Chapter Text
Kim Junmyeon sempre gostou de ficar sozinho. Quando era criança, isso era motivo de orgulho para a mãe. Ele era um menino obediente, que brincava sozinho e não dava nenhum trabalho. "Ele é quietinho e solitário, mesmo", ela dizia para as visitas quando elas perguntavam sobre ele e o que fazia trancado no quarto em vez de brincar com as outras crianças.
Quando Junmyeon cresceu e decidiu ficar tão sozinho que deixou a mãe para trás, ela teve dificuldades em aceitar aquilo que esteve presente nele desde sempre. Foi quando ser quieto e solitário se tornou um fardo, o fardo da ausência dele, que a mãe teve que carregar.
"Amar é libertar", foi o que ela sempre disse, mas não aceitou libertá-lo quando o momento chegou. Por isso, Junmyeon se libertou sozinho, e assim criou uma fenda na relação com a mãe, mais profunda do que qualquer abismo do oceano. Ele foi morar o mais longe possível, e ela o quis assim, distante. Sempre foi mais fácil.
No final, amar é libertar mas a libertação não foi um sacrifício, foi um alívio.
Desde então, Junmyeon esteve como na infância: quietinho e solitário, como devia ser.
E assim foi a vida de Junmyeon.
Até Oh Sehun chegar.
◇
Oh Sehun, cujo nome Junmyeon ainda não sabia, apareceu nas margens das águas em que Junmyeon pescava. Ele estava pronto para ir até o mercado com a bacia de peixes meio vazia da pesca da manhã quando sentiu que o barco não queria atracar na areia. Junmyeon brigou com as cordas que puxava, mas elas nada puderam fazer para ajudar. Quando finalmente deu a volta no barco para ver o que estava acontecendo, encontrou a cena que não esperava.
Havia um tritão preso em sua rede de pesca.
Para começar, o peso da criatura havia arruinado a rede. A pele era esverdeada nas mãos compridas, com dedos que agarravam um pedaço solto da rede. Uma corda estava enrolada com um aperto perigoso ao redor de seu pescoço. Estava inconsciente, o rosto escondido por uma cortina de algas marinhas, espalhadas também pelo resto do corpo. Sehun não parecia tão preso quanto parecia ter se prendido por vontade própria na rede de Junmyeon. Havia um corte no abdômen magro e musculoso, logo acima de onde a cauda de escamas esmeraldas começava. Um líquido azulado saía do machucado continuamente, e levou um longo tempo para Junmyeon registrar aquilo como sangue.
Havia um tritão ferido enrolado em sua rede de pesca. Em vez de se aterrorizar com o significado daquilo, Junmyeon lamentou profundamente a perda dos peixes que não poderia vender naquela manhã, mas cuidar da criatura mágica ferida era mais importante do que comparecer ao mercado.
Junmyeon desamarrou o tritão da rede de pesca, cortando os restos do que já estava arruinado. Ele deitou o corpo, mais pesado do que imaginava, na areia da praia, e afastou as algas marinhas que se enrolavam no rosto pálido. Descobriu ângulos afiados e curvas delicadas nas feições jovens. Ansiou por algum sinal de vida por parte de Sehun, algum tremular de pálpebras ou mover de lábios, mas não houve nada, então ele se aproximou e tentou sentir a respiração da criatura.
Idiota , Junmyeon pensou para si mesmo . É um tritão. Não pode respirar como seres humanos. Precisa de água.
Junmyeon pegou o tritão no colo e saiu correndo, sem se importar com o barco e as coisas que deixava para trás. Ele correu por apenas cinco minutos a curta distância da praia até sua casa, mas o peso que carregava fez parecer uma corrida de duas horas. Ao chegar, ele abriu a porta com o pé e se enfiou na residência, indo direto ao banheiro. Não havia uma banheira ali, então Junmyeon se conformou em ter que colocar Sehun no chão embaixo do chuveiro aberto, deixando a água correr por todo o corpo para limpá-lo da areia e algas marinhas.
