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Elegia

Summary:

Baekhyun e seus amigos queriam fugir dos problemas quando embarcaram naquela viagem. Entretanto, o que prometia ser um refúgio tranquilo rapidamente se transforma em um cenário sombrio, onde acontecimentos estranhos sucedem e a morte parece sussurrar suas lamúrias e melancolia.

Work Text:

 

O vento contra o rosto era agradável.

Baekhyun observava a paisagem passando rápido através do vidro da janela, pulando a cada solavanco que o carro dava enquanto seguia pela estrada de terra, completamente alheio ao barulho de vozes dentro do automóvel. Os rapazes faziam barulho demais, o tempo todo. Mesmo que o Jeep Cherokee fosse consideravelmente espaçoso, seus amigos ocupavam mais espaço que o normal.

Embora o interior do carro estivesse repleto de vozes e o som do rádio tocando alto, olhar para os campos esverdeados, lagos e alguns animais passando fazia com que Baekhyun relaxasse. O campo sempre foi tido como um local de descanso, um lugar para onde você vai para fugir dos transtornos e do estresse da cidade grande, mas Baekhyun não imaginou que apenas observar dessa forma o fizesse sentir paz. Ainda que tivesse trazido um de seus problemas para a viagem.

Apesar disso, ele realmente sentiu que era uma ótima ideia aproveitar o feriado, largar os trabalhos, seminários e a monitoria da faculdade. Fingir, durante esse tempo, que não existia para o mundo.

Junmyeon dirigia definitivamente mal, o pior motorista que já viu em seus vinte e dois anos. Ele havia acabado de conseguir sua carteira de motorista, depois de várias tentativas falhas de obter ela por meios honestos e eticamente corretos. Não tinha como saber se ele nunca conseguiu por reprovar nas provas práticas, ou na teórica, ou se seus exames médicos e psicotécnicos constataram que ele não seria um ser humano responsável no trânsito. O que seus amigos sabiam era que dirigindo Junmyeon era um pecado e que seu pai, podre de rico como era, havia subornado todos os profissionais possíveis para que seu filho pudesse pilotar por toda a Coreia do Sul.

Os cinco dentro do carro eram loucos o suficiente para entrarem num automóvel dirigido por Kim Junmyeon.

A calmaria durou pouco tempo, num instante Baekhyun estava quase em outra dimensão e, no próximo, alguém estava cutucando seu ombro sem parar. Ele virou o rosto para ver Jongin sorrindo animadamente.

— E você, Baekhyun, se tivesse a chance de ir para qualquer lugar do mundo com uma pessoa, quem seria?

— É sério, gente? — questionou, surpreso com a vontade que os rapazes tinham em nunca calar a boca — Vocês procuram motivos para falar pelos cotovelos.

Ouviu-se apenas o ruído de reclamações.

— Baek, responde... Eu quero saber — Sehun pede, a voz ainda parecendo muito infantil para um cara do seu tamanho, sempre tão manhoso sabendo que Baekhyun acabava fazendo todas as suas vontades.

Ele lançou um pequeno sorriso para Sehun, feliz por ter conseguido trazer seu amigo, sempre tão quieto, junto na viagem.

Baekhyun estava amassado contra a porta do carro, Jongin estava ao seu lado, seguido por Kyungsoo e Sehun, este esmagado do outro lado. Eles haviam decidido através de pedra, papel e tesoura quem ficaria com o assento da frente ao lado de Junmyeon e Chanyeol venceu, para frustração de todos. Park Chanyeol era um cara convencido que odiava perder, por isso, quando ganhava – ainda que fosse algo tão idiota como o assento do carona – ele faria sua perda parecer ainda pior.

— Tá bem, tá bem — semicerrando os olhos, Baekhyun sorriu de lado enquanto olhares ansiosos pairavam sobre ele — Humm... eu acho que... aquele ator, Patrick alguma coisa. Swachi? Swing? Aquele que fez Vidas Sem Rumo.

Outro coro insatisfeito.

— Estamos falando de um de nós — Kyungsoo reclamou e todos soltaram murmúrios em concordância — Você está tão maravilhado com esse monte de gado passando na estrada ou só não sabe brincar?

— E você, com quem iria? — Baekhyun devolveu a pergunta, olhando diretamente para Kyungsoo como se esperasse uma resposta evidente, contudo, o rapaz de olhos redondos apenas fechou a expressão no mesmo instante enquanto encarava o amigo de volta, o carro finalmente afundando em silêncio.

Já haviam feito essa pergunta para ele antes de Baekhyun focar na conversa? Se sim, qual era a grande problemática da questão que ele não foi capaz de compreender?

— Então você só não sabe brincar — Kyungsoo murmurou.

Como se ainda não tivesse conseguido ler o ambiente, Baekhyun insistiu:

— Achei que a brincadeira era sobre respostas óbvias — disse, levando o olhar até Jongin ao seu lado. Foi somente nesse momento que percebeu o quanto o menino parecia constrangido, observando os dedos sobre o colo atentamente para não ter que olhar para ninguém.

Baekhyun sabia que nos últimos tempos o relacionamento dos dois vinha passando por algum tipo de crise, só não achou que fosse algo grave, principalmente pelo fato de os dois terem concordado em embarcar nessa viagem, onde seriam apenas os seis em um lugar onde ambos não poderiam fugir da presença um do outro como andavam fazendo. Pelo visto, a relação dos dois estava mais confusa do que havia imaginado. Baekhyun achou que fazendo essa pergunta, Kyungsoo seria capaz de responder com tranquilidade que iria com Jongin até a lua se pudesse, já que os amigos estavam envolvidos nessa aura de divertimento. Não era desse jeito, e ele sentiu o coração apertar percebendo que Jongin estava tão magoado e desolado, os cantos de sua boca tremendo levemente como se ele estivesse prestes a chorar com a falta de resposta de Kyungsoo que, aparentemente, não respondeu seu nome nas duas vezes que foi questionado.

Estava pronto para pedir desculpas quando o carro freou abruptamente, fazendo todos serem empurrados para frente com força. Em meio ao silêncio, só o que ouviam era o som da guitarra eletrônica e a bateria de Rock and Roll do Led Zeppelin escapando do rádio, um ruído extremamente alto para o momento.

— Porra... — Chanyeol ofegou, as duas mãos espalmadas no painel do carro.

Todos observaram a estrada à frente, tentando assimilar o que havia acontecido.

— Vaca dos infernos! — Junmyeon colocou a cabeça para fora da janela e gritou. Baekhyun pulou de susto em seu lugar quando ele pressionou a buzina sem parar para que o animal saísse do caminho.

— Seus pais tinham que ter um sítio — Chanyeol falou alto sobre o som da buzina e do rádio — Tinha mesmo que ser um sítio?

— E o que é que tem?

— Muito bicho? Inseto, poeira e eu esqueci meu Atari, mas já estamos longe da civilização e nem sei se lá tem TV-

— Cala a boca, Chanyeol — Kyungsoo reclamou, a combinação de sons fazendo com que ele cobrisse os ouvidos com irritação.

Quando o animal saiu do caminho, lentamente como se estivesse debochando de Junmyeon, o carro voltou para a estrada, o clima pesado havia sido completamente dissipado, porque era assim com eles: tudo se resolvia em questão de minutos. Pelo menos se não envolvesse sentimentos além da amizade.

Sehun foi quem quebrou o silêncio, depois de olhar para Baekhyun algumas vezes como se esperasse ansiosamente por algo.

— Baekhyun — ele chamou atenção do amigo, a voz mais suave dessa vez — Você não respondeu com quem iria.

— Sehun... podemos brincar de outra coisa para passar o tempo?

— É só uma pergunta boba, Baek — ele retrucou, o tom de voz demonstrando tédio, mas, no fundo, o garoto ansiava por uma resposta.

Baekhyun ficou quieto por um tempo, mordendo a língua para não dizer que uma pergunta boba tinha estressado Kyungsoo e deixado Jongin completamente desconfortável minutos atrás.

— Tudo bem... — ele observou atentamente cada um deles e ouviu os suspiros, sabendo que os amigos entenderam que ele precisava pensar minuciosamente quem, entre eles, seria o melhor para ter a companhia em qualquer lugar do mundo. Baekhyun pensou seriamente, pesando as vantagens e desvantagem com cada um, considerando pontos fortes como as aulas de defesa pessoal de Chanyeol, os contatos para cada situação da família de Junmyeon e a facilidade de Sehun em pensar calmamente estando sob pressão, lembrando que eles também se davam muito bem. Então decidiu — Sehun.

Kyungsoo, que já havia voltado ao seu bom humor rapidamente, sorriu com alguma malícia e bateu levemente no ombro de Junmyeon, fazendo-o rir também, os dois podem ter pensado que estavam agindo sutilmente, mas todos notaram. Sehun abriu um sorriso imenso, orgulhoso por ter sido escolhido, Jongin encarou Baekhyun por um tempo consideravelmente longo e Chanyeol sorriu fracamente para si mesmo, olhando para fora.

— Por que o Sehun? — Jongin perguntou.

Baekhyun encolheu os ombros.

— Ele é esperto, de exatas como eu, então se fosse para algum lugar onde tivéssemos que fracionar comida e água entenderíamos melhor e... a gente se dá muito bem, seria uma convivência tranquila.

— Você está dizendo que quem é de humanas é burro?

— Quem está dizendo é você.

— Eu também saberia fracionar comida — Kyungsoo disse e todos no carro deram risadas irônicas, outras muito sinceras — Qual a graça? O Jongin sabe que é verdade.

Baekhyun virou a cabeça para o lado e riu. Com o cotovelo encostado na janela aberta, ele usou a palma da mão para esconder os lábios. Era difícil ter que acompanhar a saga de Kyungsoo e Jongin sem poder fazer muita coisa, os dois claramente se gostavam muito, mas não sabiam resolver seus problemas de forma simples, tudo era complicado com eles. Kyungsoo era teimoso enquanto Jongin era muito tímido, uma combinação quase desastrosa num relacionamento tão bonito.

Era com a consciência tranquila que Baekhyun aceitava sua hipocrisia, julgando o relacionamento conturbado dos amigos como se ele não passasse por situações parecidas. Mas, se ele tivesse o direito de ser um pouco egoísta, Baekhyun diria que não entende como eles podem dificultar tanto suas próprias vidas, tendo inúmeras chances de fazer dar certo, quando a pessoa que ele ama está tão distante dele mesmo estando perto, tão perto que ele poderia esticar o braço e arrumar seus cabelos que estavam voando enlouquecidamente por conta do vento que pareciam incomodá-lo caindo nos olhos. Olhos grandes que quando o encaravam pareciam ver sua alma, ver seus sentimentos e perceber todas as coisas não ditas. Ele tinha medo de estragar tudo, o eminente medo de destruir o pouco que tinham se tentasse empurrar seus sentimentos para Chanyeol apenas para ver sua amizade acabar por causa disso.

— E você, Chanyeol? — Junmyeon perguntou, olhando para o lado no momento em que passavam por um buraco na estrada, os pneus esquerdos do carro afundando com força na lama.

 — Sei lá-

— Responde! — gritaram em uníssono, enquanto Baekhyun apenas observava, a mão ainda cobrindo os lábios.

— Baekhyun.

Sua resposta foi rápida, direta, como se ele soubesse o que queria responder sem precisar pensar. Baekhyun ficou envergonhado, querendo voltar no tempo e responder outra vez, gritar que queria ir com Park Chanyeol para qualquer lugar do mundo também. Mas já era tarde, o momento havia passado. Tudo entre eles era sobre o momento errado, nada funcionaria a favor dos dois, nem mesmo numa brincadeira idiota. Baekhyun nem percebeu que suas mãos começaram a suar, de repente. Um suor frio. O barulho de conversa voltou a preencher o ambiente sem que ninguém percebesse que Baekhyun havia ficado mais quieto ainda, apertando os joelhos com força por cima do jeans.

Exceto Chanyeol, que olhava para ele através do espelho retrovisor interno com os olhos quase brilhando, imaginando quanto, em uma escala de zero a dez, sua resposta havia pesado no coração de Baekhyun.

 

 

━━━━ ※ ━━━━

 

 

Baekhyun acordou no dia seguinte com pouca disposição.

O primeiro dia no sítio dos pais de Junmyeon não foi tão interessante quanto os garotos imaginaram que seria. Primeiro, ninguém parecia visitar aquele lugar há bastante tempo, à primeira vista a casa parecia incrível, espaçosa e bonita, mas assim que adentraram o fascínio acabou, o cheiro de mofo invadindo seus narizes. Os insetos tomaram conta dos cômodos, havia teias de aranha por todo canto e baratas mortas flutuando na água dentro do vaso sanitário. Em segundo lugar, motivo do cansaço de Baekhyun, é que passaram metade do dia trabalhando – removeram as teias de aranha do teto, varreram o chão, tiraram a poeira e encheram o lugar de desinfetante – ao invés de se divertirem.

No fim da noite, Baekhyun e Junmyeon retiraram tudo do porta malas do carro, levando as comidas que haviam trazido para a cozinha pois seriam responsáveis pelo jantar enquanto Chanyeol teve a brilhante ideia de sair noite afora em busca de gravetos para acender a lareira – levando Sehun junto contra a vontade do mais novo –, como se nunca tivessem visto uma em suas vidas. Jongin e Kyungsoo estavam terminando de limpar a casa, Baekhyun havia escutado a voz abafada de Kyungsoo em um dos quartos tentando se desculpar com Jongin, mas ele era horrível em se comunicar claramente, dando voltas e voltas na conversa antes de tudo ficar silêncio. Um beijo, talvez?

Baekhyun parou de ouvir depois disso, terminando de preparar o kimchi com um sorriso pequeno estampado nos lábios.

O caseiro que tomava conta da casa era um senhor baixo de cara amarrada, ele não pareceu se importar com as reclamações de Junmyeon sobre a sujeira no lugar, apenas ouvindo quieto. Mas, com aquele seu jeitinho manso de tratar as pessoas, Junmyeon dificilmente era levado a sério, sua voz devia apenas ter causado sono no caseiro. O velho pediu desculpa de qualquer forma, pouco se importando se o filho do patrão não gostava da visão de baratas correndo pelo assoalho, e deixou os seis sozinhos enquanto voltava para casa limpa e cheirosa enquanto sua esposa provavelmente estava preparando um jantar delicioso, deixando os rapazes com o kimchi de Chanyeol e as comidas enlatadas.

Para dormir foi ainda pior. Junmyeon era alérgico a praticamente tudo, por isso foram obrigados a abrir mão da cama menos empoeirada para ele. Kyungsoo acabou aproveitando que a cama era de casal e se jogou nela junto com o mais velho, o resto dos meninos tendo que encontrar outras camas ou se conformar com um colchão no chão. O mais divertido foi quando Junmyeon acordou sozinho na cama pela manhã, apenas para encontrar Kyungsoo dentro do abraço de Jongin no colchão que foi colocado no chão. Ele se sentiu no dever de acordar todos os outros em silêncio para ver a cena, desejando ter uma câmera fotográfica para guardar aquele momento para futuros subornos. Futuros, já que no momento ninguém tinha coragem de zoar os dois. Kyungsoo não gostava e ficaria irritado o dia todo, parando de falar se pudesse até sua raiva passar, o que deixava Jongin magoado. Porque Kyungsoo ignorava todos sem exceção, principalmente Jongin.

E Jongin amava demais Kyungsoo para o próprio bem.

Depois, eles esperaram os dois acordarem e, fingindo não terem visto ou percebido nada, tomaram café da manhã todos juntos.

Ao meio dia em ponto – Chanyeol havia constatado pelo relógio de pulso –, todos estavam descansando debaixo da sombra de várias árvores, alguns sentados e outros deitados na grama verde próximo ao rio que corria atrás da casa grande, a brisa gelada proporcionada com a ajuda da água batendo contra seus rostos, relaxando seus corpos. Estavam conversando preguiçosamente sobre a pequena ilha que viam do outro lado do rio, se perguntando quais animais vivem lá e se pessoas também habitavam a área.

Ao longe, o caseiro surgiu com seu boné velho e a mesma expressão de poucos amigos.

Cês esqueceram o molho de chaves na fechadura da porta — reclamou e jogou as chaves no peito de Junmyeon.

— Valeu.

O homem ficou parado de pé, os olhos passando de um por um como se estivesse julgando suas roupas esquisitas – camisas coloridas e shorts acima dos joelhos – que não se via rotineiramente pelos arredores, os cortes de cabelo estranhos, os corpos magros como se não comessem direito na capital. Um bando de moleques exóticos.

— Que é que cês tão fazendo aqui?

— Fugindo do cheiro daquela casa — Junmyeon começou, não em um tom provocativo — Escuta, Sr. Choi, o senhor sabe o que tem naquela ilha ali? — apontou.

O velho, Sr. Choi, observou a ilha por longos segundos, a testa franzida e a expressão começando a ficar sombria. Ele demorou a responder, retirou o boné apenas para coçar o topo da cabeça com uma mão rodeada de gaze e logo arrumou-o de volta, suspirando. Os rapazes entreolharam-se em genuína confusão, mas não abriram a boca. O Sr. Choi já era assustador o suficiente em sua normalidade, talvez fosse coisa de gente do campo.

— É melhor os moleques não saberem, gente da cidade grande se assusta com pouca coisa — disse por fim.

— Fala sério, o senhor nem conhece a gente, como pode saber? — Sehun reclamou, como se minutos atrás o grupo não tivesse se assustado apenas com o silêncio do velho.

— O pessoal da cidade é tudo igual.

— O senhor por acaso já foi lá alguma vez? — Junmyeon perguntou, sentando rapidamente com as pernas cruzadas, como uma criança pronta para ouvir histórias. Apesar de ter se irritado com o homem no dia anterior, ele parecia gostar bastante do Sr. Choi.

— Sim, uma vez.

Dessa vez, Kyungsoo foi quem fez a próxima pergunta, os olhos também brilhando de curiosidade.

— Conta para a gente? Adoro histórias assustadoras, principalmente quando são contadas durante o dia, quando elas não assustam — ele disse e os meninos deram risadas.

O rosto do Sr. Choi permaneceu impassível.

— Não é história, rapaz, é real. Quem coloca os pés na ilha não volta mais.

Kyungsoo expeliu ar pelo nariz, ainda mais desacreditado.

— E o que você está fazendo aqui? Com todo respeito... senhor.

O velho, para surpresa dos garotos, sentou-se na grama com eles. Soltou um resmungo como se suas juntas doessem com o ato e encarou um por um outra vez.

— Por muito pouco eu não volto... as coisas que vi lá, o que passei, não desejo nem para o meu maior inimigo. Eles tentam te enlouquecer e conseguem, se tiver a mente fraca.

