Chapter Text
Alanis sentia sua cabeça dar pontadas. Seu maxilar estava rígido e tenso, causando uma leve dor. Sua coluna ereta com suas pernas cruzadas, também rígidas. E um aperto, não tão incomum assim, no peito.
Ela sentia os olhos arderem, mas sabia do truque de piscar rápido para que as lágrimas sequer fossem criadas. Mas mesmo assim, não conseguia desviar seu olhar.
Ela via, em sua frente, a figura da pessoa que ela estava perdidamente apaixonada sendo envolvida por braços que não eram seus.
Gabriela sorria largamente, como sempre. Seu sorriso parecia aumentar quando seu olhar cruzava com o de Alanis, se é que isso era possível. Mas ela sentia que algo não estava certo quando, a mulher que ela conhecia como a palma de sua mão, não devolvia o sorriso na mesma intensidade de sempre.
– Jesus. Eu nunca comi algo tão bom. – Daphne falava de olhos fechados enquanto provava seu prato. Mesmo se deliciando com a comida, quando ela abriu os olhos, viu uma de suas amigas com uma cara não muito boa. – Tudo bem por aí?
O tom de Daphne era baixo. Alanis sabia que era apenas para ela ouvir. Gabriela e as outras meninas estavam distraídas demais para prestar atenção.
Alanis ponderou antes de assentir e forçar um sorriso amarelo, onde sua amiga entendeu tudo. Ela estava magoada. Daphne direcionou o olhar para Gabriela, que estava um pouco distante na festa, e voltou o olhar para Alanis.
– Você sabe que deveria falar com ela, não sabe? – O tom de voz da amiga era doce e gentil demais. Alanis sentiu o peito apertar mais uma vez. Ela não tinha mais coragem de negar nada.
Ela ajustou sua postura, que já estava ereta, e voltou olhar para Daphne. Sentiu suas mãos serem envoltas pelas de sua amiga num gesto de carinho e compreensão. Ela não tinha muito o que falar no momento, só entender que: talvez ela tenha esperado demais.
Alguns flashbacks povoavam sua mente, lembrando exatamente de algumas noites anteriores onde Gabriela tinha toda sua atenção voltada para ela. Deitadas na cama da, agora então ruiva, elas se aninhavam uma na outra para que Alanis conseguisse dormir bem.
– Durma e descanse, meu bem. – Alanis se aninhou mais no abraço da mais velha, sentindo a mistura de cheiros que emanavam da pele e cabelo dela. Os braços definidos ora apertavam mais ela, ora acariciavam suas costas numa tentativa de relaxar a morena. – Se tiver algum pesadelo, eu vou estar bem aqui.
Desde que sua vida virou de cabeça para baixo, Alanis recorria ao conforto que apenas ela poderia dar. Gabriela era o conforto e a paz que ela precisava, em basicamente, todos os momentos de sua nova vida.
Ela se sentia extremamente sortuda de ter cruzado novamente o caminho da vida da mais velha, mas assombrada pelo passado turvo e um futuro ainda mais conturbado.
Gabriela dava sinais nos quais ela não entendia muito bem. Noites atrás, ela deixara claro que, se Alanis quisesse, ela tentaria. “Olha pra mim, eu estou aqui.” A voz doce da ruiva ecoava em sua memória enquanto ela chorava olhando para a mais alta. Isso atormentava a cabeça da morena como um filme de terror interminável.
– Ela falou algo… recentemente. – A voz de Alanis era baixa, também só para Daphne ouvir. – Eu não contei para ninguém sobre isso. Ela pediu para eu olhar pra ela. Ela falou que estava lá.
Daphne arregalou levemente os olhos. Não queria chamar atenção, mas estava visivelmente eufórica pelas duas amigas. Ela não entendia bem o que isso tudo significava para elas, principalmente porque até então, Gabriela namorava.
– E você respondeu? – Alanis negou com a cabeça e tampou os olhos com as mãos, depois passando entre os fios do cabelo fortemente.
