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TJ não estava bem certo do porque resolvera voltar para casa andando aquele dia, mas ao deixar o prédio da gravadora naquela tarde de sexta, não teve vontade de entrar no carro que o esperava. Eram apenas cinco quarteirões até seu apartamento, de qualquer forma então, ele entregou sua valise para o motorista, colocou seus enormes óculos escuros e saiu caminhando pelas ruas de Londres. Era um lindo dia ensolarado, atípico para a cidade, mesmo no verão.
O jovem empresário tinha muito em que pensar. Talvez por isso quisesse um pouco de sossego. Quando chegasse em casa, sua namorada exigiria toda a sua atenção e então, adeus silêncio. Não que as ruas fossem silenciosas naquela metrópole, mas pelo menos ninguém estava falando com ele, exigindo sua atenção, perguntando sua opinião, esperando ordens...
Ser obrigado a assumir o comando da gravadora de seu pai parecera um grande golpe de sorte, mas ele começava a se arrepender por ter aceitado. Lidar com as consequências das más escolhas do velho estava se provando um verdadeiro pesadelo. Um cantor tirolês? Música sacra? Um prodígio mirim que era sim muito inteligente, mas não podia cantar nem para salvar a própria vida... Seu velho devia estar realmente caduco, como os acionistas afirmavam. Claro que ele não poderia saber, já que não via o pai há quase dez anos.
Distraído com seus pensamentos, ele mal notou o mendigo que, mergulhado numa enorme caçamba de lixo, ostentava os pés esticados para cima enquanto vasculhava seu interior. Assim que TJ passou, o homem voltou a plantar os pés firmemente na calçada e revirando nos dedos uma maçã meio mordida, começou a cantar.
—“When I find myself in times of trouble, Mother Mary comes to me, speaking words of wisdoms. Let it be...”
TJ parou, surpreso. Sua primeira reação foi erguer o rosto a procura de uma janela aberta, de onde aquela voz poderia estar vindo, mas havia apenas uma parede maciça de tijolos. Só então ele olhou para trás, pousando os olhos sobre a figura magra e maltrapilha que era a única outra pessoa naquele quarteirão.
— “And in my hour of darkness, she is standing right in front of me, speaking words of wisdoms. Let it be, let it be...”.
—Com licença, ele disse, voltando sobre seus passos – É você quem está cantando?
O homem pareceu ter dificuldade em desviar os olhos de sua pequena refeição, mas quando o fez, TJ viu que ele tinha olhos incrivelmente azuis, quase grandes demais para seu rosto magro.
—Acho que sim. Às vezes eu canto sem nem perceber – disse, e sorriu um sorriso de dentes retos, mas bem amarelados. – Desculpa se tô incomodando...
—Qual o seu nome? – TJ quis saber, levando a mão até o bolso da calça para pegar sua carteira.
Interpretando erroneamente os movimentos de TJ, o mendigo começou a se afastar, exaltado.
—Por que isso te interessa? Vai chamar a policia? Não to fazendo nada errado! Eu to na minha aqui.
—Hey! Calma! Não vou chamar a policia! Só quero minha carteira... Viu? – TJ levantou a mão que segurava a carteira de couro preto. – Escute, me chamo Thomas e sou dono de uma gravadora... Você canta muito bem rapaz! Gostaria de conversar com você sobre isso...
—Ha! – o mendigo fez um som tão desagradável que TJ começou a questionar se não havia tido uma alucinação quando pensou tê-lo ouvido cantar poucos minutos antes. – Você tá tirando onda com a minha cara! Isso é alguma brincadeira, não é? Cadê as câmeras? – disse, olhando de um lado para outro.
—Não estou brincando com você. – TJ rebateu, frustrado – Música é meu ganha-pão, eu nunca brinco quando se trata disso. Vamos, me diga seu nome e vamos conversar direito.
—Adam. Meu nome é Adam. – ele disse, muito a contragosto.
—Muito bem, Adam. Prazer em conhecê-lo. Olhe aqui, este é o meu cartão. – ele entregou ao outro um cartão brilhante bordô e preto onde se lia Thomas Joseph Ratliff, CEO Ratliff Records.
—Uau! – Adam assoviou, encarando o cartão. – coisa fina! Ok, você me convenceu. O que quer falar comigo?
—Quero saber se você está interessado em se tornar um astro da música internacional.
—Claro! E gostaria de casar com o neto da rainha!
Frustrado, Thomas, que também era conhecido por seus amigos e namorada como TJ, apertou a ponte do nariz, fechando os olhos.
—O que eu preciso fazer para você acreditar que posso fazer isso acontecer?
—Diz o que vai querer em troca – inconscientemente, Adam levou as mãos para trás das costas, fechando-as em punho, como se quisesse se proteger, o que não passou despercebido a TJ.
—Não quero nada de você, Adam. Bem, não com seu corpo, apenas sua voz... Escute, minha gravadora está com problemas financeiros e eu sinto que você pode ser um sucesso no show biz!
—Ha! – novamente aquele som desagradável, que fez TJ franzir o cenho. – Como se um mendigo pudesse virar astro do rock! Você por acaso trabalha pra fada madrinha? Fiz uns pedido pra ela no outro dia... Ela tá me devendo, sabe? Aquela trambiqueira sem vergonha!
TJ conteve o riso a muito custo.
—Você só será um mendigo se quiser. Um corte de cabelo, roupas limpas e... – Thomas farejou o ar entre eles e franziu o nariz novamente – um banho, claro, e ninguém jamais suspeitaria de que você já viveu nas ruas.