— Eles? — dessa vez foi Baekhyun quem perguntou, sentindo um pouco de receio.

Todos sabiam que ele acreditaria em qualquer coisa que lhe contassem e Chanyeol, que estava ao seu lado, observou o menino com empatia, querendo descansar a mão em suas costas e livrá-lo da tensão, mas acabou apertando a mão em punhos para se conter.

— Os espíritos — Sr. Choi olhou para a ilha, fazendo com que todos olhassem também — Todos que morreram na ilha ficaram presos nela, atormentados. É como se não pudessem descansar em paz, perambulando sem rumo. Dizem que as almas perdidas dos que viveram lá buscam vingança, mas estão muito confusas para lembrar de quem devem se vingar. Por isso, se for azarado e acabar lá — apontou com queixo — pode se meter numa encrenca.

— Vingança pelo quê? — Baekhyun fez a pergunta que todos queriam saber, mas fingiam que não.

— A ilha costumava ser habitada por gente. Faz um tempo, cês nem eram nascidos. Antes das Coreias serem divididas nem as pessoas que moravam naquela ilha afastada escaparam dos soldados japoneses. Aqueles desgraçados ocuparam o lugar, forçaram os homens a trabalhar para eles e as mulheres a se prostituir. Mataram os poucos aldeões de lá. Tinham crianças também, aqueles soldados deveriam ser castigados só por isso. Não deixavam as pessoas usarem nem os próprios nomes.

“Os antigos dizem que, quando eles estavam entediados o suficiente, soltavam os homens com fome e sede mata adentro para lutar uns contra os outros pelas suas vidas, como se fosse um jogo para tirar os soldados do tédio. Brincando com a vida como se ela não valesse nada.

Depois dum tempo, dizem que esses homens japoneses passaram a ser atormentados pelos espíritos dos moradores da ilha. Agora eram eles brincando com os soldados, mexendo com a cabeça deles, fazendo eles enlouquecerem até a morte. Eles perdiam o controle e acabavam fazendo entre si como faziam com os prisioneiros, matando uns aos outros quando se sentiam ameaçados. Não restou nada mais que espíritos sem descanso vagando por entre as árvores e o solo”.

Sem perceber, Baekhyun havia segurado a mão de Chanyeol, ainda em punhos, com a sua. Apertando com força, concentrado no Sr. Choi que falava as coisas mais estranhas com o semblante mais tranquilo de todos.

Os rapazes permaneceram em silêncio, até Kyungsoo soltar uma risada incrédula.

— Isso é ridículo. A gente estudou história na escola para saber o quanto da sua é realmente verdadeira.

— Bem que dizem que as pessoas só acreditam vendo — o senhor resmungou, limpando o suor da testa — Escuta rapaz, eu sobrevivi sim, mas precisei deixar muito para trás. Aquela ilha é a casa dos mortos, por aqui a gente até chama de Ilha da Morte. O pessoal da redondeza quer distância desse lugar.

— E como foi enquanto o senhor esteve lá? — Jongin perguntou baixinho, o Sr. Choi precisou aguçar os ouvidos para entender o que ele havia perguntado.

— Já disse, as coisas que vi lá eu quero esquecer. Falar me faz lembrar. Cês já ouviram dizer que não se brinca com a morte? Foi isso que eu fiz com meus companheiros indo lá. E no fim, só sobrou eu para contar essa história.

— Como o senhor conseguiu?

O Sr. Choi suspirou e levantou a mão direita na altura dos olhos dos meninos, todos já tinham visto antes que ela estava enfaixada com gaze, um espaço grande entre seu polegar e o anelar. Quando ele não recebeu as reações que queria, desenfaixou rapidamente a mão, revelando uma marca longa já cicatrizada em meio aos calos e cicatrizes de quem vive no campo. Todos viram que o velho não tinha mais os dedos indicador e médio, a mão aberta em um formato estranho. Sehun não conseguiu segurar a risada rápida que escapou de sua garganta ao ver.

O homem apenas encarou Sehun, raiva contida antes de continuar.

— Eu costumava ter os cinco, quando era mais moço. Eles na ilha querem ver seu sacrifício, eu mesmo tive que arrancar os dedos e podem acreditar, moleques, dói muito mais quando mesmo tem que fazer o serviço.

— O que eles iam fazer com dois dedos seu? — foi Chanyeol quem questionou dessa vez, pela primeira vez começando a desconfiar da conversa estranha do Sr. Choi, mas sem realmente querer que ele parasse de falar. Sutilmente, ele havia virado a palma da mão e entrelaçado os dedos nos de Baekhyun.

— E eu é que sei? — resmungou de novo, começando a se irritar com a quantidade de perguntas que o grupo fazia — Eles gostam de ver a dor nos seus olhos, a mesma dor que devem ter sentido naquela época. Mesmo que eu tenha deixado apenas os dedos para trás, meu sacrifício foi muito maior — quando o Sr. Choi percebeu que havia capturado a atenção deles outra vez, abaixou o tom de voz para continuar — Sabem como é o sentimento de tirar a vida de um companheiro?

Todos ficaram calados, absorvendo suas palavras, uns muito mais assustados que outros. Baekhyun apertou a mão de Chanyeol, finalmente percebendo que elas estavam juntas, então levantou o olhar rapidamente, mas Chanyeol continuou focando sua atenção no Sr. Choi, o polegar fazendo um carinho sutil em sua mão. Os meninos estavam fazendo a mesma coisa, a atenção deles toda no velho que parecia misterioso; olhares desinteressados como se não acreditassem em absolutamente nada que ele disse, outros com medo até mesmo de olhar para a ilha outra vez, outros ainda pareciam confusos como se não fosse capaz de compreender a dor da qual ele falava e alguns sentindo até mesmo uma leve faísca de interesse na narração.

Quando nuvens cobriram o sol e lançaram sombras na terra, a ilha parecia ter mudado, de repente aparentando ser muito mais sombria do que antes. As copas das árvores balançavam com a força do vento como se estivessem estranhamente dançando.

— Bom — o Sr. Choi bateu no joelho, fazendo a maioria do grupo pular de susto — Deu minha hora. Até mais, moleques — ele levantou, esticou a coluna e limpou a sujeira da calça, se afastando tranquilamente.

— Isso foi... meio sinistro — Chanyeol murmurou.

Assim que todos foram gradualmente se recuperando da história que ouviram, os corpos voltando a relaxar da tensão que a maioria sentia, Chanyeol precisou separar sua mão da de Baekhyun para que seus amigos não percebessem. Ainda assim, o vínculo foi desfeito devagar, os dois claramente não querendo deixar o toque mesmo que as palmas de suas mãos estivessem suadas.

— Fala sério — Junmyeon falou rindo — Vocês não acreditaram nisso, não é?

— Ele foi meio que assustador — Jongin respondeu, as mãos passando pelos braços como se quisesse afastar os calafrios.

— Ele inventou tudo isso — Junmyeon empurrou Jongin levemente, sem acreditar que ele havia dado atenção para o que o Sr. Choi tinha dito. Jongin perdeu um pouco de equilíbrio, mas Kyungsoo pressionou a mão em suas costas para que ele não caísse.

— Como você pode ter certeza?

Junmyeon levantou, bocejando.

— O Sr. Choi perdeu aqueles dedos numa máquina enquanto processava madeira.

Em um primeiro momento o grupo ficou quieto, rindo logo em seguida, a ficha caindo de que foram feitos de trouxa por um caipira que precisava encontrar vítimas inocentes de longe para pregar sua pegadinha de mau gosto.

— Não brinca?! — Chanyeol se jogou na grama, sentindo vontade de gritar por ter sido enganado.

— Pois é, acho que eu tinha oito anos mais ou menos... ele deve achar que eu não lembro, mas como esqueceria aquele monte de sangue sujando a roupa de todo mundo? Impossível, era sangue para caralho.

— Mas ele mentiria sobre uma coisa dessas? — Chanyeol insistiu.

— Eu vi os dedos, Chanyeol, deixa de ser idiota — Junmyeon chutou levemente a perna longa de Chanyeol esticada no chão — O pessoal do interior é assim, sempre com história para contar. Ainda mais quando querem assustar as pessoas da cidade grande.

— Então é realmente mentira? — Sehun fez a pergunta mais uma vez, todos querendo a convicção de que não era verdade.

— Com certeza.

O grupo ainda ficou algum tempo no quintal da casa e perceberam, depois que a estranheza toda passou, que a ilha tinha voltado ao normal aos seus olhos. Momentos antes, quanto mais o Sr. Choi falava mais estarrecedora ela parecia de longe. Mas agora voltou a ser apenas uma ilha, eles se certificaram de fixar em suas mentes que o lugar não tinha nada mais que animais perambulando pela terra úmida.

Quando Kyungsoo reclamou de fome, todos concordaram em assar as carnes que trouxeram do lado de fora da casa, pois o cheio dentro dela ainda não tinha se dissipado completamente. Lentamente, um por um levantou-se do chão, seguindo em direção à residência.

Antes que Baekhyun acompanhasse os outros, sentiu seu braço ser segurado levemente, puxando-o para ficar para trás. Baekhyun virou para encontrar Sehun, parecendo sempre tão encantador, sorrindo como se pedisse desculpas antecipadamente por atrapalhar seus planos de voltar para a mansão.

— Posso conversar com você? Vai ser rápido.

— Tudo bem — sorriu.

Baekhyun ficou parado, mas Sehun não iniciou a conversa. Em vez disso, olhava para além dele, então Baekhyun virou o rosto apenas para ver Chanyeol parado no caminho.

— Vocês não vêm? — ele perguntou.

— Já estamos indo — foi o que Sehun respondeu.

Podiam ter passado horas, dias ou meses naquele momento. Tudo que Baekhyun enxergava era Chanyeol ainda parado em seu caminho, sem mover um único músculo, os olhos grandes mesmo de longe parecendo enxergar tudo em Baekhyun. Era como se ele estivesse pedindo algo somente com o olhar, mas Baekhyun não sabia o que poderia ser.

O que Chanyeol queria? Por que ele não podia simplesmente falar?

Baekhyun se moveu, apenas para virar o corpo todo na direção dele e Chanyeol quase abre os braços, achando que Baekhyun correria até ele. Que bom que não deu sinais de esperança, porque ele não se moveu mais que isso, não se aproximou, não correu até ele como se o escolhesse, nem mesmo abriu a boca para falar alguma coisa. Qualquer coisa.

Os olhos de Chanyeol ainda tinham um brilho bonito, sem querer desistir até o último segundo.

Talvez se Sehun não tivesse chamado sua atenção, fazendo-o se virar outra vez para ele, Baekhyun teria conseguido demonstrar para Chanyeol que estava tudo bem, ele podia ir na frente sem se preocupar. Talvez ele tivesse conseguido até correr em sua direção só para dizer que ele não sentia nada por Sehun, com um sorriso tranquilizante.

Mas não era assim que as coisas funcionavam entre eles, o mais comum era a forma exata como estavam encerrando esses olhares trocados no momento: Baekhyun ignorando o fato de que Chanyeol daria seu coração a ele, ali mesmo no quintal daquela casa.

Ele arrancaria do peito se Baekhyun pedisse. Ele faria qualquer coisa que Baekhyun quisesse.

E, ao que parecia, Baekhyun queria que ele fosse embora agora.

 

 

━━━━ ※ ━━━━

 

 

Agora que estava sozinho, Baekhyun fechou os olhos e respirou fundo. Ele já estava tão acostumado com o cheiro dentro da mansão que acabou esquecendo que estavam no campo, onde o ar era puro e refrescante, entrando nos pulmões agradavelmente.

Baekhyun estava muito pensativo.

 

— Baekhyun, o que eu tenho com você é mais do que jamais teria com minha própria família. Você é muito especial para mim.

— Sehun... eu não sei o que dizer, eu...

— Não precisa dizer nada, Baek. Eu posso esperar por você.

 

Era noite, o grupo estava do lado de fora bebendo as várias bebidas alcoólicas que trouxeram e fumando algo que Junmyeon conseguiu com alguém da universidade. Baekhyun já havia bebido o que seu organismo conseguia suportar e resolveu parar por um instante, se afastando dos amigos para relaxar.

Estava sentado na grama como o grupo havia feito mais cedo, o discman jogado ao seu lado enquanto ele deixava a música tocar no volume máximo, observando aquela pequena ilhota flutuando ao luar. Apesar disso, não era na ilha que estava pensando, sua mente estava distante, refletindo sobre sua vida em Seul e como tudo voltaria ao habitual quando voltasse.

Quando a música mudou outra vez, Baekhyun se jogou na grama com os braços abertos e os olhos fechados, o início quase sem fim de My Way Back trazendo-lhe conforto enquanto esperava a voz de Naul invadir seus ouvidos.

Talvez fosse o álcool em seu sangue, nublando sua mente, que dava a ele o poder de pensar em tudo que quisesse sem medo da repreensão.

Era possível que um dia as coisas funcionassem entre eles? Ou talvez seria melhor esquecer de vez, tentando com outra pessoa?

Ele conseguiria, não é?

Baekhyun poderia dormir naquele momento, contudo, assim que o refrão da música chegou, o vocalista cantando apaixonadamente sobre alguém que não conseguia dizer “eu te amo”, ele abriu os olhos.

Um grito escapou de sua garganta no mesmo instante.

Chanyeol estava de pé acima dele, com uma mão no bolso da jaqueta e outra em seu peito, olhando para baixo com uma expressão de surpresa.

— Você me assustou — Chanyeol reclamou.

Baekhyun sentou rapidamente, parando a música.

— Você que me assustou, seu filho da puta!

Chanyeol ignorou o xingamento que recebeu do garoto que respirava depressa, ainda se recuperando do susto, e sentou ao seu lado. Baekhyun o observou enquanto ele dava uma última tragada no baseado que estava fumando com o resto do grupo perto da fogueira, amassando o resto do cone na grama.

— O que você está ouvindo? E por que está aqui sozinho?

Baekhyun pegou os fones de ouvido e deu play na música outra vez, entregando um dos fones para Chanyeol. Ele demorou para responder, não estava com a mínima vontade de conversar, por isso quis ficar sozinho em primeiro lugar. Ele esperava que Chanyeol fosse esperto o suficiente para saber que seu silêncio era uma resposta.

Eles ficaram quietos na noite fria, a brisa ainda mais gelada do que pela manhã e o barulho da água do rio se tornando relaxante. A música era realmente melancólica para ser ouvida com outra pessoa assim, mas Baekhyun deixou-a tocar até o fim.

Era até engraçado como eles dois sempre ficavam confortáveis um com o outro, não importando as circunstâncias, no passado ou no presente.

— O que Sehun queria mais cedo? — Chanyeol fez mais uma pergunta e Baekhyun achava que esse era o problema dele: muitas dúvidas e poucas certezas. Pouca ação.

— Nada — respondeu simplesmente.

Chanyeol o encarou, bem de pertinho, querendo descobrir tudo apenas com um olhar. Mas Baekhyun estava impassível, difícil de ler no momento. Chanyeol odiava quando isso acontecia, ele costumava saber tudo sobre Baekhyun.

Ele conhecia as nuances do garoto, sabia tudo; quando ele estava feliz, quando estava triste, com raiva, decepcionado, quando deixava Chanyeol ganhar de propósito no Atari depois de várias derrotas seguidas, quando queria que ele se aproximasse para um abraço, quando queria carinho e quando queria espaço.

Ninguém no mundo conheceria Byun Baekhyun como Chanyeol.

— Você ainda está muito bêbado? — Baekhyun suspirou, irritado com a quantidade de perguntas num momento que ele não queria conversar. Isso Chanyeol percebeu, então continuou como se quisesse dar um fim naquilo — Posso te beijar?

Baekhyun virou o rosto, eles já estavam muito próximos, Chanyeol poderia beijá-lo sem sequer perguntar, apenas inclinando a cabeça. Mas ele era esperto o suficiente para respeitar o que Baekhyun decidisse.

— Não — foi sua resposta murmurada.

E no próximo segundo suas bocas estavam unidas.

Foi Baekhyun quem juntou os lábios, devagar como foi quando fizeram pela primeira vez, antes que o medo de perder a amizade se instalasse em suas mentes.

Baekhyun adorava o lábio inferior de Chanyeol, ele era mais cheio que o superior e muito macio. Tê-lo em sua boca e tocar com a língua sempre trazia uma sensação gostosa por todo seu corpo, era como colocar um doce na boca que nunca derretia. No começo, o beijo foi só isso, desejo obstinado de sentir os lábios um do outro como se esse pedaço de pele realmente tivesse sabores diferentes para cada pessoa. E deveriam ter mesmo, mas Baekhyun nunca saberia porque só conhecia o sabor dos de Chanyeol e tinha certeza que o garoto também só conhecia o seu.

A lista de músicas que Baekhyun gravou em seu discman ainda tocava em seus ouvidos, completamente esquecida.

Suas bocas estavam molhadas quando eles se afastaram alguns centímetros, suas salivas misturadas e transformadas em uma só. Baekhyun, secretamente, adorava quando isso acontecia, quando um pouquinho de si tomava espaço em Chanyeol. Com os dedos, ele sentiu a mistura no lábio inferior do outro, quase hipnotizado.

Chanyeol segurou a nuca de Baekhyun, sua mão grande ocupando praticamente todo o espaço, e o beijou mais uma vez, sem conseguir reprimir a vontade depois de ver como os lábios de Baekhyun estavam vermelhos, convidativos. Visível mesmo no escuro, mesmo que o primeiro beijo tenha sido tão lento. Baekhyun soltou um suspiro trêmulo quando suas línguas se encontraram dessa vez, as pálpebras pesadas como se nunca mais fossem abrir.

Ele se inclinou para frente, uma mão no peito de Chanyeol enquanto levava-o consigo para deitar no chão, seu peso todo sobre ele e uma perna entre as suas procurando equilíbrio. A busca frenética por contato entre os lábios, os corpos, seus corações... como se suas vidas fossem acabar naquela noite. Baekhyun beijou o queixo de Chanyeol, mordendo levemente, depois o maxilar. Mas o outro não queria isso, ele queria que suas bocas nunca mais se separassem. Ele virou o rosto para o lado quase choroso, as sobrancelhas se aproximando uma da outra no centro de sua testa e as mãos na cintura de Baekhyun, apertando, tocando além da roupa na pele fria, finalmente ganhando outro beijo. Depois abaixou perigosamente o toque, sentindo a coxa de Baekhyun pressionar entre suas pernas no momento que apertou sua bunda, suspirando contra a boca dele, o lábio inferior sendo capturado pelos dentes de Baekhyun e sugado, seguido por outro beijo que o deixou completamente rendido. Chanyeol poderia realmente morrer com Baekhyun agora, enquanto sentia o peso do corpo dele pressionando com força contra o seu, tirando todo seu ar.

