Chapter Text
1 – Prólogo
A humanidade sempre foi algo tremendamente barulhenta. Eram os maiores produtores de ruído que existiam, e sempre pareciam alheios a tudo o que causavam na vida das pessoas com o tormento gerado dia após dia, sem interrupções.
A verdade é que se fossem conscientes do quão caóticos eram, provavelmente iriam surtar, e é por isso que os seres humanos são essencialmente egoístas, e se fecham ao redor da própria existência como se fossem centralizados, e a razão de todo o universo.
Neil Josten era uma pessoa que não teve essa mesma sorte.
Há muitos anos atrás, quando fora Nathaniel Wesninski, apenas um outro humano no mundo caótico, teve esse privilégio de poder se preocupar unicamente com a própria existência, que girava ao redor de ter nascido em meio ao horror.
Seu pai era um humano fascinado com o conceito da imortalidade. De levar adiante a própria existência no mundo, criando caos e semeando desespero. Ele era conhecido como "O açougueiro de Baltimore", e teve a experiência de ser um dos capangas/assasinos de aluguel de uma família muito poderosa por tantos anos.
Os Moriyamas poderiam facilmente ser considerados uma das famílias mais poderosas que existiam, aos olhos de todas as pessoas normais. Não importava em qual lugar do mundo você estivesse, havia alguém do ramo da família criminosa por perto. Era difícil de imaginar como era possível serem tão poderosos. Eram a união central de várias facções; a Yakuza... e algo além.
Ficava óbvio quando se entendia que, após certa idade, os Moriyamas se tornavam imortais através de transformação que alterava o curso essencial da humanidade das pessoas. Eles tinham, literalmente, a eternidade ao seu favor e cresciam com ela, empurrando seu domínio e reinado por todo o planeta.
Dominavam as duas esferas da existência entre humanos e vampiros, e jamais alguém quis questionar isso. Apenas se estendiam ao longo do globo, e aqueles que eram próximos o suficiente e honrados o suficiente, ao demonstrar seu valor e sua servidão, eram glorificados com o benefício da imortalidade.
Nathan Wesninski sempre sonhou em se tornar imortal. Fazia qualquer coisa que precisasse para que um dia fosse aceito no clã deles, e o ponto de grande virada começou quando Kengo Moriyama lhe informou que escolhiam a dedo quem poderia ser beneficiado pela imoralidade.
E que precisavam de uma nova linhagem, para apoiar os negócios. Basicamente, significava que ou todos os Wesninski demonstraram seu valor, ou todos seriam descartados. Nathaniel tinha apenas três anos quando seu pai começou a lhe preparar para serem escolhidos para a imortalidade.
Dentre todo o treinamento de combate, inteligencia, aulas de tortura e explicações sobre a imortalidade e o que os esperavam, Nathaniel viveu os piores dias de sua vida, em um ciclo interminável.
Nathan o preparava para quando completasse dezoito anos, e finalmente Kengo iria transformar todos os Wesninski em imortais. Ele não media esforços. Tinha apenas uma chance, e não deixaria aquele garoto a estragar.
A mãe de Nathaniel tentava como podia atenuar o peso do que acontecia, mas tinha plena ciência de que nada poderia diminuir o quanto tudo era inevitável. Ela, que nunca quis a imortalidade para viver continuamente aquele horror, se viu presa naquele ciclo interminável, onde também precisava se tornar um modelo.
A vida daqueles dois não foi fácil. Nunca fora fácil.
Mas agora isso tudo era apenas... passado. Tão distante, que era difícil lembrar que um dia Nathaniel existiu. Esse nome sempre era amargo nos lábios de Neil, como uma lembrança distante de outra vida. Literalmente.
Agora, ele era apenas Neil Josten, que não precisava se preocupar com torturas, treinamentos e qualquer outra porcaria sobre si mesmo. Tinha sempre os olhos voltados para fora, e sua mente não lhe pertencia mais. Havia enterrado Nathaniel muitos anos atrás, e sua meta era esquecê-lo com o passar dos séculos.
Não queria as lembranças de tudo o que significava ser quem era. Desde que havia escapado dos pais, desde que fora resgatado, desde que fora recebido pela imortalidade, sem precisar ser um objeto.
No dia em que Stuart apareceu em sua vida, lhe curou todos os ferimentos feitos por seu pai, e lhe trouxe para a imortalidade como um presente, e não um castigo, Neil tinha decidido que nada de seu passado poderia moldar seu futuro.
