Chapter Text

Naquele momento, os olhos escuros do homem se voltaram para a janela.
Lá estava o animal de pelagem escura destoando da massa branca gelada que era a neve.
Mais uma vez.
O grande lobo o observava dentre as árvores. Pela quarta vez, ele surgiu para observar a cabana – ou melhor, para observar sua presa.
O homem não temeria.
No primeiro encontro, confessava, arrepiou o corpo de cima a baixo. Também, pela proximidade do animal, ele questionava se qualquer outro ser inteligente não sentiria medo.
Ele recuou lentamente com o medo rastejando pelo seu corpo, subindo pelas pernas as deixando moles e ele agradeceu pelos joelhos não cederem.
O lobo se manteve com sua imagem autoritária, mas não moveu um único membro do corpo para avançar sobre o homem que encarava.
Talvez encantado demais.
Os olhos laranjas viam o vermelho da capa longa de tecido grosso se destacar na neve pálida, quase tão pálida quanto a pele do homem que vestia a capa.
Talvez o medo fosse mútuo.
O lobo estranhou o que sentiu quanto notou demais nos lábios em formato de coração, corados como as bochechas, em um tom quase parecido com a capa que mantinha um capuz sobre os cabelos escuros e lisos do homem alto.
Um frio que atingia o humano, nunca faria cócegas no lobo enquanto estivesse em sua forma lupina – e ate mesmo em sua forma humana.
De início, a cor da capa o atraiu.
Ele veio, e então – algo estalou.
Ele não conseguiu não se aproximar, de forma solene e discreta, ele chegou perto e, pela primeira vez, não partiu o corpo em vários pedaços manchando a neve de tom escarlate.
A gengiva coçou, ele admitiria, mas estranhamente seu corpo não obedeceu a qualquer de seus instintos sanguinolentos.
O coração – mero órgão que nunca serviu para nada além de bombear o sangue e guardar traças e teias de aranhas – bombardeou o corpo com uma explosão de sentimentos, deixando o lupino confuso.
Ele quis avançar e rasgar o homem de cima abaixo apenas por tê-lo feito se sentir de tal forma.
Mas ele deixou o humano ir.
Ele sentiu o cheiro do medo mesmo que na aparência, o humano não parecia assustado.
E aquilo o intrigou mais.
Ele gostava quando suas presas humanas se desesperavam, quando elas gritavam e corriam sem saber que os meros gritos seriam suas últimas pronuncias para o mundo.
Se o inferno de Dante fosse algo real, aquele lobo poderia se encaixar em diversas camadas daquilo. Que a Divina Comédia de Alighieri estivesse apenas nos contos da literatura.
Não que ele não esperasse um fim terrível para sua vida como moeda de troca por tudo que já havia feito em seus 23 anos de vida.
Breve – ele acha, mas nada fácil, se quer saber.
"Desapareça. Não me faça questionar meu momento piedoso."
Ele queria dizer ao homem, mas não colocou a voz de lobo para fora. Manteve a ordem em sua cabeça e deixou o homem se afastar – o observando ser esperto o suficiente para não virar as costas e se apressar para longe dali, saindo lentamente com passos cegos para trás.
Até entrar na cabana que era vista ao longe dentre árvores e neve.
O lobo balançou a cabeça e deu meia volta – não sem antes passar um bom tempo ali encarando a cabana de madeira solitária, longe demais de vilas ocupadas pelos humanos.
Est tremia de cima a baixo naquele dia.
Mas não no terceiro encontro, nem mesmo no quarto.
Mais confiante, ele encarava de volta pela janela, o lobo intrometido que agora o desafiava ao chegar mais perto da entrada da cabana.
Est não sabia o porquê de ainda não ter pegado a espingarda e matado o maldito.
"Nunca confie em Lobos, Est. Eles podem ser traiçoeiros, sorrateiros. Não confie."
Era o que a mãe dizia.
Era o que ele deveria seguir.
Ele não saía para enfrentar, mas não abaixava a cabeça ao encarar de volta o animal grande pela janela.
— Qualquer movimento suspeito e eu estouro seus miolos.
Ele ameaçou baixinho.
Se o animal pudesse escutar e entender, sairia dali correndo, certo?
Para demonstrar a ele autoconfiança, mostrou a grande espingarda pelo vidro fechado.
O lobo não desviou o olhar. E tão pouco se afastou com medo.
Est não tinha muita coragem – era claro.
Sempre foi do tipo que não gostava de matar nem moscas, mas ele sabia que era capaz de tudo para sobreviver, e matar o maldito lobo era uma dessas coisas que faria sem dó alguma se sua vida estivesse sob perigo.
Antes o lobo do que ele.
Se ele atacasse, Est não perderia o tempo pensando em apertar o gatilho.
Estampidos altos soariam pela floresta, a neve seria pintada, as árvores presenciaram a cena.
Que o lobo restasse seus últimos segundos de vida se arrependendo de ter atacado.
Sua carcaça demoraria para se decompor, mas sua pelagem daria um ótimo e quente casaco para Est enfrentar a geada que só pioraria.
— Não se aproxime.
Após algum tempo, o lobo deu meia volta como nos outros dias e sumiu dentre as árvores.
Ainda assim, Est não guardou a arma imediatamente. Ele nem mesmo saiu da casa.
Quando parecia tranquilo novamente, pôde suspirar e voltar ao seu trabalho costurando a colcha quente que havia encontrado nos armários da avó, estava com algumas descosturas.
Tudo ali tinha cheiro dela, que descansasse em paz.
A mãe não quis ficar, despediu-se e se mandou para viver se consolando por aí em busca de uma vida melhor – lê-se encontrar um homem com dinheiro o suficiente para uma vida menos difícil.