A cena era perturbadora: um jovem tritão, encostado de qualquer jeito na parede do banheiro minúsculo, o corpo virado para o lado para que a longa cauda pudesse se acomodar no espaço disponível. A ficha de Junmyeon só caiu quando ele olhou para as paredes de azulejos amarelados em contraste com a pele azulada do tritão e percebeu o que estava fazendo.
Havia um tritão deitado embaixo do chuveiro de Junmyeon, porque ele trouxe uma criatura marinha mística para casa. Por vontade própria. Junmyeon podia ser cético sobre muitas coisas, mas não era idiota; conhecia muito bem as histórias sobre os perigos de sereias e tritões que habitavam a ilha de Jeju. Então, por que levou a criatura com tanta facilidade para casa?
Quem sabe fosse alguma magia. Mesmo inconscientes, sereias tritões poderiam enfeitiçar humanos. Pelo menos, era isso o que Junmyeon ouvia sobre as perigosas e raras criaturas do mar, que encantam para matar e são violentas quando menos se espera. Mas o rapaz deitado no banheiro de Junmyeon não parecia agressivo, nem perigoso. Oh Sehun parecia quase frágil. Junmyeon se perguntou se aquilo fazia parte da magia para enganá-lo ou se simplesmente estava ouvindo histórias demais dos pescadores.
De qualquer forma, ele tinha coisas a fazer. Correu para fora do banheiro e de volta pelo caminho até a praia para recuperar suas coisas e atracar o barco corretamente. Só depois se permitiu voltar para casa e encontrar o tritão no mesmo lugar, o corpo deslizando até o chão pelos azulejos lisos do banheiro. Junmyeon o ajeitou e começou a tratar dos ferimentos e limpar todo o corpo cheio de escamas e guelras, com o cuidado de um pescador experiente que já cuidou de peixes com carinho e não com o objetivo de matá-los.
Junmyeon cuidou de Sehun pelo resto do dia, até tarde da noite. Ele limpou todos os machucados, brevemente tocando o sangue azulado que escorria. Quando o líquido entrou em contato com a pele de Junmyeon, foi como se ele tivesse se tornado uma esponja, porque as gotas de sangue desapareceram como se sugadas pelos poros. Uma sensação de formigamento subiu pelos dedos manchados de azul até o ombro de Junmyeon, e então alcançou o peito dele, fazendo seu coração acelerar.
Junmyeon rapidamente limpou os dedos e tentou não tocar mais o sangue de Sehun, mas era difícil, e a cada vez que ele encostava naquele azul quase brilhante, tinha a sensação de levar um choque. O formigamento se tornou cada vez mais presente, vibrando sob sua pele como uma música alta demais, que produz ondas sonoras poderosas e faz tremer todos os ossos de quem a escuta. Em algum momento, Junmyeon se esqueceu da sensação e se concentrou na curiosidade de observar de perto o corpo do tritão: as guelras na nuca e na linha das costelas dele, as escamas espalhadas por toda a pele e a grande cauda verde com nuances de azul e roxo. Junmyeon o observou com respeito e se manteve tocando apenas o que era necessário, para não se aproveitar da vulnerabilidade do tritão e saciar sua curiosidade, mas não podia deixar de encarar a criatura com certo encanto.
Ao terminar de limpar tudo, Junmyeon deixou o tritão e foi se trocar e se limpar. Depois, ele foi à cozinha e começou a cozinhar.
Então, Oh Sehun despertou.
◇
A princípio, ele estava sozinho em um cômodo escuro. Uma lâmpada amarela iluminava o local, mas não foi ela que Sehun notou primeiro, já que ele estava sendo golpeado por água. Um chuveiro estava ligado na cara dele, mantendo-o ensopado em uma pequena poça d'água que escorria para o ralo.