Ele não queria lembrar de quem fora. Queria apenas ser quem era.
E talvez por isso, houvesse recebido aquele dom diferente de tudo e todos: o poder de não ser dono da própria mente.
Era como uma piscina pública, onde todos nadavam e deixavam seus vestígios para trás.
Ergueu os olhos na mesa onde estava, vendo Allison ajeitando as mechas do próprio cabelo loiro impecável, o olhar distraído no horizonte enquanto tudo em sua mente era a viagem de compras que faria no final de semana. Estava há dias falando que não tinha quantidade de roupas suficiente para mais um ano.
Não era surpresa, nunca, os pensamentos de Allison. Ela sempre os vocalizava em algum momento, e Neil se recordava dela ter realmente dito algo sobre não ter quantidade de roupa para um ano inteiro, cerca de cinco minutos atrás. Ela iria repetir isso até ir na maldita viagem, e quando retornasse seus pensamentos iriam voltar a girar ao redor de um único evento inútil outra vez.
Ao lado dela, Renee estava muito incomodada. Sua posição era um pouco clara, porque havia tensão visível em seus ombros. Ela era estranhamente sensitiva sobre o que as pessoas sentiam, e tinha esse poder de alterar algumas sensações. Ela pensava muito sobre qualquer aluno que conhecia e estava passando por uma dificuldade ou coisa parecida.
Neil não gostava de estar na mente dela. Era sempre bondoso e irreal, de uma forma que o deixava enjoado. Pessoas como eles não tinham direito de fingir ser tão boas assim.
Ela esticou a perna distraidamente, e de imediato Neil recolheu a própria, como se o toque fosse contagioso. Sabia perfeitamente que ela não iria mexer com seus sentimentos só de tocar aleatoriamente, mas era mais forte que ele fugir de qualquer contato com a garota.
"Neil?"
Seu nome dito claramente pela pessoa ao lado, mas em seus pensamentos, fez ele piscar e inclinar a cabeça para o lado, mostrando que ouvia. Não quis se virar e deixar os outros perceberem que era um claro momento onde conversava com Matt.
"Dan... está ok?"
Neil suspirou, um ato interpretado como tédio, mas deixou a mente procurar pelo fio desencapado que era Dan, sentada ao lado de Matt.
Se Neil não gostava dos pensamentos de Renne, os de Dan eram como uma seção de tortura.
Neil já se sentia sobrecarregado por ver os pensamentos de todos ao redor, então quando passava para a mente de Dan, era uma sensação mil vezes pior.
Dan sentia o que todos sentiam ao seu redor. Cada micro sensação, era captada por ela sem controle algum. Ela ainda era nova, e estava aprendendo a filtrar e separar, e isso era difícil como o inferno.
Cada um que estava apaixonado, triste, irritado. Cada dor por chutar o pé da cadeira, cortar o dedo com papel, ossos quebrados... Absolutamente todas as sensações golpeavam a garota ao mesmo tempo. Seus olhos estavam bem abertos, petrificados enquanto ela fingia sorrir.
Neil torceu o nariz levemente, em resposta a Matt, que parecia visivelmente preocupado.
Sua mente estava viajando, procurando cada traço do futuro onde pudesse ver o que ela faria a seguir. Se entraria em alguma sala e o sentimento seria difícil demais, e cada pequena reação.
Matt era quem Neil sentia mais familiaridade, embora fossem completamente diferentes um do outro. Ele era brincalhão e descontraído, e estava sempre usando o próprio dom para ajudar os outros. Hoje, especialmente, estava tenso por Dan, então toda sua atenção estava nele.
Pensava a cada segundo na última semana, quando ela teve uma crise inesperada e surtou de raiva. As sensações eram fortes demais misturadas com a fome, e eles tentaram a fazer estender o período entre as caçadas para ver se conseguiria se acostumar.
Matt ainda se sentia culpado por não ter percebido que ela estava tão mal, e agora estava surtando sobre o assunto. Seu dom de visualizar o futuro soava como uma maldição para Neil, mas ele nunca teve coragem de mencionar isso.
Neil saltou para fora da cabeça dela depressa, e deixou a antena de maldição tornar a girar pelas vozes correndo dentro daquele refeitório.
"Ele é assustador. É um monstro" Isso foi o que fez Neil frear abruptamente, e filtrar até encontrar de onde o pensamento partira. Era um grupo pequeno de quatro garotas no canto de uma mesa, e Neil sentiu um desconforto grande, pensando se ele ou alguém do grupo foram descobertos.
