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Characters:
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Language:
Português brasileiro
Collections:
Resf - Round 1
Stats:
Published:
2023-03-28
Completed:
2023-06-10
Words:
27,230
Chapters:
2/2
Comments:
4
Kudos:
46
Bookmarks:
7
Hits:
709

Blind

Summary:

Kyungsoo e Jongin são a prova viva de que os opostos não se atraem, tanto que não conseguem nem dividir o mesmo espaço sem que uma onda de ofensas comece rapidamente. Quando são obrigados a dividir a mesma república na faculdade, os dois decidem dar uma trégua... Pelo menos até Jongin afirmar para os amigos próximos que Kyungsoo tem cara de quem transa mal e, que jamais transaria com ele.

Notes:

Olá meus amores, espero que gostem dessa historia tanto quanto eu gostei de escrever.
Obrigado ao RESF por me deixar participar dessa etapa como autora e adm, amo demais vcs e obrigado também a @Miss_Schiffer (no twitter) por ter doado esse plot maravilhoso e @Maahlita (SPIRIT) por ter betado pra mim.

Espero que gostem, boa leitura😘😘

(See the end of the work for more notes.)

Chapter Text

— Já chega! — A voz grave foi alta o suficiente para que todos presentes na ampla sala entrassem em silêncio absoluto. Ninguém ousou soltar uma respiração mais alta sequer.

Kim Junmyeon era quase a calma em pessoa, desta forma, causar tamanha reação exagerada comprova que a discussão tinha passado do limite, saindo de uma conversa em prol de resolver um conflito e se tornado em si o problema.

Junmyeon esfregou o rosto frustrado no momento em que Jongin se jogou contra o sofá, o corpo saltando no estofado enquanto os braços se cruzaram frente ao tronco, um bico de imediato se formou nos lábios ressecados dele e Kyungsoo não tardou a imitar o gesto, revirando os olhos em seguida.

— Qual é a porra do problema de vocês dois? — Não esperava uma resposta, mas os olhos vagavam entre os dois jovens sentados em diferentes pontas do sofá. — Não sabem resolver nada conversado, tudo vira bagunça, tudo vira escândalo, tudo é motivo para brigar, não vão crescer nunca? Já estamos aqui há meses, o mínimo que vocês tem que fazer é tentar manter a paz para o bem de todos da casa.

— A culpa não é minha se esse moleque esqueceu a educação na casa dele, se é que ele teve uma algum dia… — Kyungsoo se apressou a falar, se mantendo na defensiva e tentando amenizar a bronca do seu lado.

— Eu fui mal educado? — Jongin, com um tom ofendido e algumas notas elevadas, não se conteve em rebater — Quem é que fez uma reunião com os moradores da república para reclamar de algo que poderia ser resolvido com diálogo?

— Como se você desse alguma atenção ao que eu falo…

— Calem a boca! — Junmyeon já sentia pontadas dolorosas na cabeça. Lidar com aqueles dois era assim sempre, uma tortura se juntos. — Jongin… — Mesmo a contra gosto, Jongin o olhou, um tanto atravessado e perceptivelmente irritado, mas isso não amedrontou o monitor. — Se Kyungsoo estiver em casa, use fones de ouvido para evitar discussões. — Antes que Kyungsoo pudesse esboçar um sorriso diabólico, no entanto Junmyeon lhe dedicou um olhar tão sério quanto ao que, segundos antes, mostrava a Jongin. — Kyungsoo, se quiser reclamar de algo sobre Jongin, diga a ele ou mande um email. As reuniões de residentes são para problemas reais e não para as suas implicâncias — foi sério em suas palavras, retirando resmungos baixos de ambos os jovens — Caso as coisas tenham sido esclarecidas, a reunião está encerrada.

Kyungsoo até fez menção de complementar a discussão, talvez fazer aquela cabeça burra compreender o quanto era inconveniente todo o tempo a cada segundo e ele ainda estava disposto a falar mais algumas poucas e boas para Jongin, , mas quando Junmyeon deixou a sala acompanhado de Sehun e Minseok, Chanyeol o olhou de um modo decepcionado, e apenas isso foi o suficiente para se levantar bufando de raiva e subir as escadas pisando forte. Odiava aquele olhar do irmão.

Era ridículo como Jongin conseguia tirar toda a paciência de Kyungsoo, por vezes o fazendo agir como um pré adolescentes mimado. Kyungsoo até queria se portar como um adulto em situações assim, porém lidar com Jongin era sempre complicado. Tinha que devolver na mesma moeda, ele só compreendia quando tratado feito um idiota.

 

3 anos antes

Discutir com Jongin fazia basicamente parte da rotina da vida de Kyungsoo, e se houve uma época em que não brigavam, era porque ainda não se conheciam. Os dois se conheceram ainda no ensino médio, logo que o primeiro ano se iniciou, e desde essa época já não havia um pingo de simpatia por parte de Kyungsoo para com o Kim.

Kyungsoo o detestou desde a primeira vez que seus olhos caíram sobre ele. Ainda era vívida a lembrança de um Kim Jongin adolescente entrando pela porta de sua sala, sorrindo para todo mundo, agindo como se fosse uma estrela pop, mesmo em seu primeiro dia de aula. Era nauseante o tanto que ele sorria, sempre explicando quem era e de onde vinha. Kyungsoo perdeu as contas de para quantos professores Jongin explicou que era filho de um vereador conhecido e vinha de umas das escolas particulares mais caras do México. E Kyungsoo, embora não se interessasse por nada em relação a ele, sempre se indagou o que um jovem como Kim Jongin fazia em uma escola pública, contudo, uma resposta nunca chegou a si.

 

Doh Kyungsoo nasceu em uma família tradicional coreana, por tanto era bem reservado e quieto. A vinda para o Brasil foi aos dez anos, e isso resultou na dificuldade absurda em lidar com a diferença cultural de um país para outro. Foi criado para sempre chamar o mínimo de atenção possível e ser discreto em todas as suas ações, por isso logo de cara já sentia um completo desconforto por estar perto de Jongin.

Jongin era a definição de tudo que Kyungsoo menos gostava no mundo. Ele falava demais, se expressava demais, rir alto e o pior de tudo, não era nada discreto no quesito demonstração afetiva homosexual.

Não que Kyungsoo tivesse algum problema com a sexualidade de tal, até porque era assumidamente bissexual para os pais e seu irmão mais novo se descobriu gay cedo. Apesar de serem criados em um lar com a educação voltada para o conservadorismo, sua familia sempre pregou sobre o amor incondicional e os respeitavam mesmo não compactuando com “suas escolhas”.

Kyungsoo, de fato, não era homofobico, apenas… tradicionalista demais, e contra absolutamente todo ato de demonstração afetiva em público, principalmente se esses eram atos libidinosos. Não via um problema em Jongin ser gay, só que ele parecia querer esfregar na cara de todos que gostava de homens, e sequer demonstrava vergonha ao ficar se enroscando nos braços de um cara diferente por semana. E sempre em público, sem o mínimo de respeito por si mesmo ou pelos outros. Kyungsoo achava nojento, uma tamanha falta de educação, e quase sempre se escandalizava com o que via pelos corredores.

No geral, Kyungsoo o evitava, não se aproximava e mesmo quando Jongin sorria para seu lado, se afastava sem tentar disfarçar sua falta de afeição. No entanto, seu problema real com Jongin se iniciou um pouco depois da chegada dele à escola, alguns meses mais adiante.

Criado na Coreia, Kyungsoo sempre apreciou basquete, era o único esporte que suportava e se atrevia a jogar, era muito bom e diariamente jogava contra o irmão e o pai em alguma praça perto de sua casa. Deste modo, quando o grêmio estudantil revelou que o esporte titular de escola naquele ano seria o basquete, Kyungsoo quase explodiu de alegria. O anúncio foi feito com um mês de antecedência dos testes para o time oficial e Kyungsoo logo tratou de começar a se preparar.

 

Sempre foi uma pessoa calma e paciente, mas esse traço de sua personalidade parecia se esconder sempre que Jongin estava envolvido no assunto, e quando o sangue de Kyungsoo esquentou por causa do Kim pela primeira vez naquele fatídico dia…

Kyungsoo jogava a bola na cesta acoplada à parede de seu quarto, quando Chanyeol, apressado, entrou em seu quarto. O costume de sempre deixar a porta aberta era algo que Kyungsoo sequer se importava em corrigir de tão habitual que se tornou. O mais novo dos irmãos se jogou contra a cama embaixo da janela e falou como quem não quer nada: “Fiquei sabendo que o Jongin já foi escalado”, no entanto a voz mansa não foi o suficiente para acalmar os nervos do irmão.

 

…🦋…

Kyungsoo fez questão de pelo menos esperar que a presidente entrasse na sala disposta para o grêmio estudantil antes de desatar a expressar sua reclamação, fazendo questão de não esconder sua frustração pela injustiça que todos estavam sofrendo perante o claro favoritismo. Falou até que a garota se aborrecesse por tanto ouvir e então tentasse explicar a Kyungsoo que Jongin havia sido escolhido por fazer parte do time na antiga escola e ser responsável por diversos prêmios esportivos, não só de basquete mas também por outros esportes. Nem isso foi o suficiente para parar a fúria de Kyungsoo, que só resultou em uma porta fechada em sua cara e uma frase debochada expondo o quanto ela não dava a mínima para o que ele reclamava.

Foi naquele dia que um simples desconforto se tornou motivo de implicância.

Poucas semanas depois, quando entrou no time oficial, Kyungsoo ainda se sentia irritado, e mesmo que fosse contra seus princípios, passou a implicar com Jongin, pois sua mágoa era maior do que sua moral naquele momento.

Jongin, a princípio, nada fazia senão ignorar. Até certo ponto, não achava que ele estava errado quanto aos sentimentos ressentidos que nutria em relação a si, afinal havia de fato entrado de modo privilegiado dos demais. Acreditava que, em algum momento, Kyungsoo simplesmente aceitaria que era bom e merecia estar no time, mas não foi o que aconteceu.