Sehun notou que estava com alguns machucados no corpo. Ele fez um pequeno esforço mental para fechar cada uma das feridas, e logo estava novo em folha, a pele imaculada como se nunca tivesse sido machucada. O próximo passo foi se livrar da cauda: mais um pouco de esforço visualizando um par de pernas que combinavam com o resto do corpo: magras, pálidas e musculosas. Sehun não se incomodou em se livrar das guelras ou das escamas que cobriam algumas partes do corpo, como o dorso das mãos e partes dos ombros. Em vez disso, ele apenas tirou a cor de tudo para que ficasse escondido no mesmo tom que o resto do corpo. Por fim, ele se apoiou nas paredes molhadas e se levantou, levando vários segundos para encontrar o equilíbrio.
A força nas pernas não foi um problema, já que ele estava acostumado a confiar na cauda para fazer todo o esforço enquanto nadava. As pernas eram tão fortes quanto a cauda, mas todo o corpo dele estava fora do equilíbrio da atmosfera terrestre em contraste com a marinha. Sehun continuou se apoiando nas paredes enquanto saía do banheiro e encontrava um pequeno corredor, levando a outros cômodos. A porta de um quarto estava aberta à esquerda, e o corredor pela direita levava à cozinha, onde Sehun conseguia ouvir sons de metais e ferro colidindo. Panelas. Pelo cheiro, alguém estava cozinhando.
Ele seguiu pelo corredor até a cozinha. Lá, olhando pelo canto da parede do corredor, encontrou um homem diante do pequeno fogão, de costas para ele. O homem tinha cabelos escuros e um corpo alto e forte — não tão alto quanto Sehun e com certeza não tão forte quanto ele, já que, pelo que Sehun podia sentir, aquele era apenas um humano. Além da simplicidade humana exalando dele, Sehun podia sentir um traço mágico, algo já esperado da situação em que se encontravam. Ele provavelmente havia entrado em contato com o sangue de Sehun e estava temporariamente marcado com a energia dele.
De repente, o homem se virou em um pulo, como se o fogo baixo produzido pelo olhar de Sehun em sua nuca tivesse finalmente alcançado o cérebro e queimado os fios de seu sistema nervoso. Assim que ele se virou, arregalou os olhos e derrubou a colher que usava para mexer a panela fumegante.
— Por Deus! — exclamou Junmyeon. Sehun o encarou em silêncio, registrando o resto dos traços dele: grandes olhos escuros, rosto redondo, lábios rosados. Um pequeno sorriso quis tomar conta da expressão de Sehun. Ele reconheceria a aparência de um príncipe em qualquer lugar, embora fosse exatamente o lugar que o confundisse: o que um membro da realeza humana estava fazendo em uma casa tão pequena e humilde?
Talvez fosse o único lugar disponível para trazer um tritão ferido e inconsciente, Sehun concluiu. De qualquer forma, era um lugar aconchegante. Talvez Junmyeon até morasse ali e fosse um príncipe mais humilde.
— Olá? — disse Junmyeon, se aproximando com passos cautelosos. — Você entende minha língua?
Outro sorriso ameaçou se abrir no rosto de Sehun.
— Sim. — Ele respondeu com simplicidade. Junmyeon pareceu aliviado.
— Ok. Que bom. Achei que fosse ter que aprender língua de... — Ele se interrompeu no meio da fala e arregalou os olhos para Sehun, como se tivesse se lembrado com quem estava falando.
— Língua de peixe? — Sehun terminou a frase, querendo rir ao ver a expressão ainda mais chocada e preocupada de Junmyeon.
— Eu não quis ofender — disse ele. — Meu nome é Kim Junmyeon. Eu te encontrei inconsciente, enrolado na minha rede de pesca. Você estava ferido, então eu te trouxe...
— Não estou mais ferido — disse Sehun, saindo de trás da parede e revelando o resto do corpo. Junmyeon imediatamente fechou os olhos e se virou de lado.
— Meu Deus. Você está... muito pelado.
Sehun franziu as sobrancelhas, olhando para o próprio corpo com confusão.
— Sim? — disse ele. — Eu disse que estou curado. Olhe.