Se alguém ali sabia o que eram, e derrubaria todo o disfarce calculado por ele.
Mas a garota de quem saira o pensamento não olhava na direção deles, os monstros disfarçados da escola.
Encarava fixamente um grupo que Neil não se lembrava de ter visto antes.
Em específico na mente da garota, havia um dos loiros baixos. Estava usando roupas inteiramente pretas, e tinha a expressão fechada, encarando a comida diante de si, sem menção de comer. Girava compulsivamente um isqueiro entre os dedos, e parecia absolutamente alheio a qualquer coisa no universo.
Pensando bem, Neil ouviu algo sobre alunos novos hoje, e isso expandiu sua curiosidade, retornando para a cabeça daquele grupinho de meninas.
Na cabeça de uma delas, vinha uma notícia que viu em alguma pagina na internet. Um garoto que fora expulso de um bar após agredir alguém. Enviou o cara para o hospital com ferimentos muito graves. Como consequência, também foi expulso da escola onde ele e outros dois daquele grupo estudavam.
Elas cochichavam baixo sobre o quanto ele era perigoso, agressivo e o fato de que não deveriam tê-lo aceitado na escola.
Neil saltou na direção dele, mas foi um pulo cego. Não caiu em nenhum lugar, e não achou onde pousar. Não havia nenhum pensamento ali para lhe orientar, e ele ficou confuso se teria se perdido no meio do caminho.
Mas conseguiu seguir para o garoto ao lado dele. Eram gêmeos, mas a postura era completamente diferente. Enquanto o baixinho de preto tinha uma aura completamente revoltada e cheia de raiva e rancor, o outro era suave e despreocupado. Estava pensando no quão difícil estava sendo se adaptar e ter que aprender o conteúdo de forma diferente. Para não perderem as notas, teriam muitos trabalhos para fazer e entregar aos professores, por chegarem depois das provas.
Era recorrente, entre esses pensamentos, ele ter uma pontada de pesar, refletindo que se não fosse pelos problemas de raiva de Andrew...
Ele girou os olhos de canto para o tal Andrew, o mistério em forma de silêncio. Neil também o fez, tentando ver alguma coisa, e novamente nada. Se esforçou, encarando os cabelos loiros, chegando a franzir o cenho. O máximo que pôde sentir, foi uma vibração suave. Como se houvesse algo ali, mas impossível de ver o que era.
Era como um ruído suave, mas sem forma e contorno.
Andrew não fazia contato visual com ninguém. Neil encarava os cabelos loiros dele, e sua postura, tentando entender se estava se sentindo intimidado pelas pessoas claramente fofocando, e ao girar os olhos, percebeu que não era apenas um grupo que encarava ele. Haviam muitos alunos falando sobre o vídeo de Andrew espancando um cara com duas vezes seu tamanho.
Neil ainda estava muito curioso quando girou os pensamentos outra vez e procurou o lugar mais próximo. Era o cara que estava sentado na outra ponta daquela mesa, e estava tão absorto quanto ele em encarar Andrew.
Aqueles pensamentos eram mais acolhedores. Ele estava preocupado. Encarava o loiro, e pelos olhos dele e sua proximidade era mais fácil para Neil ver cada pequeno detalhe na expressão do outro.
Andrew tinha o rosto completamente vazio. Era como se não sentisse o olhar de todos ao seu redor, como se não se importasse com os sussurros lhe acompanhando, e todo o desconforto que existia. Ele apenas girava os dedos, encarando o isqueiro de forma completamente enigmática, com olhos quase dourados marcados por uma sobrancelha levemente franzida.
Ele se perguntava, enquanto observava, se Andrew estava bem. Se sentia culpa pela mudança de escola e pela forma que o primo estava sendo tratado apenas por estar sentado ao seu lado e ter lhe defendido para todos que conversaram com ele durante aquele dia para saber mais sobre o garoto agressivo do grupo
Eles não eram fisicamente parecidos, isso fez Neil querer prestar mais atenção ainda naquele pequeno drama, e ficou surpreso ao ver de relance na mente dele o ataque. Andrew era realmente violento. Precisaram de muitos para tirar ele de cima do outro cara, que ficou apagado. Parecia morto no chão.
Neil arqueou o cenho, se perguntando qual era o mistério ao redor de Andrew, quando viu também que atacou o homem por ter ameaçado seu primo. Era protetor, então.
Ainda havia outro elemento na mesa, mas aquele era conhecido.