Chanyeol não conseguia fazer com que ar suficiente enchesse seus pulmões, sua respiração era curta e cada vez que ele inspirava, Baekhyun expelia seu ar outra vez. Fosse com seus lábios, com as mãos puxando seu cabelo – suavemente, sem força alguma – ou quando ele ondulava o corpo contra o seu, juntando todas as áreas sensíveis que faziam seus olhos virarem, escondidos atrás das pálpebras fechadas. Era quase impossível acreditar que ele nunca havia feito essas coisas antes com alguém, Baekhyun era tão bom, tão perfeito. Nesses momentos, Chanyeol não entendia o porquê de eles terem tantos problemas em finalmente aceitar que eram atraídos um pelo outro e exibir orgulhosamente Baekhyun para o mundo como o amigo que ele sempre seria, mas também sendo muito mais que isso.

Quando Chanyeol retirou as mãos da bunda de Baekhyun, o menor parou o beijo apenas para resmungar algo que Chanyeol não conseguiu entender. Ele achou graça, sentando na grama com Baekhyun sendo obrigado a seguir em seu colo, e tirou sua jaqueta num movimento rápido. O vento gelado eriçou os pelos de seus braços, adentrando pelas aberturas largas de sua regata do Duran Duran.

Baekhyun arqueou as costas quando as mãos de Chanyeol fizeram seu caminho por baixo de sua camisa, puxando-a para cima até que seus mamilos estivessem visíveis. Quando a língua de Chanyeol passou em um deles, seguido por seus lábios fechando ao redor, Baekhyun deixou um gemido muito baixo escapar, olhando por um tempo para onde seus amigos estavam à distância. Os dois estavam escondidos pela escuridão, por arbustos e algumas árvores. Ele estava seguro para sentir tudo que estavam fazendo e explanar quando fosse demais. No momento em que Chanyeol tirou sua camisa de vez e o trouxe para outro beijo, ele se permitiu se entregar completamente.

Eles sabiam que nada daquilo significaria alguma coisa no dia seguinte, nem mesmo no minuto seguinte, então aproveitaram o presente, podendo culpar a embriaguez. As mãos que apertavam toda pele que tocava, que sentia com a ponta dos dedos e puxava para mais perto. Tudo isso seria culpa da embriaguez.

Na capital, quando tudo voltasse ao que era antes, os dois poderiam ser os covardes que sempre foram.

 

 

━━━━ ※ ━━━━

 

 

Foram necessários vários minutos para os dois voltarem.

Quando Baekhyun e Chanyeol retornaram para perto da fogueira, encontraram os amigos com a mesma animosidade com a qual haviam os deixado. As latas de cerveja, além das garrafas de whisky e gin que Junmyeon pegou do pai estavam praticamente vazias.

Baekhyun sentia que seus lábios estavam adormecidos, como se eles vibrassem e Chanyeol não estava muito diferente, ele sentia as pernas moles como se fossem feitas de gelatina, por isso sentou na primeira cadeira que encontrou no caminho.

Baekhyun sentou-se ao lado de Sehun na manta estendida no chão, dando um sorriso pequeno em direção ao mais novo, que retribuiu e se afastou para dar mais espaço.

— Onde vocês estavam? — Junmyeon quis saber, a voz saindo estranha e as palavras embaralhadas, parecia que ele estava engolindo a própria língua de tão bêbado.

Chanyeol enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e esticou as pernas.

— Eu disse que ia atrás do Baekhyun.

— Ué! E onde ele estava que precisou de todo esse tempo para achar? — Junmyeon insistiu.

— Olhando para a ilha.

Ninguém deu muita atenção à sua resposta, principalmente Jongin que já estava dormindo com a cabeça apoiada nas pernas de Kyungsoo, seus cabelos sendo penteados para trás enquanto a jaqueta jeans de Kyungsoo cobria a parte de cima de seu corpo. Junmyeon ficou confuso, lembrando que Baekhyun foi o que mais acreditou na história que o Sr. Choi havia criado para estar sozinho observando a ilha.

Então ele sorriu, deixando o assunto de lado. Os amigos podiam dizer que Junmyeon era o mais imaturo do grupo, por causa da criação que teve e a vida boa que levava, mas ele enxergava coisas que nenhum daqueles idiotas conseguiam ver.

— Tudo bem, Baek? — Sehun perguntou para Baekhyun, colocando uma mão em seu joelho, deixando um carinho leve embora o peso de seu toque parecesse errado. Baekhyun não achava que merecia a preocupação dele.

— Sim.

— Certeza? Você parece estranho. O Chanyeol fez alguma coisa?

Baekhyun ergueu a cabeça na direção de Chanyeol e arregalou os olhos quando percebeu que ele já os observava. Chanyeol não desviou o olhar, sua franja estava grudada na testa por causa do suor e ele deslizou mais o corpo na cadeira de plástico. Sentindo as bochechas esquentarem, Baekhyun virou-se para Sehun outra vez.

— Está tudo bem, Sehun.

Porque, de fato, ele se sentia incrivelmente bem.

 

 

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 — Bem aqui, essa é a canoa que meu pai costumava usar para remar.

No dia seguinte, o grupo sentiu como se tivessem dormido no meio da estrada enquanto um rebanho de gado passava por cima de seus corpos, a ressaca tão pujante que não acordaram antes das duas da tarde. Agora – com o sol em seu pico lançando raios solares diretamente nos olhos dos meninos, como se os castigasse –, eles estavam cobrindo a visão irritada com as mãos enquanto observavam o rio.

Nenhum deles soube exatamente em que ponto da brincadeira na noite anterior eles decidiram por isso. Com as lembranças turvas, eles sabiam que havia uma garrafa de whisky Glenavon Special Liqueur, certamente colecionável, girando no chão enquanto o grupo formava um círculo ao redor dela com muitas risadas e desafios idiotas.

Baekhyun lembra de Junmyeon perguntando “verdade ou desafio” para Chanyeol, que pediu preguiçosamente por desafio.

 

— Está bem, deixa eu ver... do que você mais tem medo?

— De nada.

Junmyeon riu.

— Fala sério, idiota.

Chanyeol ergueu uma sobrancelha, porque ele realmente não tinha medo de nada naquele momento. Ele sentia que tinha super poderes graças à Baekhyun.

— Nada — repetiu.

— E quanto à história do Sr. Choi?

— Muito menos dela, você mesmo não disse que é mentira?

Junmyeon se inclinou para frente, os dentes bonitos à mostra quando ele sorriu.

— Então eu te desafio... a ir até lá e ver com os próprios olhos se o que ele disse é real, ou não.

— Agora?

— Amanhã, quando a gente acordar. Pelo menos vamos ter uma coisa divertida para fazer nesse fim de mundo.

 

E agora estavam todos no píer de madeira na beira do rio, o relógio marcava pouco mais de três horas e os rapazes observavam a ilha do outro lado sem muita animação, mas ansiosos com o desafio de Junmyeon.

— Então eu só preciso entrar nessa canoa, ir até lá e voltar?

— Acho que sim — Sehun respondeu.

Jongin bufou, um pouco irritado com a confusão que os amigos fizeram enquanto ele dormia.

— Sério, Chanyeol? — ele reclamou, o tom quase irônico — Não achei que você fosse o tipo de cara que se sente obrigado a exibir masculinidade para provar alguma coisa. Isso é ridículo.

Com a dificuldade de alguém da cidade grande, Chanyeol desceu a escada pequena que levava até o rio para desamarrar a corda que prendia a canoa ao píer.

— Não tem nada a ver com isso, eu só não ligo mesmo para essas coisas. Tanto faz ir ou ficar.

Chanyeol subiu cambaleante na embarcação, tentando se equilibrar no centro enquanto ainda segurava a ponta da corda que estava envolta na escada. Dava para ver que ele não levava o menor jeito naquela coisa. Baekhyun olhou para os amigos, tentando enxergar neles a mesma preocupação, mas se deu conta de que parecia ser o único preocupado com a situação. Ele não queria que Chanyeol fosse, queria que ele ficasse quieto em seu canto e, de preferência, ao alcance de sua vista.

E se ele perdesse o remo na água? Não dá para remar sem remo.

E se a canoa afundasse? Chanyeol nem sabia nadar direito.

E se ele pisasse na ilha, voltaria bem?

Ele voltaria?

Antes mesmo que pudesse pensar em seus atos, Baekhyun já estava indo em direção à escada.

— Eu vou com você.

Chanyeol pareceu muito surpreso, puxando a corda para aproximar a canoa do píer já que Baekhyun parecia convicto, sua atitude não dando espaço para questionamentos. Ele abriu a boca algumas vezes na tentativa de falar alguma coisa, mas no fim desistiu.

Baekhyun entrou e a canoa balançou violentamente, fazendo Chanyeol segurar em ambos os lados dela na tentativa de equilibrar o peso. Baekhyun avançou sem querer, por conta da instabilidade, e caiu de joelhos com as mãos espalmadas no fundo da canoa em frente ao outro garoto. Chanyeol não conseguiu conter a risada.

— Você está bem? — perguntou com um sorriso e Baekhyun apenas acenou, sentando corretamente — Se não quiser não precisa fazer isso, Baekhyun. Eu vou ficar bem — levantou o remo se exibindo — Eu sei remar.

— Ah, ótimo — Baekhyun brincou — Me sinto mais aliviado agora.

— Não precisa mesmo fazer isso.

— Eu quero. Não posso deixar você ir sozinho.

Baekhyun fixou seu olhar em Chanyeol, tentando demonstrar sem palavras que iria com ele para qualquer lugar e Chanyeol não tinha poder algum para mudar isso. Não é como se ele quisesse, de todo modo, pois estava satisfeito com a ideia de ir para uma ilha sozinho com Baekhyun e todas as coisas que poderiam acontecer com uma chance como essa.

— Tudo bem casal, chega disso e me passem o outro remo — quebrando o momento os dois olharam para cima, observando enquanto Kyungsoo se aproximava também, descendo a escada de madeira até a água.

— Kyungsoo, o que você está fazendo? — Jongin quase correu até Kyungsoo, o cenho franzido por conta do sol e os cabelos muito longos voando contra o vento.

— Eu também vou.

Antes de embarcar na canoa – que apesar de grande começava a ter pouco espaço –, Jongin segurou a manga comprida da camisa de Kyungsoo, apertando o tecido.

— Esse desafio não tem nada a ver com você, é de Chanyeol.

— Mas o Baekhyun vai — Kyungsoo murmurou, segurando o pulso de Jongin para afastar sua mão.

— E você não é o Baekhyun.

— Qual seu problema?!

Jongin se assustou com a voz alta sendo direcionada a ele, os olhos arregalados de surpresa. Se passaram alguns segundos, muito longos para quem assistia, até Jongin engolir as palavras que desejava falar e levantar da posição meio ajoelhada, se afastando, seu all star vermelho fazendo muito barulho enquanto ele pisava com força no chão de madeira. Seus lábios tremeram levemente, mas ele estava de cabeça abaixada e ninguém viu.

Após um tempo de silêncio desconfortável, Baekhyun ouviu seu nome ser chamado de cima e sua expressão era de alguém que sentia culpa por algo quando focou em Sehun. O mais novo parecia magoado, ou talvez fosse raiva, ou podia muito bem ser uma mistura dos dois sentimentos.

Baekhyun sentiu um pouco de vergonha, sentindo as bochechas ficando quentes.

No dia anterior, quando Sehun pediu que eles ficassem para trás para conversar, ele não imaginou que Sehun fizesse uma declaração a ele. Baekhyun sorria, acreditando que fosse alguma coisa boba, mas então, quando ouviu as palavras, o sorriso foi dando lugar a um sentimento de desespero. Porque ele gostava muito de Sehun, mas como um amigo.

Sehun era um garoto incrível, ele era encantador e não existia um só pessoa que não quisesse vê-lo sempre sorrindo. Eles se conheceram antes mesmo de Baekhyun conhecer o resto de seus amigos e Sehun sempre foi atencioso, dando uma atenção que Baekhyun nem achava que merecia, mas ele não podia imaginar que ele se sentia dessa forma.

Eu gosto de você.

Foi o que Sehun falou por fim, simples assim. Tão corajoso como ele jamais seria. Baekhyun nunca recebeu uma declaração de amor na vida, mas desejava que todas fossem feitas com a pureza com que Sehun fez.

Mas Baekhyun não sentia o mesmo, ele não soube reagir e tudo que conseguiu foi pedir desculpa da forma mais carinhosa possível, querendo, de modo egoísta, que Sehun fosse maduro para sua idade para entender. Não tinha sido fácil, ele viu a expressão do menino, completamente desamparado, e se sentiu tão mal. Porque, apreciando ou não a ideia, era de Chanyeol que ele gostava e não podia enganar o mais novo com falsas esperanças.

— Você tem mesmo que ir? — Sehun perguntou, e Baekhyun lembra que durante a conversa que tiveram ele disse que poderiam passar mais tempo juntos durante a viagem. Se fosse uma promessa, ele estaria quebrando agora.

Baekhyun não gosta da sensação de que deveria ficar com Sehun e os outros, aproveitar o dia com Sehun como disse e esperar Chanyeol voltar, como se ir não fosse seguro para ele. Então culpou o medo que sentia pela história que havia escutado, uma coisa irreal.

— Eu só acho melhor que ele não vá sozinho, pode ser perigoso — respondeu por fim.

Sehun parecia magoado, mas não insistiu. Ele parecia ter um pouco mais de amor próprio do que Baekhyun, afinal.

Pensando isso, Baekhyun desejou poder retribuir os sentimentos.

No momento que Chanyeol começou a puxar a corda para dentro da canoa, Jongin voltou a falar com uma voz suave, quase como se estivesse com medo por ter abrido a boca.

— Kyungsoo...

Kyungsoo bufou, dessa vez contendo a acidez depois de se sentir envergonhado com o que aconteceu antes.

— Em menos de uma hora nós voltaremos, não precisa surtar.

Eles não costumavam intervir quando o assunto era Kyungsoo, ele ficava sem paciência com muita facilidade e o clima ficava desconfortável, mas o grupo nunca entendeu a razão de ele tratar Jongin dessa forma, a maioria deles não gostava de sua atitude. Baekhyun sentiu vontade de bater na cabeça dele com o remo e mandá-lo calar a boca, por muito pouco conseguiu se conter.

Ao ver que Jongin continuava encarando-o com olhos pesarosos, Kyungsoo soltou um longo suspirou e sugeriu que todos fossem para a ilha, assim ninguém ficaria para trás.

— Obrigado, mas não — Junmyeon falou, sentando no píer com os pés balançando para fora da estrutura.

— Com medo? Não foi você que disse que a história é falsa?

— E é — ele sorriu — Mas estou bem aqui, podem ir.

Jongin suspirou derrotado e desceu a escada também. Se não podia impedir Kyungsoo de ir então era melhor ir junto.

— Sehun? — Baekhyun chamou, receoso, sabendo que ele negaria porque apesar de ser compreensivo, Sehun também era apenas um menino recém saído da adolescência, ainda muito orgulhoso.

Chanyeol, sabendo que havia acontecido algo entre os dois, não conseguiu conter o revirar de olhos, virando o rosto para o lado na tentativa de esconder a expressão amarga de ciúmes.

— Vou ficar com Junmyeon.

— Tudo bem — Baekhyun sorriu.

A canoa foi finalmente empurrada para o rio, a maresia tranquila permitindo que Chanyeol e Kyungsoo remassem sem esforço.

 

 

━━━━ ※ ━━━━

 

 

Esforço era o que Chanyeol fazia sozinho ao puxar a canoa para a terra, quase desengonçado.

Os garotos demoraram trinta e cinco minutos para atravessar o rio, teria sido mais rápido se eles tivessem mais experiência. O grupo desceu da canoa com hesitação, a água cobrindo suas pernas até o joelho e o caminhar lento enquanto observavam a vegetação densa da ilha.

À medida que se aproximavam com curiosidade genuína, perceberam que não havia nada de assustador na ilha. O lugar na verdade era muito bonito, o barulho das ondas pequenas do rio batendo na beira soando agradavelmente nos ouvidos, a brisa gelada que vinha de dentro da vegetação batendo no rosto como se fosse uma carícia, as copas altas das árvores irregulares se destacando lindamente contra o céu, o ar era puro e tudo parecia intocável demais para um lugar que havia sido testemunha de mortes violentas.

O canto dos pássaros era alto e diverso, como se as várias espécies estivessem em alvoroço por receber visitantes.

— Podemos voltar agora? — Jongin quebrou o silêncio do grupo — Meus tênis estão cheios de água e é desconfortável.

— Calma, Jongin — Baekhyun girou devagar, olhando ao redor — Aqui é muito bonito — disse com um sorriso.

Depois de arrastar a canoa completamente para terra firme, Chanyeol se juntou ao resto com o mesmo olhar encantado observando tudo que era novo. Teria sido entediante vir sozinho para um lugar como esse, ter vindo apenas com Baekhyun teria sido incrível, mas ter vindo com seus outros amigos não foi uma experiência ruim.

Sem conversar muito, o grupo caminhou pela faixa de grama na beira do rio, a terra e água juntas transformando o solo em lama. Até mesmo Jongin observava tudo com verdadeiro interesse.

— O que vocês acham de a gente explorar?

Kyungsoo — Jongin advertiu, mas então logo fechou a boca. Não queria ser o integrante chato do grupo que sempre diz não para tudo, principalmente por medo de Kyungsoo perder o bom humor mais uma vez.

— Vai ser rápido.

— Se todos concordarem, eu topo — Chanyeol emendou.

Todos acabaram dando sinais positivos, entre um encolher de ombros, murmúrios de concordância ou um aceno com a cabeça.

Foi Chanyeol quem tomou a liderança da direção, o resto logo ao seu encalço. Não havia nada de diferente da área aberta em que estavam antes, apenas as copas das árvores se fechando e bloqueando os raios de sol e isso fazia parecer que era mais tarde do que realmente era. Chanyeol deu uma olhada em seu relógio e constatou que se aproximava das quatro e trinta da tarde e informou para os amigos que precisavam voltar até às seis horas.

Os ruídos também se intensificaram, o som de seus tênis pisando em folhas secas e quebrando galhos no caminho era alto, o canto das cigarras parecendo vir de todas as direções era irritante a ponto de incomodar os ouvidos.