Durante os primeiros meses, mesmo incomodado com certas atitudes, Jongin revirava os olhos e respirava fundo. Foi durante uma aula de sociologia que, pela primeira vez, o Kim se viu agindo. Adorava sociologia e a forma como podia expor suas opiniões e ainda ganhar pontos por isso. A professora falava sobre preconceito, em específico sobre o que os alunos pensavam sobre as crenças que abominavam as práticas homossexuais. Cansado demais para pensar de modo coerente, Jongin, diferente do esperado por todos, apenas ficou em silêncio, rindo baixo e debochando dos demais alunos com pensamentos retrógrados, e permaneceria assim se Kyungsoo não tivesse resolvido abrir a boca.

Ele quase não falava durante as aulas, e quando falava era para debochar de Jongin, portanto já nem recebia atenção deste. E mesmo de cabeça baixa e fone de ouvidos, Jongin ainda assim pôde ouvir o que poderia ser a coisa mais inacreditável do dia. Sua cabeça virou em direção a Kyungsoo lentamente como se tentasse processar as seguintes palavras:

— Eu acho que eles não devem aceitar nada, apenas respeitar. Eu, por exemplo, sou assumidamente bissexual para os meus pais, e meu irmão é gay. Embora eles tenham vindo de uma família tradicional coreana e se encontrado no cristianismo ao chegarem no Brasil, ainda nos respeitam muito, mesmo que não concordem com nossas “escolhas”. — Kyungsoo gesticulou com as mãos antes de voltar a cruzar os braços diante do peitoral.

— Então você, sendo alguem “bissexual”... — Jongin usou as mãos para insinuar a falta de confiança nas palavras alheias. — Acha que não tem nada demais em pessoas cristãs serem contra o casamento de pessoas do mesmo sexo, ou usarem da biblia como pretesto para discriminar e ofender uma comunidade? — Suas sobrancelhas estavam erguidas e um sorriso debochado surgia discretamente nos lábios.

— Eles só estão agindo de acordo com as crenças deles…

— Então para você está tudo bem ofender um LGBT se isso estiver de acordo com as crenças de alguém?

— Não foi isso que quis dizer.

— Foi o que você disse.

— O que eu disse é que você não pode obrigar ninguém a ir contra a própria fé — a voz calma de Kyungsoo era totalmente distinta da bagunça que ele estava fazendo na cabeça de Jongin. Embora por fora estivesse calmo, por dentro estava queimando em ódio, vontade de gritar e bater nele até que fosse capaz de compreender a atrocidade que ele dizia com tanta veracidade.

Jongin queria surtar porque sentia o coração acelerar e as mãos darem indícios de que logo começaria a tremer. Era óbvio que o princípio de uma crise de ansiedade começava, era sempre assim, o mínimo o deixava agitado quando se tratava de assuntos tão delicados para si, mas também não podia cobrar compreensão de Kyungsoo, afinal, ele visivelmente não tinha vivido nenhum tipo de preconceito.

Com o maxilar travado e os olhos ardendo, Jongin olhou para Kyungsoo com uma expressão enojada e ditou as palavras em desprezo:

— Sabe o que eu acho, Kyungsoo? — A pergunta foi retórica, apenas para obter a atenção dele. Conseguiu. — Eu acho que você usa essa sua “bissexualidade” — Voltou a gesticular com os dedos. — para mascarar essa sua intolerância. Isso é uma forma de aliviar sua consciência quando quer ser um merda preconceituoso. Eu tenho pena do Chanyeol. Honestamente, deve ser horrível dividir uma casa com alguém desprezível como você.

Kyungsoo o olhou incrédulo, mas não teve a oportunidade de responder, porque o som estridente do sinal soou alto e Jongin foi o primeiro a deixar a sala.

Depois disso, nunca mais houve paz. Se Kyungsoo e Jongin estivessem na mesma sala, respirando do mesmo ar, era certo de que haveria caos, discussões, gritos e, por algumas vezes, violência. As brigas eram cotidianas e pelos motivos mais banais possíveis, não importava a razão, era quase uma obrigação que brigassem.

Jongin tornou-se tão implicante quanto Kyungsoo e assim foi durante todo o resto do período escolar.

O fim do ensino médio foi marcado para Kyungsoo como a melhor experiência da vida, a sensação surreal de trocar a festa de formatura por uma noite de filmes com seu melhor amigo virtual foi com certeza uma das melhores coisas que já vivenciou, perdendo apenas para uma semana depois de oficialmente formado, quando o email de aprovação universitária chegou, anunciando que em breve Kyungsoo e Chanyeol poderiam se mudar para a capital de São Paulo para enfim cursarem o que sempre planejaram.

Mesmo muito animado com a faculdade, ainda foi difícil se despedir dos pais quando o dia de embarcar rumo ao seu sonho chegou. Havia sonhado com a faculdade de gastronomia por tantos anos que quando até que o dia chegou, a ideia de que teria que viver três longos anos longe de casa se tornou dolorosa. Era triste, mas necessário para ter o futuro que os pais desejavam.

Cidade nova significava faculdade nova, casa nova, amigos novos e, principalmente, estar afastado de seu maior pesadelo no ensino médio. Não poderia nem tentar mentir que sentiria falta quando seu maior incentivo para se candidatar para uma universidade tão distante era a chance de não precisar olhar para Jongin por muitos e muitos anos, e se Deus fosse bom (como sabia que ele era), não iria vê-lo nunca mais por toda a eternidade.

Quer dizer… Esse era meio que o plano inicial, mas como sua mãe sempre frisa “não questione, filho. Deus age de formas misteriosas”. E tamanha foi a surpresa de Kyungsoo quando deu de cara com o temido ex-colega. E como se as coisas não pudessem ficar piores, ainda eram companheiros de apartamento.

O email deixou bem claro que ambos os irmãos iriam dividir uma república junto de mais seis jovens, sendo um deles uma espécie de monitor educacional. Kyungsoo se atentou a todas as informações que diziam que cada quarto seria ocupado por duas pessoas e que as despesas, com exceção de alimentação e higiene pessoal, eram todas bancadas pelo governo. Tudo estava em ordem quando chegou ao dormitório, o monitor auxiliou os dois, permitindo que pudessem escolher um dos quartos para dividirem. Parecia o sonho se concretizando.

Porém, uma coisa que Kyungsoo esqueceu de levar em consideração era a parte do email em que dizia que as repúblicas eram divididas por escolas em que os moradores cursaram o ensino médio. Kyungsoo devia ter reparado quando o monitor disse que também morava em Brasília e que havia estudado perto dele, mas a ficha só pareceu cair algumas horas mais tarde.

 

Kyungsoo não tinha problemas com barulhos altos, afinal,havia crescido com Chanyeol, que mesmo com toda a tecnologia da atualidade se recusava a usar um fone de ouvido em qualquer ocasião, então de fato, música alta não era inconveniente para si. Todavia, quando o som de um funk carioca conhecido, atravessou o toque sutil do pop coreano que tocava em seus fones, Kyungsoo se viu na obrigação de deixar seu quarto e rumar em direção ao quarto que emitia o som.

Tocou a porta com força, não porque estava irritado, mas sim para que pudesse ser ouvido e atendido. Não demorou para que uma figura baixa e de cabelo rosa desbotado surgisse na porta. O jovem estava sem camisa, uma cerveja em uma mão e a outra segurava a porta, ele encarou Kyungsoo com um sorriso malicioso descendo e subindo o olhar por todo o corpo alheio antes de perguntas:

— Posso ajudar, gracinha? — Kyungsoo franziu o nariz incomodado com a forma como estava sendo mirado, mas não tirou o semblante educado do rosto.

— Sua música está deveras alta, está incomodando os outros residentes, você deve lembrar que embora o quarto seja seu, a casa ainda é compartilhada — O rapaz ainda parado na porta não emitiu nenhuma reação se não virar as costas e apontar para si, como se avisa-se alguém de sua presença. Kyungsoo reclamaria de sua péssima recepção se não estivesse tão abismado no segundo seguinte.

A figura que surgiu na sua frente e ocupou o espaço deixado pelo sem educação anterior era Jongin. Ele arqueou a sobrancelha no mesmo instante, parecendo tão surpreso quanto o próprio Kyungsoo, mas enquanto um sorriso debochado ocupou os lábios dele, Kyungsoo ainda estava chocado demais para ter qualquer reação. Jongin usava nada mais que uma cueca vermelha e um chapéu de natal na cabeça. Ele soltou o ar pelo nariz e revirou os olhos, se apoiando no batente da porta antes de murmurar:

— Tinha que ser. Não conheço outra pessoa que usaria “deveras” em uma frase.

Jongin estava bem diferente desde a última vez que o viu, os cabelos antes castanhos agora estavam com mechas loiras e a pele agora era marcada de sol, dando espaço às marcas bronzeadas onde a roupa íntima começava. Bem, Kyungsoo havia mesmo ouvido Chanyeol comentar que Jongin atualizou seus storys em Buenos Aires durante o recesso de fim de ano, então não compreendeu o que exatamente ele estava fazendo ali, mas por fim concluiu que a situação era patética e que não havia nada mais ridículo que Jongin por inteiro.

— Devo avisar que o natal foi há duas semanas? Achei que você era burro, mas pelo visto não é mais um achismo — o comentário saiu debochado e com a descoberta de que Jongin estava na casa, perdeu os sentidos e ao menos conseguia recordar o por quê de ter ido ali em primeiro lugar.

— Será que um dia você vai amadurecer ou sua maturidade deixou de crescer junto de sua altura?

Kyungsoo teve de respirar fundo quando as mãos fecharam em punhos, daria tudo para acertar a fuça daquele sem noção.

— Engraçado que eu, com minha pouca altura, fui capaz de vencer um campeonato estadual, aquele mesmo que você quase colocou tudo a perder, se lembra? — Kyungsoo adorava como a simples menção ao último jogo da última temporada conseguia desestabilizar Jongin por completo. Sabia bem como ele odiava o assunto e por isso fazia questão de lembrar ele o tempo todo.

