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My tears ricochet

Summary:

Love e Milk, casadas a 7 anos... Eram felizes.
Até um acidente acontecer e virar a vida delas ao avesso.

Notes:

Oi! Essa história é muito especial e sensível. Aborda muitos temas importantes, mas que para algumas pessoas pode ser difícil lidar. Espero que aproveitem e sintam uma conexão especial com o que tenho para mostrar! Estou adorando isso.

Chapter 1: amnesia

Chapter Text

Point of view Milk

 

Love colocava nossa filha Sinn no banco de trás, ajeitando-a na cadeirinha e dando um beijo em seu rosto junto a sua pelúcia da Hello Kitty que era algo pelo qual não costumava desgrudar. Sinn tinha 4 anos, ela era doce e inteligente! Mais do que a maioria da sua idade. Nós costumávamos sentir orgulho até das menores coisas, quando ela falava uma frase inteira mesmo engolindo algumas palavras. Ou quando ela percebia o meu humor depois de um dia estressante e corria para me abraçar, ou quando sentia o cheiro de uma comida gostosa que minha esposa estava fazendo na cozinha e pedia um pouco daquilo. Sendo tão esperta, Sinn olhou para a tv em um dia comum vendo aquela praia atraente e bonita. Ela subia em meu colo, me abraçando de um jeito sapeca, puxando meus cabelos e gargalhando ao apontar para aquilo. Hua Hin.

— Sinn quer ir! Sinn quer plaia. Mamãe Panly pode levar Sinn? — Ela ainda falava ‘’praia’’ de uma maneira errada, mas era tão bonitinho sua empolgação.

Não estava longe do seu aniversário, faltava algumas semanas para nossa criança completar cinco anos. Love se aproximou, com um avental sujo de bolo e sorriu para mim como se estivesse boba com aquela cena.

— Você já está pensando nisso, não é? — A voz de Love era orgulhosa, sabendo que eu não conseguia negar nada para elas duas. Nós nos entreolhamos e comecei a correr pela sala com Sinn nas minhas costas, brincamos de aviãozinho e Love começou a jogar algumas almofadas em nós. Era sempre muito engraçado.

Nós éramos uma família muito feliz.

Éramos uma família que funcionava.

Os brinquedos estavam jogados pela sala como de costume, o cheiro de Sinn era doce como o de neném mesmo ela não sendo tão pequena assim. Tudo muito bagunçado porque estávamos muito ocupadas para cuidar da casa ultimamente e de todo modo, aquela criança voltava a distribuir seus bichos por onde passava.

Quando Jaguar e Sugus se aproximavam, ela carregava os dois no colo e os derrubava, sempre com um arranhão no rosto e lágrimas escandalosas diante do aperto em nossos gatos que se sentiam um pouco invadidos. Isso também era engraçado. Love colocava band-aids em Sinn, abraçando-a e acalmando seu coração até leva-la para o seu quarto e pegar no sono.

Pouco tempo depois, eu e Love estávamos jogadas na cama mas um pedaço de gente aparecia na porta esfregando os olhos e fazendo bico.

— Poxo mimir com mamãe Loveluk e mamãe Panly? — Sinn era manhosa e sempre conseguia o que queria, quase sempre dormindo conosco depois de pedir com seus olhos cheios de lágrimas. Ela era mimada, mas não sabíamos fazer diferente.

Agora, depois de alguns dias, pedimos folga dos nossos empregos para que pudéssemos levar a nossa garota para curtir um tempo no litoral.

Falamos disso em tempo integral, desde que vimos Hua Hin na tv.

Estávamos no caminho da praia, a meia hora do destino.

O som estava ligado na música APT. da Rosé com o Bruno Mars.

Love e Sinn dançavam empolgadas, se divertindo enquanto eu estava concentrada na estrada. Elas adoravam Blackpink! Eu e Love já fomos algumas vezes juntas no show desde que começamos o nosso namoro até aqui e prometemos a Sinn que um dia levaríamos ela também.

O ambiente estava agradável, o ar condicionado estava no máximo porque o calor estava grande. Sinn havia acabado de derramar suco de laranja no banco de trás e de repente o carro inteiro ficou fedendo disso.

