu os lábios macios roçarem no seu lóbulo.
— Se eu te soltar… — elu fez uma pausa, deslizando a mão para cima até encostar na barra da calcinha dela — você vai ficar quietinha?
Melissa assentiu com a cabeça. O assassino se afastou um pouco para encará-la.
— Eu quero ouvir de você. Vai ficar quietinha pra mim?
Ela respirou fundo. Sabia que se arrependeria amargamente daquilo depois. Por sorte, arrependimento não mata.
— Sim, eu vou.
Aquele sorriso cruel e sedutor surgiu mais uma vez. — Ótimo.
O assassino soltou seus pulsos e moveu a outra mão para a sua calcinha encharcada, removendo-a lentamente antes de se posicionar entre as pernas dela.
Elu juntos os dedos médio e anelar e os levou até os lábios da garota, abrindo espaço entre eles.
— Chupa — ordenou.
E ela o fez. Quando achou que estavam lubrificados o suficiente, elu os introduziu nela sem aviso prévio.
Melissa se contorceu contra a mão delu, seus gemidos foram silenciados pela boca do assassino tomando a dela num beijo fervoroso, faminto.
Continuou num ritmo lento por alguns minutos até parar de repente. Melissa emitiu um som de insatisfação. Levantou a cabeça, sua expressão suavizou quando viu a pessoa em cima de si desabotoar as próprias calças, procurando algo nos bolsos do sobretudo em seguida.
— Você anda com isso por aí? — ela perguntou, observando o assassino abrir um preservativo.
Elu deu de ombros. — Nunca se sabe.
Melissa riu baixinho. Elu levantou as pernas dela, apoiando-as nos seus ombros. A ação arrancou um arfar da garota, que arregalou os olhos.
O assassino sorriu de canto. — Vou pegar leve com você.
Ela balançou a cabeça. — Eu aguento.
Um risinho incrédulo o escapou. Elu aproximou os corpos das duas, penetrando-a tão lentamente que chegava a ser doloroso.
— Só acredito vendo — provocou.
Então elu começou a se mover dentro dela, e de repente nada mais importava. Ela estava exatamente onde queria estar.
Melissa agarrou os lençóis com força, seus gemidos quase constantes ecoavam pelo quarto. Nunca agradeceu tanto por não ter vizinhos.
Não demorou muito para que ambas atingissem o ápice. Melissa fechou os olhos; ela inspirava, mas o ar não parecia chegar aos pulmões.
Sentiu a figura deitar-se ao seu lado, também ofegante. Passaram alguns segundos em silêncio, apenas tentando regular a respiração.
— Não era assim que eu planejava te fazer gritar — brincou.
Melissa soltou um arzinho pelo nariz, de repente constrangida pelo quão desesperada ela deve ter soado.
Então ela voltou a abrir os olhos, encarando o teto. Estava muito calma para alguém que acabou de transar com um assassino cujo plano era matá-la.
Mas a ficha ainda não parecia ter caído.
— Você vai me dizer seu nome? — a loira perguntou, sem se mover.
A outra pessoa estendeu um “mhm” pensativo. — Depende. Você pretende me denunciar?
Ela riu de novo. Não esperava que fossem tirar o elefante da sala, muito menos com essa naturalidade.
— Acho que eu teria que omitir os últimos trinta minutos.
Melissa sentiu o peso ao seu lado mudar, a pessoa tinha se inclinado para encará-la. Ela virou também. Uma pancada de vergonha a atingiu ao encarar aqueles olhos grandes e escuros.
Nem conseguia imaginar o quão patética e necessitada ela parecia.
Mas a pessoa apenas sorriu. Não o sorriso sádico que a loira já havia gravado na memória, um sorriso bobo. Se os cenários fossem outros, talvez fosse até um sinal de afeto.
— Pode me chamar de Jae.
A garota ergueu as sobrancelhas, surpresa por ter recebido a informação que queria.
Eles se olharam em silêncio por mais alguns segundos em que Melissa analisou cada centímetros do seu rosto, como se tentasse memorizar cada detalhe para visualizar depois.
Num piscar de olhos, Jae já não estava mais na sua cama. Ela ouviu o barulho metálico das suas chaves sendo jogadas ao seu lado onde elu estava deitado.
Elu já estava abrindo a janela do seu quarto, provavelmente por onde entrou mais cedo. O capuz já cobria o seu rosto novamente, o X vermelho tinha voltado a brilhar.
Melissa se apoiou no cotovelo rapidamente, ficando sentada sobre os joelhos.
Não estava pronta para ficar sozinha depois da noite caótica que teve.
— Jae — ela chamou, antes que qualquer pensamento racional pudesse silenciá-la.
O assassino se virou para ela. — Sim?
Melissa engoliu em seco.
— Eu… vou te ver de novo?
Ela podia sentir o constrangimento correr em suas veias, mas precisava saber.
Jae apenas a encarou em silêncio por um momento, então deu uma risada fraca.
— Boa noite, Melissa.
