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Existia uma tradição que todas conheciam naquele vilarejo e poucas chegavam a praticar: a de pôr orquídeas no cabelo. O simples ato de ter essa flor entrelaçada em seus fios significava que você estava preparada para procurar uma amante — e muitas anciãs não perdiam tempo em fofocar sobre o quão “libertinosa” a jovem que fazia isso era. Logo, quando alguma mulher tinha coragem de seguir a tradição, era sempre uma surpresa para as outras, mesmo que não fosse algo raro de acontecer. Principalmente se esta fosse seguida de um jeitinho diferente do esperado.
Por isso, quando Shirai Yuyu entrou na rua do mercado e caminhou pelas várias barraquinhas com uma expressão gélida e indiferente, os burburinhos de outras jovens logo se fez presente a suas costas. Afinal, que tipo de mulher teria coragem para colocar orquídeas pretas no cabelo? Apesar da cor ser parecida com os fios dela, as pétalas da flor se mantinham fixas onde as mechas se moviam, deixando aparente a diferença no seu penteado.
Se tinha algo que não faltava na Shirai, era coragem. Todas as mulheres — que supostamente estavam ali para fazer compras — sabiam que ela havia perdido a companheira já fazia dois anos e que estava recentemente voltando a socializar com outras pessoas. No entanto, nenhuma delas esperava que ela tivesse interesse em ter um amor novamente, muito menos que fosse usar da tradição daquela forma.
Apesar de surpresa com a visão, Fukuyama Sachie deixou um contido sorriso dominar a curva de seus lábios. Seu coração acelerou os batimentos, trazendo uma dor suave em seu peito devido a força com que ele palpitava. Aquela era sua chance de aproximar-se de Yuyu e ela não iria perdê-la. E sabia justamente o que fazer para agarrar aquela oportunidade.
Naquela mesma manhã, sem hesitação, tratou de entrar no bosque que existia atrás do vilarejo, onde sabia que ficavam as mais belas flores selvagens — aquelas que cresciam independente da condição, as quais tinham um cheiro forte justamente para atrair as abelhas mais distantes e que floresciam lindamente toda primavera. Tão semelhantes elas eram com a sua paixão, que assim que tinha achado aquele campo, a certeza de que apenas uma flor de lá seria boa o suficiente para o presente de cortejo fixou-se em sua mente. Sachie não sabia quanto tempo demorou para selecionar e pegar o lírio com pétalas laranjas, no entanto, assim que voltou ao vilarejo, o sol já estava descendo do céu.
Ainda estava claro demais para as estrelas começarem a piscar por entre as nuvens; os tons rosados se mesclavam com o laranja mostravam que já tinha perdido o horário de almoço. Tendo levado um pedaço de pão consigo com o bolso, a fome não seria um problema naquele momento. Logo, resolveu partir em busca da Shirai para dar continuidade ao seu plano. Não demorou muito para achá-la: adentrando mais a fundo do vilarejo, no meio da praça onde existia um laguinho e crianças brincando na grama, lá estava Yuyu sentada no banco de madeira com um livro nas mãos. As palpitações de seu coração voltaram a acelerar e o ar escapou-se de seus pulmões ao observar a serenidade na expressão da jovem com orquídeas negras no cabelo. Como era linda a mulher que furtou seu coração sem sequer saber que estava levando-o consigo para casa.
Com passos pesados — tentando não deixar seu nervosismo evidente —, Sachie se aproximou da outra. Assim que estava perto o suficiente, sentou-se ao lado dela e a cumprimentou. Irises ametistas saíram das palavras escritas na página para encarar os seus olhos, um certo ar de breve confusão passando pela face da Shirai ao que um pequeno franzir de sobrancelhas se fez presente.
Apesar de sentir suas mãos trêmulas, as levantou mesmo assim e dirigiu o singelo lírio laranja que tinha trago consigo. Era uma flor mediana, com pétalas bem delineadas e uma certa diferença de tons laranjas da sua base até a ponta desta — um detalhe que só dava pra perceber quando este estava bem perto do rosto. O som de um ofego faz com que Sachie retorne sua atenção à mulher a sua frente; a surpresa é um sentimento bastante evidente no rosto alheio.
Agora tudo o que resta é saber a resposta de Yuyu: ela aceitará o pedido de cortejo ou o rejeitará? Sua garganta, já seca, parece não produzir saliva o suficiente para sequer tentar umedecê-la um pouco. Seu coração continua batendo desreguladamente, a deixando ainda mais nervosa com a possibilidade do que irá acontecer. Ver um tom rubro começar a se espalhar pelas bochechas à sua frente é um sinal ambíguo, mas a esperança se recusa a morrer sem uma certeza.
Seu peito dói quando Shirai desvia suas belas irises ametistas de si, e por um momento Sachie chega a imaginar que essa paixão que estava nutrindo não iria a lugar nenhum. Entretanto, dedos finos e elegantes aparecem em seu campo de visão e, com cautela, se agarram ao caule do lírio que estava sendo oferecido.
As curvas de seus lábios rapidamente se erguem num largo sorriso, afinal, seu pedido para cortejar a sua amada tinha sido aceito.