— Eu estava machucado, você sabe. — Jongin não precisava justificar para Kyungsoo, mas gostava de lembrar para si mesmo que não era sua culpa o time quase ter perdido.

— Incrível como você sempre usa essa desculpa ao invés de assumir que é um inútil.

— Tenha um resto de tarde infernal, Kyungsoo — Jongin sorriu falso ao bater a porta na cara do colega de república.

Kyungsoo seguiu o corredor em direção ao quarto, a mente bagunçada em uma mistura de raiva e frustração, sentia todos os seus planos lindos e felizes de uma época de universitário sendo destruídos por uma única interação.

Sabia bem que era impossível que ambos conseguissem viver em paz, sabia que nunca poderia se dar bem com Jongin e isso corroia sua mente com o mais puro ódio, não era capaz de aceitar que, com tantas universidade no país, Jongin havia se candidatado justo para a sua, e pior, caído em sua república. Parecia até piada de tão inacreditável. Realmente, Deus agia de modos misteriosos.

…🦋…
Kyungsoo não demorou para se adaptar à rotina de estudante. Seus horários eram bem flexíveis, havia aula integral duas vezes por semana e no resto dela estudava apenas de manhã. Gostava muito do curso e dos colegas de república, estes que ao descobrirem qual era seu curso foram rápidos em decidirem que ele seria responsável pela comida feita de segunda a sábado. A princípio, reclamou, mas levando em consideração que não tinha que limpar a casa uma só vez, passou a amar a tarefa.

Estar com outros jovens universitários era incrível. Eles sempre se ajudavam com afazeres domésticos e eram extremamentes prestativos na hora de ouvir ou fazer reclamações de professores. Para Kyungsoo, foi bem tranquilo conviver com eles.

Minseok era o estudante de veterinária, ele nasceu no Mato Grosso e morou quase que a vida toda na fazenda. Ele e o namorado tinham vindo juntos para São Paulo em busca de aventuras na cidade grande, infelizmente não tiveram a sorte de dividirem a república —não que fizesse diferença, já que ele vivia pela casa compartilhada do amado.

Já Jongdae era colega de quarto de Minseok e dono de um dos sorrisos mais doces da casa. Cursava administração e era noivo de uma estudante de artes cênicas extremamente fofa.

Junmyeon era o monitor e estudante de pedagogia, e nem precisava de muito para sacar que ele nascera para a profissão, afinal, era quase como um pai dentro da casa, cuidando de todo mundo e em especial de Sehun, o mais jovem entre todos ali. Eles tinham uma ligação que fingiam não existir, mas Kyungsoo, como a caixinha de segredos de Sehun, já havia ouvido as atrocidades mais sexuais possíveis envolvendo os dois. O estudante de dança definitivamente não poupava detalhes.

Movidos por um ódio, em especial por Baekhyun e Jongin respectivamente, Sehun e Kyungsoo se aproximaram logo na primeira semana de moradia. Kyungsoo veio a descobrir que Baekhyun era o jovem de cabelos rosa que dividia o quarto com Jongin, esse tão insuportável quanto, porém tinha mais limites que o outro, como se vestígios de um cérebro ainda fossem existentes.

Não existia um motivo exato para que Sehun não gostasse de Baekhyun ou Jongin, ele apenas tinha uma implicância chata de alguém que se sentia ameaçado pela beleza dos dois jovens solteiros, em especial de Jongin que era bastante próximo de Junmyeon.

E falando em Kim Jongin, já era de se esperar que a convivência seria traumatizante para todos os residentes, em especial para Junmyeon que sempre tinha de escutar as reclamações de ambos. Kyungsoo até tentou ignorar Jongin, diferente do ensino médio, queria se manter distante e focar unicamente no curso, todavia Jongin era tão insuportável que não viabilizava uma convivência tranquila. Como sempre, via algo onde não tinha. E a primeira discussão deles foi no fim da segunda semana de residência, justamente por causa da paranoia de Jongin.

Toda sexta-feira os moradores da casa se juntavam em uma reunião para discutir assuntos da casa e passarem tempo juntos, uma ideia oferecida pelo monitor e muito bem acatada pelos demais. No entanto, Jongin não conseguia viver em paz, e pouco depois de duas cervejas já estava falando bobagens na sala:

— Vocês não acham estranho que nossa república só tenha asiáticos ou descendentes? — Ele estava deitado com a cabeça no colo de Baekhun e os olhos voltados para o teto, parecia ainda mais idiota com a fala lenta pela bebida.

— Não, estranho seria você ficar calado por mais de cinco minutos — Sehun comentou revirando os olhos. Jongin e Baekhyun o olharam, mas não responderam, como se concordassem que não valia a pena responder. Kyungsoo sorriu baixo.

— Não acho estranho, Nini — Junmyeon começou com a voz calma usando o apelido de Jongin, dado por Baekhyun. Não demorou para Sehun se revirar incomodado, ao lado de Kyungsoo. Ele sempre agia assim quando Junmyeon era carinhoso com alguém que não fosse ele, Kyungsoo ou Chanyeol. O monitor era a única pessoa que ainda se dava ao trabalho de responder às perguntas idiotas de Jongin quando todo o resto da casa apenas revirava os olhos. — Eu penso que eles só quiseram criar uma fonte de apoio para a gente, somos poucos nessa universidade e é importante pra gente manter a sensação de lar por estar com pessoas que têm as mesmas tradições que nos. Vocês não acham?

— Diga por você, eu sou argentino e Jongin, mexicano. Mal sei falar coreano e o pouco que sei aprendi com a família do Nini. — Baekhyun disse, mas não parecia se importar muito com o assunto. — Esse lance de tradição não é tão comum pra cá.

— Ah não sei, pra mim isso é uma forma de isolar a gente, de dizer que como somos diferentes temos que estar juntos e longe do resto — Jongin continuou.

— Mas não é meio que isso…?. — Chanyeol interrompeu, sendo cortado em seguida por Kyungsoo.

— Como você pode ver problema em tudo? — questionou em direção a Jongin, de fato indignado.

Jongin era exatamente o conceito de militante, e não queria ligar ele ao estereótipo gay, mas ficava bem difícil quando ele agia exatamente como um gay usuário de Twitter.

— Como você pode não ver problema em nada? — Jongin se levantou do colo de Baekhyun e acabou sentando, encarando Kyungsoo.

— Jongin, só você vê problema em dividir um apartamento com descendentes de coreanos.

— Não tô falando que é um problema! — Rebateu já sentindo a irritação crescer, odiava quando ele distorcia suas falas. — Não coloque palavras na minha boca, só tô falando que a gente podia estar em qualquer outro dormitório, então porque estamos todo mundo aqui?

— Jongin acho que você tá meio que… — Minseok fez uma pausa, procurando a palavra certa, — problematizando demais. Sei que na realidade em que vivemos algumas coisas podem não serem coincidências, mas elas também podem acontecer e tá tudo bem.

— Sim, Minseok tem razão — Jongdae concordou. — Pode ser só uma coincidência legal. Tipo, é legal, né? Estamos todos juntos aqui, compartilhando experiências, querendo ou não.

— É, Jongin, ninguém está excluído a gente, relaxa. — Chanyeol nunca participava de nenhuma discussão, gostava de se manter na dele, afinal era tímido demais, porém sentiu necessidade de dizer algo, antes que o irmão decidisse voltar a falar e estragar o momento de concordância de Jongin, que apenas mexeu a cabeça, concordando e voltando a deitar sobre Baekhyun.

Então Kyungsoo percebeu que conviver em paz seria uma tarefa difícil, afinal uma pequena discordância já havia ocasionando em seu sangue correndo mais rápido pelas veias e uma raiva típica, nem gostava de imaginar o que a convivência frequente faria.

 

…🦋…

 

Os três meses de início de curso pareceram passar voando. Kyungsoo aproveitava todo o tempo livre para estudar e testar suas novas receitas. Cada dia que passava se sentia mais feliz por conseguir realizar seus sonhos apesar das dificuldades.

Kyungsoo adorava sábados de manhã, amava acordar cedo fazer café e sentar na sala para ler um livro com os fiéis fones de ouvidos emitindo o som de alguma música que estava obcecado durante a semana. Mas esse tão amado hábito se tornou seu pior pesadelo quando todos os começos de fim de semana se tornaram palco de discussão entre ele e Jongin.

Já era de conhecimento geral que ambos se detestavam e não sabiam manter a paz, só que Jongin às vezes extrapolava todos os limites da boa convivência. No início até que ambos se ignoravam, mas aí Jongin pareceu perder a noção que já não tinha e acabar com os vestígios de uma possível trégua, quando passou a trazer caras para o dormitório.

O problema nem era ele praticamente escrever na testa que estava transando, a questão era que ele não fazia o mínimo esforço para fazer silêncio durante o ato, consequentemente sumindo com o sono de Kyungsoo. O pior de tudo era que só Kyungsoo parecia se importar, só ele parecia ver problema em tamanha falta de senso. Isso andava o irritando há tempos e se via brigando com Jongin todas as vezes em que se viam.

 

Seguindo sua rotina de sábado, Kyungsoo estava na sala estudando, usufruindo dos momentos de calmaria antes que sua dor de cabeça acordasse. Jogado no sofá com o notebook no colo, ele fingia que a presença de Chanyeol e Baekhyun do outro lado da sala não existia. Ele e o irmão haviam brigado na quarta-feira após o mais novo sair para um encontro com o Byun, deixando o mais velho ciumento e um bocado irritado. Não se falavam desde então.

Não que tivesse problema com Chanyeol em um encontro, o problema era ele estar saindo com Baekhyun, justo o melhor amigo de Jongin.

— Por que tem tanto viado cursando dança nessa universidade? — Sehun se jogou no estofado ao lado de Kyungsoo, esquecendo totalmente a cordialidade ao se aproximar.

