Chapter Text
— Esta é a história de um garoto chamado Lucky (Sorte) —
"Ele está bem?" eu sempre pensava ao vê-lo ali, passando o dedo na tecla antes de começarmos a tocar. "Você está bem?" era o que eu perguntava ao vê-lo passar um pano nas teclas tão delicadamente, quase como se estivesse as cariciando e se despedindo até a próxima semana.
Talvez ele estivesse mesmo, já que ele, sempre muito bem educado, só me sorria e acenava para logo depois voltar a focar no teclado — que para nós era velharia, mais uma bagunça de enfeite do que objeto de serviço. Quando pensei isso, fiquei incomodado achando que estava atrapalhando um momento dele... ou deles. Mas era mais forte do que eu.
Tinha algo naquela confusão, naquele piano clássico e chique dentro dele que só sabia tocar escalas menores, que me atraía todos os dias. E que fazia intrometer-me todos os dias num pessoal "até logo" carregado de saudades do qual eu não pertencia.
Porém, hoje não seria igual semana passada. Hoje ajudaria ele a cuidar do teclado, que de nada combinava com as roupas de marca que ele usava. Não iria ser grosso ao perguntá-lo de cara como estava quando eu sabia que com instrumentos finos deve se ter mais cuidado. E delicadeza, igual o via fazer ao usar o pano.
— Por que não usa esse? — mostrei um produto novo que comprei. Um bem caro, aliás, mas que dizia cuidar muito melhor de teclados — Tem um cheirinho maravilhoso — abri e cheirei, oferecendo-o logo em seguida. Os olhos verdes piscaram para o produto de limpeza, me olharam e a fileira de dentes apareceu.
Droga, ele ia me dispensar rapidinho de novo.
— Obrigado, mas esse cheirinho é o que justamente estraga o teclado quando passo por aqui — apontou a parte cheia de botões — Não quero estragar suas coisas — terminando de falar as íris abaixaram, junto do sorriso se desfazendo aos poucos até restar uma cara séria, mas gentil.
Ia deixá-lo e tentar semana que vem mais uma vez, não queria atrapalhá-lo. Porém, a frase me chamou a atenção.
— Adrien, apesar de deixar o teclado aqui, ele é seu — mais uma vez pude encarar as duas esmeraldas. Eu sorri — Eu só tomo conta para você — fui ousado ao fim da fala, assumindo que só eu cuido de uma coisa (aparentemente) íntima dele.
As bochechas que normalmente são mais coloridas, ganharam um tonzinho de rosa muito apreciado por mim. Ele mordeu o lábio debaixo e negou antes de retrucar:
— Imagina, Luka! É seu! Eu só ajudo a tocar um pouquinho.
Que mentirada, eu poderia dizer. Porque ele tocava muito mais que um pouquinho no meu teclado para ser meu. Não se tratava apenas de pressionar uma tecla ou duas, de juntar a melodia que fazia em conjunto com todo o resto da banda, causando uma harmonia única que somente nós do Kitty Section tínhamos. Era muito mais do que isso: era o carinho dele pelo objeto de música, pela óbvia euforia que ele tinha ao chegar para poder se aproximar logo e ouvir as notas não tão elegantes quanto as do piano caro que havia em seu quarto; a contra vontade em que ele ia embora, deixando para trás algo que claramente dava um sabor a mais em sua vida agitada.
Como eu disse, poderia muito bem contradizê-lo, mas Adrien não tinha muitas habilidades sociais. Ele era tímido, não gostava de incomodar e aposto que uma brincadeirinha daquela iria deixá-lo nervoso.
— Imagina digo eu! Imagina eu, Rose ou Ivan tocando isso! Ia sair uma barulheira que só! — eu disse alto na intenção mesmo de chamar a atenção dos outros — E Juleka? Puff, iam ser músicas maléficas que tocaríamos — fiz um pouquinho da Marcha Imperial, a única coisa que eu e metade do mundo sabemos tocar num teclado. Como na minha visão o teclado estava de cabeça para baixo, o que ia ser ruim foi pior ainda e os membros da banda riram.
Inclusive Adrien.
Eu retirei meus dedos e peguei o pano dos seus, tentando limpar o que eu toquei com o cuidado que ele tinha costume. O restante da galera começou a conversar com a mesma voz animada de sempre e tanto ele, quanto eu, ouvíamos em um silêncio conjunto. Quando terminei, entreguei o paninho.
— Obrigado — ele respondeu educado, mas me encarou um pouco mais antes de descer os olhos. Adrien não tinha porquê agradecer, mas ele era assim. Educado, delicado e cuidadoso.
Isso me intrigava. Não era esse o som que eu ouvia dele. Era algo supérfluo, uma nota que se destacava entre as demais. Mas eu sei que isso não é nada, é só... barulho. Barulho que eu, Rose e Ivan faríamos. É a harmonia por detrás, a ambientação causadora da emoção que faz toda a música ter sua história. Sua cor.
Engraçado, não sei a música dele e já quero logo pular para saber qual é a sua própria cor. Talvez não tenha o escutado direito porque eu é que estou com algum problema de audição.
Mas não estou tão surdo para não me assustar ao ouvir o som de uma buzina. Adrien achou graça de meu pulinho e eu fingi que não foi comigo, já que a distração me deixou envergonhado.
Ele pegou sua bolsa, se despediu e foi em direção a pontezinha de madeira acenando para os outros. Ele parou na metade e me chamou. Quando cheguei lá, Adrien me perguntou do produto de teclado vagabundo com preço caro. Ele não disse com essas palavras, claro, porque era muito educado. Eu respondi que só usaríamos na bateria porque na guitarra e no baixo talvez a química do cheirinho também traria problemas, mas Ivan provavelmente não usaria pelo medo de também acabar dando problema no instrumento — seu jeitinho medroso de nada combinava com seu corpo robusto e sua face mal-encarada.
— Hm, então... — ele olhou a água lá embaixo e apoiou a mão na suporte de segurança, levando ela para lá e para cá. Me viu de novo — Posso levar, então? Tenho um piano lá em casa. E ele tem cheiro de queijo — riu baixinho. Acompanhei o riso e, como ainda segurava o produto nas mãos feito um bobo, o entreguei. — Obrigado.
Eu mexi a cabeça. Vi ele se distanciando mais uma vez, dando tchauzinho e agradecendo mais uma vez ao ver seu guarda-costas abrir a porta do carro. Quando deu partida, senti que um looping tinha sido quebrado. Mas não era um looping meu, mas sim de Adrien.
Estava esperançoso de que, talvez na próxima, quando eu perguntasse se estava tudo bem, ele me responderia algo diferente também.