Baekhyun caminhava devagar atrás dos outros três, por isso observou Kyungsoo e Jongin encarando-se algumas vezes, palavras não ditas parecendo flutuar entre eles e imaginou que os dois precisavam conversar. Foi então que ele apertou os passos e passou entre os dois garotos, seguindo na frente, se aproximando de Chanyeol com um sorriso.

Kyungsoo e Jongin caminharam mais devagar.

— Parece assustador para você? — Kyungsoo perguntou baixo, ainda envergonhado pela atitude que teve.

— Por incrível que pareça, não — Jongin sorriu brevemente — E para você?

— Normal.

Kyungsoo se repreendeu mentalmente como fazia milhares de vezes quando se tratava de Jongin. “Normal”, sério? Você já foi melhor. Ele encarou os amigos logo à frente e suspirou, juntando toda coragem que tinha para pisar em seu orgulho e puxou carinhosamente a mão de Jongin para a sua, entrelaçando os dedos. Jongin levantou a cabeça, surpreso, mas Kyungsoo continuava olhando para frente, o rosto ficando vermelho por saber que estava sendo observado. Ele apertou mais forte os dedos de Jongin e o garoto deu um sorriso pequeno.

— Kyungsoo... — ele sussurrou.

— O que foi?

Jongin parou, fazendo Kyungsoo voltar um passo para trás por conta de suas mãos unidas.

— Você não precisa se preocupar, eu sou paciente. Você sabe disso.

Kyungsoo abaixou a cabeça, com muita vergonha. Ele não tinha orgulho de quem era e como fazia as coisas, nem mesmo gostava de sua personalidade. Ele não conseguia entender o que Jongin tanto via nele, se ele mesmo não enxergava nada.

Droga, ele era a pessoa mais burra desse mundo.

Kyungsoo respirou fundo, mas não disse nada. Ele somente avançou o pouco espaço que tinha o separando de Jongin e deixou um beijo em seus lábios. Dentro da pequena floresta rodeada de água estava mais frio que o normal, mas ele sentiu o peito esquentar. Um calor que vinha do coração, um fenômeno que ele só conseguia sentir com Jongin.

Foda-se Baekhyun e Chanyeol, pensou naquele momento. Eles podiam brincar sobre isso mais tarde e Kyungsoo não poderia se importar menos.

Exceto que a dupla à frente também tinha o próprio universo pequeno que só eles compartilhavam.

— Sehun parecia chateado com você mais cedo.

— É, ele... — Baekhyun pensou melhor e preferiu não expor Sehun nem a conversa que tiveram, achava melhor preservar o mais novo e não dar motivos para que a relação dos três ficasse estranha — Ele tem suas razões, eu acho.

Humm, entendo.

Chegava a ser embaraçoso como eles estendiam e arrastavam as coisas dessa forma, tentavam suprimir algo que, ao que parecia, era recíproco e eles nem sabiam esconder com êxito. Talvez todos soubessem.

Menos Kyungsoo, lidar com sentimentos não era algo que ele fazia com maestria, isso era um fato entres eles.

 

 

━━━━ ※ ━━━━

 

 

Eles estavam andando em círculos.

— Meus pés estão doendo — Kyungsoo reclamou.

Já havia escurecido há algum tempo, o relógio de Chanyeol agora marcava seis e quarenta. Os ruídos na ilha pareciam mais sinistros à noite, ainda que fossem sons corriqueiros na natureza de grilos, cigarras e o zumbido de insetos próximo aos ouvidos. A sensação de que era mais alto do que deveria se dava ao fato de o grupo permanecer em silêncio o tempo todo, como se recusassem a admitir que estavam perdidos. Cada quebrar de galho vindo de longe fazia com que todos virassem as cabeças, assustados, procurando a fonte do som.

Além da escuridão, eles começavam a se preocupar com os tipos de animais que viviam na ilha – desde os de grande porte até os peçonhentos –, imaginando se poderiam ser atacados por algum, receosos em pisar em cobras venenosas pelo caminho.

— A gente já passou por aqui mais de três vezes, estamos andando em círculos — Kyungsoo bufou, sentando na raiz exposta de uma árvore grande.

— O que fazemos agora? — Jongin olhou ao redor, como se magicamente um caminho que os levasse para o rio surgisse de algum lugar. Ao não encontrar nada, levantou a cabeça, vendo como o céu parecia muito mais escuro do que deveria — Eu sabia que era uma péssima ideia vir aqui.

O grupo todo parou, já estavam cansados e a maioria sentia sede. Baekhyun colocou as mãos na cabeça, segurando os fios de cabelo e arrastando-os para trás, pensando no que poderia fazer para que encontrassem o rio novamente. Sem fonte de luz, ficava difícil enxergar muito longe.

Encontrando uma árvore espessa e cheia de galhos, ele teve uma ideia.

Os garotos acompanharam Baekhyun com o olhar, confusos, enquanto ele se aproximava da árvore. Encarando o topo dela e sua extensão por um tempo, planejando como faria para subir, Baekhyun sacudiu as mãos, alongando os dedos para tentar escalar com a ajuda dos galhos.

— O que você está fazendo, Baekhyun? — Chanyeol questionou.

Baekhyun não respondeu, ele fez duas tentativas falhas de subir e na terceira seus pés deslizaram, fazendo-o soltar o galho que usava para se sustentar, caindo no chão outra vez. Ele bufou.

— Eu vou subir para tentar enxergar o rio de cima, me ajuda — sem que Baekhyun precisasse pedir outra vez, Chanyeol foi até ele e juntou as mãos, as palmas viradas para cima na intenção de impulsioná-lo. Baekhyun pisou nas palmas dele e se jogou para cima, conseguindo firmar o pé no próximo galho mais alto, então começou a escalar, subindo o mais alto que podia, suas pernas tremiam um pouco mas ele ignorou seu medo de altura — Estou vendo! — ele sorriu, abaixando a cabeça rapidamente para encarar os amigos.

— Para que lado? — Kyungsoo levantou, relaxando como se o sentimento de alívio fosse algo solto no ar, rapidamente invadindo seu corpo.

Baekhyun desceu da árvore com mais dificuldade do que quando havia subido, precisando parar em alguns momentos – quando as pernas tremiam demais e a sola dos pés parecia coçar –, rasgando a pele do antebraço em um galho no caminho, que o fez soltar um palavrão. Ele pulou para o chão e escorregou levemente no musgo das raízes.

— Por ali — ele apontou para sua direita, limpando o pouco sangue do machucado com a ponta da camisa antes de liderar o caminho.

Essa situação toda estava começando a ficar irritante, ele não via a hora de chegar na mansão dos pais de Junmyeon e tomar um banho demorado que o livrasse de toda essa sujeira. Ele esperava poder rir disso depois.

 

 

━━━━ ※ ━━━━

 

 

Depois de caminharem mais uma hora e ter voltado para o mesmo lugar mais uma vez, eles finalmente encontraram o rio. O barulho das pequenas ondas criadas pela correnteza que batiam na margem foi ouvido pelo grupo antes mesmo de enxergarem a água. Mas estavam tão cansados, a fome e a sede mais presentes do que nunca, que não tiveram forças para comemorar a pequena vitória.

Contudo, eles notaram que algo estava diferente no local. Era como se o rio tivesse se aproximado deles, a caminhada para alcançar a água muito mais curta do que quando chegaram.

Baekhyun engoliu em seco, a saliva espessa.

— Como...

— O rio — Chanyeol encarou um ponto à distância — Ele subiu demais... levou a canoa.

Kyungsoo soltou uma risada seca.

— Você só pode estar brincando.

— É claro, Kyungsoo. Estou tirando uma com a sua cara — Chanyeol respondeu com o mesmo tom cínico, virando-se para Kyungsoo com uma expressão irritada.

Kyungsoo não gostou da forma como Chanyeol o encarava, então se aproximou, pouco se importando com a diferença de tamanho entre eles, e empurrou-o com força. A única reação de Chanyeol foi pura surpresa após tropeçar para trás, ele ainda estava parado sem entender nada quando Kyungsoo avançou de novo e pressionou as mãos em seu peito, empurrando outra vez.

— A culpa é sua, Chanyeol! Por que você não prendeu a porra da canoa em algum lugar?!

— Não tinha como adivinhar que o rio subiria até aqui!

— Isso é porque você é um grande imbecil!

Jongin fechou os olhos e cobriu o rosto com as mãos, estressado com os gritos que faziam sua cabeça, que já estava doendo, latejar. Ele ouviu a briga infundada que continuava aumentando até não aguentar mais, se aproximando de Kyungsoo e puxando seu pulso com força, afastando-o de Chanyeol.

— Chega, Kyungsoo! Cala essa boca!

Para surpresa de todos, Kyungsoo realmente ficou calado. Seu peito subia e descia freneticamente, evidenciando sua raiva, mas permaneceu quieto enquanto encarava Jongin. Por fim, ele puxou o braço, sem muita força, e bufou virando de costas, as mãos indo para o cabelo, bagunçando os fios como se quisesse descontar sua frustração.

Houve outro momento quase sem fim de silêncio, completamente desconfortável.

Foi Jongin quem resolveu falar outra vez.

— O que fazemos agora? Eu não quero passar a noite aqui — seu tom soou repreensivo, como se estivesse falando com um bando de crianças.

— Vamos ter que esperar, Junmyeon e Sehun vão perceber que há algo errado e virão nos buscar — Baekhyun manteve a voz baixa, na intenção de não aflorar os ânimos.

— Então é isso? Só esperar?

Baekhyun desejou poder fazer algo por Jongin, por todos eles, mas realmente não havia o que ser feito além de esperar. Nenhum deles podia fazer algo a respeito, já que estavam na ilha com a intenção de uma visita rápida de poucas horas.

O pior de tudo era que, provavelmente, precisariam voltar para dentro da vegetação. Baekhyun nem lembra mais do que achou belo na ilha quando chegaram, agora tudo que via era uma escuridão densa e barulhos desagradáveis, mesmo os mínimos ruídos causando ansiedade e agonia. Não parecia seguro voltar, tampouco ficar onde estavam.

Chanyeol sentiu que o rio continuava subindo, então informou ao resto que eles precisavam subir a margem de qualquer forma. Conforme caminhavam, Baekhyun conseguiu ver que os troncos das árvores tinham marcas de água que eram antigas e já estavam impregnadas, mostrando que o rio sempre subia até aquele ponto da margem. Ele se sentiu um grande idiota da cidade grande, assim como o Sr. Choi havia falado, por não ter notado antes.

Seus passos eram lentos e hesitantes enquanto voltavam para dentro da floresta, suas respirações soavam altas demais, mas não por causa do silêncio e sim porque estavam cansados e eram um pouco sedentários para uma aventura como essa. Pelo menos Baekhyun quis encarar assim, como uma aventura, mas podia ver pelo comportamento dos amigos que eles estavam tensos, com medo.

Todos sentaram no chão, próximos uns dos outros.

— Eu acho... acho melhor não dormimos todos de uma vez, alguém precisa ficar acordado. Quando a ajuda chegar é melhor alguém ouvir — Baekhyun falou mansamente.

Eles apenas concordaram com a cabeça, mesmo achando difícil que fossem pegar no sono aquela noite.

Os sons que a natureza fazia à noite pareciam ser feitos com intuito de afastar visitantes indesejados. Se durante o dia os pássaros cantavam como se dessem boas vindas, durante a noite os insetos reclamavam como se sua privacidade estivesse sendo invadida. Baekhyun ouvia muitos barulhos e não sabia identificar todos; o vento balançava os galhos das árvores com força e seus troncos formavam contornos assustadores no escuro.

Os garotos estavam tão próximos que era possível sentir o cheiro de suor misturado com lama e sangue de seus pequenos cortes. Um odor que chegava a embrulhar seus estômagos vazios. Ao longe, uma voz pareceu ecoar, mas tão distante que parecia que o vento havia trazido apenas o sussurro de alguém. Ninguém falou nada, mas todos ouviram.

Não havia intenção de iniciarem uma conversa ou qualquer atividade que desviasse a atenção do momento, as falas se resumiam a perguntar a hora, que parecia nunca passar. Chanyeol forçou a vista para enxergar os números e ponteiros, anunciando que se aproximava das oito da noite quando Baekhyun perguntou, no que pareceu ser horas após Kyungsoo ter feito a mesma pergunta.

Num solavanco, Chanyeol levantou, assustando os três garotos que o observavam com os corações acelerados.

— Vai se foder, Chanyeol! — Kyungsoo deu um grito sussurrado, a mão esfregando o peito tentando acalmar os batimentos cardíacos.

— Foi mal, gente. Eu preciso muito mijar — falou apressado, já dando pequenos passos para longe.

O grupo ficou sem reação por um tempo, até Kyungsoo levantar também, confuso.

— Você vai se enfiar sozinho no meio do mato? É um imbecil mesmo, você não sabe nem onde fica sua direita e esquerda.

Chanyeol parou no caminho, avaliando as palavras de Kyungsoo e decidindo ficar por perto, é claro que não se atreveria a se afastar muito já que não gostava da ideia de ficar distante do grupo.

Kyungsoo suspirou, muito cansado para ter qualquer reação rotineira sua de xingar e perder a paciência, e se preparou para ir com ele. Era sempre assim entre eles, num instante tudo se dissipava e voltava ao normal. Contudo, Jongin também ficou de pé e segurou o braço de Kyungsoo, pedindo para ele ficar com Baekhyun, alegando que também estava apertado há algum tempo.

A contragosto, Kyungsoo sentou outra vez ao lado de Baekhyun, as costas apoiadas no tronco de uma árvore.

Baekhyun não apreciou o silêncio dessa vez, então para preenchê-lo, ele tentou iniciar uma conversa. Seu antebraço ainda ardia e ele não via a hora de voltar para o outro lado do rio e limpar o ferimento.

— Você também quer ir? — murmurou.

— Não.

Baekhyun pressionou as pernas contra o peito, deitando a cabeça nos joelhos. Infelizmente Kyungsoo não pensava como ele e ainda preferia o silêncio.

— Eles já vão voltar — disse por fim.

Baekhyun se pegou pensando em como seria quando voltassem para a mansão. Será que Kyungsoo e Jongin finalmente resolveriam as coisas entre eles após compartilharem um dia estranho como esse? Chanyeol ainda diria que não tem medo de nada depois de passar uma noite numa ilha assustadora? Ele riu nasalado, pensando que Chanyeol poderia inventar uma história mais assustadora que a do Sr. Choi enquanto eles faziam outra fogueira do lado de fora da mansão ou na mesa de jantar enquanto sentiam o cheiro já familiar de coisa velha que a casa tinha. Sehun e Junmyeon acreditariam, eles eram inocentes o suficiente para acreditar porque Chanyeol era convincente da mesma forma.

Kyungsoo suspirou alto ao seu lado e Baekhyun virou a cabeça, ainda reclinada em seus joelhos, em direção a ele.

— Não consigo ver eles — Kyungsoo murmurou.

— Devem estar fofocando, falando mal de você — ele tentou soar ao menos um pouco descontraído, mas percebeu que não havia funcionado já que Kyungsoo pareceu não ouvir, olhando para onde Chanyeol e Jongin tinham caminhado.

Baekhyun sabia que não deveria ter passado mais do que dez minutos desde que eles saíram, mas o tempo agora parecia diferente, a impressão era que eles haviam se separado há horas. Kyungsoo não escondia o nervosismo, exausto demais para fingir normalidade, ele olhava freneticamente para o mesmo ponto, em seguida procurava ao redor. Diferente de Baekhyun, que apertava os braços ao redor das pernas com força para se impedir de expressar qualquer grau de pânico, mantendo a aparência calma.

— E se eles se perderam? — Kyungsoo sussurra.

Baekhyun balança a cabeça de um lado para o outro.

— Não, eles não devem ter ido tão longe para se perder.

O canto das cigarras parecia entorpecer suas mentes, Baekhyun sentia vontade de cobrir os ouvidos para suprimir o sibilo, mas era tão alto que parecia vir de dentro de sua cabeça. Ele se encolheu, um sentimento desagradável consumindo seu corpo.

Então um grito.

Parecendo vir de todos os lados, eles ouviram claramente a voz de Chanyeol.

Baekhyun e Kyungsoo levantaram rapidamente, a pulsação acelerada enquanto viravam para todos os lados com olhos arregalados. Eles não viram nada, mas ouviram sons de passos quebrando galhos enquanto pisavam forte no chão.

Outro grito ecoou, então eles avançaram mata adentro em busca de seus amigos.

— Chanyeol?! — Baekhyun chamou, mas não houve resposta.

Baekhyun só conseguia pensar em encontrar Chanyeol e Jongin, esquecendo que Kyungsoo também estava com ele, o que fez Kyungsoo não ter escolha a não ser ir para onde ele ia com intuito de não se perderem um do outro. Eles correram, as respirações começando a ficar descompassadas, procurando por rostos familiares ou algo visível entre o breu.

Baekhyun ouviu passos, passadas apressadas de alguém correndo, e parou abruptamente na tentativa de ouvir com clareza. No próximo minuto, ele sentiu uma mão puxando seu braço e virou-se rapidamente com intenção de revidar sem mesmo ver com nitidez do que se tratava. Mas, então, ele viu o rosto familiar de Chanyeol, com a respiração ainda mais errática que a dele, cansado.

— Temos que sair daqui! — foi a única coisa que ele disse antes de puxar Baekhyun com força.

— Chanyeol... onde está o Jongin? — Kyungsoo perguntou, olhando ao redor.

Chanyeol engoliu em seco, atrapalhando a própria respiração antes de se aproximar de Kyungsoo, ainda com os dedos pressionando com muita força o braço de um Baekhyun inerte, e puxar sua camisa, trazendo-o para sua frente apenas para sussurrar que eles precisavam correr.

Kyungsoo não conseguiu reagir a tempo, assim que Chanyeol segurou seu braço também ele apenas seguiu, tropeçando no caminho até começarem a correr de verdade. Foi somente quando já estavam um pouco distantes do lugar onde haviam decidido descansar que ele conseguiu voltar a si.

— Chan... yeol... — Kyungsoo falou tentando recuperar o fôlego enquanto ainda corriam — Para... para! Para de correr!

Chanyeol desacelerou os passos, ele olhou para trás em busca de algo e, ao não ver nada ameaçador, se apoiou nos joelhos, respirando com muita dificuldade. Baekhyun estava muito assustado, ele observou Chanyeol como se estivesse prestes a chorar. Assim que sua visão conseguiu focar o suficiente em seu rosto, percebeu que além da sujeira havia lágrimas e... sangue?

— Chan-

— Onde está o Jongin?! — Kyungsoo o cortou, gritando furiosamente — Qual seu problema... por que deixou ele para trás?! Temos que voltar agora.