— Não posso — disse Junmyeon, erguendo uma mão como se Sehun fosse fisicamente forçar seus olhos a se abrirem. Ele começou a arrancar a camisa que vestia, abrindo botão por botão até conseguir tirar a peça. Ele a estendeu na direção de Sehun, que não fazia ideia do que fazer com aquilo.
Junmyeon abriu os olhos e viu que Sehun o encarava em silêncio, então se aproximou com os braços o mais afastados que podia do corpo e cobriu a cintura de Sehun com a camisa, amarrando as mangas em um dos lados do quadril dele. Sehun se olhou outra vez, constatando que o único objetivo daquilo era cobrir sua nudez, embora o gesto tivesse obrigado Junmyeon a ficar um pouco mais nu, também.
Sehun não entendia o puritanismo. Junmyeon não tinha um corpo exatamente igual ao dele? Nem havia escamas naquela parte, para ele ficar tão assustado. Sehun só não perguntou sobre aquilo ao humano porque estava com muita fome, e agora podia sentir melhor o aroma do que Junmyeon cozinhava.
— Hummm... — murmurou Sehun, cheirando o ar profundamente. Junmyeon acabou sorrindo para aquilo, apesar de ainda estar nervoso.
— Está com fome? — perguntou ele para Sehun, pegando do chão a colher caída e substituindo por outra para voltar a mexer o conteúdo da panela. — Eu fiz sopa. Você pode comer, eu acho. É de vegetais com algas marinhas.
Nesse momento, o sorriso escondido de Sehun se manifestou em seu rosto, iluminando-o por inteiro.
Sehun se sentou à mesa enquanto Junmyeon o servia. Sendo um príncipe, Sehun imaginou que não haveria problema em ter outro príncipe o servindo. Talvez fosse até bom que eles estivessem em um clima tão amigável. Duas espécies se conhecendo e se entendendo era sempre bom para os povos, não importa a origem de cada um.
A verdade é que Sehun conhecia alguns humanos capazes de serem civilizados com o povo marinho. Era muito raro encontrar um homem que não gritasse e pegasse armas ao ver uma sereia ou um tritão, mas era possível. Junmyeon claramente era um deles. Sehun já confiava nele pelo simples fato de que, se ele quisesse matá-lo, já teria feito enquanto estava inconsciente e incapaz de se proteger. Sempre existia a possibilidade de Junmyeon querer torturá-lo, ou vendê-lo com vida para enfrentar futuros piores que a morte, mas Sehun duvidava muito, se a forma como Junmyeon o tratou até ali era qualquer sinal da verdadeira natureza do humano. Ele podia sentir a energia que Junmyeon exalava, e não havia nenhuma maldade nela. Ele também estava oferecendo para alimentar Sehun com sua comida favorita após resgatá-lo. Se havia algo do que desconfiar, esse algo poderia esperar, mas o estômago de Sehun não podia.
— Você sempre resgata e traz pra casa tritões que se prendem à sua rede? — perguntou Sehun, quando já tinha começado a comer a deliciosa sopa. Junmyeon se serviu de um prato e se sentou ao lado dele na mesa de madeira, mas não fez menção de comer. Em vez disso, ele sorriu para Sehun.
— Você sempre se enrola na rede de pescadores dessa ilha? — perguntou de volta. Sehun deu de ombros.
— Só quando eu sei que posso confiar neles. Para não me matarem, quero dizer.
— Ah, é? — perguntou Junmyeon, interessado. — E como você sabe que pode confiar em mim?
— Sua aura é confiável — respondeu Sehun, comendo com gosto e muita felicidade. — Aliás, por que me deixou embaixo do chuveiro aberto? Eu estava tão sujo assim?
O rosto de Junmyeon assumiu um tom vermelho-vivo.
— Eu... Eu não sei. Achei que talvez, se eu te deixasse embaixo d'água... Eu não tinha uma banheira, então...
— Não ia funcionar — Sehun respondeu. — Por mais de um motivo.
