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i can't afford to love you

Summary:

Milena nunca se incomodou com amizades elaboradas e se importa ainda menos com os problemas do amor, mas o mundo não parece tão convencido de que ela está melhor sozinha.

Tudo o que Milena quer é o céu, só que seu maior obstáculo nesse caminho é o mar.

No outro extremo, Samira luta suas próprias batalhas e percebe que o processo de se apaixonar ocorre em fases, descobrindo também que Milena é como a lua.

Chapter 1: Você carrega o sol nos olhos

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Sábado e domingo tem um certo ar de antecipação na casa.

Meio agridoce, um pouco tenso e totalmente imprevisível. Samira é ansiosa por natureza, sabe que esperar demais é uma fraqueza e também sabe que não se esperar nada é contraditório, é insuficiente.

É isso o que a faz sair do quarto Eternidade no final da tarde, diluindo a névoa de tensão sobre seus ombros após a discussão acalorada entre Breno e Ana Paula. Ela acha que uma discussão entre dois aliados em um dia tão importante é desnecessário, mas Ana Paula deixou muito claro que não gosta quando se metem em suas brigas sem necessidade, apesar de apreciar o cuidado a distância.

Então ela anda um pouco pela casa, esbarrando com alguns de seus adversários pelo caminho até decidir ficar junto a Milena no sofá da sala, deitadas em direções opostas e separadas por dois pares de pés. Ela se aconchega e suspira, Milena imóvel com seu pano rosa sobre os olhos — Samira sabe que Milena não está dormindo e a reconhece ali, sente que é ela, por simplesmente permanecer parada, e isso a conforta um pouco demais.

Elas não conversam, mas Samira quer. E, ao mesmo tempo, não quer interromper a bolha em que Milena se encontra, meio dormindo e meio acordada. Então Samira deixa seus olhos vagarem pelo teto, pensando se vale a pena ouvir os outros dois grupos ou dormir ali.

Samira ouve Jordana e Gabriela rindo de algo na cozinha, Leandro passando para a área externa e o alerta da produção para alguém trocar o microfone na dispensa. Nada diferente do comum, mas ela espera.

É claro que ela não precisa aguardar muito, Milena inconscientemente decidiu por ela, se levantando rapidamente e indo em direção a porta enquanto ajusta a jaqueta azul envolta dos ombros.

"Você vem, Samira?" Milena pergunta.

Samira não hesita.


••

Elas encontram com Juliano no caminho, voltando da academia suado e com um semblante quase frustado, suas mãos apertando a garrafa colorida. Milena faz uma piada sobre não ter suplemento na Xepa e Juliano diz que esse é o menor dos problemas. 

"Agora que ele tá no monstro é impossível de treinar." dispara Juliano sobre o adversário no fim do gramado, esponja em mãos. "Ele fica falando merda pra me provocar e eu que não vou ficar lá ouvindo de graça."

"É o que ele quer. Ele é um idiota, um crianção, Juliano." Milena diz. "Engraçado que quando ele não ta com esse colar ele fica bem caladinho, né?"

Samira ri e concorda, olhando o adversário terminar de completar a rodada do monstro, completamente encharcado. Apesar de nunca terem nenhum embate direto, Samira não consegue não nutrir uma aversão a Jonas. Ela sabe que ele é um idiota com I maiúsculo e também sabe da necessidade dele de sempre menosprezar seus aliados, em especial Milena e Ana Paula, e isso é algo que ela não consegue aceitar, mesmo com a falsa impressão de "bom moço" e "príncipe encantado" que o brother tentar passar.

Claro que, com tudo o que ela conquistou até agora, ela nunca diria isso a ele nessa altura do jogo. Podem a chamar de covarde se quiserem, mas Samira sabe o peso de ter muito por um segundo e, no outro, não ter nada.

E Samira está cansada de não ter nada.

Os três se separam e Samira e Milena vão até os sofás na parte externa, perto da grande porta no gramado. É quieto, afastado e só elas.

Samira quer dizer tanta coisa, quer fazer tanta coisa. Mas no momento, ela se permite apenas olhar para Milena, que se recosta em uma das cadeiras e fecha os olhos, quase imóvel.