Est nunca mais voltou pra casa que vivia antes, ele fez da cabana a sua e em pouco tempo aquilo se tornou seu latíbulo.
Um canto seu, para se sentir mais dono de si, mais feliz, menos incomodado por uma sociedade que apontava dedos como na antiga vila.
Era melhor evitar dedos apontados para si julgando-o de sodomita e ameaças de ser queimado em uma fogueira.
Até mesmo o homem com quem se deitava as vezes meteu o pé rapidinho com medo – e ele não o julgou.
Ali então estava Est, sumindo da vista alheia de pessoas pútridas - muito feliz na verdade, decidido que foi a melhor escolha.
Não sofreu, ele confessa, na verdade foi como uma motivação de mudança de ares. Não tinha outro homem por ali, o que era uma pena, teria que amar o próprio corpo até que pudesse conhecer alguém em uma viagem até a vila mais próxima para suprimentos.
Mas isso não era problema algum, e nada disso o incomodava, nem a solidão era um empecilho para atingir a felicidade.
Estava grato até pela mãe que tomou rumo indo embora – o relacionamento deles não era lá aquelas coisas, não por brigas, ela o aceitava como ele era... Na verdade, ela sempre aceitou qualquer coisa, como se não importasse. Como se não fizesse a diferença.
E ele, sinceramente, fazia o mesmo.
Sua única importância era a avó, e ele pôde a visitar e conversar com ela antes que ela partisse.
E ele se despediu, sem dor alguma. Abatida pela idade que o tempo não perdoa, a mulher foi por causas naturais, cansada de manter uma idade tão avançada.
Est gostava de viver sozinho, ele nunca foi do tipo sentimental demais, não depois do ocorrido do passado.
A felicidade estava ali, uma cabana tranquila no meio da floresta, lenha e alimentos suficientes para alguns dias, um bom livro para acompanhar a noite silenciosa e o calor da lareira.
Não pediria por mais nada.
Mas aquilo ainda rodeava sua mente.
O lobo retornava.
Continuava retornando sem motivo algum.
Se iria torna-lo presa, que tentasse logo então! Que medissem forças logo, ele não gostava de ficar relembrando a pelagem brilhante e escura como a noite, nem mesmo pensar nas íris laranjas que arremetia as chamas da lareira.
O que o lobo queria?
Em uma semana na mesma ladainha, Est se questionou se o animal resolveu tornar aquilo rotina.
— Estou desconfiado de que você quer fazer amizade. — Ele disse alto para o lobo pela fresta da janela noutro dia. Ele agora tinha mais confiança em abrir a mesma, mesmo que só um pouco.
O animal pela primeira vez grunhiu baixo e meneou a cabeça de lado.
— Você parece um cachorrinho.
Dessa vez o lobo reagiu mostrando os dentes e rugindo demostrando que claramente aquilo não havia o agradado.
Agradado?
Por acaso, ele entendia o que Est dizia?
Sem sentido, tudo conversa fiada.
Est revirou os olhos e fechou a janela. O tom usado não agradou o animal, hora de deixa-lo sozinho encarando a cabana através da neve.
— Por mim, que congele.
O barulho das patas subindo nas escadas de madeira fizeram Est estancar e voltar à janela.
O lobo subiu para a varanda, ele parou de frente a porta de madeira pesada e encarou Est que teve a coragem de abrir a janela e observar o lobo ao colocar cabeça para fora.
O animal levantou a pata grande e bateu como um cachorro pedindo para que abrisse a porta.
— Não! Você está maluco? Saia da minha porta! Eu não vou abrir.
O lobo fez mais uma vez.
— Vou matar você se estragar minha porta, seu lobo idiota!
O lobo rugiu mostrando os dentes e se virou saindo dali e entrado de volta entre as árvores.
— Ótimo, agora além de conversar sozinho você conversa com animais, Est. Nova habilidade adquirida. — Resmungou para si mesmo fechando a janela.
Os dias iam se passando, o lobo voltava como se tivesse prometido, todos os dias, quase na mesma hora. Ele passava um tempo, batia a pata na porta, rugia na janela fechada e depois de alguns minutos encarando o homem, ele dava as costas e sumia dali.
Até que uma noite surgiu deixando por onde passava um rastro escarlate pela neve branca, mancando com uma das patas traseiras.
Ele grunhiu fraco, bateu uma pata dianteira na porta e caiu de lado com um baque surdo no assoalho de madeira.
Est se viu abrindo imediatamente.
O lobo parecia ter sido machucado, em algum lugar sangrava e mesmo com medo ele explorou a pelagem para descobrir.
Um tiro havia atravessado a perna que mancava, outro raspou cortando a pele das costas do animal que não reagia a nenhum toque do humano.
— Merda, não venha morrer na minha porta!
Ele viu que o animal estava fraco pela perda de sangue e o arrastou para dentro.
Limpou e estancou o sangue da perna traseira com um tecido de pano limpo amarrado bem firme no animal.
Ele fez o mesmo com o das costas, enrolando outro tecido limpo pelo torso do bicho, impedindo de o sangramento continuar correndo.
Sinceramente, ele não sabia se aquilo resolveria e se o animal sobreviveria, mas era o que podia e conseguia fazer no momento.
Ele puxou o animal para o tapete e trouxe o coelho que havia caçado naquela manhã. Est não gostava de tal ação, faltava muitas vezes a coragem, mas era questão de sobrevivência. Caçava para ter o que comer que não fossem grãos, pães, e legumes que aos poucos iam ficando ruins por não serem preparados.
— Eu ia cozinhar esse coelho hoje. — Est diz olhando para o lobo caído no tapete que o olhava de volta agora sem grunhir e respirando devagar. — Mas acho que talvez você precise de mais forças do que eu agora.
Ele jogou o coelho sem cabeça e sem pelos, já limpo para o animal.
