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Ambos os adultos observavam do telhado as duas crianças dormindo abraçadas na cama. Havia sido um choque ver os pequenos juntos daquela forma, mas, apesar das brigas bestas e constantes entre os dois, era possível ver um afeto crescente entre Richarlyson e Bobby, a cena atual apenas evidenciava isso.
Não sabiam quando eles foram deitar, provavelmente estavam só indo descansar os olhos e evitar continuar ajudando na construção da base e da antena quando, inevitavelmente, acabaram dormindo. Era tarde de qualquer forma, além disso, os quatro ficaram ocupados o dia todo naquele projeto, então era óbvio que as crianças acabariam muito mais cansadas do que o normal.
Richas havia tirado sua prótese, deixando-a na lateral da cama para conseguir descansar sem ter risco de se machucar ou causar algum dano a sua perna. Ele estava encolhido dentro dos braços de Bobby, o qual tinha parte do rosto afundada nos cachos do menor. Era uma cena muito bonita, ver seus filhos se dando tão bem depois de alguns dias só se batendo e se xingando, falando mal um do outro pelas costas e pela frente.
Existiu muita dúvida sobre se eles se dariam bem no início, porém, era fato como ambos tinham uma relação amistosa no meio de tanta discussão. Eles se protegiam, gostavam de passar tempo juntos e sempre estavam grudados. E, agora, os vendo abraçados, dava para notar como eles buscavam um ao outro para abrigo e conforto - seja consciente ou inconscientemente.
Cellbit e Roier riram vendo a cena, o mexicano aproveitando para tirar uma foto do momento e dando uma cópia para o outro. Ambos tinham sorrisos grandes no rosto, havia sido um dia muito agradável entre eles, era muito bom saber ter sido agradável para seus filhos também. Por um tempo, ficaram se encarando, ainda contentes, com as bochechas doendo e borboletas voando no estômago. Presos um no outro.
Não era um sentimento incomum, muito menos uma ocorrência incomum. Ultimamente, eles têm gravitado cada vez mais próximos, chegando a ser natural quererem passar cada micro oportunidade juntos, seja fazendo algo grande ou algo pequeno, não importava, só queriam se ver por alguns instantes. Era como se uma bolha se formasse ao redor dos dois, cheia de calma, tranquilidade, alegria e.. algo a mais. Fazendo com que uma simples troca de olhares já fosse um porto de ancoragem, um voto de confiança e cumplicidade.
O mais velho foi o primeiro a desviar a visão, seu rosto colorindo-se em tons de vermelho mais vivos. Riu e pigarreou, se afastando para ir pegar mais materiais, querendo preencher sua cabeça com algo diferente do rosto, da voz ou da presença do mexicano. Um desafio o qual sempre parecia perder.
Quando seus sentimentos por Roier evoluíram de “desconfiança quanto a um desconhecido” para “eu gosto dele, confio nele, não me deixe”, era impossível pontuar. De um dia para o outro, se via hipnotizado pelo outro, incapaz de se desprender dele - nem conseguia imaginar se vendo longe dele.
Sentia-se envergonhado por isso. Poxa, ele havia desabotoado mais dois botões de sua camisa social de seu uniforme investigativo só para chamar atenção do mais novo! Ele não era assim! Mas havia algo no mexicano, sempre teve, algo que só o chamava, o atraía e lhe trazia um senso de pertencer grande demais para deixar de lado. Ele queria entender, queria se aproximar mais e, também, ele só queria poder se sentir livre para se perder, pela primeira vez, naquela chuva de sensações boas que Roier lhe dava.
Podia negar em voz alta, inventar desculpas e distrações para seu filho, desconversar quando falava com seus amigos, mas era palpável o quanto estava tentando se enganar. Podia dizer que não queria, porém todos, principalmente o mexicano, deveriam saber como era. Sabiam da verdade, e ele também sabia.
Então, se ele agia de uma forma mais constrangida ou desengonçada por não saber lidar com esses sentimentos novos, ou por não saber lidar com como essas sensações novas faziam-o agir, era completamente compreensível. Mesmo assim, se martirizava o tempo todo. Pelo menos, era um consenso crescente entre ele e as vozes de querer a atenção e companhia do mexicano dia após dia. Ou pediam por ele, ou reclamavam de saudade dele; sempre existia pelo menos uma falando isso. Era bom concordarem em algo bom, geralmente quando sua cabeça se alinhava era focado em pensamentos bem mais agressivos. Era uma boa mudança de ritmo, apesar de ainda ser fora do habitual.
Enquanto Cellbit contava os materiais do baú, se preparando para voltar ao topo da antena, Roier continuava parado admirando-o com esmero. Não conseguia tirar o sorriso do rosto, na verdade, desde o chamado para fazerem uma dungeon juntos ele não conseguiu parar de sorrir, só de ter o brasileiro falando consigo já era o suficiente para deixar seus ânimos nas alturas. Era inexplicável o sentimento cálido que invadia seu peito sempre que ouvia falar dele, sempre que ouvia a voz dele, sempre que via uma mensagem dele, sempre que estava perto dele. Era muito diferente para si sentir algo tão forte e tão.. bonito por alguém.
Os sentimentos do mexicano sempre foram muito intensos, já chegaram a controlar muitas das suas ações, fazendo-o impulsivo demais. Teve de aprender a controlá-los a seu favor, também aprender a mantê-los escondidos, somente entre ele e sua mente. Já abusaram de sua confiança, já manipularam seu amor, já o machucaram só por entretenimento, logo era fácil entender que a melhor opção era manter sua confiança e lealdade trancada à sete chaves. Porém, com o brasileiro foi diferente.
