Chapter Text
– Capítulo I, prefácio: A pressão que me mata.
Uma dor de cabeça lhe afligia há algumas semanas desde que eles se distanciaram, o jovem não sabia se seus olhos pareciam saltar do crânio por causa de uma crise habitual de sinusite pela mudança do clima ou porque sentia muita, muita, muita saudade de conversar com sua pessoa especial. Felipe ouvia pela manhãzinha árvores de oliveira zumbindo feito abelhas e se lembrava de como ela o ensinou a identificar ramos dessa planta inodora, sentia o calor do Sol queimando sua face com ternura e imediatamente recordava do toque macio dela, via alguma coisa engraçada e desejava poder contar a ela, se deitava sozinho no silêncio do seu quarto e sentia saudade de tê-la no lado direito da cama (o lado reservado da garota) falando por horas e horas sobre qualquer besteira do dia, ouvia algum boato no paddock e ficava triste por não poder correr imediatamente à ela para contar, passava por perto da orla e quase podia escutá-la na parte detrás da sua cabeça implorar para irem até lá tomar um pequeno banho de mar, a encontrava entre as entrevistas e o peito apertava por não poderem conversar, contar piada ou até compartilhar um sorriso. Aquela festa no quarto de Daruvala parecia mais um funeral incomum com muita gente bêbada, vodka e música alta do que propriamente uma festa; do outro lado do cômodo poderia enxergar caso levantasse a visão do copo de bebida alcoólica em mãos a rival de pistas, e melhor amiga de longa data desde a época do kart, sumindo cada vez mais no estofado do sofá com o desconforto aparente devido a um Sargeant bêbado flertando terrivelmente e implorando-a para serem da mesma equipe. Doohan, o colega de equipe dela, e Enzo filtrando as palavras do americano para impedir qualquer constrangimento por parte da jovem era a única coisa que mantinha o brasileiro do time laranja mais calmo.
Seus olhos cheios de paixão se encontraram com o brilho delicado de se sentir deslocada num ambiente tão barulhento com tantas pessoas, Victoria odiava qualquer tipo de festa, e talvez a pontada aguda no peito enviada através de um pico de adrenalina por parte do sistema nervoso falhando fosse - na verdade - um início de ataque cardíaco. Espalmou a mão livre na caixa torácica quando a ansiedade começou a queimar um buraco no coração, se lembrando de inspirar fundo agora que as orbes dela haviam rolado tristemente para o chão. — Para de cantar ela, cara! — Fittipaldi se irritava hilariamente com todo o complexo de altura pequena, como se um pequeno escalador de meio-fio bradasse para quem passasse pela calçada e o atrapalhasse. Cobriu os lábios com os dedos para não ficar evidente o fato de estar rindo da situação inteira, Victoria porém não se importou de poupar o gargalho. — Ela é só uma criança. — Mas o brilho estelar do sorriso dela sumiu ao ouvir o comentário seguinte.
— Eu não sou nada.
— É claro que é, você tem só dezoito.
— Dezoito anos é maior de idade. — Tanto ela quanto o piloto da equipe Carlin argumentaram. Encararam-se por um momento antes da garota taiwanesa-brasileira deixar claro:
— Eu não vou ser sua colega de equipe, Logan.
Ergueu as sobrancelhas num sorriso forçadamente despretensioso. — E sair comigo, japinha?
— Piorou! — Bufou numa risada nervosa. — E eu não sou japonesa, eu sou brasileira com ascendência no Taiwan.
— Então chinesa? — Notou a carranca na face da automobilista. — É tudo a mesma coisa!
— Taiwanesa, seu imbecil! E eu não saio com perdedores. Tenta me ultrapassar ao invés de ficar vendo a traseira do meu carro durante a corrida inteira e daí talvez a gente converse. Sua mãe demorou nove meses 'pra fazer a maior piada que eu já competi contra. — A maioria dos rapazes riram do fora mais feio que briga de foice ou bater em mãe. Logan não iria se recuperar daquela tão fácil.