Kyungsoo não esperou que algum deles concordasse, ele simplesmente virou e tentou correr. Mas Chanyeol foi mais rápido, ele se apressou para frente de Kyungsoo, bloqueando seu caminho com as mãos pressionadas em seus ombros, apertando com força para machucar.

— Não é seguro... — disse entredentes, tentando colocar algum juízo em sua cabeça.

Kyungsoo empurrou seus braços, a expressão incrédula e raivosa.

— Você é um filho da puta insano se acha que vou deixar ele sozinho por aí.

— Havia... havia alguém...

— Isso não tem graça, Chanyeol! Onde-

— Tinha alguém lá! — Chanyeol gritou de volta, sua voz grave trazendo arrepios — Eu estava esperando Jongin terminar e então... — sua voz quebrou, ele esfregou furiosamente as lágrimas que molhavam seu rosto.

— Onde está Jongin? — dessa vez a voz de Kyungsoo soou trêmula, embargada e ele tentou engolir a sensação incômoda que se formava na garganta, interrompendo sua fala por alguns instantes — Chanyeol...

Chanyeol balançou a cabeça.

— Eu não sei, eu-

— Então temos que voltar!

Chanyeol agiu rápido outra vez, segurando o braço de Kyungsoo para impedi-lo.

— Não é seguro, Kyungsoo.

— Chanyeol, precisamos voltar para buscar o Jongin — Baekhyun falou baixo, finalmente encontrando sua voz enquanto segurava a vontade de chorar que sentia apenas vendo o estado de Chanyeol.

Sem esperar a resposta de Chanyeol, Kyungsoo se desvencilhou dele mais uma vez e correu, desaparecendo na escuridão em direção ao local onde estavam. Baekhyun lançou um último olhar para Chanyeol e balançou a cabeça de um lado para o outro, como se pedisse desculpa, antes de seguir o amigo pela ilha.

Enquanto isso, Kyungsoo não conseguia ouvir um barulho sequer, nem mesmo a própria respiração acelerada, sua mente estava entorpecida enquanto corria sem rumo. Ele xingava baixinho quando as raízes desregulares das árvores no chão o faziam tropeçar, como se quisessem segurá-lo, prendê-lo no lugar para que ele não chegasse até Jongin.

— Jongin! — ele gritou, mas tudo que recebeu foi silêncio. Então gritou outra vez, e outra e outra. Todas as chamadas foram engolidas pela noite.

Ao perceber que havia voltado para o ponto que estavam antes, seu passo diminuiu, os olhos atentos e inquietos. Havia lágrimas manchando seu rosto, mas Kyungsoo não sentiu. Ele não sentia nada além de angústia e medo.

Com as mãos pressionando a cabeça, Kyungsoo virou em direção aos passos que ouviu. Era Baekhyun, com a mesma expressão assustada que ele tinha, e Chanyeol logo atrás. Ao ver seu rosto manchado com sangue agora seco, Kyungsoo caminhou furioso até ele puxou a gola de sua camisa, os punhos fechados com força no tecido, conseguindo inclinar Chanyeol com facilidade – dado o corpo flácido –, até sua altura.

— O que aconteceu com vocês? — Kyungsoo perguntou com o rosto quase colado no de Chanyeol.

Percebendo que eles estavam prestes a perder o controle da situação, Baekhyun interviu, segurando um braço de Kyungsoo na tentativa de afastar os dois.

— Kyungsoo, você precisa...

— Me leva até ele!

Chanyeol colocou as mãos sobre as de Kyungsoo e se libertou do aperto com dificuldade. Ele parou por um instante, tentando regular a respiração e fechou os olhos brevemente. Sem falar nada, ele caminhou devagar até onde lembrava de estar com Jongin antes de tudo acontecer. Os três se assustavam com qualquer som que ouviam, olhando em todas as direções com cautela.

Baekhyun virou o rosto para o lado apressadamente no momento em que chegaram, não enxergando mais que um par de all star vermelhos, os olhos enchendo de lágrimas instantaneamente.

Não foi preciso que ninguém falasse nada. Eles viram.

Certa vez Baekhyun leu um poema na biblioteca da faculdade, que falava sobre a rapidez com que as pessoas desaparecem do mundo. O autor se despedia de um amigo que partiu abruptamente sem que ele tivesse chance de dizer adeus. Baekhyun sempre soube que a morte não avisava sobre sua vinda, mas sempre esperou que os humanos tivessem a chance de se despedir uns dos outros, ainda que sem saber, como se o universo trabalhasse para que houvesse um último encontro. Em meio ao silêncio que se formava agora, ele descobriu que não era bem assim.

Um sonido que pareceu fisgar diretamente o coração de Baekhyun escapou da garganta de Kyungsoo. Ele nunca tinha ouvido um som tão horripilante em sua vida. Era um grito, mas também não era.

Apesar da cena que via, Kyungsoo não conseguia ao menos piscar, seus olhos também estavam totalmente afogados em lágrimas que caíram sem que ele precisasse fechar as pálpebras, tão forte era o fluxo. Ele cobriu a boca com as mãos e abafou um grito.

Jongin estava deitado no chão em uma posição que parecia desconfortável, a cabeça virada na direção dos três e os olhos parcialmente abertos. Não os orbes brilhantes e brincalhões que os amigos conheciam, mas opacos e desfocados. Sua consciência a muito não estava ali. Sua boca estava entreaberta enquanto uma linha vermelha descia até os ouvidos, um corte profundo e mal feito na garganta fazia sangue jorrar pelos vasos sanguíneos corrompidos.

Kyungsoo caiu de joelhos.

Baekhyun continuava encarando o chão. Sem ter coragem para olhar outra vez, ele apertou os braços fortemente ao seu redor numa espécie de abraço solitário. Ele conseguia ver Chanyeol, olhando atentamente para Jongin, sem conseguir conter os espasmos causados pelo choro que tentava a todo custo controlar. Kyungsoo enxergava apenas um borrão, lágrimas bloqueando sua visão e ele achava que isso era uma dádiva.

Ele não queria ver. Não queria acreditar.

Nem mesmo há poucas horas naquela tarde Jongin estava de mãos dadas com ele, apertando seus dedos com vivacidade.

Ontem eles estavam ao redor de uma fogueira e Jongin estava sorrindo para eles.

 

— Você está com sono? — Kyungsoo perguntou quando voltou de dentro da casa com alguns salgadinhos.

— Só um pouco — Jongin piscou lento.

— Quer? — ele abriu uma embalagem de Banana Kick e ofereceu, sabendo que era a embalagem favorita de Jongin porque tinha um desenho que parecia uma banana fantasiada de casca de banana chutando uma bola de futebol.

Jongin negou, balançando a cabeça devagar.

Kyungsoo sentou ao lado dele e ficou encarando seu perfil bonito, Jongin estava bêbado, mas a lentidão não era por isso. Seus olhos estavam fechando o tempo todo e quando a cabeça pendia para frente ele se assustava.

Retirando a jaqueta, ele esticou as pernas e segurou a nuca de Jongin suavemente, fazendo com que ele deitasse. O garoto nem pensou, somente se rendeu ao sono enquanto sentia mãos quentes fazendo uma carícia em seus cabelos e o vento gelado ser bloqueado pela jaqueta que o cobria.

 

Não podia ser real... e mesmo assim, quando se aproximou, os joelhos e mãos arrastando no chão, as unhas acumulando sujeira, ele conseguiu ver claramente o rosto do garoto que amava completamente sem vida.

— Jongin... levanta...

Kyungsoo tocou no rosto frio, as mãos tremendo e o coração quase parando. Seu rosto estava contorcido, cheio de dor. Mas seu choro era mudo, Kyungsoo queria poder chorar exageradamente, para que assim toda aquela sensação de perda deixasse seu corpo, mas não conseguia. Ele apenas murmurava coisas incoerentes e, entre tantas palavras sem sentido, pedidos de desculpas sem fim.

Que perdoasse ele por ser quem era. Por ter sido alguém que Jongin não pôde contar desde que se conheceram.

Baekhyun respirou fundo algumas vezes, criando coragem para se aproximar e interromper um momento como aquele, e se agachou ao lado de Kyungsoo com a mão sem seu ombro. Ele não olhou para Jongin uma única vez.

— Kyungsoo...

Kyungsoo balançou a cabeça freneticamente, negando.

— Eu não vou sem ele. Vocês podem ir, mas eu não... eu... não posso — ele acariciou a bochecha de Jongin — Há tantas coisas que eu não disse. Ele ainda precisa ouvir...

— Por favor — Baekhyun tentou outra vez, tentando falar com firmeza mesmo que as lágrimas ainda caíssem sem sua permissão — Levanta, a gente tem que sair daqui e procurar ajuda, tem alguma coisa acontecendo. Nós vamos voltar depois para buscar-

— Não! Eu não vou a lugar algum sem ele... não posso deixar ele sozinho — um soluço escapou.

Impotente, Baekhyun encarou Chanyeol, pedindo por sua ajuda. Chanyeol apenas balançou a cabeça, sem saber o que fazer também. Baekhyun suspirou e voltou-se para Kyungsoo outra vez.

 — Kyungsoo... ele está morto.

Kyungsoo retirou a mão de Baekhyun de seu ombro.

— Não... não, não, não. Ele estava com a gente hoje, agora, você viu...

— Precisamos sair daqui — disse com mais convicção, conseguindo capturar o olhar de Kyungsoo quando segurou seu rosto com ambas as mãos e o virou em sua direção.

— Quem fez isso? — ele sussurrou com a voz fraca, ranho, suor, sujeira e o sangue de Jongin cobrindo seu rosto.

Baekhyun balançou a cabeça, impotente, não sendo capaz de dar uma resposta ao amigo. Kyungsoo sentou no chão, sem forças para qualquer coisa.

— Não, Kyungsoo, levanta — Baekhyun tentou se erguer junto com ele — Anda!

Chanyeol finalmente pareceu acordar de um transe e se moveu, ele se aproximou dos outros e se abaixou próximo ao rosto de Jongin, passando a mão em seus olhos apagados para fechá-los completamente e virou o rosto.

Ele ajudou Baekhyun a levantar Kyungsoo, um em cada lado segurando seus braços completamente flácidos. Então ouviram o farfalhar das folhas no chão, seus corpos enrijecidos e alarmados.

— Vamos! — Baekhyun insistiu e puxou Kyungsoo com a ajuda de Chanyeol.

Eles tentaram correr da forma que podiam pela ilha, Kyungsoo ainda sem recobrar os sentidos. Muito provavelmente eles estavam perdidos outra vez, não conseguiam encontrar a direção do rio ou qualquer sinal de que ele estava próximo. Porém, mesmo sem rumo, continuavam correndo apressados na tentativa de fugir. Fugir de qualquer coisa.

Também estavam muito cansados, eles sabiam que não podiam passar a noite toda correndo de algo que não faziam ideia do que podia ser, por isso, quando acharam estar longe o suficiente e talvez mais seguros, começaram a diminuir os passos. Em vez disso, passaram a caminhar, ainda muito apressados. Em algum momento do frenesi em que se encontravam, Kyungsoo passou a caminhar sozinho atrás dos outros dois, como se estivesse no automático.

— Chanyeol, o que aconteceu? — Kyungsoo perguntou em um murmúrio, parecendo derrotado.

— Eu já disse, tinha alguém lá.

Apesar de parecer estar em outro plano, como se estivesse no fundo do oceano ouvindo tudo abafado, Kyungsoo foi capaz de expressar ceticismo, encarando as costas de Chanyeol à sua frente.

— Só tem a gente aqui — sua voz agora soava acusadora — Mas Baekhyun ficou ao meu lado o tempo todo.

Chanyeol foi parando de caminhar lentamente, processando o que Kyungsoo havia dito. Quando parou completamente em frente aos outros dois, ele permaneceu de costas, os ombros subindo e descendo acompanhando sua respiração pesada. Em seguida, com um suspiro também cansado, virou-se com o cenho franzido.

— Você está insinuando que eu...?

— Quem mais?! — Kyungsoo ainda se esforçava para não voltar a chorar, mas era uma luta perdida já que sua voz soava embargada, a garganta doendo enquanto segurava o choro — Conta de uma vez o que aconteceu...

— Eu já contei! — Chanyeol avançou furioso, rapidamente percebendo que estava voltando a se exaltar, então encarou Baekhyun brevemente, com medo que ele também achasse a mesma coisa, mas o rapaz tinha a cabeça virada para baixo, então ele suspirou — O que te faz pensar que eu fiz algo com o Jongin?

Kyungsoo hesitou, pensando em milhares de coisas, cogitando o que não acreditaria em um dia normal. Acontece que aquele não era um dia normal para ele. Uma única lágrima desceu por sua bochecha, mesmo que sua expressão continuasse imperturbável, ele fungou e a enxugou rapidamente com a costa da mão.

— A história...

Não foi preciso muito para que os outros dois compreendessem sobre o que Kyungsoo estava falando. Baekhyun se encolheu, assustado com o pensamento de que a história que o Sr. Choi havia contado era real e a ilha esconde perigos sobrenaturais. Por outro lado, Chanyeol pareceu ainda mais irritado com a ideia.

— Você não pode estar falando sério.

— Por qual outro motivo você estaria assustado assim?

— Porque um amigo meu morreu! — com a resposta de Chanyeol, Kyungsoo deu um passo para trás, cambaleante, como se não tivesse sido atingido apenas pelas palavras duras. Ignorando isso, Chanyeol continuou, os olhos grandes ainda maiores — Me ouve, eu vi alguém. Estava escuro demais para identificar, mas eu vi!

— O Sr. Choi disse que eles mexem com nossas mentes... ele-

— Ele estava falando de espíritos, Kyungsoo.

— Eu sei do que ele estava falando! — gritou, ele precisava de algo em que se agarrar, precisava de qualquer coisa — Mas não tem ninguém aqui além de nós e mesmo assim Jongin está morto!

Morto. Parecia tão errado pronunciar essa palavra para se referir a Jongin. Ele ainda estava sentindo que iria acordar a qualquer momento de ressaca na mansão com um braço ao redor da cintura de Jongin, abraçando-o e sentindo o calor do corpo dele. Ainda que fingisse que nada aconteceu quando despertassem completamente.

Já chega — Baekhyun finalmente interveio, áspero — Parem de brigar, não é lugar nem hora para isso.

Os dois garotos continuaram encarando-se, de um lado um olhar acusador e do outro um olhar raivoso, uma combinação perigosa que fazia o ar parecer mais pesado. Chanyeol foi o primeiro a desistir, ele virou de costas e se agachou, as mãos passando no rosto com força, sentindo o sangue seco se desfazer em meio ao suor, em seguida sentou no chão parecendo desamparado. Após alguns minutos tentando organizar seus pensamentos, Kyungsoo o copiou, sentando no chão com os braços cobrindo a cabeça, o mundo ainda sem sentido.

Baekhyun permaneceu de pé, observando tudo em seu campo de visão com o coração apertado, batendo forte no peito. Ele não fazia ideia de como sairiam da ilha e as possibilidades de algo acontecer outra vez o assombrava; a noite era imprevisível, as sombras e formas que enxergava faziam seu sangue gelar. Ele fechou os olhos momentaneamente, as mãos juntas enquanto fazia um pedido, uma oração, uma reza, uma súplica, qualquer coisa, para que Sehun e Junmyeon já estivessem fazendo algo para levá-los de volta.

O amanhecer parecia tão distante agora. Baekhyun tinha medo que nunca mais o visse.

— Eu amava ele — Kyungsoo quebrou o silêncio, a voz grave soando muito baixa — Ainda amo.

Baekhyun queria ter algo para dizer, ele queria saber confortar Kyungsoo mas achava que não havia consolo para a morte. Ele sabia que seu amigo sentia mais que o luto, o arrependimento deveria estar corroendo seu ser.

Embora, observando-o de cima, ele percebeu que Kyungsoo não parecia falar com nenhum deles; ele encarava os próprios pés, pensando em coisas que seriam memórias que doeriam por toda a vida.

— Sou um idiota, não sou? — Kyungsoo riu seco — Eu sei o que vocês pensam de mim, de como agia com ele. Sabe, ele disse que me amava... faz muito tempo, mas eu não disse nenhuma vez... — ele respirou fundo, as lágrimas voltando com muita facilidade — Ele nunca soube.

Baekhyun não aguentou por mais tempo, ele se abaixou em frente a Kyungsoo e segurou seus ombros, da mesma forma que fez antes.

— Não se culpe... a vida é assim, Kyungsoo. Você não é o primeiro a cometer esse erro e não será o último.

— Eu não preciso dessas palavras fodidas, não vai mudar nada.

Baekhyun suspirou e soltou os ombros trêmulos de Kyungsoo.

Ele acabou sentando entre os dois, a atenção se voltando para Chanyeol que permanecia muito quieto. Seus cabelos estavam completamente sujos, com restos de folhas secas presas nos fios. O que Chanyeol tinha visto? Baekhyun não se atreveu a olhar nem por um segundo para Jongin e mesmo assim estava em pânico, então não conseguia mensurar a aflição de Chanyeol nesse momento.

Ele queria abraçar Chanyeol agora e dizer muitas coisas, mas permaneceu no lugar.

Seu estômago fez um barulho extremamente alto para a quietude do momento, Baekhyun abraçou a barriga e Chanyeol o encarou com um sorriso cônscio, compartilhando a mesma situação.

Desde que Kyungsoo falou sobre os espíritos na ilha, Baekhyun achava os sons muito mais macabros do que apenas assustadores e o silêncio não ajudava seu estado, a mente criando vários cenários desagradáveis. Nenhum deles sabia do que, exatamente, estavam com medo. Contudo, era um arrepio na espinha e sentimentos sem explicação que fizeram até mesmo Kyungsoo pensar em coisas divinas e pedir aos céus para que eles saíssem em segurança daquele lugar.

Apesar de a ideia de continuar andando fosse tentadora, eles sabiam que vagar sem rumo pela ilha poderia ser ainda mais perigoso, então ficaram onde estavam.

— Tinha um boné... — Chanyeol sussurrou, ele se virou para os dois, que tinham expressões confusas e então repetiu, não sabendo se eles tinham ouvido — Quem... quem matou o Jongin. Usava um boné para esconder o rosto.

— O que mais você conseguiu ver? — Baekhyun perguntou ansioso, mas Chanyeol meneou a cabeça.

— Não muito, estava escuro e eu estava de costas antes de perceber, mas eu sei que era humano. Eu vi o jeito que se movia para fugir entre as árvores.