Milena tem essa coisa particular de querer se encontrar no silêncio após grandes conversas, e é o que ela faz. O almoço do anjo foi confortável, eles falaram sobre família e sobre jogo, e o peso dos dois é sempre muito maior em dias como esse. 

Dia de formação de paredão.

Mas dessa vez, Milena não opta por estar sozinha, ela puxa Samira junto a ela. Poderia ser diferente, Milena poderia continuar no sofá ou ir até o quarto Eternidade e dormir ao lado de Ana Paula, mas ela a chamou e aqui estão, observando o gramado verde-sintético vazio enquanto o céu muda de azul índigo para cobalto, lentamente.

Samira não sabe o que sentir nessas situações onde ela é a escolhida, onde seu coração acelera e para ao mesmo tempo.

Onde Milena a faz se sentir especial sem nem saber.

Milena reside no barulho, no caos, e Samira quer estar nesse meio. Milena também reside no silêncio e na paciência, e seria tolice negar que Samira não gostaria de se ver ali.

Ela ainda não sabe como lidar com os anseios por algo que ela não pode se permitir ter. 

Não sabe como se comportar quando a outra pessoa envolvida é tão... restrita, fechada, devota.

A conversa eventualmente chega e Samira sabe desenvolver, sabe ler nas linhas turvas que Milena não sabe que deixa transparecer, sabe como andar em alguns momentos e correr em outros. Família é a maratona, ambas gostam de se ouvir e, após o almoço do anjo, Samira ainda continua fascinada com a semelhança física entre Milena e sua irmã, Mile — elas são gêmeas, então é natural que a fisionomia seja parecida, mas tem aquela coisinha, aquela onda quente que Milena tem que não se vê em sua irmã, é tão nítido e Samira se pergunta se Juliano e Ana Paula também tem consciência disso.

Samira também tem uma irmã, e um pensamento imprudente a atinge, imaginando o que Milena pensaria dela e de seus pais ao se conhecerem. Se Milena gostaria de conhecer e fazer carinho em Lindolfo, se ela ficaria muito atordoada em visitar seus amigos do Rosa e se seria escandaloso levá-la em seu antigo trabalho no bar, se ela gostaria de ver uma parte de sua vida. É um fio que se estende e puxa, e Samira dolorosamente o corta por saber que alimentar certas fantasias é um caminho que ela conhece muito bem. E nessa realidade, ele é sem volta e totalmente irreal.

Ela conhece bem essa estrada, caminhou por ela uma dúzia de vezes, e sabe que o que a espera no final é... triste.

Não por ela, mas por Milena. Ela sabe o que Milena pensa disso, e era o que ela pensava antes de se permitir viver. Não pelos outros, por seus pais, família, religião e todas as outras coisas que a acorrentavam na falsa liberdade. É por amor, eles diziam. Mas Samira estava cansada das ilusões, regras que nunca mudavam. Até que um dia ela, tão jovem e tão insegura, começou a questionar o motivo daquele amor ser sempre incondicional, desde que ela fizesse o que eles queriam. E doeu, por isso ela fugiu.

Mas Milena não sabe disso. Não ainda.

Jogo é mais seguro, um caminhar cauteloso, porém mais tenso e carregado. Como uma tempestade em formação, Milena é irredutível e convicta no que quer, suas opiniões são firmes e cimentadas com base em estratégia e amargor. Samira não a julga, mas sabe que seus estilos de jogo são oposto. No que Milena é inflexível e bate o pé, Samira pensa e organiza, cogita e imagina.

Ela admite que não é a jogadora mais inteligente e estratégica, mas sabe ver o inimigo como inimigo e adversário como tal. Por isso não se permite estar um segundo perto de Alberto e Gabriela, mas ainda consegue dialogar com Jonas e Marciele.

Samira não entende como polos tão opostos podem ser tão atraídos um pelo outro como ela é atraída por Milena, sem hesitar e sem afugentar.

Ela não sabe o que faria se não a tivesse ali.

E então, a imunidade vira novamente o tópico.

"Sei que a Ana Paula não quer essa imunidade, mas eu não vejo vantagem em um paredão tão..." Milena começa.