A caça caiu diante do lobo, que aos poucos tentou levantar ainda baqueado e em poucas abocanhadas engoliu o coelho quando fincou seus pontiagudos dentes na pele crua e flácida.
O barulho dos ossos foi meio perturbador para Est, mas ele virou o rosto e deixou a fera se alimentar.
Quando acabou, o animal se deitou lentamente no tapete e fechou os olhos.
O homem entendeu que mesmo que o lobo fosse perigoso, não havia perigo nenhum naquele momento, não com ele ferido e desmaiado pela fraqueza em seu tapete.
Ele trancou a porta, finalizou seu caldo de legumes e o jantou sem desviar o olhar do animal que dormia profundamente sem nem se mexer direito.
A cabana pequena era um cômodo só, com um pequeno anexo de madeira como banheiro.
Ele finalizou o jantar e se jogou na cama, até espaçosa, que antes pertencia a avó, ficava próxima da mesa de jantar e da escrivaninha, mas um pouco afastada da lareira onde estava o sofá e o lobo caído no tapete.
Se enrolou nos cobertores pelo frio, uma faca jazia debaixo do travesseiro, a espingarda ao lado da cama.
Naquela noite ele confiou que sobreviveria com um lobo na cabana.
⋆˖⁺‧₊☽◯☾₊‧⁺˖⋆
O sol fraco, anêmico, quase sem força para iluminar o lugar, tomou o céu como podia.
Uma fraca neve caía, impossibilitando uma visão nítida pela janela.
Est se surpreendeu por ter dormido bem, mesmo quando deveria ter passado a noite temendo algum ataque de seu inimigo lobo.
Ele esfregou os olhos e se sentou na cama, mas logo com um estalo levantou-se querendo ver a fera.
Se aproximou da lareira que era quase brasa fraca agora e franziu o semblante procurando pelo animal.
Morto ou vivo, o corpo deveria estar ali, mas nada era encontrado no tapete onde o lobo jazia antes – só os panos utilizados estavam ali sujos.
Pingos de sangue e pequenas poças de água mostravam um caminho para o anexo de madeira que servia de banheiro.
Ele estranhou, verificou a porta de entrada da cabana e a mesma estava trancada... Mas definitivamente alguém havia entrado e expulsado o lobo de lá de dentro, pois o animal não se encontrava.
Sua primeira reação ao escutar o barulho de água caindo sobre o assoalho de madeira do banheiro, foi pegar a espingarda carregada.
Ele se aproximou da porta com a arma já em posição pronta para ser engatilhada e com um clique o som do tiro ecoaria alto pela pequena cabana.
Ele empurrou a porta frágil de madeira e se assustou.
Um homem pálido de corpo bem estruturado, com uma estatura um pouco mais baixa que a sua e cabelos escuros e lisos de certo comprimento estava totalmente nu naquele espaço de madeira. Ele tinha marcas e símbolos escuros desenhados em alguns lugares do corpo e Est acreditava serem permanentes pois a água não escorreu a suposta tinta.
— Quem caralhos é você?! — Est esbravejou.
— Você finalmente acordou... dormiu tanto que achei que estivesse morto. — A voz soou baixa.
Os olhos escuros do homem encaravam os escuros de Est que firmou a arma nas mãos.
— Quem é você e como diabos você entrou aqui?!
O homem pálido se virou e colocou o balde de madeira com um pouco de água no chão.
Nu como se tivesse acabado de vir ao mundo, pelos ralos e em poucas quantias se espalhavam, mas nada para tapar aquilo entre as pernas que o dono pouco parecia se importar em mostrar.
— Você me trouxe para dentro.
— Para de falar coisa sem sentido, como você entrou? Responda logo antes que eu atire! — Est engatilhou a arma para mostrar que não estava blefando.
— Humanos são tão idiotas assim? — A voz do homem soou e Est franziu as sobrancelhas mais uma vez.
— Você fala como se não fosse um.
— E eu não sou. Posso ter a capacidade de ter uma forma humana, mas eu definitivamente não sou um dos seus. — Ele deu um passo para fora e Est notou um pouco de sangue escorrer da perna esquerda próximo da panturrilha.
— Eu vou atirar se você não começar a falar a verdade. — Est levantou a arma e mirou para a cabeça do homem que não parecia muito preocupado.
— Você me puxou para dentro ontem a noite, eu estava com ferimentos de bala por causa de um maldito caçador. Ele achou que eu fosse um lobo comum, apenas uma espécie um pouco maior do que ele conhecia e seus olhos brilharam com a possibilidade de vender minha carcaça. — O homem voltou a dar mais um passo saindo do banheiro de madeira e adentrando o espaço de Est. — Você limpou meus ferimentos, fez o que pôde para estancar o sangramento e me alimentou com uma lebre de caça. Tenho que ser sincero, agradeço a você pelo que fez por mim.
Est não falava nada, a boca entreaberta e a expressão confusa e incrédula já deixavam explícito o que ele tinha em mente.
— Que porra... — Ele deu alguns passos para trás ainda com a arma em mãos em prontidão. — Você só deve estar maluco...
Se a última sentença foi para o homem ou para ele mesmo, nem ele sabia.
— A ferida da perna ainda sangra, mesmo que melhor. A das costas não se fechou totalmente. — Ele se virou e mostrou o ferimento de pele queimada e rasgada que não sangrava. — Felizmente consigo me recuperar rápido, aposto que humanos como você já estariam mortos com algo do tipo ou quem sabe durariam semanas para curar totalmente. — Ele disse quando se virou novamente para o homem armado.
Nada daquilo fazia sentido algum na cabeça de Est.