— Como você sabe o que é um chuveiro? — perguntou Junmyeon. Sehun deu de ombros.
— Eu já convivi com humanos antes.
— Quantos anos você tem?
— Não quer saber meu nome primeiro?
— É claro — Junmyeon respondeu, e então pareceu envergonhado. — Desculpa.
— Meu nome é Oh Sehun — disse Sehun. — Eu sou um tritão. Sou um príncipe tritão, na verdade. Você deve estar familiarizado com a realeza, certo?
— Eu? — perguntou Junmyeon, olhando para a casa ao redor deles como se a criticasse. — Por que eu estaria?
— Porque você é um príncipe — respondeu Sehun. Junmyeon engasgou no próprio ar que respirava e quase morreu ali mesmo.
— Eu sou um príncipe? — questionou ele. Sehun franziu as sobrancelhas.
— Desculpe, eu te ofendi de alguma forma? Você já é um rei?
— Não! — Junmyeon balançou a cabeça. — Não sou nem rei, nem príncipe. Não sou da realeza. Nem temos realeza aqui na Coreia. Por que você achou que eu fosse um príncipe?
— Porque você é belo e gracioso como um — respondeu Sehun, com toda a sinceridade do mundo. Junmyeon se engasgou de novo, dessa vez ruborizando ainda mais do que quando Sehun apareceu sem roupas. — Fica ainda mais belo quando fica corado desse jeito.
— Eu vou morrer — murmurou Junmyeon, enfiando o rosto nas mãos. — Escuta só, podemos voltar um pouco? Apresentações básicas primeiro. Olá, meu nome é Kim Junmyeon...
— Você já me disse isso.
— ... e eu definitivamente não sou um príncipe. Sou um pescador. Você apareceu enrolado na minha rede de pesca e estava ferido, então eu te carreguei até aqui. Essa é minha casa. Eu cuidei dos seus ferimentos e te limpei da melhor forma que pude. Ok, agora você. Se apresente, por favor.
Sehun engoliu uma colherada de sopa.
— Tenho que repetir as coisas que já te disse? Você já sabe meu nome e meu título.
— Por favor, comece de novo como se não tivesse me dito nada.
— Tudo bem. — Sehun assentiu. — Meu nome é Oh Sehun. Sou um príncipe e sou um tritão. Eu acabei enrolado na sua rede de pesca depois de brigar com um dos soldados que deveriam me proteger.
— O que aconteceu? — perguntou Junmyeon, curioso.
— Ele estava planejando trair meu pai, o rei — disse Sehun. — Ele e outros soldados planejam mandar um representante para desafiar meu pai em um duelo pelo trono de nosso reino, mas eles irão trapacear e tirar meu pai do trono injustamente.
— Isso é horrível! — disse Junmyeon, surpreso. — Como você descobriu isso?
— Eu ouvi uma conversa deles.
— E você avisou seu pai?
— Não. Ele merece ser tirado do trono. Não estamos nos melhores termos agora, então mesmo que eu dissesse algo, ele não acreditaria em mim.
Sehun voltou a comer a sopa enquanto Junmyeon o encarava por vários minutos, surpreso e um pouco assustado.
— Você não teme que eles matem seu pai? — perguntou, finalmente. Sehun balançou a cabeça.
— Meu pai não pode ser morto. É imortal, como eu. Talvez um pouco mais forte. Eu posso morrer se ficar muito ferido, mas meu pai sequer pode ser ferido. Só que ele pode ser vencido, e é isso o que eles pretendem.
— Então você lutou com o soldado porque ele estava planejando enganar seu pai, mas não contou nada a ele?
— Eu não lutei para proteger meu pai — disse Sehun. — Eles me descobriram e me atacaram imediatamente, então eu lutei de volta. Mas não tentei defender a honra do meu pai, nem nada do tipo. Ele não merece.
— Você fugiu de casa por causa dele?