— Amor, eu acho que ela não vai conseguir comer sozinha. — Expliquei para Love que prestava atenção na garota com o sanduiche todo babado e pela metade.

— É o jeito dela, sempre faz isso... Espatifa as coisas e vai comendo aos poucos... Sinn está aprendendo a se virar.

Mas eu continuava preocupada com sua alimentação naquele momento, continuando a ir em frente, curtindo o clima da viagem.

— Mamãe Panly... Mamãe Panly...

— Sim, querida? Mamãe está dirigindo agora...

— Eu estou aqui, Sinn. O que você quer? — Love segurava em sua mão, demonstrando interesse para que assim eu pudesse seguir em frente.

— Hello Kitty...

— Oh... Onde ela está? — Love procurava o bicho e se abaixava para em baixo do banco, tentando encontrar o pelúcia.

— Lá em baixo... — Sinn apontava.

Mas o bicho parecia estar um pouco mais longe.

— Mamãe Panlyyy

— Você já encontrou, meu bem? — Perguntei a Love enquanto a criança estava agitada no banco de trás. Ela só ficaria quieta quando conseguisse o que queria.

— Não, acho que não está aqui... Parece estar perto do seu banco.

Eu olhava para frente, o trânsito estava ótimo e limpo.

Nada para se preocupar, eu diria.

Então abaixei para procurar a Hello Kitty...

— Achei! Eu achei ela... — Segurei a pelúcia e levantei o olhar para trás, vendo o sorriso no rosto de Sinn.

BUZINAS. BUZINAS. BUZINAS.

— MILK!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! — Senti a mão de Love sobre meu ombro, puxando meu braço.

O carro despencou pela estrada, capotando.

Eu não vi o que causou isso, não entendi o que estava acontecendo...

Apenas senti o impacto, o choro que logo se calou.

Quando o carro finalmente parou, senti uma forte dor de cabeça, estando um pouco tonta e vi o sangue jorrando da minha testa, do meu lado, Love estava presa aos cintos muito ferida e inconsciente. Foi a última coisa que vi antes da minha vista borrar e me deixar desacordada.

 

-

 

Quando acordei, Love estava na poltrona.

Eu não entendi o que estava acontecendo no primeiro momento.

— Amor... — Ela parecia angustiada, um semblante cansado mas de certa forma aliviado, levantando e caminhando até mim com certa dificuldade. Love mancava, com uma perna enfaixada, segurando minha mão e se esforçando para sorrir. — Que bom que você acordou, estive esperando por isso.

— Onde estou? — Foi a primeira pergunta que fiz, tentando esfregar os olhos que estavam ardendo, mas meu corpo doía muito. — O que aconteceu?

— Estamos no hospital... — Love tinha uma voz tranquila como sempre, mesmo ainda carregando um peso. — Você teve um traumatismo craniano, nós tivemos um acidente.

— Oh... — Eu respirei fundo, me sentindo cansada. — Você está bem? — Me senti preocupada com minha esposa. — Seu pé parece machucado...

— Sim, eu estou... Eu tive uma fratura no calcanhar. — Ela me explicava, alisando meu rosto com carinho. — Mas não é grave, posso melhorar em algumas semanas. E preciso fazer fisioterapia.

— Porque seu rosto está machucado? Você está tomando remédio?

— Estou me medicando, já recebi alta. Não foi agora, meu bem... Você está dormindo a alguns dias.

— O que? Como assim? Não consigo me lembrar. — Cocei minha cabeça e respirei fundo, estava confusa... As peças não pareciam se encaixar.

— É normal, o médico disse que você pode ter dificuldade de lembrar de algumas coisas... Ou pode lembrar aos poucos...

— Eu realmente não lembro de muita coisa agora.

— Tudo bem, não se pressione. Okay? Eu estou aqui.

Love era sempre tão adorável, mesmo em uma situação difícil ela mantinha a calma. Foi um dos motivos pelos quais me apaixonei, ela continuava sendo doce. E tinha controle da situação... Acho que essa foi a situação mais difícil que vivenciamos.

— Você pode me contar o que aconteceu? — Perguntei a ela, quando estremeceu, com lágrimas nos olhos e fez silêncio. Ela carregava um olhar tenso.

