Chapter Text
O jardim da mansão florescia em tons suaves e impecáveis, a grama ainda úmida pela garoa recente brilhando sob a luz difusa, enquanto as flores desabrochavam em um espetáculo de cores vibrantes, denunciando que a primavera havia chegado cedo naquele ano.
Era como se a própria natureza tivesse decidido ignorar o motivo por todos estarem ali. E pela casa estar tão cheia. Cheia de pessoas que ele estava decidido a ignorar. Na verdade, nenhuma delas importavam, eram desnecessárias ali, ele não entendia porque estavam ali. Nenhuma delas conheceu sua adorável irmã. Queria que todas elas sumissem – mas infelizmente a única coisa ao seu alcance era fingir que elas simplesmente não existiam.
As roseiras exibiam suas pétalas abertas demais, vivas demais. As cores variavam entre vermelhos profundos, tons suaves de rosa e brancos quase translúcidos, pétalas claras que pareciam frágeis demais para durar tanto tempo. O ar era fresco, carregando um perfume doce que parecia se espalhar por todos os cantos do jardim – leve e insistente, quase sufocante em sua delicadeza.
Aquilo era errado. Ser um dia tão bonito era errado.
Não entendia aquele sentimento que dominava seu peito, era jovem demais para dar nome. Mas não pequeno o suficiente para não sentir. Seu peito doía. Era opressivo dentro da mansão – como se o ar fosse denso demais, como se a qualquer momento ele fosse sufocar. Seus dedos formigavam levemente, inquietos, carregando uma energia que ele não sabia para onde direcionar. Queria destruir aquele jardim. Queria expulsar aquelas pessoas. Queria gritar com todos eles. Mas não podia. Não era adequado. Não para alguém como ele. Não para um jovem ômega de uma família tão importante quanto a sua.
As vozes vinham de dentro da mansão controladas e baixas, quase como se todos tivessem combinado de não quebrar aquele silêncio artificial. Havia movimento – passos apressados, murmúrios, risadas, cumprimentos – mas tudo soava muito distante e abafado. Apreciava isso, o não rompimento de seu devaneio.
Caminhava pelo jardim sem pressa, chutando pequenas pedras no caminho sem ao menos perceber. O som seco do cascalho sob seus sapatos era irregular, quebrando o silêncio de forma quase irritante – mas ninguém vinha ou chamava por ele.
Ele não queria estar lá dentro. Com seus sete anos – quase oito, já sabia o que significava quando alguém não voltava mais. Pelas conversas cortadas, olhares desviados, pela forma como o nome dela não era dito em voz alta, ele já havia entendido.
Daella não estava mais ali. E, dessa vez, ela não voltaria. Não era como quando ela se escondia para Aerion encontrá-la. Não era uma brincadeira.
O garoto parou perto das roseiras. Ficou olhando, quase admirado com a beleza que elas exibiam. Daella teria gostado daquilo, de ver as flores desabrochando. Ela sempre gostava, especialmente quando ele lhe entregava uma.
Aerion engoliu em seco, fixando seu olhar em uma das rosas vermelhas, como se esperasse algo acontecer. Ele sabia que nada aconteceria, que ela não voltaria. Ele sabia. Mas ainda assim, uma parte em seu âmago esperava ouvir passos correndo até ele, uma voz doce e melodiosa chamando seu nome, um riso alto e alegre quebrando aquele silêncio.
Nada veio. Apenas o vento.
Uma brisa passou leve, acariciando seu rosto, balançando as folhas, trazendo o perfume doce e suave das flores até seu nariz.
Seus olhos arderam, seu lábio inferior tremeu copiosamente. Ele agachou-se, abraçando o próprio corpo enquanto escondia o rosto contra os joelhos. Ele não chorou. Então ele apenas ficou ali. Parado. Um vazio pesado demais para alguém da sua idade – grande demais para caber em um peito tão pequeno.
Um sentimento de solidão preenchendo seu peito, enquanto ficava sozinho em meio às flores.
Sem saber que, naquele momento, alguém finalmente estava indo até ele, pronto para tirá-lo daquele espiral de tristeza e solidão. Em passos silenciosos e cautelosos. Passos de alguém com medo de assustar um animal ferido.
"Você não queria ficar lá dentro."