Kyungsoo ainda parecia considerar a história que ouviram quando a conversa foi interrompida por sons, agora familiares aos seus ouvidos, de pegadas no chão. Seus corpos não reagiram em um primeiro instante, os três suavizaram até mesmo as respirações, na tentativa de ouvir algo mais claramente. Em seguida, Kyungsoo ficou de pé, se afastando moderadamente dos outros, a cabeça virando em todas as direções possíveis para encontrar algo, ou alguém. Como se tivesse chegado a uma conclusão.

Chanyeol também levantou, segurando o braço de Baekhyun para trazê-lo junto. Baekhyun não conseguia pensar com clareza e estava ficando cansado do fato de não saber como reagir nessa situação, seu corpo não obedecia a nenhum de seus comandos. Mas então, ele viu Kyungsoo continuar se afastando e sua respiração acelerou, eles não podiam arriscar perder outra pessoa.

Soltando-se do aperto, ele foi atrás de Kyungsoo sabendo que Chanyeol estaria logo em seu encalço. Quando Kyungsoo correu, ele apressou os passos também, olhando para trás para confirmar que Chanyeol estava com eles.

— Kyungsoo! — ele gritou, mas o outro não deu ouvidos e continuou procurando freneticamente o que quer que fosse ao seu redor.

— Eu vou matar o filho da puta! — Kyungsoo exclamou, caminhando entre as fustes.

Baekhyun parou brevemente quando Kyungsoo também parou, o ar parecia não entrar em seus pulmões, mesmo a respiração mais profunda não ajudava, ao invés disso fazia seu peito doer. Ele não sabia de quem Kyungsoo estava falando e, por um breve momento, pensou que ele estava tendo alguma alucinação. Mas então lembrou. Ele também ouviu os passos e sabia que era real.

Eles estavam no centro de uma clareira pequena, mas a luz da lua não era suficiente para iluminar o ambiente. Parado onde estava, Baekhyun sentia que estava cercado por figuras fantasmagóricas, mesmo sabendo que eram somente árvores. Ele sabia o que era, e ainda assim sentia medo.

Baekhyun tentou falar algo, contudo sua voz parecia estar presa na garganta. Ele sentia que as árvores estavam se aproximando, um círculo ao seu redor que continuava fechando, fechando, fechando. Baekhyun fechou os olhos por um momento, mas lembrou que não podia mantê-los fechados porque precisava enxergar, então abriu-os novamente. Virando em seu próprio eixo, os punhos cerrados com força ao lado do corpo, ele procurou pelos rostos familiares, apenas para se ver sozinho.

Chanyeol não estava mais lá.

Não estava em lugar nenhum.

Baekhyun ouviu o que parecia ser o agouro de um corvo ao longe. Ele estava prestes a chorar novamente, já sentia os olhos ardendo dolorosamente, mas as lágrimas continuavam sendo eliminadas por suas pálpebras abrindo e fechando em um ritmo acelerado, Baekhyun se sentia tremer da cabeça aos pés. Perder Jongin era injusto, causava ódio, mas perder Chanyeol... não. Chanyeol, não.

— Chanyeol...? — Baekhyun chamou, tão baixo que nem se ele estivesse ao seu lado teria ouvido — Chanyeol, onde você está? — tentou outra vez.

Por favor, não quero ficar sozinho. Não me deixa sozinho.

Inesperadamente, o vento trouxe vozes. Baekhyun não conseguia distinguir os sons, ele continuou rodando na clareira, tentando aguçar os ouvidos para entender de onde vinham. Era incoerente, as vozes pareciam tão próximas e ao mesmo tempo tão distantes. Então, houve um som inconfundível de grito, ainda entrecortado pela brisa que soprava em várias direções, mas Baekhyun conseguiu ouvir com clareza um grito agonizante de dor.

Recobrando a consciência, ele correu para o meio das árvores outra vez, outro urro de dor que penetrou até em seus ossos, como milhares de agulhas perfurando seu corpo. Agora que seus sentidos haviam voltado, Baekhyun conseguiu escutar as vozes chegando até ele de forma intervalar e percebeu que eram chiados sôfregos como se estivesse havendo uma luta corporal em algum lugar.

Baekhyun cobriu a boca com ambas as mãos, o som da sua respiração nasalada atrapalhando seus sentidos, mas ele não sabia o que fazer, para que direção seguir. Onde Chanyeol e Kyungsoo poderiam estar? O pensamento de que algum deles era dono daqueles gritos apavorantes fez seu coração apertar tanto que doeu.

Baekhyun tentou olhar para trás, para o outro lado da clareira onde tinha visto Chanyeol pela última vez, e acabou tropeçando em uma raiz. Ele caiu com força no chão, ainda sentado, mas perdeu o ar momentaneamente, a boca abrindo na tentativa de buscar oxigênio, sem êxito por mais tempo do que Baekhyun gostaria.

Virando-se devagar para se apoiar no chão, ele sentiu uma fisgada na cintura e gemeu. O que sentiu em seguida o fez gritar de susto e tentar se desvencilhar do toque.

Haviam mãos tentando puxá-lo para cima.

— Baekhyun, Baekhyun! Sou eu — Baekhyun não encontrou tempo para criar expectativa, ele reconheceu a voz de Kyungsoo no mesmo instante.

Ignorando as dores pelo corpo, Baekhyun se ergueu com a ajuda oferecida.

— Precisamos voltar... temos que encontrar o Chanyeol e trazer ele de volta, e-ele está...

— Não, Baekhyun, temos que sair daqui. Você mesmo disse — o outro insistiu.

— Você não entende — seu rosto agora contorcia com o choro — Por favor.

Ele disse aquilo para Kyungsoo porque a morte já havia os alcançado e não tinha o que ser feito. Ele tentou convencer Kyungsoo porque conseguiu ver com os próprios olhos. Mas agora era diferente... se aquela voz distante que parecia agonizar era de Chanyeol, o que Baekhyun faria?

O que faria sem ele?

Onde você está? Por favor, por favor. Baekhyun continuava pensando, enquanto travava uma batalha interna que parecia não ter solução. Ele deveria ir embora? Ainda havia algo que pudesse ser feito?

Kyungsoo notou seu impasse, vendo como seus pés continuavam firmemente cravados no mesmo lugar e lágrimas infinitas caindo de seus olhos. Baekhyun sussurrava o nome de Chanyeol repetidas vezes, como um mantra. Com esperança.

Com outra tentativa de tirá-los daquele lugar, Kyungsoo puxou Baekhyun e conseguiu a confirmação que queria quando ele não tentou se livrar do aperto.

A ilha parecia emboscá-los, era como se estivessem num labirinto, totalmente perdidos e sem saber para que lado ir. Kyungsoo não fazia ideia do que estava acontecendo nem o porquê de estarem sendo perseguidos, mas sabia que precisava viver e ele lutaria por isso.

Por Jongin.

E talvez por Chanyeol.

 

 

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Chanyeol e Baekhyun tinham muitas coisas em comum. Quando se conheceram – uma noite aleatória em que Baekhyun forçou Sehun, seu único amigo até então, a acompanhá-lo no fliperama –, foi como se uma conexão instantânea se formasse. Eles passaram a fazer muitas coisas juntos depois daquela noite em que os seis, se conhecendo aos poucos, revezavam-se para jogar uns contra os outros nas máquinas disponíveis. Assim que Chanyeol e Baekhyun fizeram dupla para jogar Double Dragon e venceram o jogo juntos, foi... qualquer coisa à primeira vista.

No começo, nenhum deles sabia o que, exatamente, os atraia um para o outro. Eles discutiam bastante por assuntos bobos de adolescente, mas, ainda assim, eram quase a mesma pessoa devido à tantas semelhanças.

A família de Baekhyun não tinha dinheiro para comprar muitas coisas, contudo, ele nunca reclamou porque os pais sempre fizeram o que podiam e, depois de conhecer Chanyeol, ele sempre tinha uma desculpa para ir até sua casa. Ele e o irmão nunca tiveram um videogame e Chanyeol tinha um Atari 2600 em seu quarto. Os dois jogavam quase o dia todo, mesmo que estivessem no final da adolescência e precisassem se preocupar com qual faculdade fariam.

Às vezes eles somente jogavam Space Invaders o dia todo, às vezes liam quadrinhos, às vezes estudavam, às vezes procuravam empregos no jornal para Baekhyun.

Um dia, eles descobriram, por acidente, que também podiam beijar no quarto de Chanyeol, então às vezes eles passavam as horas que tinham fazendo isso. Quando saíssem da porta para fora, tudo voltava ao normal. Não era o que os dois queriam, mas o que o mundo pedia deles.

— Dos nossos amigos, qual seu favorito? — Chanyeol perguntou uma vez, sentado com as costas apoiadas na cama e a cabeça para trás, deitada no colchão desconfortavelmente, enquanto observava Baekhyun em sua missão de matar os alienígenas na TV.

— Junmyeon.

A cabeça de Chanyeol se ergueu quase na velocidade da luz, sua nuca cobrando o preço com uma dor chata que o fez massagear a área, uma careta em seu rosto tanto pela dor, quanto pelo nome proferido por Baekhyun sem pensar duas vezes.

— Por que ele?

Baekhyun riu brevemente, o que quase lhe custou a partida. Ele voltou a se concentrar na tela da TV de Chanyeol.

— Porque ele é rico.

Chanyeol bufou. “Eu também sou bem de vida”, ele pensou de forma mimada.

Ele assistiu por um tempo Baekhyun jogar, logo se sentindo entediado pelo jogo repetitivo e passando a observar o amigo. Baekhyun tinha o lábio inferior entre os dentes e o cenho franzido, concentrado em sua missão sem fim de aniquilar os mesmos alienígenas milhares de vezes. Chanyeol sentiu vontade de gritar, ou levantar e pular pelo quarto todo como forma de extravasar o sentimento que preencheu seu peito e que ele não sabia de onde vinha ou o que fazer a respeito, mas disfarçou bem e permaneceu quieto.

Space Invaders era o jogo mais irritante do seu Atari, porque nunca mudava. Ele era uma desculpa, hoje eles não queriam jogar nada.

Se aproximando como quem tem medo de assustar um animal, Chanyeol segurou suavemente o maxilar de Baekhyun, sua mão grande muito leve contra a pele que parecia fina como papel, virando o rosto dele em sua direção, fazendo com que o lábio pequeno se desprendesse dos dentes por conta da pressão dos seus dedos nas bochechas do amigo, ganhando uma cor avermelhada. Ele ficou desse jeito, apenas observando Baekhyun atentamente, enquanto o outro tinha o mesmo anseio quase transbordando pelos olhos cintilantes, quase implorando por algo e Chanyeol poderia ter explodido em mil confetes naquele momento.

As coisas que pensava em fazer com Baekhyun... Chanyeol achava que era louco.

— Você vai me beijar ou não? — Baekhyun perguntou em um murmúrio, aproximando sua boca da de Chanyeol como se o desafiasse a sequer pensar que o “não” era viável.

Chanyeol não falou nada, sua resposta foi finalmente fazer o que eles estavam esperando desde que trancaram a porta do quarto. Ele juntou seus lábios enquanto Baekhyun o puxava para mais perto pelo aperto em seus cabelos da nuca.

Baekhyun estava apaixonado. Era um problema, mas ele queria Chanyeol ao seu lado para o resto da vida.

 

Assim que Kyungsoo empurrou-o para sentar com as costas apoiadas contra o tronco de uma grande árvore, Baekhyun sentiu a dor no quadril outra vez, o desconforto impedindo que ele afastasse a mente do que estava acontecendo, mantendo-o muito consciente.

Kyungsoo se ajoelhou ao seu lado, verificando a área ao redor, seus grandes olhos concentrados. Baekhyun ainda chorava por algo incerto, percebendo que, afinal, Kyungsoo não era durão somente por aparência. Ele estava sofrendo por uma perda, sentindo mais que os outros, mas ainda possuía uma intrepidez que sempre lhe caiu tão bem.

— Sinto muito... — Baekhyun acabou sussurrando, os cílios molhados por lágrimas.

Kyungsoo parou por um instante, então virou o rosto e fixou o olhar nele.

— Pelo quê? — sussurrou de volta.

— Por Jongin — Baekhyun soluçou, ele esfregou os olhos e fungou — Por estarem aqui, por você não ter tido tempo.

Kyungsoo balançou a cabeça.

— Eu tive todo o tempo do mundo.

Baekhyun esfregou as mãos outra vez no rosto, limpando o suor, as lágrimas e a sujeira no tecido de seu short. Ele ainda ouvia o urro de dor ecoando em seus ouvidos e se perguntou se Kyungsoo também ouvia, se era um eco preenchendo a ilha. Ele não conseguia entender como, em tão pouco tempo, poderiam perder duas vidas. Tão, tão rápido. Esse sentimento de impotência e perda permaneceria com ele para sempre? Os assombrando pelo resto da vida?

Mas então... eles ao menos sobreviveriam para sentir? Não havia nada que pudessem fazer além de correr e fugir nessa ilha que parecia tão pequena antes, mas que agora fazia parecer que eles é que eram pequenos no meio da vegetação?

— Baekhyun... — Kyungsoo volta a sussurrar — Você acha que é o caseiro fazendo isso? Aquele velho maluco inventou uma história, sabendo que somos burros o suficiente para vir até aqui, para fazer isso? — ele não deu chance para Baekhyun continuar, muito focado em encontrar razões para o que estava acontecendo — Você acha que... Sehun e Junmyeon também estão mortos?

Baekhyun se recusou a pensar nisso, imaginar que Chanyeol poderia estar morto já era repulsivo o suficiente, ele não queria pensar o mesmo sobre Sehun. Ele sentia a dor que Kyungsoo estava sentindo, mas não queria. Baekhyun era detestável o suficiente para desejar que o amigo sentisse sozinho a perda de quem amava.

Não importa se o Sr. Choi estivesse envolvido nisso, Baekhyun só queria escapar antes que o sol nascesse. Eles sairiam da ilha a qualquer custo.

Sem que Baekhyun pronunciasse qualquer palavra, Kyungsoo pareceu pensar como ele. Por isso, no próximo segundo os dois decidiram levantar outra vez e ir em busca da área do rio onde eles estavam antes, de onde conseguiam enxergar o píer de madeira como um ponto pequeno à distância. Ele tentaria alcançá-lo ainda que precisasse nadar até lá. Antes, ele não estava disposto a isso, Chanyeol não sabia nadar e ele nunca deixaria Chanyeol sozinho. Agora, ainda que o pensamento machuque, não tem ninguém que o detenha ali.

Seus passos eram cautelosos, odiando como o barulho de suas pegadas atrapalhavam suas audições de ouvirem as coisas ao redor.

Embora Baekhyun estivesse tentando se manter seguro, caminhava como se tivesse desistido de muita coisa. Era como se, de agora em diante, viver não fosse ter o mesmo significado, como se não fizesse sentido. Eles não poderiam voltar para a mansão dos pais de Junmyeon contando histórias divertidas; Kyungsoo não faria aquela cara emburrada cada vez que mencionasse como Chanyeol foi idiota por tê-los feito perder a canoa. No dia seguinte, não haveria animação para arrumar suas coisas e finalmente, finalmente, voltar para Seul. Para seus jogos, para as noites de bobeira comendo pizza e reclamando de coisas rotineiras da vida.

Baekhyun quis chorar outra vez ao pensar em como explicariam para a família de Jongin o que havia acontecido. Como fariam isso? Como, sendo tão imaturos, Baekhyun e Kyungsoo conseguiriam ser responsáveis por dar uma notícia como a morte de alguém tão querido?

A partir de hoje, viver ainda seria a mesma coisa de sempre?

Baekhyun estava muito esgotado, por alguns momentos esquecendo que estavam caminhando em busca de proteção, que sua vida dependia disso. Além do cansaço físico e emocional, havia a fome e a sede intensificando tudo; mesmo parecendo o menor de seus problemas, considerando todo o contexto em que estavam, ainda era persistente. Ele olhava para cima, para o céu, na tentativa de ter alguma noção de que horas eram, mas era difícil identificar, a noite parecia não querer ir embora.

Parecia ter sido há muito tempo atrás que decidiram entrar numa canoa do outro lado do rio, quatro pessoas almejando a proteção uns dos outros, ainda que sem perceber. Quão irônico era, Baekhyun queria manter Chanyeol protegido e Jongin queria ser a companhia de Kyungsoo depois de insistir tanto que ele ficasse... nenhum conseguiu cumprir com suas atribuições tão simples.

O silêncio entre eles era acolhedor, não havia nada a ser dito. Baekhyun pensava em tantas coisas que, mesmo que Kyungsoo falasse com ele, ele não ouviria. A soma entre eles era estranhamente assustadora, fazia com que calafrios percorressem seu corpo. Ele pensava na ínfima ideia de seus amigos na fazenda estarem a caminho da ilha, talvez com policiais dado o tempo que passaram no lugar. Talvez em pouco tempo eles veriam autoridades vasculhando o local e dando a eles a complicada missão de levá-los até os corpos.

Depois de muito tempo, horas talvez, eles finalmente sentiram a brisa vinda do rio, sabendo que estavam próximos. Kyungsoo e Baekhyun não tiveram força alguma para sentir ao menos uma parcela de ânimo, somente cansaço e uma vaga sensação de alívio. Suas pernas estavam doloridas, haviam cortes e arranhões incomodando por toda parte do corpo, os estômagos vazios, os corações apertados no peito. E tudo doía.

O rio estava bem à frente, a superfície brilhando minimamente com a ajuda da lua. Eles seguiram para a esquerda, passando por uma abertura entre as árvores como se elas tivessem feito um caminho especialmente para eles, dando uma visão clara da margem. Conforme se aproximavam, Baekhyun viu um flash de movimentos.

Havia uma silhueta humana mais a frente, estava se movendo... caminhando até eles.

Baekhyun deu passos lentos para trás, a respiração começando a falhar e o sangue chiando alto nos ouvidos. Ele não encontrou forças para continuar mais rápido do que já estava, não quando viu as roupas e o rosto manchados de sangue. Um rosto conhecido, chegando cada vez mais perto como se estivesse receoso que Baekhyun fugisse feito um animal arisco. Baekhyun abriu a boca numa tentativa falha de chamar por Kyungsoo, mas seus lábios tremiam e nenhum som saiu.

Surpreendentemente, o garoto à sua frente estava bem, apesar do sangue. Mas o que ele estava fazendo?

Quando ele estava próximo o suficiente, Baekhyun quis perguntar por quê. Por que ele fez isso? Mas o choro preso na garganta não deixou que nada saísse, seu olhar inquieto passando rapidamente de um lado para o outro em toda a extensão do rosto em sua frente.