Kevin Day, resumidamente, era um idiota.
Estudava ali desde o ano anterior, era capitão do time de Exy da escola, e filho do treinador Wymack. Ele não costumava se envolver com as pessoas ao seu redor, fazer grandes amizades ou qualquer coisa do tipo.
Toda a personalidade dele se baseava em ser fã de Exy. Se você queria saber o placar do último jogo de Exy, era apenas espiar a mente de Day em qualquer hora do dia, e invariavelmente ele estaria pensando nisso. Como um disco quebrado e cheio de defeitos.
Ele tentou recrutar Neil para o time após vê-lo jogando queimada na educação física uma vez, e o odiava por ter recusado.
Neil gostaria de jogar Exy. Não podia negar o quão divertido era, e uma das coisas que mais lhe causava euforia nesse tédio de reviver o mundo outra vez. Mas tinha receio porque o esporte sempre fazia seu sangue ferver, e em uma perda de autocontrole poderia acidentalmente jogar forte demais, ou esbarrar em alguém e acabar matando a pessoa.
Essa era a última coisa que precisavam.
Stuart lhe proibiu de se arriscar tanto, e era um tema que ofendia a imortalidade de Neil. Ele gostaria de jogar. Gostaria de poder fazer essa escolha.
Kevin pensava em Exy, é claro. Parecia realmente satisfeito de convencer Andrew a jogar no time. Eles se conheceram através de Wymack, que logo pela manhã avisou Day para ser legal com os novos alunos e os integrar na escola.
Neil quis rir. O próprio Day não era integrado na escola. Metade dos alunos o achavam idiota, e a outra metade admitiam que ele era muito bonito. Mas, em unanimidade, absolutamente nenhum aluno nesses dois grupos o achava legal.
Ainda assim, nada dos pensamentos de Andrew escapou para Neil. Era uma porta trancada. Era... fascinante.
– Neil?
Ele piscou, se virando para Matt ao ouvir o próprio nome e notou que todos esperavam uma resposta de algo que deviam ter perguntado e não ouvira. Repassou a mente deles, e assentiu.
– Sim, vou com vocês depois da aula. Faz algum tempo desde a última vez que... jantamos.
Eles concordaram, e Neil se inclinou na direção de Dan ao ver que agora os outros haviam se fechado nas próprias preocupações de novo, e Matt se levantara com a desculpa de fingir que havia terminado de comer e ir buscar sobremesa. Era um cara grandão, precisava sempre parecer que comia algo para manter as aparências.
– Você consegue alcançar o garoto novo? – Questionou, vendo Dan piscar surpresa para ele.
– Qual? Acho que temos mais de um hoje, certo?
– A mesa perto da janela. Tem dois garotos baixinhos, loiros – Continuou a dizer, muito curioso, vendo ela seguir com o olhar naquela direção – O que está de preto.
Dan encarou e franziu o cenho, como se usasse grande concentração. Sua expressão geralmente não se torcia daquela forma, porque era fácil achar uma conexão e descobrir o que a pessoa sentia. Ela empurrou outra vez, e achou engraçado, porque tentou o gêmeo dele e foi fácil.
– Eu... acho que irritação. Não é claro – Ela respondeu confusa – É só... uma impressão. Você consegue ver algo sobre ele? Eu não consegui mais do que isso.
– Não. Não vejo nada – Respondeu em um sussurro curioso e enigmático.
Eles ficaram surpresos, é claro. Trocaram um olhar longo, porque aquilo nunca havia acontecido antes.
– Acha que é porque são gêmeos? E... só conseguimos ver um?
– Teoria interessante. Eu queria lembrar se já tentei ver outros gêmeos... mas nunca presto atenção nos humanos para ter certeza.
– Vou descobrir se temos mais gêmeos na escola. Nunca aconteceu de eu não conseguir ver antes.
Neil estava interessado, mas não o bastante. Apenas balançou os ombros e se ajeitou melhor na cadeira, pensando que em breve o sino tocaria iniciando o restante do período.
– Bem, tem alguns realmente bonitinhos nessa escola. Posso me adaptar a estudar aqui – Nicky, o primo alto disse, sem muito pudor. Em sua mente, sabia que o comentário iria irritar todos naquela mesa, mas ele o fez mesmo assim, apenas para quebrar o silêncio.
– Viemos aqui para estudar, Nicky. Não comece com essa porcaria! Achei que estivesse sério com Erick! – Respondeu o gêmeo tedioso.