– Não… Eu fui extremamente covarde. Ela chorou, Daph. Chorou. Na minha frente, e eu não fiz nada. - Alanis soltou um suspiro pesado e a amiga prontamente segurou suas mãos novamente. – Eu sinceramente não sei como ela está ainda olhando pra mim. Eu, basicamente, disse sem palavras que eu não sentia o mesmo. Mas eu sinto…
Ela apertou os olhos e quando abriu, a primeira coisa que viu foi Gabriela abraçada com o namorado. Os rostos bem perto porque, além de usar uma bota alta, o homem abaixava levemente para que os rostos ficassem em alturas próximas. Alanis observava tudo. O jeito que ele segurava na cintura dela. O jeito que ele beijava sua têmpora e lábios. Ela odiava que parecia que ele estava acostumado com isso. Como se fosse algo certo.
Ela lembrava de todas as vezes que beijara a mulher. Todas. Seja para um ensaio, para uma gravação, ou até mesmo, quando se beijaram 7 anos atrás. Ela podia sentir o gosto dos beijos dela em sua boca. Ela nunca acharia isso normal.
– Lani, acho que passou da hora de vocês conversarem, né? – Ela se sentia extremamente confortável em conversar com Daphne. – Quer dar uma volta? Assim você se sente mais a vontade…
Alanis assentiu e ambas levantaram. Gabriela foi a primeira a olhar. Com um olhar de confusão, olhou para Alanis, que apenas sorriu e balançou a cabeça como se dissesse “que não era nada”.
Poucos minutos depois, Gabriela sentiu seu celular vibrar. A mensagem de Daphne partira seu coração na metade. “Está tudo bem. Ela queria conversar e chorar um pouco. Vou leva-la para casa, ok? Fique tranquila.”
Era impossível. Seu coração doía de pensar na mais nova chorando. Seu namorado sentia a energia diferente emanando dela, principalmente quando o assunto era Alanis.
Gabriela não parava, nem um minuto sequer, de pensar sobre como a vida tinha sido surpreendente, mas também ingrata. Como pode, alguém de anos atrás, ressurgir de uma forma tão avassaladora.
Tudo começou de uma forma sucinta. Elas trocavam olhares e carinhos um tanto mais profundos do que o resto do elenco. Ela sentia o olhar de Alanis queimando em sua pele grande parte do tempo, e isso a intrigava da melhor maneira.
Elas tinham tido algo, anos atrás. Um carnaval com amigas e linhas borradas demais. Alanis era inegavelmente bonita, mas além disso, ela era cativante. Seus olhos verdes prendiam Gabriela de uma maneira jamais entendida por ela. Ela se sentia acanhada, confusa, e inteiramente entregue. Só faltava uma coisa: coragem. E ela não tinha.
Ela lembrava, como se fosse há poucos minutos, a sensação de ter seus lábios grudados no da morena. Como o seu peito encheu de algo que nunca havia sentido antes. Como as borboletas borbulhavam em seu abdômen e suas pernas bambeavam. Ela lembrava de se sentir embriagada de paixão.
– Terra chamando Gabriela! - Mell quase berrava estalando os dedos na frente dos olhos da amiga. Os olhos estavam cerrados e sua expressão indicava que ela já imaginava o que se passava na cabeça da ruiva. – Já até sei…
Recentemente, Gabriela tem se sentido monotemática. O dilema incessante de decidir entre uma vida normal, calma, como sempre teve, ou se mergulhar de cabeça em algo incerto, estava deixando a mulher em parafusos.
Ela precisou apenas olhar para Mell para que a mesma entendesse que ela não queria conversar sobre o assunto no momento. Ela estava cansada. Talvez a última conversa delas tivesse sido a gota d’água para transbordar o copo. Ela se sentia dolorida internamente por tanto esforço em vão. As lagrimas beiravam os olhos, querendo escorrer pelo rosto mas Gabriela não deixaria. Não ali.
***
Do outro lado da cidade, Gabriela se enfiava embaixo do chuveiro quente. Seu namorado sentia que algo estava errado, especialmente após ela se esquivar de alguns beijos. Ela nunca tinha feito isso, mas não parecia certo beija-lo sentindo tudo aquilo.