Tinha um lobo, ferido aproximadamente naquelas localidades que o homem a sua frente tinha ferimentos, a porta estava trancada, o homem disse que ele havia o trago para a cabana e o socorrido... Descrito exatamente como ele havia feito com o lobo.
— Você é uma bruxa? — Est apertou a arma nas mãos. — Ou o próprio diabo?!
Com alguns desenhos estranhos na pele, com certeza aquele homem estava em algum tipo de culto pagão.
— Nem um nem outro, sua espécie ama apontar dedos e julgar sem conhecer. Eu, meu caro colega... — O homem nu toca a ponta da arma sem medo algum. — Sou um lobo, um Licantropo. Aqueles da sua espécie que descobrem sobre a minha, normalmente nos chamam, erroneamente, se me permite pontuar, de Lobisomem. Acreditam que nos tornamos humanos apenas para seduzir mulheres e matar humanos inocentes.
"Não sei no que se basearam para formular isso." O lobo pensava, segurando a vontade de revirar os olhos.
Já Est matutava, ele se lembra que uma vez escutou de um idoso de onde morava anteriormente, sobre a lenda do lobo que se tornava homem, seduzia e deitava-se com mulheres para dar a elas o filho de satanás. Naquela vila, eles se recolhiam cedo com medo de inúmeras crenças suspeitas.
Ele nunca foi de acreditar em muita coisa, inclusive num deus que mataria aqueles que amassem outros do mesmo sexo, do qual eles amavam pregar – quem dirá acreditar em um ser ruim como o diabo.
Mas em sua frente, havia um homem que dizia ser lobo... E o pior de tudo era que agora começava a fazer sentido.
— Não há mulheres aqui com quem você possa se deitar, não há como você trazer mais um meio demônio, filho do diabo, para caminhar sobre a terra. — Est clamou sentindo a pele arrepiar sob o olhar do homem nu que pingava algumas gotas da água fria que usou para se banhar.
— Seu povo é criativo.
O tal homem lobo sorriu, caminhou e se sentou relaxadamente de pernas abertas na cadeira de madeira, o membro grande mesmo que flácido se mostrava sem pudor algum e Est engoliu seco querendo desviar o olhar.
— Me deitar com mulheres para trazer o filho de sei lá quem caralhos é esse que você citou, para caminhar na terra? Quanta conversa fiada. Primeiramente, nunca me atraí muito pelas fêmeas, nem da minha espécie, e em segundo, eu nunca gostei da sua espécie, quem dirá para me deitar com alguém dela. — Para escorrer a água dos cabelos ele passou as mãos pelas mechas escuras que quase esbarravam nos ombros pelo comprimento, um pouco mais longos que de Est. — Já você, parece atraído demais pelo que eu tenho entre as pernas.
Est desviou o olhar que havia descido do cabelo para a intimidade entre as pernas do homem.
— Como devo confiar no que você fala? Se é um lobo, transforme-se, prove que consegue.
O homem o olhou com pouca paciência, mas se levantou vendo Est se afastar com a arma em mãos.
O espaço não era muito grande, mas foi suficiente para ele baquear os joelhos no assoalho antigo e se curvar uivando e grunhindo de dor. Os ossos estalavam alto como se quebrassem, e a pele rasgou permitindo pelos escuros tomarem o lugar. O rosto do homem que tocava o chão se levantou com os olhos ardentes em tom laranja, como chamas de fogo, veias saltaram na testa e pescoço e o último grunhido de dor veio quando o rosto estalou com barulho de ossos, deixando um focinho grande ocupar o lugar. Foi rápido como mágica, mas doloroso como tortura.
O grande lobo da noite anterior estava ali.
Est já tinha abaixado os braços, a arma esquecida em mãos, incrédulo com a imagem que presenciou em sua frente.
— C-como... — A boca não se fechava, olhos arregalados e respiração que segurava sem perceber pelo choque grande demais.
O lobo grande se sentou, um pouco de sangue escorreu de sua boca junto a uma pequena quantidade de pêlos que logo caiu no assoalho.
O olhar laranja do lobo que o encarou pela janela durante semanas estava ali, observando e matutando qual seria o seu próximo passo.
Não existia parede de madeira, nem janela de vidro para os separar, estavam diante um do outro sem barreira alguma.
— Oh- Oh meu deus.... Isso... — Est deu passos para trás quando a ficha realmente caiu. O quadril bateu no sofá e ele arfou levantando a espingarda com mãos trêmulas. — S-se afaste, b-besta maligna!
"Já lhe disse, não estou mancomunado com qualquer ser irreal, nem mesmo sou o ser quem você acha que sou."
A voz do lobo soou como se estivesse dentro da cabeça de Est.
— Cala boca! Cala boca! Para de falar na minha cabeça, antes que eu exploda a sua!
"Siga em frente, faça-me arrepender de ter adiado seu fim em todos os nossos encontros. Mostre-me que todos os humanos são iguais."
Est engoliu seco.
Era mesmo o lobo, ele esteve ali o tempo todo e de alguma forma que o humano não entendia, num corpo normal como o seu, e então, quadrúpede e lupino novamente!
— Você diz isso, mas aposto que mata humanos sem piedade alguma!
"De fato. Fiz com todos aqueles que caçaram os meus, tornaram esse lugar inabitável para nós, matando nossos filhotes e tomando suas peles para vantagens próprias, descartando nossas carcaças como nada e usando nossas cabeças como decoração de cabanas."
"Achei que de fato que você era um deles ao te ver com uma espingarda, mas entendi que estava caçando pequenos animais para consumo, para sobrevivência... Achei que talvez você fosse uma ameaça, até perceber que você não atiraria em mim enquanto eu não te atacasse primeiro."
"Suas escolhas prolongaram sua vida, humano... Mas se atirar sem motivo, apenas por poder, não medirei forças para quebrar seus ossos entre meus dentes."