— Eu não fugi de casa. — Sehun já estaria impaciente àquela altura, se não fosse pela ótima sopa que comia. — Você não entendeu. Eu fui descoberto pelos homens que planejavam atacar meu pai, então eles me atacaram. Eu estava fugindo deles, mas fiquei gravemente ferido e enquanto fugia acabei enrolado em sua rede de pesca. Foi assim que você me encontrou.
— Mas você já está curado — disse Junmyeon, apontando para o torso de Sehun. Ele assentiu.
— Assim que fiquei consciente, terminei de me curar. A ferida era maior do que a que você encontrou, mas estava envenenada. Eu fiquei inconsciente antes de terminar de me curar. Consigo curar ferimentos, mas não consigo curar veneno no meu próprio sangue. O veneno só foi embora naturalmente enquanto eu dormia. Eu dormi por muito tempo?
— Só algumas horas — respondeu Junmyeon. Sehun assentiu.
— Então ainda estamos na mesma lua? — Ele olhou ao redor da casa, como se ela fosse responder à pergunta. — Em que lua estamos, aliás?
Junmyeon franziu as sobrancelhas.
— Estamos em maio. Doze de maio.
— Não, não é o dia ou o mês. A lua. Em que lua estamos?
— Acho que acabamos de passar pela lua cheia.
— Que bom — disse Sehun. Ele contou algo nos dedos, e então assentiu. — Eu tenho uma coisa importante na lua minguante.
— Vai ser em oito dias — disse Junmyeon, finalmente com o celular na mão para pesquisar as fases da lua. Sehun olhou para o objeto com interesse, então Junmyeon mostrou para ele mais de perto. — Sabe o que é isso?
— Uma chave de fenda? — perguntou Sehun, pingando sarcasmo. — É claro que eu sei o que é isso. É um celular. Serve para fazer ligações.
— Isso aí — disse Junmyeon. — Você conhece coisas humanas.
— Eu disse que já tive contato com humanos.
— Quando foi isso?
— Há alguns anos — respondeu Sehun, e então fechou a expressão, como se não quisesse mais falar sobre isso, então Junmyeon mudou de assunto.
— Qual é o compromisso que você tem na lua minguante?
— Não posso te contar — disse Sehun. Junmyeon franziu as sobrancelhas. — Ninguém pode saber. Sinto muito.
— Tudo bem — Junmyeon respondeu. — E quanto ao seu pai? Por que exatamente vocês não estão em bons termos?
— Porque ele é autoritário, injusto e ignorante — respondeu Sehun. Parecia já ter falado muitas vezes sobre aquilo. — Por isso querem derrubá-lo do poder, e estão certos. Outro rei seria melhor para o reino.
Havia tantas perguntas nos olhos de Junmyeon, perguntas que Sehun conseguia ver quase flutuando para fora da alma dele. Ele queria saber do reino, dos outros tritões e sereias, dos costumes da espécie de Sehun, do motivo de existir uma organização monárquica de criaturas místicas, dos motivos pelos quais Sehun odiava o pai. Ele queria saber de tudo ao mesmo tempo, mas só podia fazer uma pergunta por vez.
— Você parou para pensar que se tirarem seu pai do poder, você deixará de ser príncipe? — disse ele. Sehun deu de ombros.
— Não me importo. Podem me tirar tudo, menos meu nome e meus conhecimentos. Posso viver como um deus em qualquer lugar que quiser, pois meu pai me ensinou a controlar e dominar qualquer um que cruze meu caminho.
— Essa parece uma habilidade bastante útil — disse Junmyeon.
— É a habilidade de um tirano sem coração — respondeu Sehun. — É o que meu pai é.
— É por isso que você tem tanta raiva dele? — perguntou Junmyeon. — Por isso vocês não se entendem?
Sehun sorriu e balançou a cabeça, mudando de assunto suavemente.
— Por que você me ajudou? — perguntou ele. Junmyeon franziu as sobrancelhas.