Aconteceu tudo rápido demais quando o outro levantou um braço em direção a ele.

Baekhyun sentiu uma pancada forte e uma dor latejante. Ele caiu no chão de joelhos, as mãos espalmadas na terra, agarrando o solo com força antes de ir para a cabeça, sentindo um líquido quente molhando seus cabelos, gotas espessas escorregando para o seu pescoço enquanto um zumbido alto preenchia seus ouvidos. Com dificuldade, ele tentou olhar para cima, mas não conseguia raciocinar direito.

A outra pessoa abaixou na altura de seus olhos, segurando seu rosto com cautela e Baekhyun conseguiu ver um sorriso dolorosamente familiar, antes de a inconsciência o abraçar completamente.

 

 

━━━━ ※ ━━━━

 

 

Completamente perdido. Foi assim que Baekhyun se sentiu quando recobrou a consciência.

Antes mesmo de abrir os olhos, Baekhyun sentiu uma dor pujante na lateral esquerda de sua cabeça, uma dor de cabeça latejante que o fez sentir vontade de vomitar. Seu rosto contorceu de dor, sentindo tudo ao mesmo tempo, um gemido fraco escapando de sua garganta. Ele queria apenas voltar para a escuridão, se isso fizesse ele parar de sentir o que estava sentido.

Conforme voltava aos sentidos, Baekhyun abriu os olhos marejados, moveu a cabeça com dificuldade e a primeira coisa que viu, a visão ainda turva, foi alguém com os olhos fechados e inchados deitado a poucos centímetros. Baekhyun abriu a boca enquanto mais chiados de agonia saiam de sua boca, o sentimento de perda, tão incômodo e destrutivo, outra vez invadindo seu peito. Lágrimas grossas caiam sem parar de seus olhos, como se nunca fossem acabar embora ele já tivesse chorado tanto naquela noite. Murmúrios incoerentes e o choro alto de Baekhyun se perdiam no silêncio. Ele chorou imóvel no chão, o corpo desistindo de reagir e tentar lutar. Porque ele havia perdido mais alguém.

Junmyeon estava no chão, os cabelos longos molhados grudando no rosto. Haviam marcas roxas e azuladas ao redor de seu pescoço, a corda usada para enforcá-lo ainda em volta dele. Sua pele, que sempre foi tão pálida, agora estava ainda mais branca, as veias visíveis por toda a extensão de seu corpo onde podia-se enxergar. Seus lábios estavam com um tom azul forte, ou era roxo... Baekhyun não conseguiu manter o olhar nele o suficiente para perceber. Ele não queria ter aquela imagem fotografada em sua mente, ele odiou como ainda conseguiu ver a mesma feição inocente no rosto de Junmyeon e pensar no que ele havia passado fez Baekhyun sofrer tanto que parecia estar engasgando na própria saliva.

Ele tentou se mover, mas então percebeu que seus braços estavam atados nas costas. Ele entendeu porque tinha a sensação de que seu corpo não era seu corpo, os braços estavam dormentes e ele não sabia a quanto tempo esteve inconsciente nessa posição. Baekhyun não conseguia respirar direito, fosse pelo choro ou pela forma desconfortável em que estava no chão sujo de lama. Ele piscou várias vezes para recuperar a visão embaçada, tentando se livrar do que pareciam cordas juntando seus antebraços um no outro.

O que está acontecendo?

Era a única coisa que Baekhyun conseguia pensar. Eles estavam se divertindo a pouco tempo, eles estavam brincando uns com os outros, seus únicos problemas eram coisas idiotas de jovens imaturos.

A pergunta ficou em sua mente, mas ele poderia ter dito em voz alta, porque assim que a dúvida surgiu ele ouviu alguém se aproximando. Virando a cabeça rapidamente, viu claramente o garoto alto e esbelto se agachando para ficar sobre ele, a cabeça inclinada para o lado e então ele retirou o boné que usava para que Baekhyun o visse sorrir.

— Você acordou — ele disse calmamente, o sorriso nunca vacilando. Sua mão manchada de sangue e sujeira foi de encontro à bochecha de Baekhyun, acariciando com a mesma suavidade que ele sempre o tratou, mas que dessa vez fez seu corpo tremer por inteiro. Baekhyun apenas chorou copiosamente enquanto a mão subiu para arrastar seus cabelos para longe de onde havia levado a pancada, ele fechou os olhos com força, sentindo dor quando o garoto afastou os fios molhados com seu próprio suor e sangue da testa. A expressão dele era de tristeza — Está feio.

— Sehun... — ele sussurrou, a voz soando quebrada — O que... o que você...

Sehun balançou a cabeça rapidamente.

Shhhh — ele cobriu a boca de Baekhyun, pressionando com força — Não se esforça muito, eu vou cuidar de tudo e você vai melhorar.

Baekhyun quase sufocou com a mão em sua boca e o ar entrando com dificuldade pelo nariz, mas ele não se debateu ou fez qualquer movimento brusco, apenas continuou deitado, os braços ainda dormentes debaixo do peso de seu corpo, deixando que as lágrimas escorressem pela lateral de seu rosto.

Quando sentiu que ele estava cooperando, Sehun retirou a mão devagar, a saliva de Baekhyun espessa escapando de sua boca como pequenas teias de aranha. Ele levantou e ficou atrás de Baekhyun, enganchou as mãos abaixo de suas axilas e arrastou-o pelos braços até que suas costas estivessem contra uma árvore não muito distante de onde Junmyeon estava. Aos poucos a sensação dos braços foi voltando, a sensação de que haviam milhares de formigas caminhando por dentro de sua pele.

— Sehun — ofegou e tentou outra vez — O que você fez?

Sehun bufou e se agachou outra vez em frente a Baekhyun. Ele arrastou os cabelos para trás, a expressão enraivecida tão incomum transformando seu rosto, uma expressão que Baekhyun raramente via. Sehun era sempre dócil e carinhoso quando se tratava de Baekhyun, ele poderia ser uma pessoa introvertida e parecer entediado sempre que saíam em grupo, mas fazia muitas dessas coisas para agradar Baekhyun.

— Isso... isso é o que você me obrigou a fazer. É tudo culpa sua, Baek.

Baekhyun negou, lágrimas continuavam manchando seu rosto, deixando rastros entre a sujeira, mesmo que ele já não tivesse expressão alguma. Ele estava completamente cansado e abatido, sem forças para fazer qualquer movimento.

Como poderia ser culpa sua? Ele nunca quis isso. Nunca quis perder tanto em tão pouco tempo.

— Do que você está falando? — Baekhyun murmurou, tentando puxar o máximo de fôlego que podia — Sehun, do que você está falando...

— Eu era o único na sua vida, Baekhyun. Por que você não aceitou meu amor quando eu te ofereci? Seus amigos poderiam estar aqui ainda — ele balançou a cabeça, pesaroso, mas Baekhyun conseguia ver claramente que era tudo fingimento — Eu tentei acabar com o Kyungsoo, mas você é mais importante para mim... então deixei ele fugir, não me importo com ele.

Baekhyun estava desesperado, porque agora conseguia ver tudo que havia ignorado por tantos anos ao lado de Sehun. Até mesmo suas expressões agora, eram as mesmas de antes, só que eram falsas. Desde sempre foi falso. Baekhyun tinha a sensação de que ele havia construído um mundo paralelo com Sehun, vivendo de mentiras; ele se sentiu uma presa, envolvida no que Sehun criou para ele e que ele caiu sem dificuldade.

 

Sehun observava o garoto a muito tempo. Não horas ou semanas, ele podia contar meses. Ele não entendia de onde vinha essa curiosidade nem o porquê de deixar tudo que fazia para apenas observar.

Ele era sozinho, assim como Sehun. O garoto baixo andava sozinho pelo colégio, estudava solitário sempre na mesma mesa na biblioteca e em todas as aulas que tinham em comum percebia ele muito quieto. É como se ele fosse excluído da sociedade, mas Sehun não entendia o que podia haver de tão estranho nele se ele era tão normal.

O garoto era igual a ele.

Talvez ele tivesse problemas com a família, como Sehun tinha; ele poderia estar brincando de viver o coletivo sem se encaixar em nada, como Sehun. Até mesmo a bagunça de materiais sobre a mesa enquanto ele estudava era similar ao que Sehun fazia.

Sehun estava fascinado, porque aquele garoto era igualzinho a ele.

Por isso, agindo por impulso como sempre fazia, ele se afastou do corredor de estantes com cheiro de livros antigos e se aproximou do rapaz concentrado.

 

 

— Oi.

Um garoto alto e magro, muito bonito, sentou em frente a Baekhyun como se fizesse isso o tempo todo.

Baekhyun nunca havia visto-o.

— Oi. Você precisa de alguma coisa?

O estranho sorriu e Baekhyun ficou ligeiramente encantado.

Você costuma ficar sozinho na biblioteca... posso te fazer companhia?

Baekhyun estava sozinho porque gostava de fazer seus trabalhos sem ninguém para atrapalhar.

— Eu... talvez outra hora.

— Ah, tudo bem. Olha, você está em muitas aulas junto comigo, então se tiver dúvidas ou quiser uma companhia nessa escola sem graça, conta comigo. Meu nome é Sehun.

Ele levantou e saiu, deixando Baekhyun para trás, pensativo enquanto mordia a ponta de sua caneta. Em seguida, ele riu.

O rapaz era estranho, de um jeito engraçado. Ele tinha uma fala mansa e voz agradável, como se quisesse convencê-lo com essa tática de que Baekhyun realmente precisava da sua companhia.

Pensando em todos os conflitos internos que estava enfrentando ultimamente, Baekhyun pensou que aquele era, realmente, um bom momento de sua vida para fazer uma nova amizade.

 

Ele jogou a cabeça para trás, a respiração entrecortada enquanto ele parecia hiperventilar. Seu peito subia e descia depressa.

— Eu tentei fazer você voltar só para mim — Sehun continuou — Sabe, Baek... eu confesso que não gosto de você da forma que disse, mas é como um vício, eu gostava da atenção que você me dava. Gosto, ainda gosto. E agora tudo vai voltar ao normal, sem eles para atrapalhar.

Deus, o que era tudo aquilo?

— Você matou todos eles... — sua voz falhou.

— Não — Sehun negou na mesma hora, ele segurou o rosto de Baekhyun e sorriu — Você não está me ouvindo... Kyungsoo deve estar por aí. Deve ter ido atrás de Jongin. Você viu? Foi um belo trabalho, não foi? — ele sorriu ainda mais, encarando Baekhyun como se ele não tivesse direcionando-o um olhar furioso e incrédulo. Baekhyun puxou a cabeça para trás, numa tentativa de se desvencilhar dos dedos pegajosos de Sehun, a ferida latejando ainda mais — Não deu certo na primeira tentativa, então tive que fazer mais cortes... carne humana não é tão-

—  Para — Baekhyun implorou — Chega, para de falar.

Sehun ignorou suas palavras.

— Não fique com raiva de mim. Não era para ter sido assim, a culpa não foi minha! Jongin nem fazia parte disso — ele meneou a cabeça negativamente, mas não parecia nenhum pouco arrependido ou tocado ao falar de sua morte — Eu sei como é ser ignorado por alguém que você gosta... não, Jongin foi azarado. Ele estava atrapalhando meus planos. Era Chanyeol quem deveria ter morrido em seu lugar, aquele filho da puta!

Ao ouvir o nome de Chanyeol, Baekhyun lembrou dos gritos que ouviu, de quão dolorosos eles soaram e finalmente teve alguma reação. Ele se debateu, tentando desamarrar as cordas em seus braços, mas foi em vão. Ele não conseguiria se livrar do aperto apenas balançando de um lado para o outro.

Chanyeol... então era isso? Ele queria matar Chanyeol desde o início? Por... por sua causa?

— Você é louco?! — ele gritou, mas Sehun não se assustou. Ao invés disso, sua expressão escureceu.

— Não — Sehun disse no mesmo instante, mesmo com a aparência assustadora sua voz soou suave — Eu sei Baek, sei que ele confundiu sua cabeça. Ele não merece você e você não precisa dele. Você me tem. Nós costumávamos nos dar bem, só você e eu. Chanyeol estava mudando você, era como se você não fosse mais o mesmo e eu não gostei disso... não gostei nada disso — ele aproximou o rosto do de Baekhyun, o cheio ferroso de sangue invadindo seu olfato e ele tentou criar distância entre eles, mas Sehun segurou sua nuca com força — Tudo vai mudar agora, não vai? Posso ter você só para mim de novo?

Baekhyun não sabia mais o que fazer, ele não tinha ideia de como sairia daquela situação. Foi quase agonizante os pensamentos de desistência que invadiam sua mente, de apenas ficar ali e aceitar o que viesse em seguida.

— Você é louco, Sehun... o que você fez... — era o que ele continuava murmurando — Seu filho da puta doente!

Um estalo alto soou. Sehun acertou a costa de sua mão com força contra a bochecha de Baekhyun, um tapa que silenciou o mais velho no mesmo instante. Seu rosto virou com a força do golpe e Baekhyun gemeu, engolindo a saliva espessa que parecia fazer sua garganta doer, a cabeça latejando ainda mais.

Baekhyun foi forçado a voltar à mesma posição de antes quando Sehun segurou sua garganta com ambas as mãos, virando-o para frente outra vez. Sua expressão ainda era sombria quando Baekhyun o encarou fixamente, mesmo que seu fôlego estivesse sendo cortado pela pressão dos dedos longos de Sehun ao mesmo tempo em que ele o empurrava contra o tronco da árvore. Baekhyun se sentiu frágil, incapaz de conseguir se defender.

— Cuidado com o que você fala — Sehun sussurrou entre dentes — Não me faça fazer algo que eu não quero.

— Me mata... faz isso de uma vez! — Baekhyun falou com dificuldade.

Sehun virou a cabeça para o lado, da forma que uma criança faria quando não entendesse algo, soltando seu pescoço como se nada tivesse acontecido. Baekhyun tomou várias respirações profundas tentando recuperar o oxigênio.

— Não... eu fiz isso por nós dois, não posso te entregar para Chanyeol. Aquele desgraçado não vai ficar com você nem mesmo depois da morte.

Ouvir essas palavras saindo da boca de Sehun ainda era impossível de acreditar, Baekhyun não conseguia, ainda que tentasse nesse meio tempo, compreender toda a situação. Era apavorante não sentir tanta diferença entre esse Sehun e o garoto quieto que ele conheceu. Como se ele sempre tivesse sido assim, mas Baekhyun não deu a devida atenção. A constatação de que Sehun se incomodava com outras pessoas próximas a ele, principalmente Chanyeol, veio nesse momento, contudo, era como se ele sempre soubesse e não tivesse se importado. Baekhyun achava que seu apego era por conta de sua timidez e até ontem, durante a conversa tranquila que tiveram, acreditou que era porque ele estava apaixonado. Mas não estava, o que ele sentia não era amor. Seu sentimento doente causou a morte de seus amigos.

Na soma, ele perdeu um grande amor.

Sehun levantou. Ele deixou Baekhyun sozinho enquanto voltava para perto da canoa que estava na margem do rio, ele pareceu procurar algo e então, após uma pequena pausa como se lembrasse onde estava o que procurava, foi até o corpo de Junmyeon e retirou a corda de seu pescoço sem qualquer delicadeza. Baekhyun fechou os olhos, sempre com muito medo de ficar com essas lembranças, assombrando-o.

Quando os abriu de novo, Sehun voltava calmamente para a embarcação, organizando algumas coisas dentro antes de caminhar até onde Baekhyun estava. Baekhyun franziu as sobrancelhas e subiu um pouco mais contra a árvore, para se sentar mais ereto.

— Por favor, me deixa ir — ele tentou, falando fracamente e sem confiança, sabendo que não adiantaria implorar para alguém com a mente de Sehun.

Sehun concordou, mexendo a cabeça.

— Nós vamos sair daqui juntos. Junmyeon fez um bom trabalho também, ele me ajudou bastante.

Junmyeon?

Baekhyun se sentia consumido pelo cansaço, a muito tempo desistido de tentar entender tudo que estava acontecendo completamente, contudo, o que Junmyeon tinha a ver com toda essa situação abominável? Sua expressão devia entregar sua confusão, porque no momento seguinte Sehun sorriu, um sorriso tão familiar a Baekhyun, um que fazia seus olhos fecharem minimamente.

— Somos muito sortudos! — ele começou — A verdade é que eu não planejava vir para essa ilha, Baek. Eu conseguiria me livrar do Chanyeol de outra forma, faria ele desaparecer de qualquer forma, mas então você veio junto... você arruinou a vida dos seus amigos, mas foi melhor assim. A gente conseguiu se livrar de todos quando eu nem mesmo me importava com alguém além de Chanyeol — Sehun contava como algo rotineiro, como se estivesse desabafando sobre seu dia — Percebemos que algo estava errado quando a noite chegou e vocês não retornaram.

 

Junmyeon andava de um lado para o outro no píer, olhando para o outro lado do rio, para a ilha. Ele parecia preocupado.

— Você acha que eles estão bem? — perguntou.

Sehun, que estava sentado relaxadamente no chão de madeira com as pernas balançando para fora, encolheu os ombros. Antes, no dia anterior, ele estava feliz que Chanyeol iria sozinho para aquela ilha fodida e, mesmo não acreditando em nada do que o Sr. Choi havia contado, desejou que fosse verdade. Ele queria que Park Chanyeol fosse atormentado por espíritos se isso fizesse ele sumir de sua vida e da de Baekhyun. Agora, com Baekhyun indo junto e levando a maioria do grupo, deixando-o com esse garoto insuportável andando sem parar atrás dele, Sehun ansiou que não fosse real, porque assim ele mesmo poderia acabar com cada um deles.

Ele não amava Baekhyun da forma como havia confessado, Sehun nem ao menos entendia como Baekhyun poderia gostar de saber que outro homem sentia isso por ele. Ele simplesmente tinha uma compulsão pela atenção de Baekhyun, e estaria tudo bem se o mais velho não sentisse que precisava de alguém além dele. Amigos, namoradas ou até mesmo seu irmão, seus pais. Baekhyun o tinha, ele se esforçou muito em declarar suas boas intenções, usou sentimentos falsos e muitas mentiras para isso. E deu certo. Por muito tempo funcionou.

Mas então, Chanyeol surgiu como uma praga.

Chanyeol não precisou de muito para ganhar a atenção de Baekhyun, ele continuou sendo o mesmo ser humano estulto desde o início. Ele nem ao menos fazia bem a Baekhyun, isso até Sehun percebia.