— Bom dia pra você também — Kyungsoo murmurou em resposta, sorrindo pela expressão frustrada que o outro carregava — O que foi, meu querido?

Kyungsoo gostava excepcionalmente de Sehun, até mais que qualquer outro residente, e nem era pela antipatia que compartilhavam a respeito dos usuários do quarto 4. Gostava dele porque Sehun era sempre sincero e transparente, não se importando em expressar o que surgisse em sua mente sem medir as consequências.

— Como se não bastasse ter que competir pelo meu solo com o panaca do Jongin, agora tenho que disputar com um sulista nojento. Tinha que ser branco! — Kyungsoo assistiu os olhos dele se revirar enquanto cruzava os braços. Parecia realmente irritado. — Se fosse ao menos bonito… Mas além de feio, é brega. Não é possível que nesse curso não tenha um homem minimamente bonito pra eu fantasiar obscenidades.

Sehun pareceu verdadeiramente chateado com a situação, já Kyungsoo achava um pouco bobo, mas não entendia essa necessidade dele, então se considerou incapaz de julgar. Se contentou apenas em rir.

Do outro lado da sala, na porta da cozinha, Junmyeon soltou um som da garganta, se fazendo notar e foi o suficiente para Sehun saltar do sofá, se sentindo consciente das consequências de sua fala.

— Não sabia que estava aqui — sorriu nervoso, com certeza não era sua intenção que Junmyeon ouvisse seu comentário.

— Percebi — Junmyeon respondeu ríspido, ele ficava particularmente bonito sem camisa e com a expressão séria naquela posição apoiado no portal.

— Não faz assim, baby! — Sehun choramingou quando o outro entrou na cozinha. Kyungsoo murmurou "boa sorte” enquanto viu o colega se arrastar para seguir Junmyeon.

Não entendia a relação deles, mesmo que Sehun tivesse tentado explicar, ainda era estranho. Ambos ficavam, mas não eram namorados, não havia outras pessoas no cotidiano, mas ainda sim não tinham um compromisso. Era confuso para Kyungsoo. Não que não soubesse o que era sexo casual, até praticava vez ou outra, mas era uma vez só, e depois nunca mais via a pessoa. Ao parar de tentar compreender essas novas dinâmicas de relacionamento, se deu conta que a modernidade parecia nunca ter o alcançado, em momentos assim se sentia velho.

Não tinha culpa de ser tão antiquado, seus pais eram extremamente tradicionalistas e os costumes acabaram por transitar entre a geração, por mais que tentasse se adaptar, não era fácil.

Kyungsoo voltou a se lembrar por que passou a odiar tanto sábados de manhã quando as vozes no corredor chamaram sua atenção. Era Jongin. Ele se despedia do cara que passou a noite com um beijo cheio de saliva e estalos. Uma nojeira na sua humilde opinião, mas não externou sua insatisfação, apenas crispou os lábios em silêncio.

Kyungsoo não queria olhar para Jongin, mas foi impossível quando ele passou ao seu lado praticamente nu. Não foi capaz de esconder sua expressão de indignação ao constatar que apenas uma cueca tapava suas partes baixas e a blusa cinza que em tese deveria cobrir o tronco, estava tão curta que acabava logo acima do umbigo.

Franziu a testa e revirou fundo os olhos assim que Jongin sentou ao lado de Baekhyun, suspirando alto e deitando no ombro deste. Suas coxas ficaram flexionadas e com isso deram a impressão de serem maiores, mas óbvio que não deu atenção a isso.

Se perguntava se Jongin não conseguia perceber o quão desconfortável todos ficavam quando andava pela casa daquele jeito? O que o namorado de Minseok pensaria se entrasse pela porta e o encontrasse assim? Certamente ele não gostaria, foi o que passou por sua cabeça.

— Achei que tinham terminado. — Foi Baekhyun o primeiro a quebrar o silêncio tenso na sala.

— E terminamos, mas parece que ele não entende.

— Complicado. — Baekhyun deu tapinhas em seu ombro, como se para confortá-lo. — Pelo menos tá transando.

— Com um cara que fode mal — respondeu após fazer uma careta e enterrar a cara no pescoço do amigo, que levou a mão para os cabelos loiros, os acariciando. Kyungsoo de ver de longe as marcas vermelhas no pescoço e cintura alheia. Ele era um sem vergonha mesmo.

Também viu Chanyeol criando um espaço entre ele e Baekhyun, como se quisesse deixar os amigos à vontade para permanecer naquele grude afetivo demais.

— Jura? — Kyungsoo indagou ironicamente, chamando a atenção dos presentes. Não conseguiu se conter daquela vez. — Você parecia bem contente ao gritar para a casa toda ouvir — deixou sua reclamação subentendida no ar enquanto moldava um sorriso forçado nos lábios.

— Acontece meu, querido Kyungsoo, que eu eu gosto de fazer um bom show. — Jongin não poupou deboche ao levantar a cabeça do pescoço de Baekhyun e sorrir ainda mais falso que o colega.

— Então alugue um estádio, porque não está pagando pelos meus ouvidos. Ninguém é obrigado a te ouvir, Jongin, tenha mais respeito. Se não por você, pelo resto.

Jongin perdeu o sorriso de deboche imediatamente, respirando fundo. Odiava Kyungsoo, odiava sua pose de superioridade, e a forma como frequentemente estava tentando o humilhar e diminuir. Era frustrante ter de conviver com ele, e ao mesmo tempo não entendia, não conseguia compreender essa fixação absurda por si, não podia fazer nada sem que houvesse uma reclamação dele, tudo que fazia estava errado, tudo que dizia era motivo do descontentamento alheio.

Tudo bem que realmente passava dos limites às vezes, mas ninguém reclamava, ninguém nunca dizia nada, só Kyungsoo, claro.

— Uai. — Por isso se fez de desentendido. — Você é o único a reclamar.

— Sou o único com coragem.

— Ah me poupe, né! — Jongin aumentou a voz, consequentemente levantando do sofá. Bastaram segundos de conversa para perder a paciência com Kyungsoo. — Minseok e Dae nem ficam no dormitório, aparecem uma vez por dia e olha lá. Baekhyun e Chanyeol já deixaram mais que claro que não se importam e Junmyeon e Sehun não seriam hipócritas para dizer algo, afinal quando não estão discutindo por ciúmes, estão fazendo mais barulho que eu, com Sehun gritando igual uma vagabunda a madrugada toda. Não me cobre respeito se não vai cobrar do seu melhor amigo! — A medida que falava se aproximava dele com o semblante irritado, quando perto o suficiente se inclinou sobre ele se apoiando no encosto do sofá e dizendo lentamente para que fosse compreendido — Enquanto eu for solteiro, eu vou dar pra que eu quiser e gritar o quanto quiser, e se você se sentir incomodado eu vou gemer ainda mais alto.

Quando terminou de falar, seus rostos estavam próximos e seu sangue fervendo, louco para partir para a violência.

Kyungsoo arrumou a postura, mas algo gelado percorreu sua coluna, uma sensação de necessidade de pôr ele no lugar. O maxilar travado demonstrou o quanto estava a ponto de perder a linha. Levantou devagar na tentativa de intimidar Jongin e o empurrou o suficiente para o afastar. A situação se tornava desconfortável pela estranha proximidade e quem via de fora sentia a tensão que eles obviamente não haviam se dado conta.

Jongin sentiu uma queimação no estômago com a forma como foi tocado brutalmente, e o jeito como estava sendo encarado.

— Você é nojento — Kyungsoo murmurou baixo, mas fitando os olhos alheios com firmeza ao quebrar o silêncio.

— E você tá doido pra sentar no meu pau — Sorriu galante segurando no queixo do outro. Queria provocá-lo porque, com Kyungsoo, só era capaz de vencer se partisse para a obscenidade, já havia aprendido como ele funcionava, — Mas você não vai, então para de implorar pela minha atenção.

Kyungsoo se sentiu incrédulo com tamanha falta de senso alheia, queria gritar com Jongin, expor o quanto o odiava e o quanto estava farto da infantilidade e imaturidade dele, mas nada fez senão afastar o rosto e dizer no mesmo tom de voz ríspido:

— A única pessoa implorando por pau aqui é você, Jongin — dito isso,virou as costas, o deixando para trás possesso de raiva.

… 🦋….

As coisas andavam estranhamente quietas nos últimos dias e Kyungsoo se sentia estranho.

Desde a última vez que havia se desentendido com Jongin, há pouco menos de uma semana, ele não falava consigo. Nem em sua direção olhava e, quando obrigados a dividirem o mesmo ambiente, era ignorado, com Jongin sempre fingindo que ele não estava ali.

Se conheciam há quase quatro anos e nunca ocorreu durante todo esse tempo de entrarem em um estado de paz. Talvez uma única vez no início do ensino médio, o que durou poucas semanas e, desde então, viviam em pé de guerra.

Essa mudança entre eles era anormal, estar perto de Jongin se tornou...diferente? Atípico e incômodo.

Jongin não respondia mais suas piadas, não reclamava de suas provocações e muito menos sorria cínico quando não concordava com seu discurso, só agia como se não estivesse ali, como se a presença de Kyungsoo fosse insignificante, e isso estava o enlouquecendo. Porque se não estavam discutindo, estavam em silêncio, e o silêncio era desconfortável.

Não se falavam desde o último sábado, uma vez que Kyungsoo o deixou na sala depois de murmurar aquela frase obscena. Em circunstâncias comuns, Kyungsoo nunca diria palavras tão fora de seu vocabulário, só que, novamente, não se reconhecia quando Jongin se metia em seus assuntos. Ele parecia confundir sua mente, bagunçar suas estruturas e impedir que suas falas tivessem coerência.

De certo modo, Kyungsoo até agradecia, mas ainda existia aquela sensação estranha de rotina incomum, como se brigar com Jongin fosse parte de seu cotidiano e não fazê-lo tornava tudo incerto.