"Incerto?" Samira a complementa, o queixo apoiado nas mãos. "Tem muita coisa que ainda pode rolar... Indicação do líder, voto da casa, o puxa e ainda tem o bate e volta..."

Milena segura o colar azul em suas mãos e o aperta. "É isso que eu quero que a Renault entenda! E se o Babu escapar no bate e volta? E se o líder me indicar e o puxa for um de nós?" Ela diz, dando aquele ênfase carinhoso no modo como fala o sobrenome de Ana, soando como "rênauti".

"Tu ta certa, Mi. Tem muitas coisas que podem acontecer, mas não acho que seria bom você entrar nesse assunto com ela de novo."

"E eu não vou." Milena encerra, impassível. "É um direito dela não querer, mas a escolha é minha e eu não vou arriscar."

Samira encolhe os ombros e e morde a parte de baixo do lábio, não querendo se estender muito nesse assunto.

Ela entende. Ana Paula quer o embate direto, mas as variáveis não são as melhores e muito pode ser perdido... 

"Você tá bem com isso, Samira?"

Ela a encara e deixa a pergunta no ar por um tempo.

Dizer que sim seria uma mentira, e dizer que não seria tão falso quanto. Samira tem medo, tanto medo que isso tem a consumido desde a prova do líder. Mas ela não pode exigir algo que não é seu por direito. Milena tem uma prioridade maior na frente, e ela não pode ir contra isso.

Isso não faz o buraco oco em seu peito diminuir, e tampouco anula a dor e o medo.

"Tô." Samira diz.

Milena a olha e aperta os olhos daquele jeito que sabe e conhece, e Samira se sente vulnerável — não é ruim, só desconfortável de um jeito estranho.

"Mentirosa. Eu te conheço, Samira." Milena diz e quase sorri, afundando um pouquinho no sofá. A jaqueta azul escorrega e Samira percebe que aquela é a jaqueta dela. Algo quente se espalha por suas veias ao ver Milena em suas roupas, algo que enche e transborta por seu peito. "Eu não acho que você tá na mira da casa e nem do líder, por isso não pensei em te dar o colar."

Samira deixa a frase ecoar e cair, ela não quer falar sobre isso. Não quer que Milena pense em mudar de ideia, mesmo morrendo de medo do paredão. Desde o momento em que ela o ganhou, Samira soube que esse colar não iria repousar sobre seu pescoço.

E está tudo bem. Samira não quer que outro evento sobre promessas e quebra de laços se repita.

A última coisa que Samira quer é ficar longe de Milena por um motivo bobo.

"Você sabe o que eu penso sobre a imunidade."

"É por isso que tô perguntando se você tá bem com isso."

Samira fecha os olhos, não entende. "Milena, tu sabe que eu não vou dizer o que tu tem que fazer. Eu queria estar imune? Sim, eu queria. Mas eu não tenho esse poder."

"Mas eu tenho." Milena diz e se aproxima, seus joelhos se tocando levemente. 

"O colar é da Ana, não é?"

"Talvez seja. Eu decidi, mas posso mudar de ideia."

"Então pronto. Não tem o que discutir."

Samira suspira e deixa o silêncio se estender. Honestamente, ela não entende o motivo dessa conversa toda outra vez. Milena sabe que ela está com medo, sabe que ela tem muito o que perder então qual o sentido disso? 

"Do que você tem tanto medo, Samira?"

A pergunta é feita baixa, hesitante, carregada de uma seriedade que não se vê em Milena com frequência. Samira não entende.

"De ir pro paredão e sair, de perder tudo o que eu conquistei até agora." Ela diz, a voz começando a embargar. "Eu não tenho nada lá fora, nada! Eu não vou ter outra chance assim na vida e eu... eu tô tão cansada."

Milena a encara com aquele olhar avaliador, quieto e profundo. "Não é isso."

Samira se vê presa em algo que ela não quer reconhecer, um sentimento que ela sente queimando a cada respiração que dá. Aquele aviso de 'você está se colocando em uma situação complicada' toda vez que seu peito aperta ao olhar para Milena ecoa em sua mente. É quente e frio, e ela precisa jogar junto para não acabar presa em um dos extremos.