O relacionamento que eles tinham não era algo habitual, os dois deviam achar que escondiam bem, mas Sehun percebeu. Se fosse o que os dois tinham que estava afastando Baekhyun de Sehun, então ele estava disposto a convencer Baekhyun de que sentia o mesmo. Ele decidiu tão inesperadamente, talvez cinco minutos antes de segurar Baekhyun para conversar.

— Acho melhor irmos atrás deles, Sehun.

 

— Foi o deslize perfeito — Sehun relembrou — Junmyeon ficou tão preocupado que foi até a casa do caseiro emprestar uma canoa para resgatar vocês. Eu tinha que vir junto, claro, precisava salvar meus amigos... — ele abaixou a cabeça, ainda sorrindo — Tudo que eu trouxe foi uma faca cega que peguei na cozinha. Contei com o fator emocional para conseguir fazer o resto.

 

O rio estava agitado, a correnteza fez com que demorassem mais do que deveriam para chegar à ilha. Junmyeon não sabia remar direito e deixou o serviço quase todo para Sehun.

— Eles já deveriam ter voltado — Junmyeon continuava murmurando, falando sem parar. Era irritante — Escuta, Sehun... a gente acabou mandando os casais para a ilha e nem foi de propósito — ele riu — Aposto que Kyungsoo e Jongin estão discutindo em um lado enquanto Baekhyun e Chanyeol dão um jeito naquela tensão sexual entre eles do outro.

Sehun fez uma cara feia, odiando que mesmo com seu silêncio quase sepulcral o outro continuasse falando.

Ele continuou seu monólogo sobre a relação dos amigos e como ele havia parado no meio de tantos homens como eles, que não tinham liberdade o suficiente. Junmyeon parecia deprimido enquanto contava como percebia os olhos brilhantes de Chanyeol cada vez que Baekhyun se aproximava, como eles não eram nada discretos em relação aos seus sentimentos; que eles podiam esconder bem o envolvimento carnal, mas as emoções não eram algo que estavam sob controle do ser humano e sempre ficavam óbvias. Ele contou para Sehun como achava fofo que Chanyeol, com aquele tamanho todo, ficava completamente desengonçado perto de Baekhyun e que nem mesmo Baekhyun percebia essas coisas que eram tão explícitas.

Sehun segurava o remo com força, ele trouxe a corda, que servia para prender a canoa, para mais perto, ansiando que chegassem à margem da ilha. Desejando que chegassem...

 

— Junmyeon foi tão tolo... a presença dele era irrelevante para mim mais do que a de qualquer um dos outros. Quem diria que ele seria o primeiro.

Baekhyun engoliu em seco. O que ele tinha feito com Chanyeol? Se a crueldade com a qual tirou a vida de seus amigos fosse um sinal, ele poderia imaginar que Chanyeol sofreu ainda mais. Seus gritos de dor que o vento trouxe fizeram Baekhyun pensar que antes mesmo de morrer ele deve ser sentido dores horríveis.

— Eu precisei fazer alguma coisa. Não controlo o que sinto, Baek...

— Não me chame assim — Baekhyun sussurrou.

O mais novo ignorou e continuou sorrindo, parecendo disposto a desconsiderar tudo que Baekhyun dizia se suas palavras não fossem de seu interesse.

Sehun pegou o boné jogado no chão, um boné velho que não pertencia a ele, e colocou-o de volta na cabeça. A aba escurecendo seus olhos de uma forma que fez Baekhyun tremer, não sentindo medo pelas circunstâncias que estava agora, mas lembrando de todas as vezes que ficou sozinho com Sehun e tudo que poderia ter acontecido. Se culpando por ter sido o responsável por apresentar ele aos quatro garotos naquele bar colorido, naquela fatídica noite idiota de jogos.

Sem muita delicadeza, Sehun puxou a frente da camisa de Baekhyun para que ele se apoiasse em seu peito, a respiração de Baekhyun acelerou no mesmo instante, as lágrimas querendo voltar embora seus olhos já estivessem um pouco inchados e as córneas ardessem tanto que é como se tivesse já chorado tudo que podia. Mas, apesar do susto, Sehun apenas se ocupou em desamarrar seus braços.

— Eu vou soltar você agora, então podemos deixar esse lugar.

Baekhyun não conseguia prestar atenção em nada além do cheiro de sangue impregnado em Sehun, tão enjoativo que ele sentiu mais uma vez que poderia vomitar.

Com o corpo meio apoiado em Sehun, Baekhyun conseguiu ver algo se mexendo com o canto dos olhos. Ele virou minimamente, não querendo chamar a atenção de Sehun, e viu um vulto saindo de trás de uma árvore a uma certa distância, correndo para trás de outra árvore mais próxima. Baekhyun não conseguiu identificar quem era, mas entendeu que só poderia ser Kyungsoo, sendo o único que conseguiu escapar de Sehun. Ele esperava que o garoto fosse esperto o suficiente para fugir de problemas agora.

Sehun segurou seus ombros e afastou-o para olhar em seus olhos.

— Baek — ele afastou os cabelos da testa de Baekhyun — Uma hora você vai perceber que é muito sortudo por ter minha atenção...

Sem querer dar chance para ele continuar falando, Baekhyun se afastou de seu toque outra vez e empurrou Sehun com as mãos agora livres. Não foi forte, Sehun apenas caiu sentado e levantou no mesmo instante, também sem pressa. Baekhyun estava fraco, suas pernas também estavam um pouco dormentes então ele não pôde fazer muita coisa. Foi Sehun quem o ajudou a ficar completamente de pé.

Baekhyun queria ter a mesma frieza de Sehun nesse momento, ele queria pensar rápido e encontrar qualquer coisa que acabasse com a vida de Sehun agora mesmo. Mas não conseguia. Sua covardia já se provou real quando ele não conseguiu ao menos confessar o que sentia por Chanyeol, imagina para tirar a vida de alguém.

Quando Sehun deu um passo em sua direção, Baekhyun deu dois passos para trás, querendo manter a maior distância possível entre eles. Sehun balançou a cabeça, irritado. Ele sabia que Baekhyun não fugiria, infelizmente ele conhecia Baekhyun e estava certo, Baekhyun não tinha intenção de fugir.

Ele queria permanecer vivo e sabia que se fizesse o que Sehun queria, ele tinha alguma chance. Apesar de tudo, Baekhyun queria voltar para casa, queria abraçar sua mãe com força outra vez, abraçar seus pais todo dia se pudesse, ele não fazia isso com muita frequência. Nesse momento, até mesmo de seu irmão ele queria um abraço. Era um sentimento miserável sentir falta dos que ainda estavam vivos.

Em um piscar de olhos, Sehun foi jogado no chão. Baekhyun deu vários passos para trás, os olhos arregalados observando a cena.

Foi muito rápido, Baekhyun quase achou que tinha alucinado, mas não... a pessoa sobre Sehun, segurando seu pescoço com força, não era alucinação.

Era Chanyeol.

Vivo, ali em sua frente.

Ele tinha sangue por todo o rosto também, estava descalço por algum motivo e muito, muito furioso. Sehun segurou seus braços, na tentativa de tirá-lo de cima de seu corpo, a boca aberta em busca de ar. Quando sua respiração foi completamente cortada, ele empurrou o rosto de Chanyeol de todas as formas que conseguiu; se debatendo, com os punhos fechados e então fincando as unhas em toda pele que encontrava.

Baekhyun permaneceu onde estava até o instante em que Sehun conseguiu reverter a situação, empurrando Chanyeol com força para o lado e levantou-se rapidamente, tropeçando para longe enquanto tossia e engasgava. Chanyeol não conseguiu levantar, ele parecia ter dificuldade em se manter de pé.

Sehun se recuperou muito rápido e encarou Chanyeol por alguns segundos, antes de avançar outra vez até ele. Foi então que Baekhyun reagiu, decidido a não deixar que houvesse mais mortes naquela noite. Ninguém mais morreria. Ele correu e segurou Sehun por trás, as mãos juntas em frente ao corpo esguio, puxando-o com tudo de si para que ele não chegasse até Chanyeol. Suas mãos estavam suadas e escorregadias, mas ele segurou o máximo que conseguiu, depositando tudo que tinha naquele ato.

Sehun gritou, ele levou o cotovelo para trás com intenção de acertar qualquer parte do corpo de Baekhyun que encontrasse, e acabou acertando a ferida aberta onde ele havia levado uma pancada. Isso desorientou Baekhyun, que amoleceu os braços ao redor de Sehun e fechou os olhos momentaneamente, os ouvidos parecendo entupidos.

Mas não houve tempo para ele se recuperar, logo uma mão impetuosa segurou seus cabelos e puxou com força, arrastando-o para o chão. Baekhyun queria continuar lutando, mas era como se sua própria alma tivesse fugido do conflito. Sendo jogado contra o chão de bruços, Baekhyun grunhiu alto, sentindo a terra molhada contra sua bochecha e o peso de Sehun contra ele. Em poucos minutos sua visão girou, quando Sehun virou-o de costas mais uma vez.

— Eu fiz isso por nós! — Sehun gritou, se jogando contra Baekhyun no chão, prendendo-o entre suas pernas, as mãos agarradas firmemente em seus cabelos enquanto empurrava sua cabeça contra o chão várias vezes. Baekhyun segurava a camisa de Sehun com punhos cerrados, gritando e lutando para se livrar do toque, achando insuportável a dor que sentia no machucado em sua cabeça — Baek, você deveria me agradecer por-

A cabeça de Baekhyun caiu uma última vez na lama quando sangue respingou dentro de sua boca aberta, manchando todo o seu rosto e ele foi incapaz de fechar os olhos enquanto observava os de Sehun se abrirem em pura surpresa.

A boca de Sehun estava manchada de vermelho, escorrendo pelo queixo e sujando seus dentes, ele olhou para o próprio peito, seus movimentos lentos evidenciando o choque que sentia. Não havia nada lá, nenhuma mancha de sangue, mas ele tocou como se houvesse. Baekhyun não via, mas Sehun conseguia sentir. Algo incômodo cortava sua carne por dentro, quase atravessando seu corpo por completo. Ele tremeu e saiu de cima de Baekhyun cambaleante, os espasmos que acometeram seu corpo fazendo-o tropeçar para trás, sentindo uma dor insuportável e tendo certeza de que algo que não deveria havia sido rompido. Sehun não sabia o que era, mas ficou cada vez mais difícil respirar.

Seus olhos reviraram para cima das pálpebras, ele continuou vacilando nos próprios pés até cair de joelhos com um baque dissonante sob o olhar de duas pessoas estáticas. Sehun perdeu as forças lentamente, caindo para a frente na terra úmida. Baekhyun conseguiu ver a ponta de uma faca pressionada logo abaixo de sua omoplata.

Com os olhos molhados, Baekhyun respirou fundo, se jogando completamente no chão. Ele nem conseguiu perceber Chanyeol caindo à sua frente, cansado da mesma forma e as mãos tremendo depois de sentir a faca praticamente cega perfurando a pele de Sehun, a mesma faca que ele usou para fazer cortes em seu tornozelo.

Quando Baekhyun tentou enxergar se Sehun ainda respirava, não encontrou nada. Uma parte muito estranha de sua vida tinha se esvaído, imóvel no chão. Ele finalmente virou para o lado e vomitou, apenas um líquido transparente e espumoso já que seu estômago estava vazio, uma visão não muito bonita.

Após se recuperar, levantou do chão e sentou, somente para encontrar olhos grandes fixados nele. Baekhyun parou por um instante, focando no menino bonito em sua frente, mesmo sujo do jeito que estava, e chorou muito mais do que ele achou que deveria. Um choro de alívio, apesar de tudo. Chanyeol parecia destruído, muito cansado, mas estava bem. Estava vivo.

Ele chorou tanto que soluçava, tanto que por muitos minutos ele não fez nada além de chorar, levando Chanyeol a chorar da mesma forma.

Com dificuldade, Chanyeol se aproximou de Baekhyun, com as mãos e os joelhos arrastando na terra. Baekhyun sentiu braços longos ao redor de seu corpo, abraçando-o com força, para sentir a pele, sentir os ossos, os movimentos do peito subindo e descendo a cada respiração. Os dois se abraçaram por muito tempo, em um aperto firme demais para suas condições debilitadas.

Baekhyun enfiou o rosto no pescoço de Chanyeol e não tinha um cheiro nada agradável, ele sorriu e apertou o outro da mesma forma, sentindo tudo.

— Chanyeol... o que... como?

Afastando Chanyeol, ele tocou em seu rosto. Havia um corte grande em seu supercílio e também sangue seco no canto da boca.

Chanyeol sorriu e tocou em seu rosto também.

— Aulas de defesa pessoal — resmungou fracamente, mas Baekhyun continuava chorando — Tudo bem. Está tudo bem agora.

— Eu sinto muito...

— Não foi sua culpa — Chanyeol balançou a cabeça, repreendendo-o levemente — Não se culpe.

— Ele — Baekhyun ofegou — Ele fez isso por minha causa.

— Nenhum deles te culparia, Baekhyun — disse sério.

Baekhyun olhou no fundo dos olhos de Chanyeol e tudo que sentiu foi conforto, nada de julgamento ou raiva ou decepção. Nenhum desses sentimentos ruins. Ele quis dizer que amava Chanyeol, quis dizer isso naquele momento, mas não achava que era certo, não era um bom momento.

Entretanto, havia momento certo para a vida?

O tempo não podia esperar, eles não podiam segurá-lo com força entre os dedos. Ele passava rápido demais para quem tinha medo do futuro, medo de consequências, medo de agir; podem dizer que, para o tempo, amar é eterno, mas o amor que Baekhyun sentia não podia esperar a eternidade. Tudo com eles era sobre o momento errado e Baekhyun não queria mais que fosse assim.

— Eu amo você — escapou antes que ele pudesse pensar mais sobre isso, a voz soando tão fraca que ele achou que Chanyeol não ouviu.

Mas então ele sorriu e continuou tocando o rosto de Baekhyun com ternura.

— E eu amo você. Amo desde sempre.

Baekhyun não poderia expressar como realmente se sentiu, ele queria que tudo fosse diferente, mas estava exausto. Por isso, somente abraçou Chanyeol outra vez, sentindo toda a vida que ele emanava, o calor de sua pele e a respiração contra sua nuca.

Assim que se afastaram e depois de pensar o que fazer em seguida, Baekhyun resolveu ficar de pé, puxando Chanyeol pelo braço junto consigo. As pernas de Chanyeol fraquejaram e ele caiu no chão outra vez. Confuso, Baekhyun voltou para o chão com ele.

— O que houve?

— Meus tornozelos — Chanyeol suspirou trêmulo, apertando a mão de Baekhyun com força — Estão machucados.

Baekhyun levantou para ver o estado do ferimento. Seus pés bateram levemente contra as pernas de Sehun quando ele se afastou um pouco e ele estremeceu.

Sua boca abriu em horror ao ver os cortes profundos na parte de trás das pernas de Chanyeol, havia golpes irregulares nas panturrilhas, mas o tornozelo estava tão machucado que Baekhyun se preocupou que ele tivesse rompido os tendões.

Chanyeol.

— Ele tentou me manter no mesmo lugar. Fez isso para eu não fugir — ele olhou por cima do ombro — Está muito ruim?

— Está horrível!

Chanyeol, contrário a tudo que estava sentindo, sorriu outra vez.

Ignorando a dor latejante em sua cabeça, Baekhyun se abaixou e apoiou o braço de Chanyeol em seus ombros. Foi preciso muito esforço para fazê-lo andar. Foi quase impossível.

Eles não tiveram escolha a não ser ir em direção à canoa que Sehun tinha usado com Junmyeon. Os dois continuaram olhando sempre para a frente, sem coragem de encarar o que deixavam para trás. Só por um tempo, Baekhyun relembrou a si mesmo.

Deixando Chanyeol dentro da canoa, Baekhyun ficou olhando para a ilha por muito, muito tempo. Ele estava esperando, pacientemente. Quando o céu começou a ficar alaranjado ao longe e tudo começou a parecer ter sido um pesadelo, Baekhyun agachou onde estava, a água molhando seus pés conforme a maresia do rio mudava.

Finalmente, como se as coisas estivessem começando a dar certo, ele avistou Kyungsoo vindo em sua direção, completamente esgotado, sem conseguir caminhar mais rápido do que o ritmo que tinha agora. Baekhyun suspirou, fechou os olhos brevemente e correu até o amigo. Ele abraçou Kyungsoo com força, ainda mais força do que Chanyeol, afinal, ele havia perdido muito nesse lugar. Pessoas, oportunidades, amor. Kyungsoo quase se debruçou contra Baekhyun, apertando-o tão forte de volta que ele sentiu que poderia se partir ao meio. Mas ele não tinha mais nada para falar, Baekhyun achava que o silêncio seria companhia de Kyungsoo por muito tempo.

Ajudando Kyungsoo a chegar até a canoa, Baekhyun se sentia vazio. Aliviado, mas vazio.

Não era assim que eles esperavam que essa viagem acabasse. Era bom estarem vivos, e excruciante. Afinal, seus amigos estavam mortos. Eles voltariam para suas casas sem a animação coletiva com a qual vieram. Sem Kim Junmyeon e sua ternura que foi crucial para que eles todos se aproximassem; sem Kim Jongin e sua calmaria, seu rostinho entediado quando os amigos faziam suas milhares de idiotices.

Até mesmo sem Oh Sehun.

Parecia muito para seus ombros cansados.

Assim que empurraram a canoa para a água, os três pareceram perdidos.

— Pega — Chanyeol entregou o remo para Baekhyun — Não sei remar.

O silêncio era bem-vindo, já era o início de um luto que eles não saberiam quando iria passar. Era sobre quando eles conseguiriam deitar a cabeça no travesseiro a noite e conseguiriam fechar os olhos sem que lembranças invadissem suas mentes e machucassem; não só as tristes, mas as felizes também. Principalmente as felizes.

À medida que se afastavam, percebiam que não havia nada de assustador na ilha. Penso que daqui a um minuto estarei sofrendo. O lugar na verdade era muito bonito. Estarei puro, renovando, criança, fazendo desenhos perdidos no ar. O barulho das ondas pequenas do rio batendo na beira soando agradavelmente nos ouvidos. Venham me dizer o que é a vida, o que é o conhecimento, o que quer dizer a memória. A brisa gelada que vinha de dentro da vegetação batia no rosto como se fosse uma carícia, as copas altas das árvores irregulares se destacando lindamente contra o céu, o ar era puro. Poderia assoviar a ideia da morte, fazer uma sonata de toda a tristeza humana. E tudo parecia intocável demais para um lugar onde havia testemunhas de mortes violentas.

No momento, uma elegia não poderia ser ode.