A voz surgiu atrás do garoto, calma e sem pressa. Mas não impediu dele tomar um leve susto, por não ter notado a aproximação de outra pessoa. Aerion não levantou a cabeça de imediato. Não era necessário. Ele reconheceu a voz do recém chegado com uma rapidez surpreendente.
Não que o garoto o conhecesse bem, muito pelo contrário. Até aquele dia, não se lembrava dele, ou se alguma vez já tivessem conversado. Para Aerion, era a primeira vez que o via. Mas, a voz dele soava tão calmante e bonita, que se fixou em sua mente tão rapidamente que Aerion poderia reconhecê-la até se estivesse abafada como as outras que vinham da casa.
"Tá cheio."
Ele demorou alguns segundos antes de responder, a voz soou baixa, levemente abafada contra os próprios joelhos.
Não obteve respostas. Apenas sentiu uma aproximação sutil ao seu lado.
Os passos eram silenciosos no cascalho, cuidadosos demais para alguém que não precisava ser. Então, ele parou ao lado de Aerion. Sem invadir seu espaço. Sem falar.
E assim eles ficaram, apenas contemplando o silêncio. Um ao lado do outro. O silêncio entre eles não era vazio – era apenas quieto.
O silêncio era aconchegante e agradável. Ele não pressionava e não oprimia. Apenas existia, acompanhado pelo leve som do vento passando entre as folhas e o farfalhar suave das roseiras ao redor.
Aerion percebeu, aos poucos, que nada precisava ser dito. A presença ao seu lado era acolhedora e reconfortante. Ao seu lado, a presença do outro era estável e firme. Não havia pressa em preencher aquele espaço com palavras que não fariam diferença. E ainda assim, ele sentiu que não estava mais sozinho.
O cheiro das flores ainda estavam ali. Doce e insistente. Mas já não era tão incômodo. Talvez ele só não estivesse mais prestando tanta atenção. Não fazia diferença. Seus dedos, que antes estavam inquietos, começaram a se aquietar aos poucos. A respiração, que parecia presa em algum ponto do peito, se soltou aos poucos, lenta e regular. Nada havia mudado. Daella ainda não voltaria. A casa ainda estava cheia. As pessoas ainda eram estranhas. Porém, de alguma forma que ele não saberia explicar, aquilo parecia menos pesado.
Aerion levantou minimamente seu olhar, sem virar completamente o rosto. Apenas olhou de canto. Foi só o suficiente para confirmar que ele ainda estava ali. E estava. Sem dizer nada. Sem ir embora. Sem tentar mudar nada. E aquilo fez seu peito apertar novamente. Mas diferente. Menos sufocante e mais suportável. Ele não entendia o porquê. Mas, pela primeira vez naquele dia, ele não quis sair correndo.
Então, ele ficou. E, sem perceber quando exatamente aconteceu, ele deixou de prestar atenção no silêncio, e passou a prestar atenção na presença. Aerion o observou por alguns segundos, avaliando.
"Você é o filho do tio Baelor", disse quebrando aquele silêncio confortável.
Valarr assentiu, antes de proferir num tom baixo.
"E você é o Aerion."
"Eu sei quem eu sou."
Aquilo fez um brilho dançar em seus olhos e algo imperceptível mudar na expressão do mais velho. Não era um sorriso completo – mas perto o suficiente.
Não houve um momento exato em que tudo mudou. Aconteceu sem alarde e sem aviso, nenhuma percepção clara ou decisão consciente que levou a isso; apenas aconteceu, de forma silenciosa e quase imperceptível, tornando-se parte da rotina como se sempre tivesse sido assim. Valarr tornou-se o centro do mundo de Aerion.
Aerion passou a procurá-lo sem perceber que o fazia, seus passos sempre o levando com naturalidade aos mesmo lugares onde alfa estaria, aos espaços em que o silêncio se tornava uma companhia agradável.
Não era coincidência, muito menos uma surpresa, mas uma presença constante e previsível, no limite perfeito em que se tornava essencial. Muitas vezes não diziam nada, apenas permaneciam um ao lado do outro – como na primeira vez – permitindo que o silêncio existisse entre eles sem desconforto; em outras ocasiões, conversavam sobre os acontecimentos do dia, principalmente o mais jovem, enquanto o mais velho o ouvia com atenção, absorvendo suas reclamações sobre a escola, as outras crianças e até mesmo sobre os irmãos. Ao lado de Valarr, Aerion se sentia especialmente acolhido, confortável o suficiente para deixar de lado, ainda que por um instante, toda a fachada de ômega perfeito e ser apenas ele.