Samira sente que isso não é só sobre o jogo.

"Eu não quero perder o que eu tenho aqui." Samira confessa em um sussurro.

É silencioso. A chuva começa, caindo fraca sobre a casa, quase como uma camada protetora do mundo exterior. Samira sente a primeira lágrima deslizar por sua bochecha e cair sem som no cabo do microfone. Ela afugenta o choro, não quer isso agora.

"Tem tantas coisas que eu quero fazer lá fora com o que eu tenho aqui." Samira diz, honesta. "Tantas pessoas que eu quero mostrar pra vocês e tantos lugares..."

"Pra onde você me levaria?" Pergunta Milena, a voz uma oitava mais baixa, tentando uma distração.

Samira ri e contempla o pensamento se formando antes mesmo de o cogitar.

Pra todo lugar. O bar, a praia, o Rosa todo, minha casa, onde somos só eu e o Lindolfo, meu porto seguro.

Mas isso ela não diz, ela não pode arriscar.

"Onde tu quisesse." Samira escolhe dizer, seguro e limpo. 

Milena sorri e a conversa se encerra, ambas cansadas demais para se estender em algo já definido. O silêncio é agradável, morno e as duas sabem que há muito mais a ser dito, mas o peso de várias câmeras as encarando é aterrador. Samira quer saber se Milena também sente isso, se também tem esse anseio e essa vontade de estar mais perto, de poder dizer mais, ser mais. Mas ela tem medo de perder o que tem, então mantém seus sentimentos baixos, enterrados até que não possam mais serem reprimidos. 

Samira se levanta e se senta ao lado de Milena no sofá apertado, seus braços colados no pequeno espaço. Elas se moldam até acharem o conforto, a chuva e o farfalhar das roupas sendo o único som naquele canto isolado. Milena não é contra, se fosse, já teria saído e feito algum comentário ácido. Samira sabe que isso é mais do que uma conquista, é confiança, é apreço.

Então ela pensa e pensa, toma coragem e deita a cabeça no ombro de Milena, ouvindo um bufo zombeteiro vindo de cima. 

"Você é grudenta, né menina?"

"Só com você."

Sai antes que ela possa pensar. Se Milena está surpresa, ela não demonstra.

"Você realmente é meu monstro." Milena diz, mas não há maldade em seu tom, apenas carinho disfarçado de birra. Samira aprendeu a perceber. 

Todos aqueles dias do outro lado a fizeram ver que Milena é força bruta, é resistência e é calor. E todos os dias ao seu lado a mostraram que Milena também é cuidado, é presença e é amor.

Samira sabe que está se afogando, e assim como ela tem medo de perder, ela tem medo de não ter o direito de possuir. Todos os dias ela aprende algo novo sobre Milena, e se encanta um pouco mais. Todos os dias, ela se enfurece consigo mesma por não ter coragem de dar um passo mais perto, de correr riscos e ser mais forte. Ela sabe que é um erro, sabe o quanto vale esse erro, mas nem isso é o suficiente para a impedir de almejar.

E ela almeja tanto que dói. Ela quer juntar suas mãos e abraçar Milena, beijar cada imperfeição e sussurrar o quanto ela se importa, o quanto ela vale, mais do que qualquer outra coisa. Antes que ela saia, antes que Samira a perca.

Em vez disso, Samira sorri e fecha os olhos. "E você, meu anjo."

E se Milena sente algo dentro de si mudar, seu coração sincronizando as batidas com a respiração de Samira, ela não vai dizer.

Mas ela sabe.

Notes:

fiquei em pane com as movimentações de voto da casa hoje (08/03) e tive um surto enquanto ouvia algumas músicas que me faziam pensar em salena e tive a ideia de escrever sobre. não é necessariamente uma história com um final feliz, mas também não será triste!

recomendações de musicas: sol nos olhos - jorge e matheus, brutal - terno rei e by now - selma eriksen.

alias, eu nunca tive vontade de postar nada do que havia escrito antes, mas essas duas são muito cativantes ne? completamente salenizada! obrigada pra quem chegou até aqui, meus sinceros agradecimentos (votem no babu gente) :)