Os braços de Est pareciam geleia, moles para suportar o peso da arma que se abaixou mais uma vez aos poucos. O coração batia alto demais nos ouvidos, os joelhos queriam ceder de pressa.
— Por favor, vá embora. — Desesperado ele pediu baixo para o lobo que o observou em silêncio. — Me deixe viver e vá embora, não cruzaremos o caminho um do outro novamente.
O lobo nada disse por mais alguns segundos, até que meneou a cabeça, olhos nunca desviando do humano.
"Você me cativa, humano."
"É por isso que sempre retorno para te apreciar...."
"Você é diferente dos outros de sua espécie, seu coração é grande, mesmo que ele não mude sua essência humana, mas sei que você ainda é alguém diferente deles."
O lobo se aproximou lentamente e Est segurou a respiração, com um movimento o humano entende que deve abrir a porta.
"E é por isso que vim até você quando fui baleado."
Ele se aproxima da porta aberta.
"Cativastes-me."
Com um último olhar trocado, o animal corre para a geada de neve pura lá fora, correndo para dentro da floresta densa.
Est soltou a respiração que segurava e bateu a porta abraçado à espingarda.
Vários murmúrios incrédulos de olhos fechados foram liberados, ele escorregou até se sentar no chão com as costas na porta. A arma foi largada de lado e ele abraçou os joelhos ao dobrar as pernas.
Que merda havia acabado de acontecer?
⋆˖⁺‧₊☽◯☾₊‧⁺˖⋆
Por dois dias consecutivos o lobo não deu as caras, e Est se questionou se tudo aquilo havia sido uma peça criada pela sua mente.
Mas ele teve a certeza que não, quando no terceiro dia, o lobo apareceu o olhando pela janela.
— Vá embora!
"Não."
Ele se recusava.
— Vou atirar em você!
"Eu sei que não vai."
— Ugh! — Est revirou os olhos e fechou a janela com um baque.
E no dia seguinte, aquilo se repetiu, e então no outro, e em mais um, até que se seguisse mais uma semana da mesma forma.
— O que diabos você quer?! — O homem com a longa capa vermelha cobrindo o corpo do frio abraçou a lenha que colhia do lado de fora e estancou vendo o lobo grande o olhando de um ponto mais afastado. — Por que continua voltando?
"Já lhe disse, cativastes-me."
— Eu não cativei nada, vai embora!
"Não."
— Pé no saco. — O humano resmunga, mas treme quando vê o lobo se aproximar. — O que quer que eu faça?
"Quero apenas te apreciar."
"Deixe-me te observar, estudar teus movimentos e entender como vive."
— Bizarro. — Est deu um passo para trás. — Existem outros humanos em vilas pela região.
"Não me importa qualquer outro de sua espécie. Apenas teus olhos, ações e beleza são de minha curiosidade."
— Beleza? — Uma sobrancelha foi arqueada. — Vou começar a entender você de outra forma.
Est então se lembrou. O lobo uma vez lhe dissera – naquele dia que se transformou em humano – que pouco interesse tinha em fêmeas.
— Você não se atrai pelas mulheres.
E nem por humanos, pelo que se lembrava.
— Onde está seu par lobo?
"Eu não tenho um."
O lobo meneou a cabeça para a floresta.
"Todos foram embora, apenas eu fiquei."
Um lobo solitário.
"Não importa como você me entende, apenas me deixe aprecia-lo."
— Tudo que preciso fazer é deixar você me observar? — Est ajeitou as lenhas nos braços e o lobo meneou a cabeça concordando. — Como posso saber que é confiável e não tentará me matar?
"Se eu quisesse dar fim á sua vida frívola, já teria arrancado sua cabeça e mastigado seus ossos há muito tempo."
— Que jeito doce de dizer que está atraído e não quer me matar. — Est murmurou e deu alguns passos cegos em direção à cabana, o olhar não saindo do lobo que também o seguia com o olhar.
Alguma lenha pesada caiu e Est pensou em deixa-la para trás, mas o animal a pegou entre os dentes e começou a acompanhar lentamente o humano.
O homem alto engoliu seco e se manteve atento – mas de certa forma, fazia sentido o que outro lhe dissera. Se quisesse o matar, Est já não teria pulmões funcionando para respirar a tal ponto.
As lenhas foram jogadas na varanda de madeira, algumas colocadas dentro da lareira na cabana e o lobo soltou a que segurava.
— O que eu ganho com isso? O que eu ganho se te deixar me observar? — Ele puxou o capuz da capa vermelha descobrindo a cabeça.
"A chance de continuar vivo." – ele mostrou os dentes pontiagudos.
— Isso é sério, seu lobo idiota?!
"Humanos não tem senso de humor?"
— Era uma piada? Os dentes ameaçadores a vista foi um sorriso? Desculpe eu não havia percebido. — Est revirou os olhos.
"A dualidade do quanto me cativa e ao mesmo tempo me faz sentir impaciência só fazem a curiosidade por você crescer."
"Se me deixar estar por perto, lhe trarei comida e posso manter a cabana segura."
— Eu posso manter a minha própria cabana segura.
"As balas da espingarda uma hora acabarão."
Ele tinha razão, Est só tinha mais algumas, ele usava muitas para caçar pois não tinha uma boa mira.
O lobo seria útil para lhe trazer caça e alimentos também. De qualquer forma, era melhor ter um aliado do que um inimigo a tal ponto.
Ele o olhou por alguns segundos e suspirou.
— Não me faça atirar em você e mantenha-se quieto, eu gosto de estar sozinho e gosto de paz.
O homem adentrou ainda mais a cabana e manteve a porta aberta para o lobo.
— Você não vem?