Cresceu envolto nessa constância sem jamais questioná-la, como se fosse parte natural de seu mundo. Quando precisava, não era até seu pai ou sua mãe que corria – era sempre até Valarr, fosse para reclamar, buscar consolo ou apenas estar em sua companhia. Muitas vezes, durante a noite, quando a escuridão parecia se alongar mais do que deveria, ele escorregava silenciosamente até o quarto do primo, onde sempre era acolhido sem questionamentos. Dentro de si, existia essa convicção silenciosa e inabalável: a de que ele sempre estaria lá, de que não estaria mais sozinho – não enquanto Valarr continuasse a existir.
Valarr também mudou com o passar dos anos, tornando-se mais velho, mais inserido nas responsabilidades que acompanhavam sua posição como herdeiro, mais envolvido em um mundo que, pouco a pouco, se expandia além do alcance de Aerion. Ainda assim, nenhuma dessas mudanças foi o suficiente para mudar aquilo que realmente importava, pois, independente das circunstâncias, havia uma coisa que permanecia inalterada.
Sempre que Aerion precisava – mesmo sem pedir, Valarr sempre estava lá.
…
Os passos do alfa eram apressados e podiam ser ouvidos por todo o extenso corredor, uma caminhada tão curta, mas que parecia prolongar-se por horas. Almejava alcançar a maçaneta do quarto do jovem ômega o quanto antes, mas era como se ela se distanciasse a cada passo. Quando finalmente a alcançou, não esperou nem mais um segundo antes de girá-la e abrir a porta com uma lentidão quase tortuosa.
Foi recebido por um silêncio denso e opressor, quase palpável, junto de uma escuridão que parecia não se dissipar. Nada estava no lugar. Os móveis haviam sido arrastados e revirados – a poltrona derrubada, os lençois da cama jogados ao chão. Objetos antes organizados agora se encontravam espalhados; os que repousavam sobre a penteadeira haviam sido lançados ao chão. O espelho de corpo inteiro estava quebrado, estilhaçado pela jarra de vidro que certamente fora arremessada contra ele, fragmentando-a também. Os cacos espalhavam-se de maneira desordenada, refletindo de forma distorcida a pouca luz que conseguia atravessar o ambiente.
A cortina pendia de um dos lados, parcialmente arrancada, permitindo que um feixe fraco e difuso invadisse o quarto – insuficiente para iluminá-lo por completo, mas o bastante para que o caos fosse revelado. O abajur, caído próximo à parede, projetava sombras irregulares que se estendiam pelo espaço de forma distorcida, tornando tudo ainda mais desordenado. Era como se um tornado tivesse passado exclusivamente por aquele quarto, ignorando todo o resto da casa – mas o autor daquele desastre era seu adorável ômega.
No centro de toda aquela destruição, Aerion estava encolhido junto à lateral da cama, os joelhos pressionados contra o peito, os dedos tensionados como se ainda não tivessem esquecido completamente a violência dos movimentos que os haviam guiado momentos antes. Sua respiração estava irregular, presa em intervalos curtos e instáveis, como se para recuperar o controle que havia ruído entre as pontas de seus dedos, um controle que já não lhe pertencia mais por completo, ao mesmo tempo que, seus olhos permaneciam abertos e fixos em algum ponto indefinido do chão, sem realmente enxergar – evitando encarar diretamente os vestígios do que havia feito.
Os belos olhos violetas estavam arregalados, as bordas avermelhadas denunciando mais do que qualquer lágrima poderia – irritadas, sensíveis, como se ele tivesse piscado vezes demais na tentativa de conter algo que insistia em escapar. Havia um brilho úmido ali – contido, preso – que não chegava a se formar por completo. Seus lábios estavam comprimidos em uma linha tênue, a tensão evidente na forma como tremiam quase imperceptivelmente, como se qualquer descuido fosse suficiente para fazê-lo ceder.
Ele não chorava, mas estava à beira disso. E talvez fosse o pior. Porque não havia alívio, apenas contenção — uma tentativa silenciosa e falha de manter dentro de si algo grande demais para ser suportado.