Quando se viram pela primeira vez, através do vidro os separando, ele não sabia explicar, mas algo dentro dele pareceu se amarrar ao outro, como se suas linhas do destino tivessem se encontrado e virado uma só sem nem notarem. Aos poucos, só conseguiu se ver mais e mais atraído por ele, seja por aparência, por seu humor, por sua presença, por seu calor. Algo em Roier chamava por Cellbit, assim como algo em Cellbit chamava por Roier.
Era estranho se ver tão próximo de alguém em tão pouco tempo. Confiava nele, entendia ele, queria saber mais dele e precisava ficar mais perto dele. E não era algo ruim, pautado em um veneno corroendo suas veias, lentamente amaldiçoando seu coração. Dentro dele florescia algo terno, algo que lhe trazia uma calmaria tão boa, era indescritível. O brasileiro passava-lhe o sentimento de casa. Algo familiar, gentil, aconchegante, um porto seguro.
Podia ser um sentimento assustador, mas ele não tinha medo dele, não dessa vez. Cellbit não lhe dava medo, apenas lhe trazia calmaria.
Apesar disso, de entender esses sentimentos e querer pular de cabeça neles, Roier apenas queria poder seguir a corrente desse belo rio que era estar apaixonado. Queria seguir o fluxo alheio, ir em seu próprio tempo, sentir cada emoção, cada toque, cada sensação sem pressa alguma. Pois não tinha pressa, sentia estarem indo no melhor tempo possível, no tempo deles.
Eles tinham todo o tempo do mundo. E saberiam quando fosse o momento certo para mais.
Eles sempre sabiam, caminhavam no mesmo ritmo, perfeitamente coordenados em sua mais bela dança. Sabiam quando girar, quando se aproximar, quando se afastar. Era como se tivessem treinado a vida toda para isso, para se conhecerem, se encontrarem e se apresentarem juntos naquele palco de suas vidas, conseguindo seguir todos os acordes de seus corações, interligados para além da compreensão normal.
Quiçá era destino. Quiçá era flecha do cúpido.
Não tirava o fato de ser lindo, de ser algo exclusivamente deles.
Então, quando se aproximou para continuar fazendo mais algumas piadas para ouvir o doce som da risada do seu gatinho, ele sabia estar seguindo o exato caminho que deveria seguir. Devagar e com carinho. Esperaria mil anos se possível e, depois, esperaria mais mil.
E se no meio das risadas, dos olhares confidentes, das bochechas coradas e corações ardentes, ele se sentiu em casa. Qualquer lugar com Bobby, Richas e Cellbit era sua casa.
Por isso, mesmo com a estrutura da base ainda não estando 100%, já sabia que era um lugar seguro para si e sua família. Feita por eles, para eles. Esperava poder ter mais lugares assim na ilha em breve.
Trabalharam em mais algumas partes da torre, o brasileiro focando na parte da antena, enquanto ele focava em continuar o teto. Mal sabia pontuar quanto tempo se passou, quanto progresso fizeram, muito menos sabia quando pararam de trabalhar, sentados lado a lado, ombros colados e pernas balançando na beira da estrutura.
O céu se misturava entre os tons quentes do mais belo vermelho alaranjado com o brilho intenso amarelado, contrastando com os tons escuros do preto profundo o qual se tornava o mais belo e escuro mar azul. Podia ver como os tons de azul refletiam em sua própria pele, porém, ao observar o mais velho, notava como o brilho dourado parecia abraçar sua silhueta, pintando-o como a mais bela obra prima.
Podia dizer ser cômico como aquelas luzes naturais os acompanhavam, como ditavam o que ele sentia entre a relação dos dois. Cellbit era um calor intenso, uma labareda intensa, capaz de chamar atenção, acolher e queimar a seu ver. Já Roier era frio, capaz de dar a sensação de alívio, ao mesmo tempo capaz de torturar vagarosamente se preciso. Um precisava do outro para manter-se em equilíbrio, seus extremos entrando em fusão ao se encontrar, terminando em uma fumaça calma, tranquila, relaxante e, mais importante, somente permitida para eles.
Cellbit o acendia ao máximo e ele o acalmava ao máximo de volta, eles eram os únicos capazes de intensificar um ao outro de uma maneira única, ao mesmo tempo em que podiam só se apaziguar com um simples toque ou troca de olhar.
Naquela madrugada, onde não se sabia se já era hora de dar bom dia ou boa noite, enquanto o céu ainda era acompanhado das belas estrelas da noite e da mais bela estrela do dia, ambos se viram, se tocaram sem medo, guiados pela mão invisível do amor não dito e trocaram um beijo. Seu primeiro beijo de muitos a vir.
Enquanto tudo queimava no interior do mexicano, o brasileiro sentia seu mundo esfriar, relaxando seus sentidos. Ambos se abraçaram, se deixaram levar pelos seus toques tímidos em busca de mais um do outro, de prolongar mais daquele sentimento, daquelas sensações inebriantes. E quando se deixaram perder nos tons de azul e castanho, nas luzes frias e quentes do dia iluminando seu horizonte, eles só souberam sorrir e juntar as testas, deixando tudo se silenciar a sua volta.
E quando tiveram que se separar ao ouvirem seus filhos começarem a acordar e reclamar de fome, nem tentaram disfarçar sua proximidade, sua felicidade, muito menos seu amor.
Podiam não dizer em voz alta, podia não haver um pedido oficial, mas Cellbit pertencia a Roier e Roier pertencia a Cellbit. E as estrelas eram suas testemunhas.