O lobo mostrou os dentes de novo e Est dessa vez entendeu o sorriso, mas apenas revirou os olhos novamente vendo o animal se aproximar e entrar abanando levemente o rabo.
Porta fechada, céu escurecendo, lareira acesa mantendo o ambiente quentinho e algumas lamparinas e velas iluminavam o lugar.
O lobo manteve-se quieto enquanto Est preparava e limpava a nova lebre que havia caçado. O animal mórbido foi espetado e colocado sobre o fogo para que assasse.
Demoraria um pouco, então o humano se sentou no sofá e encarou o lobo de volta.
— O quê?
"O que, o quê?"
— Você literalmente só vai me encarar?
"Posso tocar a língua em sua pele?"
— Quê?! Não.
"Posso te cheirar?"
— Não.
"Me conte sobre você então?"
— O que quer saber? — Est estralou os dedos e se ajeitou no sofá puxando o cobertor sobre as pernas.
"Qualquer coisa, Humano. Me diga seu nome, por exemplo."
— Sabe, eu acho que seria melhor se você tomasse a forma humana. Sua voz na minha cabeça é estranha.
"Você realmente se incomoda com isso ou só quer prender sua visão na minha genitália de novo?"
— Ugh! Esquece. — Est bufou e cruzou os braços.
Mas era tarde, o lobo logo se transformou estalando seus ossos e dando lugar para o homem de antes, ele tinha suas narinas escorrendo um pouco de sangue, assim como um pouco saiu da boca.
Cabelos quase tocando os ombros, lisos e escuros como os seus, pele alva com algumas cicatrizes além dos desenhos, pêlos ralos espalhados pelas pernas, virilha, no peito alguns claros e quase imperceptíveis como nos braços.
Um corpo definido sem exageros em músculos, mas marcado o suficiente para deixar a mente de Est zonza.
E o pênis a mostra sem vergonha alguma.
— Quer compartilhar alguma roupa? — A voz do homem lobo veio rouca e baixa como se tentasse se acostumar em ser externalizada.
— Uhm, claro. — Est se levantou e foi a uma cômoda onde guardava algumas peças simples, mas quentinhas.
Um suéter escuro e calças de tecido macio foram emprestadas para o homem lobo, ele recusou meias e se sentou ao lado de Est no sofá após se vestir e limpar o sangue do rosto.
— Seu nome?
— Sou Est. — O homem mordeu o interior das bochechas puxando os joelhos contra o peito ao rodear as pernas com os braços. — E você?
— Eu não sou Est. — O licantropo sorriu ladino.
— Idiota.
— Meu nome é William Jakraptr Wolfgang, fazia parte da alcateia Rósir.
— O que é Rós-sir? — Est franziu as sobrancelhas estranhando a palavra.
— Rosas. — O homem lobo sorriu grandemente achando fofo a pronuncia errada do outro.
— Nome bonito e delicado demais para uma gangue de feras, não acha?
— Era liderado por uma mulher, inclusive uma ômega forte com um nome delicado, bem provavelmente foi a base parar criar o nome da alcateia. — Ele encolheu os ombros distraidamente.
— Qual o nome? O que é Ômega? — Est franziu as sobrancelhas mais uma vez, aquele homem estranho dizia coisas ainda mais estranhas.
— Rosie era o nome dela. Ômega é uma classe na hierarquia lupina, mais como posições dentro do clã, enfim, talvez seja complexo demais te explicar. — O tal William cruza os braços. — Isso era sobre você, de qualquer forma. Então me fale sobre você.
— Não há muita coisa a se falar. — Os lábios de coração se pressionam e o homem recai o olhar no alimento que assava aos poucos.
Já William não conseguia parar de achar aquele humano lindo. O arco do cupido que formava o formato de coração nos lábios cheinhos era constantemente o alvo dos olhares do lobo.
Era porque, cada detalhe do humano era incrível, William achava que nunca havia visto tal beleza, seja em sua espécie ou na dos Homens.
Aquele homem 'Est' fazia seu coração sentir coisas estranhas, assim como o estômago, até o cérebro parecia menos capaz – travando e ficando em branco por contemplar tal ser esplêndido.
De uma pulcritude infinda, tal ser se banhava de traços e pequenas atitudes graciosas – e ao mesmo tempo enérgico, decidido e valente.
Sua valentia não era ilimitada, nem descabida de sentido, mas era a valentia que mostrava a verdadeira face.
Ele não aparentava medo – mesmo se tivesse. E caso ocorresse de o sentimento transparecer, ele não tiraria a armadura, era do tipo que se mantinha até o fim.
Est pensava diferente de si, pensava que era fraco e desencorajado demais, valentia não fazia parte de seu vocabulário quando se tratava de falar de si mesmo.
— Se eu falar de mim, terá que falar de si mesmo depois. — Est murmurou para o lobo.
— Eu aceito a condição.
— Hum... Eu saí da vila que morava com minha mãe para visitar minha avó. Ela morava aqui, e estava doente demais. Faleceu um dia após nossa chegada, em menos de cinco dias a minha mãe pegou qualquer pertence que ainda carregava consigo mesma e desapareceu dizendo que precisava viver antes que a morte a encontrasse também. Talvez ela tenha ficado traumatizada em ver a própria mãe definhar sozinha e sem muitas condições nesse fim de mundo. — Ele encolheu os ombros.
— Então ela deixou o filho sozinho, o abandonando? E o seu pai?
— Ah... eu nunca conheci uma figura paterna. — Ele respondeu tranquilamente sobre não ter um pai, mas então suspirou sem ânimo de explicar como funcionava seu relacionamento com a mãe. — Não sou tão jovem para ser um filhote sob as asas de minha mãe, tenho já meus vinte anos completos. De toda forma, ela ter partido não me afeta de verdade.
— Hum... Temos pouca diferença em idade, Humano.
