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Reina sobre mim - Parte 1

Summary:

O príncipe herdeiro Xie Lian, tem uma vida abençoada, enquanto Hong'er, o terceiro príncipe de Tonglu Shan, luta para sobreviver no harém de seu pai. Num banquete eles se conhecem e começam uma amizade onde o pequeno se inspira a cultivar e estudar, chamando a atenção de seu pai real e passa a concorrer à posição de herdeiro, sofrendo sabotagens que dificultam sua vida. Cansado das punições, Hong'er se sente miserável e confessa, em uma visita ao seu velho amigo Xie Lian, que sente ódio de tudo e todos e que almeja morrer. O jovem príncipe herdeiro acaba dizendo para que ele o usasse como razão de viver. O problema é que Hong'er tinha uma paixão por ele há tempos e como soube que ele estava montando um harém, pede para que ele possa participar da seleção de esposas. Xie Lian nega, já que Hong'er é muito novo, mas faz um juramento de que se ele não se tornasse príncipe herdeiro até a idade certa para se casar, ele o aceitaria, e lhe dá dicas e presentes para que possa sobreviver até lá. No entanto, Xianle é devastada e Hong'er se torna um rei, que busca por seu amado até reencontrá-lo e cobrar o juramento. Agora no harém do rei, Xie Lian ajuda a resolver velhos conflitos, enquanto Hua Cheng conquista seu coração.

Notes:

*Não há nenhum romance enquanto Hong'er é adolescente, é uma paixão unilateral.
*Xie Lian teve duas concubinas e teve filhos, mas a tragédia em Xianle destrói tudo o que ele tinha.
*Hua Cheng tem um harém e isso não vai mudar, ou não teria história.
*Eu me inspirei em dramas chineses de harém para escrever isso, principalmente em "Amor real de Ruyi no palácio".
*Por enquanto estou usando a classificação do harém da dinastia Qing que é a mais organizada, mas a história se passa num país fictício baseado na China antiga, então não há preocupação com acuração histórica.
*Os personagens principais são cultivadores.

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: Destinos cruzados

Chapter Text

       O clingor de espadas chocando-se era ouvido num dos pátios internos da Mansão Huaguan, onde residia o jovem príncipe herdeiro Xie Lian do próspero reino de Xianle. 

       O treinamento era árduo, mas o príncipe divertia-se com a atividade, assim como seus amigos próximos que o acompanhavam durante tais atividades, até porque estes também eram seus funcionários confiáveis e eram grandes cultivadores, assim como o jovem príncipe. 

      Já chega, sua alteza, eu me rendo! Clamou Feng Xin, o guarda pessoal de Xie Lian, responsável pelo serviço de inteligência do príncipe herdeiro. – Mais tarde visitaremos o Palácio Real, temos que nos aprontar e eu pretendo chegar lá inteiro! – O príncipe riu e concordou, embainhando sua espada na cintura. 

       Ainda naquela manhã, o Palácio Real receberia uma visita diplomática do governante de um reino vizinho, provavelmente com o intuito de formar aliança e fechar contratos comerciais. 

       O príncipe herdeiro de Xianle, além de possuir uma beleza incomparável, também era conhecido por ser multitalentoso, sendo proficiente em música, literatura, caligrafia e artes marciais, sendo assim, ele faria uma apresentação artística durante o pequeno banquete familiar diplomático para entreter seus pais e os visitantes. 

       Depois de treinar com Feng Xin, Xie Lian foi até seus próprios aposentos onde seu banho e suas roupas haviam sido preparados cuidadosamente por seu assistente pessoal Mu Qing, que também era um espadachim habilidoso, mas era particularmente responsável pelos assuntos internos da Mansão do Príncipe Herdeiro, como segurança, mantimentos e afins. 

       Após terminarem os preparativos, os três deixaram a Mansão Huaguan e dirigiram-se ao Palácio Real na carruagem do príncipe. Era um veículo elegante, com materiais de boa qualidade e com detalhes trabalhados cuidadosamente, o interior era confortável e acolhedor, no entanto, os luxos paravam por aí, já que o príncipe procurava manter um estilo de vida discreto e de baixo orçamento, apesar de isso ser contra a tradição da família real em suas extravagâncias. 

       Acostumado a cultivar desde criança, seu mestre lhe ensinou o valor das coisas simples e o aconselhou a seguir um caminho em que a frugalidade fosse valorizada onde possível e ele tentava influenciar seus pais para dar o exemplo à nobreza do país, mas não era uma tarefa fácil livrar-se de velhos hábitos, então ele fazia o melhor que podia para ser um exemplo ele próprio. 

       No Palácio Real, o Rei de Xianle e sua rainha já haviam recebido seus visitantes e conversavam alegremente durante o banquete casual no grande salão real, onde assistiam apresentações de dança e música. 