– Onde eu me enfiei? Meu deus… – Ela cobria o rosto com as mãos com força. Era insano acreditar que estava perdidamente apaixonada pela sua colega de cena. Mais do que já esteve um dia.
Sua mente sobrevoava o dia em que ela descobriu que sua personagem seria par romântico da personagem de Alanis. Lembrava das mensagens de suas amigas, em tons preocupados por saberem como as coisas haviam terminado.
Era carnaval. Rio de Janeiro, em 2019. Março de 2019. O calor, por mais que já estivesse em março, queimava na pele de Gabriela. Todas suas amigas próximas estavam reunidas, e uma em específico, que não era tão próxima assim, chamava sua atenção como um imã.
Se recorda de ouvir Giovanna caçoando sobre como ela babaria se continuasse olhando Alanis daquele jeito. E por mais bobo que fosse, ela não conseguia desviar o olhar.
Após alguns dias e muitas praias, elas começaram a interagir mais. Toques mais demorados. Olhares que não paravam de se cruzar. E até mesmo, Gabriela fotografando a mais nova.
Lembrava de estar sentada em um sofá de alguém – que não era tão importante assim, comparado com quem estava deitada em seu colo. Alanis deitava nas pernas pálidas de Gabriela, aproveitando o cheiro e a maciez que apenas ela tinha.
– Você, definitivamente, é a pessoa mais cheirosa que eu conheço. – Gabriela se intimidava rapidamente, e Alanis tirava proveito disso. Ela adorava ver as bochechas vermelhas e como ela desviava o seu olhar.
– É? – Gabriela deu um sorriso suspeito e um leve beijo na mão da outra mulher, em forma de um leve agradecimento. Seu coração palpitava como louco. Ela estava desesperada para beija-la. Nunca havia sentido isso antes por mulher nenhuma. Ela nunca havia sentido isso por ninguém, na verdade.
Alanis sentia que algo estava diferente. Que Gabriela era muito mais delicada com ela, os toques eram mais leves, carinhosos e talvez, intencionais. Os olhos da mais velha eram como portais reluzentes. Ela nunca tinha visto olhos brilharem tanto.
Ela se levantou, sentando de frente para Gabriela, olhando no fundo dos olhos de gude castanhos, que contrastavam com os seus verdes. Um sorriso leve em seu rosto surgiu. Ela sabia onde isso ia leva-la.
– Hmm… Nós podemos ir até lá fora? Queria ficar a sós com você. – Alanis não titubeou. Foi direta, fazendo o coração da outra parecer uma marretada em seu peito.
Gabriela só assentiu e se levantou. Esticou a mão para que Alanis pudesse conduzi-la, e sorriu quando a mais nova mordiscou levemente seu próprio lábio. Era a confirmação que ela precisava.
As outras meninas que estavam presentes, olharam com leve desconfiança, mas sabiam que as duas estavam trocando flertes. O máximo que aconteceria era elas se beijarem. E elas fizeram.
Assim que Gabriela pisou no pequeno jardim, Alanis atacou sua boca como alguém faminto. Suas mãos seguravam seu rosto e adentravam dentro de seu cabelo curto. As mãos magras de Gabriela foram diretamente para a cintura fina da mais alta. A diferença de altura era um detalhe quase irrelevante no momento.
Alanis colocou a mais baixa contra a parede sentindo o aperto em sua cintura aumentar. Gabriela arfava e soltava leve gemidos durante o beijo, como se estivesse se deleitando do momento.
Os lábios se chocavam com força, mas não era desagradável. Era extremamente confortável, gostoso e ritmado. Era como se elas já se conhecessem desse jeito. Gabriela aproveitou a blusa frouxa para enfiar suas mãos dentro do tecido, sentindo a pele quente de Alanis contra seus dedos gélidos. Ela sentia a mais alta arrepiando sob o toque dela, dando ainda mais segurança para toca-la por todo canto.