— Me conte mais.
O homem lobo passou a mão pelos cabelos e pensou por alguns segundos.
— Meus pais foram mortos por humanos quando eu era um filhote, fui acolhido por conhecidos, sempre fui um lobo mais solitário, mas não me perdia de clãs e alcateias. Vivíamos como nômades, até que tornamos essa região nossa casa, criamos nossa pequena vila escondida na floresta. Mas os humanos não pareceram contentes com lobos pela região, nos caçaram e todos da minha espécie que sobraram se foram para outras regiões.
— Eu sinto muito por isso. — Est sentiu realmente, seres humanos eram horríveis quando queriam. — Por que não foi com eles?
— Eu gosto daqui. Acho que por não querer ceder, por querer mostrar bravura e que minha espécie tinha direito de ocupar um lugar, ter onde chamar de casa... Eu não sei, só sentia que eu merecia estar aonde quer que eu quisesse estar. — Ele desviou o olhar. — A pequena vila ficou deserta, apenas minha cabana escondida tinha lenhas fracas acesas... E eu fiz questão de sangrar aqueles que entravam em busca de mais lobos para arrancar a pele.
Est se arrepende de em algum momento ter pensado em fazer de William um casaco. Seres humanos eram tão egoístas.
O silêncio recaiu sobre eles, a carne foi terminando de assar e Est a serviu com alguns legumes cozidos que em breve não serviriam para consumo.
Eles comeram em silêncio com suas tigelas na mesa de madeira.
— Aposto que comer assim é melhor do que comer cru direto na floresta. — Est comentou baixinho com um sorriso fraco.
— Você acha que não posso assar uma lebre? — William arqueou uma sobrancelha. — Ou acha que passo o dia todo como um lobo me alimentando de animais de forma bruta na floresta?
— Você não faz isso?
— Não. — William riu baixinho. — Eu não fico o tempo todo como lobo, Est. Vivo minha vida também na minha forma humana, mas confesso, seu alimento é melhor preparado do que o meu.
Est sorriu sentindo as bochechas esquentarem um pouco.
O silêncio recaiu novamente, mas o clima era leve, confortável eles diriam. Até que Est se escutou perguntando;
— Por que eu? — A voz saiu baixa.
O homem lobo o olhou por breves segundos e depois desviou para o resto de seu alimento ainda servido.
Quando estava em forma lupina não precisava se preocupar em como transparecia, afinal, não demonstrava bochechas coradas ou confusão por aquilo que remexia o coração.
— Eu não sei.
Viu-se sendo sincero.
Diferente do seu mínimo contato com outros humanos quando na forma bípede, com aquele em específico William se sentia... Calmo.
Estranhamente sem a necessidade de colocar a guarda alta, em defesa.
Est o olhava sem receber o olhar de volta, o homem parecia encabulado com olhos escuros fixos na madeira da mesa, as sobrancelhas franzidas em uma expressão confusa e o rosto levemente corado, quase imperceptível.
Não que Est estivesse diferente, as suas bochechas eram ainda mais coradas que a do outro.
— É o primeiro humano que me faz sentir... Esquisito. Como também é o primeiro a me fazer questionar se todos de sua espécie são iguais. — Ele finalmente levanta o rosto e observa o humano. — Igualmente, gostaria de saber a resposta para tal dilema, apenas para findar o que faz os batimentos do peito acelerarem e a cabeça de repassar imagens relacionadas a você.
O humano havia parado de remexer a carne assada da lebre e estava totalmente travado observando o homem lobo.
Sabia o que era aquilo, claramente sabia o que significava tudo o que o outro passava – não porque sentia-se igual, mas porque já havia estado em tal lugar por outra pessoa.
Mas aquele ser, parecido – porém tão diferente de si, não aparentava entender o que se passava no coração. E Est se perguntou se em algum momento ele conheceu a palavra amor.
— Você já se sentiu assim por outra pessoa?
— Não. — William respondeu baixo, sua expressão demonstrou curiosidade. — Você, por acaso, sabe o que é isso?
Est pareceu hesitar demais e o lobo repentinamente tocou sua mão sobre a mesa.
— Por favor, Humano. Se sabe o que é, não me deixe no escuro.
Seus olhos estavam mais abertos, sobrancelha escuras apertadas, a mão pálida e quentinha sobre a de Est.
O humano repreendeu o coração que saltou uma batida com aquela imagem.
— Eu... Uma vez me senti dessa forma. — Est iniciou desviando o olhar. — Havia um homem na minha antiga vila. Ele era bem mais velho, era casado e tinha uma linda família. Eu admirava cada coisinha dele, sua força, sua bravura, suas boas ações para com os outros, como ele provia sua família e como beijava sua esposa...
Ele mordeu o interior da bochecha antes de continuar como se pensasse em como diria aquilo.
— Eu sentia meu coração querer explodir no peito toda vez que o via, minha mente só era preenchida por imagens e lembranças dele, e tudo que eu desejava era que ele fizesse comigo o que fazia com a esposa. — Est continuou baixinho. Mesmo que sussurrasse, o lobo ainda poderia escutá-lo por conta da avançada audição.
Aquilo deixava de certa forma o homem lobo incomodado, mas o que veio depois foi como comer algo amargo.
— Eu me declarei, já dizendo que sabia que nada poderia surgir entre nós. Me arrisquei demais, ele poderia ter me exposto e me colocado amarrado em uma fogueira no centro da vila enquanto pessoas gritariam que eu era um sodomita... Mas, felizmente, ele era aquele homem por quem me apaixonei. Fez jus ao que me fazia admira-lo, ele compreendeu, pediu desculpa por não poder retribuir e disse que era melhor nos mantermos afastados, pois ele não perderia sua família e esposa de forma alguma. Eu o agradeci e me afastei completamente, nem mesmo olhar para ele parecia certo. Por fim... Eu acabei tendo um coração quebrado.