Kyungsoo se sentia atormentado com o comportamento no mínimo suspeito de Jongin, tê-lo tão calado e quieto não era nada comum, principalmente porque ele falava pelos cotovelos sem parar a todo momento e, às vezes, até murmurava sozinho. Talvez fosse o que causasse tamanho desconforto em Kyungsoo, o fato dele nem ao menos considerar responder suas ofensas, ignorando suas palavras.

A briga deles não parecia ter sido grande o suficiente para mudar o comportamento de Jongin tão abruptamente a ponto dele não se importar mais com a implicância, mas ainda assim, por que ele não revidava? Talvez ele só estivesse cansado de estar sempre brigando e poderia compreender isso,mas… por que agora?

Kyungsoo não conseguia achar uma resposta e por isso se encontrava obcecado. Jongin tinha parado com certos hábitos que irritavam Kyungsoo, sendo assim quase não tinham motivos para discordarem e de repente Kyungsoo estava observando cada uma das ações dele, como se pudesse achar qualquer falha que pudesse usar em prol de diminuir a estranheza.

Era desconfortável que depois de tanto tempo pontuando defeitos nele começasse a reparar em coisas mais simples, como o modo que ele franzia a sobrancelha ao mentir ou mordia o polegar quando ficava nervoso e bagunçava o cabelo quando se irritava. Jongin também tinha hábitos metódicos, ele sempre pesava a comida, sempre estudava por exatamente duas horas, bebia diariamente dois litros de água e fazia skincare com uma frequência exata. Ele nunca usava roupas que pudessem cobrir muito o corpo, ficava descalços quase o tempo todo e quando não estava com o som ligado, os fones de ouvido eram seus fiéis companheiros o dia todo para todos os lugares. Todavia, apesar de todos esses detalhes inúteis, o que de fato chamou a atenção de Kyungsoo foi o fato dele nunca discordar de Baekhyun mesmo quando claramente não concordava com o amigo. Acenava com a cabeça e não dizia mais nada. Foi nesse momento que percebeu que Kyungsoo era a única pessoa da qual ele discordava, a única que fazia questão de bater de frente e enfrentar.

No meio disso, pode perceber que Jongin era bem próximo da mãe e sempre ligava pra ela uma vez por dia, coisa que Kyungsoo nem conseguia compreender como nunca antes havia notado. Sempre imaginou Jongin como um menino mimado que gostava de tudo ao seu modo e pisava nas pessoas, porém precisou de uma semana sem qualquer desavença para se dar conta que ele era extremamente adaptável a qualquer ambiente e nunca fazia corpo mole para nada que lhe era pedido.

Compreendeu então de onde vinha tanto ciúme de Sehun. Junmyeon estava sempre pedindo ajuda para Jongin, seja para carregar as compras do mercado, dobrar as roupas no varal ou lavar a louça, e ele nunca reclamava.

Kyungsoo chegou a conclusão que nunca conheceu nada de Jongin, apenas teorizando a seu respeito e aceitando suas suposições como seu dogma.

 

Naquela sexta-feira à noite enquanto mexia no celular, Kyungsoo disfarçou um olhar para Jongin sentado do outro lado do sofá. Ele estava lendo um livro, o corpo coberto por um short de moletom cinza e uma regata preta, usava meias coloridas e parecia concentrado nas páginas, vez ou outra expressando mínimas mudanças na face. Era insano como nunca antes se atentou a nada relacionado a ele e então de um dia para o outro não conseguia tirar a atenção do dançarino.

Jongin não havia mudado muito desde os dezesseis anos. Ele cresceu, claro, o corpo ganhou mais forma e seu rosto se tornou mais marcante, porém ele ainda parecia o mesmo pré adolescente arrogante que Kyungsoo conheceu e detestou. Mesmo que agora não fosse mais tão ignorante assim, era difícil não vê-lo da forma negativa de sempre.

— O que vocês tem? — A voz rouca de Baekhyun chamou a atenção de Jongin e instintivamente Kyungsoo desviou o olhar dele.

Os moradores estavam fazendo aquela reunião semanal que Junmyeon obrigava todos a participarem com a desculpa de manter a boa convivência e se conhecerem. Era a primeira vez que Jongin participava, já que às sexta ele sempre saía com Baekhyun e voltava tarde da noite, geralmente acompanhado de sei lá quem. Kyungsoo se sentiu ansioso pela dinâmica, mesmo que Junmyeon tivesse proibido ambos de se comunicarem antes de Jongdae e a namorada dele chegarem, ainda assim queria saber o que poderia acontecer naquela noite.

A pergunta de Baekhyun foi direcionada para Sehun que estava entre as pernas de Junmyeon procurando no celular algum jogo que ainda não haviam jogado. Sehun devolveu um olhar desinteressado, mas não ignorou a pergunta, não quando todos o olhavam ansiosos por uma resposta.

— Junmyeon não pode casar antes de terminar a faculdade, um lance de tradição familiar, então não podemos assumir um relacionamento já que o senhor certinho não quer decepcionar os pais — A resposta deixou os lábios dele com um tom conformado, era notável que Sehun não aprovava as ações de sua fala, mas que não tinha muita opção quanto a isso.

— Você vai casar? Logo você? — Foi Jongin a questionar dessa vez, ele se esforçou para não parecer surpreso, mas falhou.

— Se nenhum de nós morrer até o fim da faculdade, sim — Junmyeon murmurou com a resposta mórbida, chamando a atenção do Oh, mas não aprofundou o sermão quando Minseok bateu as palmas animado.

— Ai que incrível, eu e Leo também estamos com planos de uma cerimônia ao fim dessa vida universitária sofrida.

— Ótimo, agora tenho três casamentos para ir — Jongin se referiu também a Jongdae que estava noivo. Ele não pareceu tão animado ao falar sobre isso e Kyungsoo não queria começar a questionar o motivo, se não logo iria estar mais obcecado com ele.

— Você quer ser o quarto noivo, Chanyeol? — Baekhyun sorriu ao depositar um beijo na bochecha do citado e Kyungsoo logo crispou o nariz com a interação.

— Não sei, nunca pensei muito em casamento, isso sempre foi uma coisa mais do Kyungsoo.

— Pretende ter uma família tradicional com vários filhos de sangue puro correndo pela casa, Kyungsoo? — Jongin usou um tom de brincadeira na frase, mas não parecia estar querendo provocá-lo, apenas uma ideia que deixou sair sem pensar. Kyungsoo quis sorrir porque foi a primeira coisa que ele disse para si em quase uma semana completa. Reprimiu o curvar dos lábios, no entanto.

— Quem sabe — foi monossilábico, pela primeira vez sentindo um medo de começar uma discussão, todos pareciam estar confortáveis demais no frio do ar condicionado e música ambiente, não seria responsável pelo fim daquela calmaria.

— E você, Jongin? Pretende casar também? — a namorada de Jongdae perguntou querendo participar do assunto. Todos a achavam extremamente fofa, então não era nenhum incômodo tê-la ali.

Kyungsoo olhou Jongin, por algum motivo se sentia curioso sobre a resposta, mas não gostou nada da forma como ele sorriu fraco, seco, antes de levantar para despejar uma dose de whisky em um copo.

— Como se alguém como eu pudesse ter essas coisas — seu tom foi amargo, e Kyungsoo sentiu um alívio ao mirar em volta e notar que não era o único confuso com a resposta.

Baekhyun em algum canto do sofá revirou os olhos murmurando “não começa” como uma reclamação. Junmyeon por outro lado se ajeitou melhor no sofá, virando em sua direção.

— Como assim? — Era o que todos queriam entender. O que diferenciava Jongin dos demais ali? Claro que Jongin era diferente, todos eram, mas porque aquilo se tornava um problema exclusivo dele?

— Eu não sou entendido como gay, Junmyeon, eu sou o famoso termo: viado, do tipo come quieto e não assume.

— Cala a boca, Nini — Foi automática a reação de Baekhyun, mas diferente de todos ele não parecia surpreso, como se tivesse passado pelo assunto muitas vezes

— Eu tô mentindo? — A facilidade de Jongin em expor a frase era natural, conformada. Não era algo dito por dizer, por drama, era algo que ele havia pensado bem antes de proferir. Era uma experiência.

— Não pode ser negativo assim — ela voltou a dizer, um sorriso fraco nos lábios.

— Você não entende — Jongin respondeu, não debochado como costumava dizer a Kyungsoo, dessa vez o tom era manso, quase que carinhoso — Eu uso cropped, faço balé, pinto as unhas e uso maquiagem. Meu comportamento, minha personalidade e até meu jeito de falar gritam que eu sou gay — Ele virou a dose antes posta no copo, a expressão impassível e a voz ríspida. — Caras gays não querem gays que agem como gays, eles querem pessoas discretas, pessoas que não precisam se preocupar se vão sofrer ataques homofóbicos na rua porque a maioria das pessoas poderia olhar dois parceiros sem esteriótipos e pensar que são irmãos. Vamos encarar a realidade, quantos gays afeminados vocês conhecem que são casados e têm família? Porque eu não conheço nenhum. — Jongin ainda olhava pra ela de modo gentil, não esperava compreensão, só estava bêbado demais para não se magoar com o assunto. — Não é ser negativo é ser realista. Talvez eu encontre um cara que não veja problema em me assumir, que olhe pra mim como algo mais do que uma foda em um dia qualquer, mas as chances dele ser um babacasão altas. Eu tenho dezenove anos, já me apaixonei por inúmeros caras e sabe quantos deles me corresponderam? Três.sabe quantos me assumiram? Um. Sabe por que não estamos juntos? Porque ele disse que se fossemos nos casar eu teria que deixar a faculdade e me dedicar a casa, a limpar, cozinhar e ser dele. Não tô dizendo que tem a ver com eu ser afeminado, ele pode só ter um caráter podre, mas que aconteceu. Você não pode olhar pra mim e dizer que eu e Sehun, por exemplo, somos vistos da mesma forma pela sociedade. Apenas um de nós dois é bem visto apesar de nós dois sermos gays.