— Nós íamos viajar para a praia, então... Um carro veio do nada, atravessando no meio do caminho, nem sequer estava na estrada. O rapaz estava bêbado, inclusive, ele já foi preso. Eu dei meu depoimento, você também precisará dar em algum momento... Quando se lembrar.

— Você tem certeza? — Minha voz ficou falha, sentindo minha responsabilidade nisso. — Quer dizer... Eu não fiz nada errado?

— Sim... — Foi a única coisa que me respondeu.

— Está tão quieta sobre isso... — Me senti desconfiada, olhando bem em seus olhos e fazendo bico. — Não está mentindo para mim?

— Meu bem, ele realmente estava errado nessa situação... Ele não deveria ter bebido.

— Ok... — Bocejei, percebendo ainda estar cansada. — Você se importa se eu dormir mais um pouco?

— Não, você deve mesmo descansar. — Ela beijava meus lábios devagar, com um selinho doce. Eu sorri e fechei meus olhos.

 

-

 

Em meu sonho, eu segurava no volante e ia para um lado e para o outro.

Pisava no freio, mas não funcionava.

Então o carro capotava, procurava Love e não encontrava.

O choro de criança era alto em meus ouvidos, tentava encontrar a criança mas também não via nada. Era estranho e assustador.

Buzinas altas.

Eu acordava nervosa, com meus batimentos apitando alto e uma respiração acelerada. Mas novamente, Love estava lá ao acordar.

Ela se aproximou, me abraçando devagar para não me machucar ainda mais. Me olhava nos olhos e me segurava, tentando dar algum conforto ou quem sabe receber o mesmo conforto. Love parecia sempre triste quando me via, se estávamos bem, não entendia o porquê. Mas para ela que lembra de tudo, deve ser pior, é mesmo traumatizante.

 

— O que você tem, vida? — Love me protegia com a voz baixa, com seus olhos de boba, esfregando seu nariz no meu. — Estou aqui.

— Foi só um susto... O acidente, acho que tive alguma lembrança.

— Do que se trata? — Ela parecia ansiosa, tentando entender.

— Nada esclarecedor. Apenas uma bagunça... Eu dirigindo de forma errada, procurando você e o choro de uma criança. — Então abri o riso. — Bobagem, certo? — Continuei brincando como sempre. — Talvez você fosse a criança, você é tão pequena...

Love ficou quieta, seu rosto que era pálido se tornou ainda mais gelado.

Ela forçou um riso, se afastando um pouco de mim. — Sim, talvez.

Então na entrada do quarto, Namtan e Film chegaram para me visitar.

Carregando flores e chocolates.

— Oi, estávamos preocupadas com vocês. — Film chegava, abraçando Love enquanto Namtan vinha até mim.

— Você está bem? — Namtan segurava em minha mão. — Quer dizer, eu sinto muito... Por tudo. — Então Film pisava em seu pé. — Ai. Calma...

Elas se entreolhavam, como se estivessem pisando em ovos.

— Ei, está tudo bem... Acho que logo terei alta.

— Isso é ótimo. Como está sua cabeça? — Namtan perguntava, enquanto Film cochichava algo com a Love. Elas eram mais íntimas, então respeitei o espaço.

— Está bem, eu não consigo me lembrar muito. Mas é temporário.

— Certo... De toda forma, nós estaremos por perto para ajudar.

— Obrigada, Nam! Nós vamos lidar com isso... Estou preocupada com a Love, ela não parece tão bem... Fisicamente sim, mas acho que o acidente deixou ela um pouco mexida. — Falei baixo com a Namtan enquanto Love estava distraída com a Film.

— Milk... Eu não sei se você tem noção, mas você quase morreu. Foi por pouco, você fez até uma cirurgia e isso foi delicado. Bom, existe mais. — Namtan falava baixo, me explicando a situação. — Em algum momento você vai entender, você vai entender porque a Love está tão mal... Todas nós ficamos tristes e todas nós sentimos medo por você.

— Eu não me dei conta, só... Estava preocupada com a Love.

— Você entende a gravidade do acidente que aconteceu?

— Mais ou menos...