— Apaixonar... Coração quebrado. — O lobo pensou alto. — É o que você fará comigo? Parece doloroso demais, Humano.
Est o observou de olhos arregalados.
— Não! Quer dizer... — Ele não sentia nada além de atração física pelo lobo... resolveu desconversar. — Eu me envolvi com outro homem depois. Não o amava... Mas foi bom para nós dois.
— Quer dizer que se deitou com outro homem depois? — William parecia levemente confuso. — Sem isso de apaixonar? E o coração que se quebrou?
Est parecia causar mais dúvidas do que soluções e respostas.
— Nem sempre nos deitamos ou nos relacionamos com pessoas que amamos. — Ele disse desviando os olhos. — Meu coração quebrado aos poucos se regenerou. Eu não poderia ter aquele homem que amava de qualquer forma, nossa diferença de idade era absurda, os humanos não aceitam muito bem relacionamento de mesmo sexo e ele era alguém que amava a mulher com quem era casado. Eu o admiro por ter me recusado, na verdade. — Ele deu de ombros um pouco chateado. — Me deitei carnalmente com outro homem, eu gostei, fizemos sexo e não amor por algumas vezes, até que outros humanos começaram a desconfiar e tivemos que nos afastar.
— Humanos são estranhos e preconceituosos. Na minha espécie não é incomum se relacionar com o do mesmo sexo, se tornou algo tão comum e natural quanto machos com fêmeas, nunca fomos do tipo que se incomoda com a felicidade alheia.
— Sua espécie é evoluída demais, senhor lobo. — Est sorriu.
— Sobre se deitar com um homem...
O homem lobo começou e Est engoliu seco.
— E-eu... Quando disse que não me interessava em mulheres eu não menti, e sobre os homens, eu nunca tive uma real experiência nisso... Nunca me deitei com ninguém. Essa coisa que você chama de apaixonar, eu não entendo. Você diz que o que eu sinto você já sentiu uma vez por esse homem que não foi recíproco... Significa que me sinto apaixonado por você, é isso?
Ele tomou um suspiro rápido.
— Humano, se apaixonar é a garantia de que terei você ao meu lado? Diga-me, pode ser diferente do que aconteceu com o homem que lhe recusou?
Est estava boquiaberto sem saber o que responder.
— Eu sempre me considerei um lobo esperto, é uma merda não saber o que se passa dentro de mim, me sinto um desprovido de inteligência, incapaz de sequer aprender como solucionar ou entender o que é. — O lobo espalmou a mesa desviando o olhar do humano. — É estranho, afunda o peito quando não estou perto de você... Eu já vi casais nas alcateias, pequenas famílias que compartilhavam afeto, jovens que tomavam as mãos um do outro jurando que nunca se separariam... Mas é isso? É o que se denomina amor?
— E-eu...
— O coração acelera, eu não consigo parar de repassar as imagens de teu rosto belo. Meu... corpo queima, Humano. E eu sinto que poderia transformar os ossos de qualquer um em poeira caso tentassem ferir você. — As sobrancelhas se apertavam na expressão confusa.
Era como se o lobo tentasse externalizar tudo que sentia, era confuso, não havia uma receita ou script para ler, surgia na cabeça e as palavras iam saindo.
— Che-cheg-
— Sinto que preciso de você todos os dias. Eu- eu preciso ver seus olhos e-
— Cala a boca!
A voz de Est soa mais alta e ele se levanta da mesa.
— Já chega. — Ele diz mais baixo e frágil dessa vez após limpar a garganta. —T-termine e se retire.
O lobo pareceu ainda mais confuso.
— Eu quero ficar sozinho. — Est findou a conversa.
William não entendeu o humano, mas sentindo um bolo na garganta, rapidamente tomou seu caminho após retirar as roupas e se transformar partindo da cabana.
Est só sentiu que segurava o ar quando o pulmão ardeu e a tontura veio o fazendo se sentar na cama após fechar a porta.
Sozinho na cabana ele se questionou o que havia acontecido.
Por que agiu daquele jeito?
Talvez porque o coração acelerou demais, o medo subiu a garganta como a ânsia de vômito causada pela ansiedade.
Era demais.
O lobo disse coisas demais.
Coisas demais para ele digerir juntamente daquela lebre bem passada, juntamente daquele olhar que o penetrava como se fosse ver a sua alma. Com aquela expressão de quem pedia permissão para tocar seu coração... A expressão que implorava por qualquer traço de reciprocidade.
— Merda! — Ele bate a mão na pequena mesa de cabeceira quase derrubando a lamparina que queimava devagarinho.
Se ela caísse, fogo poderia se alastrar e lá estaria ele buscando uma forma de apagar antes que tudo, inclusive ele, virasse apenas cinzas...
Se virasse, talvez não teria de se preocupar com o coração que surrava batidas nos ouvidos, não se preocuparia com o lobo que partiu sem dizer mais, não pensaria nas íris escuras que torciam por uma explicação, pela mão que queria muito além de um toque sobre a sua...
William parecia um lobo inteligente e sorrateiro, mas Est pôde descobrir a ingenuidade de sua alma em uma curta conversa.
William não era nada além de um lobo solitário que lutava pela sobrevivência sozinho todos os dias, sem conhecimento além do matar para viver.
Amor, família, lar... Essas coisas não estavam na sua lista de palavras conhecidas.
E aquilo ardeu ainda mais o coração de Est que se assustou tanto com todas aquelas palavras doces e apaixonadas direcionadas a si.
William era um lobo solitário, agora, apaixonado.
E Est não sabia como prosseguir sem quebrar o coração dele em vários e vários pedacinhos.