—Banho? Nem fodendo! Já tomei um sábado e nem estava precisando tanto assim.
Sério mesmo? TJ pensava consigo. De tantos mendigos nas ruas de Londres ele tinha que encontrar o estereótipo encarnado? E ele tinha que ser tão talentoso?!
—Não acredito que você vai jogar fora uma oportunidade dessas porque não quer tomar banho com frequência!
Adam olhava desconfiado para seu interlocutor. Todo mundo sempre queria alguma coisa dele, sempre! Ele só precisava descobrir o que era... E aquele almofadinha metido a esperto não podia ser diferente. Mas aquele almofadinha era bem bonito, ele tinha de admitir! Magro e baixo, do tipo petit, tinha o corpo bem proporcionado e pernas grossas metidas em calças apertadas. O cabelo loiro comprido e sem corte caindo no rosto, dava um toque especial aos olhos castanhos e a boca parecia uma delicia de se beijar. Adam decidiu que não se incomodaria em nada em dar a ele o que estava querendo! Pelo menos seria por vontade própria desta vez...
—Escuta... – jogando a maçã mordida de volta no lixo, ele deu um passo na direção de TJ – Não precisa me prometer fama e fortuna. Me paga um jantar, me deixa dormir numa cama macia e eu trepo com você na boa!
—O que?! – TJ engasgou, absolutamente chocado. – Você não tem nenhuma moral, garoto?
—Não, senhor. – o outro rebateu, jogando o cabelo sujo para longe do rosto. Seus olhos, no entanto, diziam exatamente o contrário – Não posso pagar por ela.
TJ encarou o mendigo por alguns minutos, perplexo. O que teria acontecido com ele para que fizesse uma proposta como aquela tão levianamente, se ele nem mesmo gostava da ideia?
—Eu sempre fiz o que pude para me manter vivo. – ele disse, a guisa de desculpa, dando de ombros.
—Entendo. Mas você precisa entender uma coisa: Não quero me aproveitar de você. Eu sou hetero, ok?! Tenho uma namorada. Estou interessado em um acordo que favoreça a nós dois, mas seu corpo não faz parte dele. Quero sua voz, e sua boa vontade.
Adam encarava o homem chamado Thomas, sem saber o que fazer. Parecia bom demais para ser verdade.
TJ percebeu que o outro continuava reticente e percebeu também que de nada adiantaria pressioná-lo, então disse:
—Pense no assunto, meu endereço está no cartão. Me procure na segunda. Mas tenha em mente que essa é uma oportunidade única.
Ele então, girou nos calcanhares e começou a se afastar. Adam ficou observando, alguma coisa que não sabia identificar o impelia a chamar o outro de volta.
—Hey! Thomas... – ele gritou, correndo na direção dele. TJ virou-se para ele, com um sorriso encantador e um brilho nos olhos que Adam pensou ser de esperança. Ficou calado então, sem saber por que o havia chamado. Por fim, para aliviar o constrangimento, disse: Será que você podia me aliviar numa grana?
—Como é? – a decepção na voz de TJ era evidente.
—É que eu não comi nada o dia todo...
—Ah... – TJ ergueu as sobrancelhas, surpreso, mas pegou a carteira e deu uma nota de cinquenta libras a Adam, que sorriu maravilhado. - Adeus Adam, espero mesmo vê-lo de novo.
—Obrigado! – Adam gritou, para as costas de Thomas. Enquanto o observava se afastar, soltou um profundo suspiro e correu as mãos pelo cabelo extremamente sujo. Ele estava certo, precisava mesmo de um banho. Mas era quando ele estava limpo que as piores coisas aconteciam... Baixando os olhos para o dinheiro, ele suspirou novamente. Poderia fazê-lo render bastante, se fosse esperto. Teria refeições decentes e uma cama limpa por vários dias, o que tornava o banho não só atraente, como necessário. Não que Adam fosse um porco contumaz. Longe disso, mas estar fedendo era sua única defesa contra os predadores que circulavam pelos amontoados de pessoas que viviam nas ruas de Londres.
Naquela noite, porém, ele estaria a salvo, graças a Thomas Joseph Ratliff.
Havia uma pensão em Brick Lane que era bem barata e a velha indiana que era a dona do lugar gostava dele.
Foi para lá que Adam se dirigiu.
Em seu caminho para casa, TJ mal podia acreditar no encontro que acabara de ter. Aquele garoto era uma caricatura patética de ser humano.
Por um momento, ele se revoltou contra o governo que abandonava pessoas como ele a sua própria sorte, então se lembrou de que muitas dessas pessoas escolhiam a rua. Não sabia a história de Adam, mas gostaria de ajudar a mudá-la a partir de agora. Ele torcia para que o rapaz aceitasse.
Quando chegou em casa, Ashley andava pela sala de um lado para o outro, com uma expressão de angustia que o fez se sentir culpado.
—TJ, por onde você andou? Estava morta de preocupação!
—Desculpe Ashley, me distrai na rua...
—Se distraiu com o que? Aliás, o que deu na sua cabeça de dispensar o motorista?
—Eu queria andar um pouco, o dia está tão bonito...
—Nós temos uma esteira em casa, se é exercício o que você quer. Não consigo imaginar porque alguém gostaria de andar a pé por essa cidade horrorosa...
—Ashley... – TJ estava cansado e sobrecarregado, então, desistiu de discutir. Como uma garota tipicamente americana, criada na Califórnia, Ashley nunca veria a real beleza daquela cidade centenária. Ele limitou-se a balançar a cabeça e beijá-la no rosto. – Me desculpe por deixá-la preocupada. Vou tomar um banho.