— Nam... — Film aproximava de nós, junto a Love. — Deixa ela em paz. — Film agarrava Namtan pelo braço e nos encarava.

— Não se preocupe, Milk. — Film também estava tensa, mas olhava com seriedade. — Nós só viemos para dar apoio... Não será uma visita demorada.

Quando Namtan e Film se retiraram, Love parecia ainda mais reflexiva que antes.

— O que Namtan quis dizer com ‘’existe mais’’? — Perguntei desconfiada.

— Ela disse isso? — Love ergueu suas sobrancelhas. — Namtan tem uma boca grande.

— Sim...

— Você não está cansada? — Love alisava minhas bochechas com carinho.

— Um pouco.

— Deveria tentar dormir.

Eu não podia recusar ou retrucar isso, porque estar no hospital me dava muito sono. Quem sabe por causa das medicações.

Então voltava a dormir.

 

-

 

Alguns dias se passaram.

E o dia que eu receberia alta já estava programado.

— Você finalmente pode ir para casa! Seus exames estão bons. — O doutor faltou para mim e Love sorria, demonstrando alívio por isso. — Bom, você também merece um descanso, todos esses dias aqui... Acompanhando sua esposa, sem ir para sua casa. — Ele olhava para Love orgulhoso.

— Porque você não foi para casa antes?

— Eu não queria ir sem você. — Love dizia.

— Vou poder tirar essa roupa de hospital!

— Comprei algumas roupas para nós na lojinha daqui.

— Ótimo, devem ser super estilosas. — Brinquei.

— Vai se trocar... — Ela empurrava meu braço quando fui até o banheiro trocar de roupa, quando olhei para o espelho senti minha cabeça bagunçada novamente. O som de buzina me deixava atordoada. O choro de criança em seguida. Aquilo me deixava inquieta.

Mas continuei a me vestir e encontrei Love na saída do quarto.

— A View está vindo nos buscar para levar até em casa.

— Certo. — Eu estava quieta, um pouco tensa pelo que houve.

— Porque está calada? Estamos voltando para casa... — Ela não estava empolgada, mas parecia que desejava que eu fizesse.

— Estou um pouco confusa...

Então uma criança passou por nós, gargalhando com uma sandália da Hello Kitty. Love não parecia querer olhar para a criança, passou reto. O que era estranho, Love era boba por crianças tanto quanto eu.

A gargalhada era comum. Soava familiar.

E a Hello Kitty... Me fez lembrar do pelúcia que temos em casa.

O pelúcia da Sinn. O pelúcia que tentei pegar embaixo do meu banco do carro.

O pelúcia da Sinn. Pensei novamente.

Então puxei a manga da blusa de Love, apertando-a com força.

Olhando para os lados, me dando conta de que algo estava faltando.

Procurando nossa criança.

— Love... — Minha voz era alta e trêmula. — Cadê a Sinn?

Seu olhar se tornou murcho, sendo capaz de desabar. Parecia ter acabado de ser descoberta, pega no flagra com algo que estava subliminar. Suas bochechas ficaram pálidas novamente, sua mão ficou gelada e seus lábios pressionados contra os dentes. Ela baixou a cabeça em silêncio, tentando evitar uma resposta.

— Onde está Sinn, Love? Onde está nossa filha?

— Milk... Eu... — Ela não conseguia dizer aquelas palavras, respirava fundo e criava coragem para continuar. Eu a segurei entre os dois braços para que prestasse atenção no que eu queria. — Sinto muito... Ela não sobreviveu.

A ficha caiu completamente.

As cenas do acidente vieram em flashes.

O suco de laranja, a temperatura do ar condicionado, a música da Rosé.

A dancinha e a maldita Hello Kitty.

— Isso foi minha culpa... — Minhas lágrimas começavam a correr e eu soltava a Love me encolhendo com os pulsos fechados.

— Não... — Love tentava negar. — Já te disse que não.

Mas as cenas continuavam vindo, o carro rebocando, o choro de criança.

Love sangrando. Se eu não tivesse me abaixado para pegar, eu daria conta.

Lembrei do rosto de Sinn, perfeitamente.

A alegria contagiante de alguém que acabara de virar um anjo...

Alguém que não merecia partir. Foi descuido meu.