A porta abriu-se lentamente, sem anúncio, sem ruído algum que quebrasse a quietude que dominava aquele cômodo. Aerion não se moveu, nem levantou o olhar, tampouco ajustou a postura; não reagiu de forma alguma que denunciasse a consciência da presença ali.
Mas ele sabia. Quando o almíscar característico invadiu suas narinas, ele soube. Era Valarr.
Ele permaneceu ali parado próximo à porta por um breve momento, permitindo que seus olhos examinassem o quarto com atenção, absorvendo cada detalhe da destruição. Não precisava questionar e muito menos uma explicação – o estado do ambiente era autoexplicativo. O alfa apenas observava, sem qualquer surpresa em sua expressão, nem reprovação. Ele sabia que seria demais para o mais jovem suportar; sabia que a notícia da morte de sua mãe o destruiria por completo, e foi por isso que ele se apressara em chegar.
Valarr moveu-se com a mesma calma que sempre o acompanhava. Sem alardes – Aerion não precisava disso. Seus passos eram silenciosos ao reduzir a distância entre eles, parando a poucos passos do mais novo, respeitando aquele pequeno espaço.
"Você demorou."
A voz melodiosa soou em um fio de voz, quebrada e trêmula.
O mais velho sentiu seu peito apertar ao ver o doce ômega – outrora orgulhoso – reduzido àquele estado. O olhar quebrado, todo aquele sofrimento que exalava de sua pele, tudo nele era de partir o coração. Dos feromônios outrora marcados por uma presença suave e equilibrada, restava agora apenas uma angústia densa, quase sufocante, que atingia diretamente o peito de Valarr.
"Me desculpe", a resposta veio baixa e imediata. Valarr abaixou-se ao lado dele e o puxou para si, envolvendo-o com firmeza, mas sem força excessiva, pressionando-o contra o próprio peito. "Eu estou aqui agora."
Aerion enterrou o rosto contra ele, o nariz pressionado contra o tecido de suas roupas, inalando profundamente. O aroma almíscar, suavizado por notas de camomila, o envolveu de imediato, trazendo uma sensação de conforto e calma para o ômega, dissipando pouco a pouco a tensão que ainda prendia sua respiração. Desde o início daquele colapso, era a primeira vez que o ar parecia alcançar seus pulmões sem resistência.
Seus dedos, antes rígidos, cederam lentamente contra o tecido, agarrando-se a ele como se fosse a única coisa que o mantinha inteiro.
Naquele momento, ele não estava mais sozinho. Agora Valarr estava ali.
…
O tempo passou quase em um piscar de olhos. Muitas mudanças, impossíveis de serem ignoradas, os acompanharam – principalmente no jovem ômega. Aerion não era mais aquela pequena criança; havia atingido a maioridade com perfeição. Agora, ele era um ômega completo.
Não foi de uma vez, tampouco de forma gentil, aconteceu em fases, em detalhes quase impossíveis de não serem percebidos. Seu corpo mudou, tomou forma – tornando-se delgado e curvilíneo, sua presença mudou, passou a ser mais notado, atraindo olhares onde estivesse.
E aquilo era algo que vinha irritando Valarr gradualmente.
Todos passaram a olhar para Aerion. Às vezes, eram olhares de curiosidade e admiração – afinal, a beleza do ômega era etérea, digna de um ômega Targaryen. Outros, no entanto, carregavam interesse e desejo, fazendo o maxilar do alfa tensionar, assim como o impulso de cobri-lo sutilmente com seus feromônios protetores.
Depois disso, pequenas coisas começaram a mudar. Valarr passou a estar mais atento, mais presente quando havia outros por perto. Era quase restritivo. Se alguém se aproximasse demais, rapidamente teria a interferência direta dele. Se Aerion se afastasse, ele logo o traria de volta ao seu alcance. Corrigia se algo estivesse fora do lugar ou desordenado. E Aerion aceitava todo o cuidado de bom grado. Algo que aquecia seu peito.
Na festa da empresa, que tinha como objetivo apresentar Valarr – após concluir seus estudos com louvor – como mais novo membro corporativo, muitos alfas diferentes direcionavam olhares curiosos para Aerion, que estava completamente alheio a isso. Sua atenção estava toda para Valarr, que conversava com algumas pessoas que ele nunca havia visto.