       O rei de Tonglu Shan era um homem alto, bonito e elegante, vestido com tecidos escuros, luxuosos, com padrões discretos bordados, seus enfeites eram de couro com detalhes de cobre e ossos de feras selvagens, seu cabelo negro tinha tranças enfeitadas com argolas e pedras preciosas, ele era muito atraente e seu estilo tinha elementos tribais, embora fosse ligeiramente rústico, ainda era muito elegante; ao seu lado estavam a sua rainha, vestida com trajes finos com estampas e bordados requintados, típicos de Xianle, já que ela vinha de Yong’an, uma grande província do país, e uma nobre consorte, com trajes amarelos vibrantes e bordados coloridos de pavão e peônias, nada adequadas para sua posição no harém e joias de ouro e jade, além de uma postura presunçosa e arrogante. Ambas eram muito bonitas, mas a rainha parecia cansada ou doente. 

       Ao seu lado estavam os filhos do rei, Bai Junwu, o primeiro príncipe de vinte anos, filho da nobre consorte; Lang Qiangqiu, o segundo príncipe de quatorze anos, filho da imperatriz e, por fim, o terceiro príncipe, que apesar de já ter dez anos, ainda era chamado, na melhor das hipóteses, por seu nome de bebê, Hong’er. 

       O terceiro príncipe era uma criança arisca e arredia, estava sempre negligenciado no Palácio e era intimidado até mesmo pelos servos, a mando da nobre consorte que era muito favorecida pelo imperador, tudo por que a mãe do menino, na época uma nobre consorte, fora calculada por ela, que era apenas uma nobre dama, em seus esquemas, acusada de matar herdeiros reais ainda no ventre de suas mães, fazendo com que a nobre consorte fosse rebaixada a plebeia e mandada para o Palácio Frio, onde foi envenenada e levada a óbito, deixando o pobre Hong’er sozinho no Palácio, recebendo menos que o básico, tornando-se uma criança introvertida e rancorosa, enquanto a cruel nobre dama foi eventualmente favorecida e promovida a nobre consorte no lugar de sua inocente mãe. 

       O pequeno vivia angustiado e faminto, apenas seu irmão Qiangqiu o ajudava às vezes defendendo-o como podia, dando-lhe comida e vestes novas. Nem mesmo a rainha podia dizer muita coisa, pois vivia deprimida por não receber o favor do rei e mal saía de seus aposentos, deixando o harém sob os cuidados tirânicos da nobre consorte que advinha do clã mais poderoso e influente de Tonglu Shan, devido a sua constante presença na família real, além de ter posse das maiores fontes de minério do reino. 

       Enquanto pensava em sua miserável existência, o pequeno Hong’er aproveitava a oportunidade para se fartar de comida, tentando manter o máximo de compostura possível, pois quase não fora trazido nessa viagem familiar e ele não queria correr o risco de ser privado desse privilégio no futuro por comportamento impróprio. 

       Em algum momento a música foi interrompida e um eunuco anunciou a entrada do príncipe herdeiro de Xianle. Hong’er não poderia se importar menos e continuou sua tarefa de apreciar os quitutes, até o momento em que tambores rufaram e uma música dramática começou a entoar, em seguida um deus marcial belíssimo entrou no salão agitando uma linda espada com uma borla elegante pendendo do cabo, fazendo movimentos graciosos no ritmo da música, girando rapidamente em torno de si mesmo e dando saltos mortais em pleno ar. Era como testemunhar um deus na terra. 

       Além da dança com a espada ser de tirar o fôlego, Hong’er não pôde ignorar as vestes daquele ser divino, eram brancas e diáfanas, com bainhas em vermelho brilhante, bordados dourados, joias de ouro com pedras de turquesa combinando com o cinto e brincos de contas de ágata de sangue. O terceiro príncipe nunca viu alguém tão majestoso e glorioso em toda sua curta vida. Estava hipnotizado, enfeitiçado, assistindo à apresentação atentamente quase sem piscar, como se perder um segundo sequer fosse um pecado. 

       Por fim a apresentação terminou, o príncipe cumprimentou os anciãos e foi ocupar seu lugar do outro lado do salão. 

       Xie Lian estava comendo alegremente, orgulhoso de ter feito uma dança de espada bem-sucedida, até que notou uma estranha movimentação do outro lado do salão, onde estavam os príncipes do reino Tonglu Shan. Aparentemente o pequeno príncipe saiu de seu lugar por debaixo da mesa e engatinhou até alcançar algo no chão, atraindo olhares feios e espantados de sua família, principalmente quando o pequeno correu timidamente em sua direção. 

       Xie Lian o observava com um sorriso gentil enquanto o garotinho estendia sua mãozinha por cima da mesa e mostrava-lhe seu brinco de ouro com ágata de sangue que ele nem notara que havia caído durante sua apresentação. 

       – Muito obrigado, dianxia! Você é muito gentil. Qual é seu nome? – Perguntou Xie Lian depois de receber o brinco. 

       – San Huangzi... – A criança respondeu timidamente com sua voz aguda e suas bochechas rosadas fofas. Xie Lian deu uma risada leve. 

       - Este é seu título, certamente San Huangzi é chamado por algum outro nome? - Questionou o príncipe herdeiro bem-humorado. O menino pareceu pensativo, como se tentasse se lembrar de algo distante. 