 

Jongin sorriu fraco, visivelmente quebrado. Ele parecia bêbado e mesmo assim seu olhar era honesto, ainda que suas falas fossem arrastadas, elas eram repletas de verdade. Kyungsoo queria dizer que novamente ele estava militando sobre algo inútil, queria insinuar que estava sendo dramático, querendo se sobressair em uma situação, mas no fundo sabia que ele não estava errado de todo. Sabia que tudo era verdade;, caras gays não eram bem tratados se demonstram feminilidade, Kyungsoo sabia bem disso, ele era uma das principais pessoas a menosprezar Jongin por sua personalidade escandalosa no ensino médio, e talvez ainda agora na faculdade.

Quando o silêncio aconchegou a sala, Kyungsoo se sentiu horrível. O peso do mundo parecia estar em suas costas e estava custando a acreditar que parte do fardo de Jongin tinha se tornado mais pesado por sua culpa. Sempre foi difícil enxergar o resto do mundo para além das suas fantasias utópicas perfeitas. Kyungsoo sempre soube que a realidade que Jongin falava existia,mas sempre preferiu fingir que não.

— Vocês querem pizza? — Assim que ongin percebeu o clima pesado que deixou no ambiente, tratou de tentar mudar sua expressão com uma falsa alegria montada no rosto e uma animação repentina. — A gente pode jogar stop.

E ninguém foi contra sua ideia ou a tentativa de mudar de assunto.

 

…🦋…

 

Kyungsoo não achava que Jongin fosse tão interessante até jogar o nome do colega de república na Internet.

Na página feita por algum fã-clube (sim, fã-clube!), leu que Kim Jongin era o filho mais velho de Kim Hoseok, um coreano nativo que ainda na adolescência migrou para o Brasil na tentativa de virar jogador de futebol e, ao não obter sucesso, acabou entrando para o política, o que o levou a conhecer Talia Cruz, uma jovem atriz e cantora mexicana muito famosa na América Latina. Descobriu que Jongin viveu no México com a mãe até os quatorze anos e que Hoseok, por ser um influente político no país, vivia entre o Brasil e o México Com a entrada de Jongin no ensino médio, no entanto, ele e a mãe se mudaram para o Brasil e desde então vivem aqui. Descobriu que Jongin sabe falar quatro línguas, sendo elas: espanhol, português, inglês e coreano. Que ele faz balé desde os quatro anos e joga basquete desde os doze. Que em aversão por qualquer outro esporte, exceto tênis, mas ainda assim sabe jogar de tudo pela insistência do pai em colocar o filho em escolinhas de esportes. Que sua conta no Instagram tem mais de quarenta milhões de seguidores e sua cor favorita é amarelo. Que ele é ativista a favor de várias causas sociais e já esteve presente em vários protestos e paradas LGBTQIA+. Entre essas informações havia centenas de outras, mas Kyungsoo decorou só as que achou interessante – o que acabou sendo uma boa parcela delas.

Nunca imaginou que um dia conseguiria respirar o mesmo ar que Kim Jongin sem enlouquecer, mas agora se sentia patético estando totalmente interessado nele e na pessoa que ele aparentava ser.

Era estranho conhecer Jongin pela Internet, mas não se sentia confiante para tentar uma abordagem na vida real mesmo que a situação estivesse acalmado entre eles dois e a paz prevalecesse.Jongin não parecia nenhum pouco afim de confiar em Kyungsoo como amigo, sendo assim, lhe restava apenas os meios não seguros na web.

Haviam se passado alguns meses desde a última discussão deles e Kyungsoo agradecia, porque dessa forma poderia fingir que não estava afundando em culpa toda vez que lembrava sobre as falas dele naquela reunião de fim de tarde. Como não sentia o mesmo do ensino médio quando perto dele, já não sentia vontade de falar todas aquelas atrocidades que adorava despejar em cima dele quando mais novos.

Com o tempo começou a perceber que não era um adolescente muito bom e um adulto pior ainda. Talvez a chave de toda sua inquietação fosse o fato de ter sido obrigado a crescer muito rápido, assumir as responsabilidades de cuidar de Chanyeol e da casa que sequer teve chance de viver a adolescência corretamente, amadurecer as ideias e se tornar mais flexível quanto as outras pessoas, não teve oportunidade de expandir os ideais e olhar por além do próprio umbigo e, no fim, nunca se importou o suficiente para buscar compreender Jongin, como se não atacar ele pela sexualidade bastasse para ser uma boa pessoa.

Concordava que havia sido bem escroto com o Jongin no começo, assim que chegou no dormitório nem se deu a chance de conversar e conhecer quem ele era antes de tratá-lo mal.

Parando para pensar, agiu de forma bem imatura. Criou Chanyeol ensinando que ele sempre deveria tratá-las da melhor forma possível, mas não aplicava isso em seu próprio cotidiano.

Sempre preferiu acreditar que as pessoas evoluíam e mudavam com o tempo, mas nunca levou isso em consideração quando voltou a conviver com Jongin, nunca se deu a oportunidade de compreender que não tinha nada de errado com Jongin além do seu claro preconceito.

Essa mudança parecia meio repentina, porém a semana em que começou a ser ignorado por Jongin se tornou um grande momento de aprendizado, percebeu que muita das coisas que Jongin fazia, reclamava por puro hábito.

O despertar da curiosidade de Kyungsoo lhe fazia buscar ser uma pessoa melhor em quesitos de convivência. Ele gostava do silêncio de sentar no sofá com seus fones de ouvido e observar jongin de longe estudando ou falando com a mãe no telefone, achava confortável o silêncio de quando estavam juntos sozinhos, mesmo que visivelmente fosse ignorado.

Kyungsoo havia aprendido a gostar de estar com Jongin e de conviver com ele, pelo menos por um tempo.

 

…🦋…

 

Kyungsoo não era um pessoa difícil de se lidar, ele era bem adaptável e discreto. Quando em um ambiente, quase não era notado, só que novamente ele se encontrava insuportável de conviver de um dia para noite – e tinha noção disso.

Baekhyun havia brincado a uma semana atrás que esse estresse todo era falta de sexo e Kyungsoo não concordava em nada com isso, seu estado de cotidiana irritação era causado como sempre por um único ser humano: Kim Jongin.

Achava mesmo que as coisas iam melhorar depois da estranha paz que reinou entre eles nos últimos meses, no entanto depois daquela fatídica sexta feira Kyungsoo havia se tornado pior do que no ensino médio, ainda mais chato e reclamão.

Kyungsoo não queria admitir em voz alta, mas ele sabia bem que tudo começou na última reunião com os amigos.

Nesse dia, a música baixa indicava que o horário já passava das dez, Kyungsoo se distraia com o irmão em um vídeo super fofo de gatinhos quando o comentário de Ana - noiva de Jongdae - para Jongin lhe tomou sua atenção.

— Ah não, Jongin. Deve ter alguém nessa universidade que você não pegaria nem sobre ameaça de morte.

— Ana, eu sou bem tranquilo com esse lance, eu só preciso me sentir atraído pela pessoa, e se eu achar ele atraente, eu fico. Simples.

— Nossa — a garota bonita levou a garrafa de bebida que segurava aos lábios e usou alguns segundos para beber o líquido enquanto parecia ponderar a frase a seguir — Você não é nada seletivo então? Porque o Dae lutou bastante para eu dar uma chance para ele — Coitadinho do meu amor. — A jovem depositou um beijo na boca do noivo.

— Não é assim também — Jongin suspirou — Você falou como se eu fosse rodado e eu não sou assim. O tópico era: tipos de cara que me atraem, e o que eu quis dizer é que não tenho um tipo específico, qualquer pessoa bonita ou inteligente me atrai.

— Mas você deve ter um tipo que não ficaria — ela voltou a dizer, ainda insistindo em achar o tipo de Jongin — Por exemplo, o Kyungsoo. — Foi impossível que ambos não esbarrasse o olhar, de repente desconfortáveis. — Vocês não se gostam, então mesmo que ele seja muito bonito, vocês certamente não ficariam.

Kyungsoo não estava esperando ser arrastado para o assunto, mas rapidamente se encontrou curioso da resposta, ansiando durante os segundos que Jongin usou para pensar no que iria responder. Jongin mordeu o lábio inferior de modo nervoso e transitou o olhar entre toda a figura de Kyungsoo.

 

— Realmente, se parar para pensar, Kyungsoo não faz meu estilo e não combina com o que eu gosto. Mesmo que seja bonito, ele não me atrai, não tem, sei lá… — ele expressou uma confusão enquanto buscava a palavra que iria usar em seguida — O que eu gosto em um homem.
— o que você gosta em um homem, Jongin?

A pergunta foi bem automática, Kyungsoo nem pensou direito e ela já havia deixado seus lábios, se sentindo intrigado. Jongin era uma caixinha de surpresas de fato.

— Primeiro de tudo.

Ele arrumou a postura depois de beber o que sobrou no copo de gin e devolveu a atenção para Kyungsoo, meio incerto de que era uma boa ideia falar sobre esse tópico quando as coisas entre eles estavam melhorando, mas agora que o assunto foi posto em tópico, não havia como não continuar

— Eu gosto de homens grandes, altos e sexy. E perdão, Kyungsoo, você não é — A declaração parecia menos pior na cabeça de jongin, mas quando Kyungsoo arqueou ambas as sobrancelhas, percebeu que com certeza nenhum homem queria escutar algo assim. Só que como já havia começado… — Você não tem aquela presença marcante de quem me faria lembrar de você por semanas. Sem querer ofender mas só de olhar pra você é fácil de deduzir que sua posição favorita provavelmente é papai e mamãe e nunca na vida deve ter falado sacanagem durante o sexo. Você parece certinho demais pra me servir do jeito que tô acostumado; sexo violento, ficar marcado e sentir que eu transei por dias. E isso não parece fazer o seu estilo Sem ofensas — ele deu uma risadinha nervosa por fim.