Normalmente, não era um ambiente ao qual ele estaria presente. Mas fora bastante persuasivo ao pedir para seu pai para que pudesse ir; era uma noite importante para Valarr, e ele queria estar lá. Maekar sempre teve dificuldade em negar algo ao adorável ômega, e, naquela vez não fora diferente – bastou um pouco de insistência de Aerion para que ele cedesse.
O mais novo olhava para o primo quase como se ele fosse uma pintura, a obra de arte mais rara do mundo. Um brilho em seus olhos era perceptível, assim como o pequeno e doce sorriso que se formava em seus lábios, que se alargava sempre que via Valarr sorrir de alguma coisa que contavam a ele.
Naquela noite, o cheiro do ômega estava mais ardente que o normal, ainda que ele não tivesse consciência disso. E, se antes atraía olhares, aquilo só fez a situação se intensificar. O aroma de rosas e algodão emanava de Aerion com afinco.
Foi obrigado a desviar sua atenção de Valarr quando uma alfa se aproximou e iniciou uma conversa. Não estava interessado na conversa – preferia continuar observando o primo. Mas seu pai e sua família estavam ali; precisava manter a cordialidade, principalmente por ter prometido ao seu pai que se comportaria.
Tão rapidamente quanto surgiu, o alfa se foi. Ou, ao menos, foi afastado. Quando Valarr se colocou ao seu lado, ele já não estava mais ali. Aerion sentiu uma inquietação repentina, um leve calor subir às suas bochechas – nada alarmante, mas diferente.
"Há quanto tempo ele falava com você?"
A voz de Valarr era baixa e controlada, mas não estava neutra. Havia um leve traço de irritação na ponta da língua.
A festa continuava ao redor deles, cheia de vozes, risos e música. Era agradável – ou deveria ser. O mais novo moveu levemente os ombros, voltando seu olhar para ele.
"Não tenho certeza", a voz de Aerion soava melodiosa, quase hipnotizante – um tom reservado apenas para o alfa ao seu lado. "Acho que alguns minutos."
Os olhos incompatíveis de Valarr seguiram na direção do homem que havia se afastado.
"Ele não precisava de tanto tempo assim."
Aerion franziu levemente o cenho, mas não disse nada. A postura de Valarr estava mais rígida e próxima, tornando o ar entre eles diferente – mais pesado.
"Você tá bravo?", ele hesitou por um instante antes de perguntar.
"Não."
A resposta veio rápida demais. E não condizia com a atitude dele.
"Parece."
Aerion sentiu algo estranho no peito. Uma sensação difícil de nomear. Não era ruim – pelo contrário. Era quase como uma satisfação.
Ele manteve os olhos violetas profundos presos no rosto do primo e, por um breve segundo, percebeu um brilho diferente atravessar os olhos diferentes que tanto admirava.
O coração de Aerion acelerou. Ele ainda não sabia o porquê. O calor aos poucos intensificando-se em seu corpo, se espalhando de uma maneira silenciosa e constante. Só sabia que não queria se afastar.
A forma como os outros olhavam para Aerion causava uma irritação involuntária em Valarr. Os olhares insistentes eram incômodos, irritantes e invasivos. Ao verificar as horas no relógio de pulso, decidiu que já era o suficiente. Era hora de tirá-lo dali.
"Fique aqui. E não fale com mais ninguém."
A voz dele soou mais firme que o necessário.
Aerion interrompeu o movimento do copo a meio caminho dos lábios e voltou-se para ele, o olhar confuso.
"Por que?"
A resposta demorou um instante a chegar. Antes disso, o mais velho passou brevemente o olhar pelas pessoas ao redor do salão, avaliando, medindo, antes de voltar sua atenção ao ômega que tinha o olhar questionador.
"Porque eu estou dizendo."
Era uma resposta simples e autoritária. E, ainda assim, soava familiar e agradável aos ouvidos alheios.
Aerion hesitou. Por um momento, pensou em protestar, questionar, mas desistiu antes mesmo de tentar e permaneceu onde estava, exatamente como havia sido instruído.
O calor continuava a se intensificar sob sua pele. E, mesmo sem compreender completamente o motivo, ele obedeceu.
…
Na mesma noite da festa, o ciclo de Aerion veio pela primeira vez. O cio veio sem aviso, mas serviu como um ponto de completa ruptura. Foi repentino, intenso e absolutamente avassalador.