Gabriela sentiu os beijos descendo seu maxilar e chegando em seu pescoço, onde Alanis arfou antes de beijar e maltratar a região. Elas estavam tão grudadas que sequer passaria um fio de cabelo entre as duas.
Quando Gabriela gemeu baixinho mais uma vez, Alanis sorriu vitoriosa. Ela queria aquela mulher mais que tudo, e tê-la estava afagando seu ego da melhor forma. Ela sabia que Gabriela nunca havia tido experiência com mulheres, mas estava se saindo perfeitamente.
O cheiro de Gabriela embriagava Alanis da melhor forma. Ela passeava entre o pescoço e os lábios da mais velha, segurando sempre forte em sua nuca e cabelos. Ela queria dizer tanto naquele momento. Que esperou desde o momento que a viu. Que ela era linda. Especialmente linda com a boca inchada e avermelhada. Com as bochechas coradas e com a respiração descompassada. Alanis sentia seu estômago apertar, da melhor e pior forma.
– Jesus. Você vai me deixar louca. – Impressionantemente, quem quebrou o silêncio foi Gabriela. Sua voz doce estava levemente rouca, como se o desejo ultrapassasse até essa barreira. Seus olhos refletiam tanto. Ela se aproximou para selar levemente os lábios mais uma vez, como se quisesse ter certeza que aquilo havia acontecido. – Eu estava maluca para te beijar.
Alanis sentiu o coração errar a batida. Ela também estava. Ela estava em erupção. Seu corpo queimava, sua mente rodopiava e voltava para os mesmos pensamentos. Beijar Gabriela quantas vezes fosse possível. E com isso, ela beijou a mais velha novamente. Suas línguas se entrelaçavam da melhor maneira.
Alanis enlouquecia cada vez mais quando sentia Gabriela gemer contra sua boca. O barulho do beijo, as mãos firmes em sua cintura e costas, o joelho de Gabriela entre suas pernas causando uma pressão gostosa; tudo colaborava para uma explosão.
– Vamos para minha casa? – Alanis perguntou e sentiu Gabriela tensionar levemente. Ela estava lá hoje cedo, não era um ambiente desconhecido. Ela só não entendia o que isso poderia significar futuramente, mas mesmo assim, concordou. Ela faria tudo que a mais nova quisesse.
***
Alanis sentia as lágrimas escorrendo novamente enquanto encolhia as pernas sentada em sua cama. Ela tinha um péssimo hábito de reler suas mensagens com Gabriela, o que não era a melhor decisão para o seu estado atual.
“Estou morta de saudades. Quando você volta? Deveria ter ido contigo…”
“Você deixou seu cheiro impregnado na minha cama. Odeio quando isso acontece e você está longe.”
“Uau! Que foto mais linda, Lani. Acho que meu coração errou uma batida.”
Gabriela era a personificação do afeto e amor. Alanis se sentia sortuda o suficiente por tê-la em sua vida novamente, porém azarada o suficiente devido à tudo que aconteceu.
Ela conseguia lembrar da sensação dos poucos dias que teve da mais velha em seus braços. De tudo que aconteceu. Do jeito que se entregou, e que na mesma intensidade, foi deixada. Ela lembrava tão claro quanto a luz do sol, quando Gabriela disse que não estava pronta. Mas, agora ela estava mesmo?
Ela desejava, mais que tudo, responde-la. Dizer que a via. Que a sentia. Que sabia que ela estava bem ali, e que tudo, todos os sentimentos, eram cem por cento correspondidos e recíprocos. Contudo, a forma que Gabriela fugiu, apavorava a morena.
– Me perdoa… – Gabriela chorava copiosamente mas Alanis não. Ela estava em choque, um choque tão doído e profundo que não era capaz nem de formar lágrimas. – Eu amei isso tudo. Você é… tudo que eu mais quero. Mas me desculpa, eu não consigo…
Alanis não entendia o porquê. Só entendia que seu peito ardia como brasa toda vez que lembrava que ela era de outro. Seu peito diminuía em ciúmes ao lembrar que o que ele tinha, era pra ser dela.