Kyungsoo não respondeu e, por alguns longos segundos, ninguém disse nada. Kyungsoo manteve o olhar sobre Jongin por segundos curtos, tentando digerir as palavras e buscar uma resposta adequada.

— Ah! Sem ofensas? Imagina se quisesse ofender… — Por fim, murmurou uma resposta insignificante, sendo atropelado por Junmyeon, que puxava outro assunto.

 

Uma semana depois do ocorrido, aquelas palavras ainda ecoavam em sua mente. Queria dizer que os comentários não o afetaram e que ao menos se importava com a opinião de Jongin, só que não podia, afinal era só nisso que pensou nos últimos dias, e ao olhar para o rosto do Kim era como se todas as palavras retornassem a sua mente, nublado sua coerência e o prendendo em uma onda de raiva pura e genuína.

Nem entendia bem o que estava acontecendo dentro da própria mente, se os comentários tivessem vindo de qualquer outra pessoa provavelmente encararia como piada e nada mais que isso, mas, como sempre, com Jongin tinha que ser diferente. Com Jongin não conseguia apenas ignorar, era incapaz de agir como se nada tivesse acontecido, ao ponto que até Chanyeol pareceu ter notado quando apareceu no seu quarto naquele dia.

Há um mês, ele e Jongdae haviam mudado de quarto, assim como Baekhyun trocou com Minseok para que os dois pudessem ficar juntos agora que oficialmente eram um casal, nomeando assim Kyungsoo o único encalhado do dormitório, o que lhe rendeu um bando de condolências e posteriormente acompanhados de uma garrafa de vinho.

O mais novo invadiu seu dormitório enquanto trocava de roupa pós banho não demorou antes de começar a despejar seus achismos:

— Você está incomodado com o que o Jongin disse, né?

— Me incomodaria caso eu ligasse para a opinião de Jongin, mas como não me importo com a existência dele,é irrelevante.

— Claro que não se importa. — Chanyeol revirou os olhos, amava o irmão mas o orgulho dele era um claro inimigo seu. — Jongin não fez por maldade, então pare de agir como imbecil ou…

— Ou…? — Kyungsoo que usava a toalha para secar os cabelos virou o tronco na direção do mais novo esperando ele continuar.

— Ou prove que ele tá errado.

— Provar? — A indagação foi real. Kyungsoo de fato não compreendeu o que as entrelinhas estavam dizendo, todavia quando o irmão levantou distribuindo sorrisos duplicados, a ideia pareceu clarear em sua mente. — Você não tá sugerindo que eu…

Não precisou completar para que Chanyeol concordasse com a cabeça sorrindo igual um idiota. Kyungsoo pensou. Não era da natureza de Chanyeol usar palavras de baixo calão, mas compreendeu bem que ele estava falando sobre sexo.

 

…🦋…

 

As férias de meio de ano iriam começar em uma semana e os jovens universitários estavam contando os segundos para uma liberdade momentânea. Minseok iria voltar para o estado natal com o namorado e Jongdae iria viajar com Ana. Mesmo com as férias por chegar, Sehun havia sido o primeiro a partir, há quase duas semanas, e Kyungsoo desde então se encontrava pilhado, se tornou quase solitário sem seu fiel ouvinte e, por isso, mais irritadiço que o normal.

Sehun se foi, mas com uma ordem a Kyungsoo: "Não tire o olho de Jongin e Junmyeon, não confio naquele loiro de farmácia". E, bem, Kyungsoo só estava fazendo o papel de um bom amigo enquanto pacificamente os vigiava e alimentava as rixas com Jongin.

Mesmo que as discussões não estivessem mais tão acaloradas pelo fato de Jongin sempre ignorá-lo, vez ou outra elas surgiam, tornando assim a vida dos demais a viver na casa um pequeno inferno.

Na última reunião, foi revelado que Junmyeon e Jongin passariam as férias na república, os pais de Junmyeon estavam fazendo um retiro espiritual na Bahia, já os de Jongin, estavam em Los Angeles. Kyungsoo e Chanyeol deveriam ir visitar os pais, mas tamanha foi a surpresa ao descobrir que ambos os progenitores foram tirar férias na Coreia após ganharem passagem dos avós. Sendo assim, agora Junmyeon, Jongin, Chanyeol e Baekhyun seriam a companhia de Kyungsoo pelas próximas semanas.

O que Kyungsoo considerava no mínimo curioso.

A última semana de aula pareceu voar e quando todos se deram conta, a primeira semana de folga tinha acabado. Cansado por virar a noite lendo um livro, a primeira coisa que Kyungsoo vez ao levantar foi passar um café. Chanyeol e Baekhyun estavam comendo restos de uma pizza que já morava na geladeira a uns três dias, enquanto Jongin e Junmyeon dividiam um fone de ouvido no sofá.

Eles estavam bastante próximos nos últimos dias e se Kyungsoo não tivesse sido obrigado a prestar atenção em ambos, não notaria como aquela amizade era estranha demais para um homem meio comprometido como Junmyeon.

Kyungsoo já havia reparado que desde que Sehun foi viajar, ele e Junmyeon quase não se desgrudaram, limpavam a casa juntos, estudavam juntos e até viam filmes pela madrugada, juntos. Definitivamente esse não era um comportamento de homem comprometido, muito menos pela forma como Jongin parecia sempre estar se jogando nele, rindo alto, tocando os braços e usando roupas desconfortavelmente curtas e justas.

Era estressante, porque Junmyeon era comprometido e Jongin sabia disso, mas poderia ser seu moralismo exagerado falando mais alto. Sem contar que Junmyeon não tinha nada haver com o tipo que Jongin mencionou, o líder de dormitório não chegava nem perto de parecer com o seu tipo ideal que descreveu, então por que ficava não colado nele?

 

Jongin levantou do sofá e andou calmamente em direção a cozinha. Kyungsoo olhou para Junmyeon a tempo de vê-lo encarar o corpo de Jongin com atenção, mas quem poderia culpá-lo? Ele estava vestido feito uma puta, um short de malha tão curto e apertado que duvidava que ainda tinha circulação de sangue nas pernas e blusão que, quando Jongin se levantou, se enrolou tão mal ao ponto de deixar quase toda sua bunda de fora.

Levou tempo, mas Kyungsoo até que enfim admitiu que sim, Jongin além de lindo tinha um corpo totalmente fodível. As pernas eram grossas e longas, muito bonitas e estranhamente depiladas. Já os braços eram fortes e a cintura fina, com a barriga lisa. Um tópico a ser listado também, era a bunda que ele tinha, uma bunda linda, durinha e empinada não absurdamente grande, mas o suficiente para encher a mão.
Um corpo esplêndido adquirido pelas aulas de dança e academia. Kim Jongin era uma verdadeira delícia, mas isso não lhe dava o direito de andar vestido daquele modo, havia homens comprometidos no espaço. Não que houvesse preconceito por parte de Kyungsoo, era apenas o óbvio.

— Esqueceu o bom senso quando acordou? — Kyungsoo murmurou olhando para ele de canto de olho, observando-o abrir a geladeira sem ao menos murmurar um "oi". — Deve estar junto com os pedaços de pano da sua roupa…

Jongin revirou os olhos, sentindo uma pontada de estresse lhe atingir

— Acho que deixei junto com a sua, quando for buscar traz ela pra mim.

— Você não pensa em se vestir decentemente? — Virou na direção dele deixando o copo de lado, a essa altura a atenção dos demais moradores já estava sobre os dois — Sabe que quem mora aqui são pessoas sérias e comprometidas? certamente você deixa todos desconfortáveis com esses trapos que usa e que não cobre nada.

— Ninguém tá incomodado. Kyungsoo, só você. — Seus olhos reviraram com tanta força que sentiu a cabeça doer, já estava ficando cansado de ter que conviver com Kyungsoo, honestamente não se via aguentando a situação até o fim do ano.

— Você faz de propósito, né? Se quer atenção, coloca uma melancia no pescoço, mas tenha a decência de vestir uma roupa que não deixe parte da sua bunda de fora…

— Você parece bem interessado na minha bunda, porque essa é sua única preocupação desde que começamos a faculdade. Kyungsoo, se você quer me comer não posso fazer nada, já disse que você não faz meu tipo.

Kyungsoo fechou os olhos com força, respirando fundo, se sentindo atacado pelas palavras.

— Minha única preocupação é você se esfregando como uma puta no Junmyeon, vestido com essa coisa que você chama de roupa quando sabe que ele é comprometido.

Jongin paralisou com o comentário, se já estava irritado seu sangue pareceu queimar como brasa. Quem Kyungsoo pensava que era para se referir a ele dessa forma? Ainda lhe chamando de puta, nunca havia sequer ouvido ele dizer palavrão, mas de repente ele estava não só dizendo palavras feias, como direcionando elas para sua pessoa.

Mesmo com todos os apelos e crueldades que dizia, Kyungsoo nunca havia dito uma coisa tão escrota. Dessa vez se sentiu tão atacado que sem nem pensar estapeou o rosto dele com força. E sem coragem para dizer ou escutar mais nada rumou em direção ao próprio quarto, o ódio queimando por dentro, preenchendo seu corpo de fúria. Mataria o Kyungsoo assim que pudesse.

Kyungsoo levou a mão ao rosto, o tom vermelho fazia a bochecha esquentar, mas não disse nada, no fundo sabia que foi merecido. Se sentiu horrível assim que as palavras escaparam, não teve noção das palavras ao dizê-las, mas era tão difícil pensar racionalmente quando se tratava de Jongin.

Viu Baekhyun se levantar e seguir o melhor amigo e logo Chanyeol apareceu em sua frente. Já estava preparado para ouvir um sermão, mas diferente disso o mais novo molhou um pano e estendeu para si com uma feição desgostosa.

— Você foi um merda, Kyungsoo.

Não respondeu. Não tinha o que falar, ele estava completamente certo. Junmyeon tamém não demorou a se aproximar, ele estava meio irritado era claro, mas nunca seria estúpido como Kyungsoo, ele era gentil demais pra isso.