Seu corpo reagiu antes mesmo que sua mente tivesse chance de compreender o que acontecia, como se algo dele tivesse sido ativado de forma inevitável, tomando controle de cada célula de seu corpo, cada pensamento racional que tentava se formar era possuído por uma desejo avassalador. O calor veio primeiro, e não era apenas um desconforto passageiro – era denso, sufocante, crescente, espalhando-se em sua pele como se estivesse pegando fogo, como se seu quarto estivesse em chamas, sem porta ou janelas para escapar. Não havia alívio, muito menos pausas, apenas aquela sensação constante que ia se intensificando a cada segundo, fazendo com que o ar se tornasse pesado demais para ser respirado com facilidade.
O calor não foi a pior parte. A pior parte veio depois, ou talvez ela sempre estivesse ali, apenas esperando para se revelar no momento certo. O desejo.
Diferente do calor, não era sutil e não veio gradualmente. Veio de uma vez, brutal em sua intensidade, instalando-se dentro dele como uma necessidade impossível de ignorar. Um impulso que não se organizava em pensamentos claros, era sensações cruas, diretas, que percorriam seu corpo inteiro, consumindo-o, pressionando o ponto sensível no meio de suas pernas que parecia pulsar excessivamente. Uma vontade insistente de ser tocado, de ser segurado e preenchido – não por qualquer um. Era Valarr quem ele desejava.
O cheiro parecia grudado na ponta de seu nariz, mais vivo do que nunca em sua memória, o almíscar familiar envolvia seus sentidos de maneira sufocante, era como se ele estivesse ali e pudesse alcançá-lo – e apenas os deuses sabiam como Aerion desejava soterrar o nariz no pescoço dele e se deliciar com mais daquele aroma. Ele precisava de Valarr, de sua presença e seu toque. O queria de uma forma que nunca havia desejado antes. Era mais profundo, mais urgente, com o desejo que se acumulava seu ponto de prazer.
Antes mesmo que pudesse pensar, ele se encontrava jogado sobre a cama e sem quaisquer peças sufocando seu corpo. Sua pele imaculada brilhava com uma camada fina de suor, os olhos, outrora afiados, estavam fechados, enquanto seus dedos se enterravam em sua entrada pulsante e molhada. O calor era cruel, assim como a excitação – intensa demais para suportar sozinho.
O ômega pressionava os lábios com força, tentando conter qualquer som que ameaçasse escapar – sem sucesso. Gemidos baixos, arfares e murmúrios lhe escapavam com muita facilidade, enquanto pressionava os dedos o mais profundamente em seu interior. O nome do alfa escapava de seus lábios com uma naturalidade inesperada. Ele queria Valarr – necessitava dele.
A noite se arrastou impiedosamente, a excitação o deu descanso alguns poucos segundos – o dominando de novo tão ferozmente como havia feito momentos antes. Entre os momentos de exaustão e as pausas breves, em que seu corpo parecia se acalmar o suficiente para que pudesse respirar novamente, Aerion começou a compreender aquela inquietação que o consumia. Se Valarr fosse apenas um familiar, alguém em quem se apoiava, ele não estaria ali, desejando-o daquela forma, e ansiando por ele daquela maneira. Para o ômega, ele era muito mais do que apenas seu primo. O sentimento que não conseguia nomear havia, finalmente, tomado forma. Estava apaixonado. E era uma paixão que o consumia por completo.
O primeiro momento em que seus olhos se encontraram após aquela noite foi como se uma corrente elétrica tivesse atravessado seus corpos. Em Aerion, as bochechas adquiriram um tom rosado – principalmente ao lembrar o que havia feito enquanto pensava no primo. Em Valarr, foi um arrepio sutil. O olhar dele se deteve sobre o platinado tempo demais, analisando e avaliando, e então ele percebeu. O cheiro, antes leve, havia se intensificado, tornando-se mais chamativo.
Seu corpo respondeu de imediato, a reação foi sutil, quase imperceptível, apenas um tensionar leve em seu maxilar. Era autoexplicativo. A forma como Aerion vinha chamando atenção involuntariamente, como os outros alfas passaram a se aproximar dele irritantemente com mais frequência, com interesses claros demais para serem ignorados.
Isso foi o suficiente para que algo se instalasse dentro dele, silenciosamente, um incômodo que crescia e se enraizava, tomando forma em um desejo absoluto de posse.
Ele não era mais o único a olhar e prestar atenção em Aerion. E isso não era algo que ele toleraria facilmente.