— Eu... Eu não sei. Acho que tive pena de te ver naquele estado. Sabia que se fosse outro pescador, você poderia acabar morto. Humanos não gostam muito de criaturas da sua espécie, mas eu não me importo com o que você é. Você estava em apuros, então eu ajudei. Você também parecia assustado, agarrado à minha rede com tanta força. Eu imaginei que precisasse de ajuda.
— Eu precisava — Sehun concordou. — Mas agora não preciso mais. Você poderia ter me deixado na beira da água. Eu acordaria em breve.
— Mas não parecia certo — disse Junmyeon. — Eu também não sabia se você acordaria tão cedo.
— E por que você não me expulsou assim que eu acordei? — perguntou Sehun. — Você pode não se incomodar com o que eu sou, mas sabe que corre perigo com minha presença aqui.
— Eu corro? — perguntou Junmyeon, mais curioso do que preocupado. Sehun deu de ombros.
— Humanos e sereias nunca se deram bem. Eu poderia ter te atacado. Poderia tentar te matar agora mesmo. Você sabe disso, mas insistiu em me manter aqui e me servir comida.
— Vai ver eu te servi comida exatamente para você não me devorar — disse Junmyeon. Sehun balançou a cabeça.
— Eu posso ver suas intenções. Consigo ler além do que você faz, quase consigo saber o que você pensa. Eu posso ver sua aura, Kim Junmyeon. Você me serviu comida apenas porque queria me ajudar e porque é gentil. Mas ser gentil não significa ser idiota, e você não é um idiota, porque sabe muito bem dos perigos que corre comigo. Mesmo assim, você me ajudou e me permite permanecer aqui, em sua casa. Por quê?
— Pela companhia? — disse Junmyeon, formulando mais uma pergunta do que uma resposta. — Pela curiosidade de saber se todas as criaturas do mar são tenebrosas e perigosas como dizem ser?
— Você está curioso, de fato, mas não o bastante para me deixar ficar aqui. O que realmente está se passando em sua mente?
— Eu não sei — Junmyeon respondeu, finalmente. — Não sei por que te ajudei, nem por que te deixo ficar aqui, agora. Eu só queria ajudar, eu acho, e ajudei. Agora quero ver até quando você vai ficar.
— E você confia em mim para ficar aqui? Te fazendo companhia?
Nesse momento, Junmyeon abriu um sorriso.
— Príncipe tritão, você não é o único que pode ver além do que as pessoas querem dizer. Eu sei que você não é um perigo para mim. Eu sinto que posso confiar em você.
— Eu sou um desconhecido.
— Mas aceitou minha ajuda e minha sopa sem questionar se eu não estava prestes a te atacar. — Junmyeon apontou para o prato dele. — A maioria das pessoas odeia esse tipo de sopa.
— Jura? Eu amo. — Sehun terminou de comer com muita alegria, então Junmyeon silenciosamente empurrou o próprio prato para Sehun. Ele não questionou antes de começar a comer. — Então, apesar de nossas espécies não se entenderem, você aceita me dar abrigo se eu pedir?
— É claro — disse Junmyeon, dando de ombros. — Não vejo motivos para não, já que você pode se parecer com um humano com pernas e tudo.
— Que bom — disse Sehun, sorrindo por cima do prato de sopa. — Nesse caso, pescador humano, eu aceitarei sua ajuda e seu abrigo em troca de...
Sehun parou de falar e esperou que Junmyeon oferecesse seu preço.
— Me fazer companhia? — sugeriu Junmyeon. — É só o que você precisa fazer para ficar.
— Em troca de te fazer companhia, então — concordou Sehun. — Eu não posso retornar para casa até que eles tenham tirado meu pai do trono, ou ele poderá usar a magia de compulsão para me fazer contar o que eu sei.
— Ele pode te forçar a contar a verdade?
— Não só a verdade, mas qualquer segredo que quiser saber de mim. Ele faz isso com frequência com os criminosos e pecadores do reino, para que contem toda a verdade do que fizeram. — Sehun bufou. — Aqueles homens podem ter me atacado, mas eu espero que eles tenham sucesso em substituir o rei.