– Estamos sérios. Eu amo Erik. Mas isso não faz de mim cego para as outras pessoas. Agora, de imediato, estou muitíssimo intrigado com aquela última mesa perto das janelas – Ele disse ao fim, e Neil desviou os olhos quando todos se viraram na direção deles, querendo sorrir.
Chamavam atenção. No começo ele não entendia o motivo, mas ficava claro na mente das pessoas, ao lhes classificar como muito bonitos. Allison com seus cabelos muito loiros e beleza sobrenatural era quase hipnótica para a maioria dos caras, e ela fazia questão disso. Passava horas se arrumando para estar na escola perfeita, porque acreditava que tinha essa imagem a defender.
Seth, seu namorado, não estava com eles hoje. Havia decidido matar aula para caçar, e era algo que sempre fazia. Ele também tinha alguma beleza, embora sua personalidade fizesse com que fosse impossível de enxergá-la. Neil custava a entender como alguém como Allison acabou com aquele idiota, e nunca chegou a nenhuma conclusão.
Dan e Matt eram o casal perfeito, era óbvio. Ele parecia uma muralha perto de Neil, por ser muito alto e ter ombros largos. Era o maior entre eles, e embora tivesse essa vantagem física, era o mais doce também. Incapaz de ferir se quer uma mosca, Matt era calmo e gentil o tempo inteiro. Eles sempre brincavam que Dan mandava nele dentro daquele relacionamento.
Dan era linda, é claro. A maioria dos humanos ao redor deles tinham inveja de Matt por seu físico ou por sua namorada. Às vezes, pelos dois.
Nicky os encarava, pensando em como eram um casal bonito. Seus olhos esquadrinharam ambos, se admirando nos detalhes de Matt com a cabeça pousada contra o ombro dela enquanto conversavam baixinho, com intimidade. Isso o fez imediatamente sentir falta do tal namorado, Erik. Ele se apressou em afastar esse pensamento e continuar olhando entre eles.
Seu olhar correu para Renee, distraída ao ler um livro. Ela costumava chamar atenção por sua bondade, e também pelos cabelos cheios de mechas coloridas. Era sua marca oficial, acompanhada de seu coração generoso.
A última pessoa que Nicky observou foi o próprio Neil, que quis rir de como ele o definiu como delicioso em sua mente. Neil não era muito alto, sendo menor do que a maioria. Mas tinha cabelos ruivos rebeldes e olhos muito azuis que atraiam atenção depressa.
Ele achou que Nicky merecia lhe ver por completo, e ergueu o rosto distraído na direção da mesa, percebendo que todos o encaravam. Ainda assim, seu olhar se chocou primeiro com Andrew, o loiro enigmático de mente vazia, e pôde ver aqueles olhos que soavam quase dourados na claridade.
Desviou o olhar, como se estivesse apenas distraído, e viu Nicky se inclinar na mesa em direção aos outros.
– Não seja nojento, Nicky – O gêmeo nerd o interrompeu antes mesmo que começasse a falar, e o outro apenas revirou os olhos, enquanto pensava no quão bonito havia achado todos e como não se importaria em fazer um rodízio naquela mesa.
Isso foi demais para Neil. Saiu da mente dele, que realmente era uma nojeira.
Ainda assim, tentou uma última vez ver o pensamento de todos naquela mesa, e Andrew continuava sendo uma parede vazia, e não reagiu quando o sinal tocou.
–... Próxima aula? – O primo, que descobriu na cabeça de Kevin se chamar Nicky, questionou ao grupo como um todo.
As respostas vieram como um fundo que para Neil era desinteressante, e estava começando a cogitar a possibilidade de Andrew também não falar, quando a voz dele finalmente soou depois de um tempo, grave e baixa.
– Biologia – Disse apenas, vago e desinteressante sobre o assunto – Professor Banner.
Neil sentiu um fundo de ansiedade. Talvez, de perto, conseguisse ver os pensamentos do tal Andrew. Isso o fez se levantar da mesa, acenando de forma geral para todos antes de seguir para a porta.
Caminhou com ansiedade para a sala de aula, pensando que talvez um mistério idiota sobre um baixinho gótico poderia ajudar a passar pelo tédio da imortalidade.
Ele não sabia, no entanto, que aquele dia iria mudar tudo o que conhecia, e que as consequências seriam absolutamente catastróficas;
E, ainda assim, se pudesse voltar no tempo...
Não teria se impedido de caminhar para a mesma sala de aula onde Andrew estaria naquele dia.
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