       - Honghong’er... - Disse ele por fim, sem muita convicção. Sua voz infantil era fofa e adorável, 

       – San Ge, volte para seu acento e não importune os mais velhos. – Ordenou a nobre consorte fazendo a criança saltar de susto. 

       – Ele não está me importunando Guifei. – Respondeu Xie Lian protetoramente com um sorriso educado e uma voz gentil. Em seguida ele chamou a criança para passar por debaixo da mesa sentando-o em seu colo. 

       – Taizi dianxia, não se engane com esse rostinho inocente, essa criança já tem dez anos, apesar de pequeno e franzino, é uma pequena raposinha traiçoeira, ele não tem educação ou disciplina e quando menos você esperar, morderá sua mão. – Retrucou ela com uma expressão brincalhona, como se estivesse se referindo a um cachorro vira-latas em vez de um príncipe real. A pobre criança fez beicinho e suas sobrancelhas franziram levemente. Se a guifei o estava humilhando abertamente, era fácil imaginar o que ela fazia no privado. 

       – Educar os filhos do rei é tarefa do harém, Guifei, se o terceiro príncipe está tão subnutrido e selvagem, há alguma coisa errada acontecendo. – Alfinetou Xie Lian com um adorável sorriso falso, enquanto alimentava a criança e o embalava docemente. 

       – Taizi dianxia...! – Iniciou a mulher enraivecida com uma expressão azeda. 

       – Guifei, já chega. – Interrompeu o rei de Tonglu Shan com uma expressão de tédio imutável. – Deixe as crianças em paz. 

       Calada ela ficou. Os Reis de Xianle apenas observaram o diálogo, analisando a situação. Eles conheciam o filho e sabiam que não adiantava intervir. 

       – Não se preocupe Guifei, mesmo que o terceiro príncipe fosse um tigre, nosso Lian'er tem um talento nato para domar feras selvagens. – Disse a Rainha de Xianle brincalhona. – Crianças e animais o seguem encantados como se ele fosse uma princesa dos contos de fada. 

       – Mu huang...?! – Resmungou envergonhado o príncipe em questão, sem saber se ria ou chorava com a piada de sua mãe, que havia trazido leveza e bom humor de volta para o ambiente. 

       O banquete correu bem, depois disso e Xie Lian conseguiu conversar um pouco com a criança em seus braços e sentiu-se profundamente afeiçoado. Ele percebeu que o menino era maltratado, descobrindo alguns hematomas em seus pulsos quando as mangas de seu traje vermelho desbotado desciam um pouco ao comer e se movimentar. Ele também era magro e muito pequeno para sua idade, seus cabelos e unhas eram opacos e sem viço, mais um indício de maus cuidados e desnutrição. Seu coração doeu. Um rei que deixa seu filho passar fome, certamente deixava seu povo padecer de coisa pior. 

       – Sua majestade real, eu tenho um pedido presunçoso. – Abordou Xie Lian educadamente, dirigindo seu olhar para o rei visitante. 

       – Pode dizer, sua alteza. – Respondeu o rei curioso. 

       – Eu gostaria de hospedar San Huangzi em minha Mansão durante a vossa estadia. Temo que Hong'er vá ficar entediado aqui no Palácio Real. O Er Huangzi e Da Huangzi são bem-vindos também, se quiserem. 

       – Ah, Fu Huang, permita, por favor? – Implorou o segundo príncipe com olhos brilhantes, enquanto o terceiro príncipe encarava Xie Lian com estrelas nos olhos. 

       – Tudo bem, mas não deem trabalho. – Permitiu despreocupado. 

       O primeiro príncipe não se interessou muito, mas agradeceu o convite. Mais tarde após o fim do banquete, Xie Lian se retirou educadamente na companhia das duas crianças e encontrou seus guarda-costas no caminho para a carruagem. 

       – Quando foi que sua alteza arrumou dois filhos? – Perguntou Mu Qing com um sorrizinho debochado. 

       – Eles não são fofos? Você realmente acha que poderiam ser meus filhos? Vamos nos divertir muito! – Respondeu ele empolgado com Hong’er em seu colo, agarrado firmemente em suas vestes como um pequeno filhote, brincando delicadamente com o brinco em sua orelha. 

       – Sua alteza, eles são príncipes, não brinquedos, temos que mantê-los seguros. – Alertou Mu Qing revirando os olhos com a leviandade da situação. 

       – Não se preocupe, nós somos bem grandes! – Ressaltou Lang Qianqiu empolgado dando pequenos saltos. – Eu soube que sua alteza é o melhor espadachim do mundo todo e que é um cultivador muito avançado para sua idade, eu ia amar aprender com você! É verdade que você já alcançou o nível imortal? 

       – Não e não... – Ele riu lisonjeado com a excitação infantil. – Mas eu ficarei muito feliz em ensinar vocês. Mesmo depois que vocês voltarem para Tonglu Shan, vocês podem me visitar sempre que quiserem e se hospedarão comigo. Ficarei honrado em recebê-los. 

       – Legal! – Exclamou Lang Qianqiu. 

       Assim, já na carruagem, os três príncipes e os guardas de Xie Lian dirigiram-se para a Mansão Huaguan.