— Você não teme que eles coloquem um rei pior no lugar?
Pela primeira vez na conversa, Sehun abaixou a colher e olhou seriamente para Junmyeon.
— Ninguém será pior que meu pai, eu garanto.
A curiosidade de Junmyeon deu um salto que Sehun sentiu claramente. Ele sabia que era razoável: o mistério ao redor do pai dele ficaria na frente da mente de Junmyeon, e era esse seu objetivo, de qualquer forma. Que Junmyeon pensasse sobre o governo de criaturas místicas em vez de outras coisas, como o fato de claramente estar enfeitiçado por Sehun e ainda não ter percebido.
Parte do feitiço seria desfeito durante a noite, é claro, mas a outra parte, aquela que não afetava diretamente a consciência de Junmyeon, mas a sua alma...
— Esse é seu compromisso da lua minguante? — perguntou Junmyeon, de repente. — Esperar que seu pai seja tirado do trono para voltar para casa?
Sehun voltou a atenção à sopa.
— Não, esse não é meu compromisso — disse Sehun. — Melhor parar de tentar descobrir, ou vou me irritar e te devorar.
Junmyeon paralisou no lugar, hesitando. Sehun continuou sério.
— Estou brincando — disse ele.
— Quando você diz isso deveria abrir um sorriso para mostrar à pessoa que acabou de ameaçar que está mesmo brincando — disse Junmyeon. Sehun franziu as sobrancelhas.
— Apenas falar não é suficiente? Você não acredita em mim?
— Expressões corporais ajudam os humanos que não têm tantos poderes quanto você a ler além de suas palavras, como você faz naturalmente.
— Expressões como seu rosto ficar corado? — perguntou Sehun. Só de falar naquilo, o rubor voltou ao rosto de Junmyeon.
— Essa expressão em particular é involuntária, mas sim. — Ele se levantou da cadeira e abriu um sorriso nervoso. — Você pode terminar sua sopa. Eu vou... pegar algumas roupas para você vestir depois.
— Aí podemos conversar mais? — perguntou Sehun. — Quero ser uma boa companhia para você, já que é a única coisa que vou te oferecer em troca de estar aqui.
— É claro, podemos conversar — disse Junmyeon. — Você não precisa se preocupar com isso. Para ser uma boa companhia, é só me acompanhar. Basta você ficar.
Sehun assentiu e voltou a tomar a sopa enquanto Junmyeon saía da cozinha com passos rápidos demais. Ele estava inquieto e nervoso, e Sehun nem precisava usar seus poderes para perceber isso.
Era claro também que Junmyeon estava afetado pela magia e o sangue de Sehun. Naquela noite, ele sentiria os primeiros efeitos, que passariam logo depois, mas a marca do que tinha acontecido permaneceria nele. A magia de Sehun tinha a característica de atravessar a pele e chegar até a alma quando seu sangue era tocado. A alma de Junmyeon estava marcada pela magia dele, e esse era um dos motivos pelos quais Sehun não poderia ir embora tão cedo: ele teria que compreender a natureza do laço criado entre eles para poder quebrá-lo antes de ir embora. Se não fizesse isso, Junmyeon acabaria afetado a ponto de se jogar no mar aberto e se afogar sem perceber, à procura daquele que tinha controle sobre si. A mera distância prolongada entre eles teria a capacidade de causar dores e mal-estar no humano, e ele acabaria procurando por Sehun até durante o sono.
Não era justo que uma pessoa boa como Junmyeon morresse por simplesmente tentar ajudar alguém em necessidade. Por isso, Sehun teria que ficar e entender profundamente o que realmente havia sido criado entre eles para quebrar o encanto antes de uma tragédia acontecer.
Por isso ele precisava ficar. Para impedir que os acontecimentos da outra vez que teve contato com um humano se repetissem com alguém tão puro em alma e aura quanto Kim Junmyeon, o solitário pescador humano que o salvou de um destino mais terrível do que qualquer um imaginava.