— Nunca me meti nas brigas de voces porque não era da minha conta — Eee começou a dizer, a voz baixa, mas os punhos cerrados indicavam que por dentro nao estava assim não calmo — Mas você foi uma completo idiota, mais do que todas as outras vezes. Eu sei que você é afim do jongin, não tente negar. Você só se acha difícil de ler, mas é óbvio como você não tira o olho da gente quando estamos juntos ou quando ele está com qualquer pessoa, você fica tão vidrado que nem percebe que ele tem toda a sua atenção a cada segundo, mas, Kyungsoo, você não vai conseguir nada se continuar agindo dessa forma. O que o Jongin disse sobre você aquele dia é a opinião dele, mas não é algo imutável, você só precisa querer melhorar as coisas e se você se esforçar o Jongin vai mudar de ideia, porque ele é bom em dar segundas chances.

Kyungsoo continuou em silêncio, remoendo as palavras. Não concordava com o que ele dizia, mas ao mesmo tempo se via em conflito, não podia negar que uma parte de si realmente se via muito curiosa sobre Jongin, mas gostar? Isso era sério demais.

O celular de Junmyeon vibrou em cima do balcão de mármore e o nome de "Sehun" surgiu com vários corações, o Kim alcançou o celular, mas concluiu sua fala antes de atender a chamada.

— Sehun é minha vida inteira, eu amo ele desde que o conheci e se você acabar com isso por causa de um ciúme besta, eu vou te comer na porrada em um nível tão absurdo que o ódio que o Jongin está sentindo por você agora, não será nem metade do estrago que farei. Eu sou pacífico e gentil, Kyungsoo, menos quando se trata do homem da minha vida.

Dito isso, ele não esperou resposta. Chanyeol fez uma careta e em seguida bateu no ombro do irmão.

— Acabou de ser ameaçado, só pra constar..

— Cala a boca.

 

…🦋…

 

Jongin não falou com Kyungsoo pelo resto da semana, nem mesmo entrou em um ambiente em que sabia que ele estava, definitivamente, o ignorando como uma praga. E ao lembrar que ainda teriam mais duas semanas de férias para aguentá-lo diariamente, sentia uma vontade de se jogar na frente de um carro. Estava irritado, verdadeiramente puto e louco para sumir sem que precisasse olhar na cara do baixinho por toda uma eternidade.

Não saia do quarto há uns bons dias, sendo alimentado por Baekhyun e Junmyeon, que vez ou outra apareciam em seu quarto para entregar comida e fazer fofoca. Não era tão ruim quanto parecia, Jongin havia terminado 4 livros e duas minisséries, se sentia bem, desde que não se lembrasse da presença de Kyungsoo pela casa.

Não que se importasse com o que ele dizia, mas era complicado não se importar quando, porra, era totalmente dependente de validação alheia e principalmente masculina. Era um pensamento horrível, mas era real. Entendia também que boa parte da situação estava acontecendo devido ao que falou naquela reunião, sabia que as coisas tinham ficado bem ruins depois do que proferiu, mas não era como se mentisse, estava bêbado para medir as palavras, todavia foi sincero. Era o que achava, tipo, Kyungsoo realmente não fazia seu tipo, mesmo que ele fosse muito bonito e arrogante. Jongin gostava de caras arrogantes, mas Kyungsoo não parecia estar na sua o suficiente para que pensasse nele além de alguém incômodo.

E, bem, mesmo que tenha sido um tanto cruel ao estapeá-lo, não foi merecido? Kyungsoo era sempre um merdinha consigo, então apenas tinha devolvido na mesma moeda, mas ainda não tinha sido tão ruim quanto ser chamado de puta,. Odiava essa palavra quando relacionada a si.
Jongin suspirou frustrado, pensando sobre o assunto novamente. A série passando na TV não parecia surtir efeito nenhum para a mente distante de Jongin, se perguntando se Kyungsoo não sentia remorso por ser sempre um cuzão consigo.

— Achei que estava dormindo. — Baekhyun entrou no quarto sem bater, era uma mania dos dois que já havia os deixado em inúmeras situações constrangedoras, mas depois de tanto tempo, nada que se tratasse deles era tão escandaloso a ponto de causar espanto.

Jongin mirou a tela do celular acendendo com uma notificação e constatou que era meio-dia de um domingo tedioso. Odiava domingos.

— Acordei há algumas horas, mas nem me mexi. — Alcançou o prato feito para si, era carne com batata e adorava carne com batata.

O silêncio ganhou espaço no cômodo enquanto Baekhyun observava o amigo comer com vontade, quase gemendo em satisfação. Era muito bom ver Jongin comendo tão satisfeito, já havia passado por muitas fases com ele e, mesmo depois de Jongin ter se curado curado de um transtorno alimentar, Baekhyun ainda se sentia transbordando de felicidade ao assistir ele se alimentar tão bem.

Baekhyun não queria comentar, e imaginava que Jongin não tinha percebido, mas durante toda aquela semana viu Kyungsoo preparar todos os pratos favoritos dele. Baekhyun fingiu não participar do plano de deixá-lo ciente da situação enquanto respondia em voz alta as perguntas que Chanyeol insistia em fazer. No fundo tinha notado que Kyungsoo estava arrependido. Sabia também que ele não pediria desculpas diretamente, Chanyeol já havia deixado claro que ele era orgulhoso demais pra isso, porém apreciava o esforço que estava fazendo para tentar se redimir.

Baekhyun também não era burro e sabia que a explosão de Kyungsoo não tinha exatamente a ver com as roupas de Jongin, e sim com a crise dentro dele para com sentimentos confusos. Podia ser capaz de entendê-lo caso se esforçasse, mesmo que não concordasse com suas estranhas atitudes, era capaz de ver - como todos naquela casa - a forma que ele estava estranho com Jongin.

— Chanyeol, vai levar o Kyungsoo para sair — Baekhyun informou ao ver o amigo deixar o prato de lado —, assim você pode sair do quarto por algumas horas e tentar socializar.

Não gostava muito de um Jongin retraído e enfurnado entre aquelas paredes, o amigo que conhecia era alegre, espontâneo e divertido, por isso era tão estranho vê-lo tão quieto.

Jongin ficou calado, pensando. Estava confortável em seu ambiente seguro, mas talvez deixar um pouco a toca trouxesse seu brilho de volta

— Kyungsoo disse alguma coisa? — perguntou um tempo depois de concordar com a cabeça para o pedido/ordem de Baekhyun. Uma parte de si não conseguia parar de pensar sobre ele, não sabia explicar o porquê, mas queria saber se ele tinha se arrependido.

Eles haviam criado um clima ameno quando pararam de brigar, era gostoso e confortável estarem juntos em silêncio, não tinham discussões desnecessárias nem a escrotice familiar por parte de Kyungsoo, uma parte de si sentia falta da paz.

— Não, mas ele anda meio estranho, mais quieto que o normal.

— Espero que esteja arrependido, é o mínimo depois de ter sido tão babaca — resmungou, cruzando os braços. Ainda estava irritado. — Sério, ele nunca tinha sido tão escroto, nem no ensino médio me chamava desse jeito, não na minha frente, pelo menos.

— Não acho que foi isso que ele quis dizer, na real acho que ele tava bem fora de si quando disse aquilo, foi bem impensado até pra gente.
— No defende ele — Baekhyun, mesmo sendo um encrenqueiro era bem justiceiro, o que fez Jongin recuar insatisfeito da conversa.

— Não to defendendo — Baekhyun sorriu soprado da expressão fofa que o melhor amigo fazia ao se irritar —, só acho que tem mais coisa aí.

— Como assim? — arqueou a sobrancelha curioso. Baekhyun se abaixou para mais perto, falando baixo, como se contasse um segredo.

— Tipo, ele sempre pegou no seu pé — constatou o óbvio fazendo Jongin revirar os olhos — mas sempre que ele é mais escrotinho é porque você tá com alguém. Naquele dia você estava bem próximo do Junmyeon e ele surtou e disse aquilo…

— Onde quer chegar?

— Sei lá… — Baekhyun tinha uma mania de gesticular muito com as mãos quando estava ansioso, e era exatamente isso que fazia no momento, deixando jongin no mesmo estado. — Ele claramente ficou transtornado pelo que você disse sobre ele aquele dia e, depois, quando estava com o Junmyeon… Não quero colocar coisa na sua cabeça mas eu acho que… Não sei, talvez ele esteja afim de você.

Baekhyun se afastou com um olhar incisivo, e Jongin o encarou por alguns segundos antes que sua crise de risadas vencesse sua tentativa de se conter, expressando uma gargalhada tão alta que levou Baekhyun a tomar distância, cruzando os braços, desacreditado da reação do amigo.

— Afim de mim? O Kyungsoo? Você usou drogas? — indagou ainda se recuperando da crise de risos.

— Só tô dizendo que o comportamento dele indica isso. Preste atenção nos detalhes Nini, é só prestar atenção. — Baekhyun sabia que era de fato algo estranho de ouvir e que, se fosse Jongin, certamente teria a mesma reação.

Mas, poxa, estava assistindo a situação de fora e não era possível que Kyungsoo não gostasse dele. Você não faria os pratos favoritos de alguém que odeia só para pedir desculpas sobre algo que você fez. Quer dizer, talvez pessoas boas fizessem, mas isso não tinha a cara de Kyungsoo. Não, o Kyungsoo que conhecia não era tão bom moço nesse nível. Esse comportamento ainda estava além de sua compreensão, mas sabia que havia alguma outra coisa ali.

Quando o silêncio se estendeu com um olhar perdido de Jongin, Baekhyun decidiu que, talvez, o melhor fosse deixá-lo pensar melhor sobre a situação.

— Agora eu vou obrigar o Chan a enxotar aquele verme do irmão dele para você sair do calabouço.

Mesmo com a tentativa de piada, Jongin apenas o olhou meio perdido soltando um "vai lá" fraco. Baekhyun beijou sua testa e deixou o quarto, sobrando para Jongin o vazio de uma mente confusa.