A festa tinha um pequeno clima de velório (apesar da pequena nuvem de piadas feitas para aliviar a tensão) porque assim como alguns pilotos abertamente brigados estavam dividindo o mesmo oxigênio, sua corrida fora arruinada por um acidente na pista envolvendo a única garota do grid atualmente e Caldwell apareceu com um grande hematoma no rosto junto de um incentivo à onda de boatos sobre ter entrado numa briga feia dentro de um elevador com alguém da categoria de base abaixo da F2, a neblina fúnebre entre Drugovich e sua principal rival nesta altura do campeonato era bastante palpável a todos em volta. O jovem brasileiro estava completamente ferrado até a cabeça por:
1. Estar na liderança de um campeonato com tanta pressão.
2. Por não poder confiar no seu carro de merda.
3. Por não ter uma garantia de dar certo na categoria mais alta, o seu sonho.
4. Por todos o espremerem de todos os lados pela pequena vantagem de pontos em relação a piloto da Virtuosi Racing.
5. Por sua liderança estar constantemente correndo perigo devido ao talento excepcional de Victoria de Engrácia.
6. Por sua rival ser osso duro de roer, que se recusa a cair deitada logo.
7. Por sua rival ser sua melhor amiga.
8. E, principalmente, por estar perdidamente, completamente, inegavelmente, irreprimivelmente apaixonado por alguém que nunca poderia se permitir o amar de volta (que - a propósito - é sua rival e única melhor amiga).
Ele se via todos esses anos correndo contra o tempo para fazê-la o amar de volta até chegar o dia onde não poderiam evitar que os acidentes e acontecimentos inevitáveis durante as competições os destruíssem completamente, e essa sensação era horrível, mas agora que sabia como era recíproco e mesmo assim não poderiam ficar juntos ele se sente pior ainda. Felipe de vez em quando se pega pensando em como seria se tudo voltasse a ser como era antigamente; apenas os dois rindo como se o mundo lhes pertencesse, ou como se nenhum problema importasse porque ali estavam eles apontando para as constelações sobre as suas cabeças com a promessa de um futuro glorioso. Ela ainda apontaria para o céu azul anil, sorriria com um divino brilho fantasmagórico, olhos estrelados na noite quente, falaria sobre um futuro que incluía Felipe, e seu coração de garotinho ficaria aterrorizado outra vez por saber que estava se apaixonando lentamente para adentrar numa jornada de autodescoberta sobre o que é o amor e todas as suas formas criativas - e terríveis - desse sentimento o machucar.
Felipe estava ferrado porque número 1, ele se apaixonou pela idiota mais leal desse mundo inteiro, número 2, ele cometeu o erro de principiante afobado ao dizer "eu te amo" após um beijo de constelação, número 3, ele juntou coragem no silêncio de dez minutos seguidos dela para questionar "Quando você vai parar de fingir que eu não te amo e não me declarei 'pra você?", número 4, ele ficou lá para ouvi-la sussurar num abraço que seria "quando eu finalmente puder retribuir de verdade, de corpo e alma".
Você merece alguém que te ame por inteiro, e eu te amo por inteiro, mas não posso construir um futuro contigo igual ao que você quer porque eu estou ocupada demais colocando comida na mesa da minha família inteira, tentando compensar por tudo o que sacrificaram por mim e tentando dar uma vida digna para eles. Eu não posso lutar a batalha de nós dois porque estarei sempre ocupada lutando a minha própria batalha, e você merece alguém que esteja lá para lutar ao seu lado e, se preciso, abrir mão tudo por você... Eu não posso abrir mão de tudo antes de ter certeza que a minha família não vai passar por dificuldades outra vez, eu não posso abrir mão de tudo antes de alcançar uma vida digna para todos eles, cada um deles.
Número 5, ele ficou apenas lá segurando-a firme nos braços enquanto o mundo dela parecia desabar pela primeira vez em todos esses anos de amizade. As coisas haviam ficado estranhas entre os dois amigos porque Victoria simplesmente não se permitia chorar na frente de ninguém, não se permitia ser fraca, e estava bastante envergonhada por apenas despejar os seus problemas num garoto que só estava contente por tê-la como companhia. Se pudesse voltar atrás, ela daria uma boa noite ao Felipe… uma como qualquer outra com piadas, risadas, bastante comida, videogame, conversas que se esticavam por horas e um belo copo de refrigerante, mas ainda assim seria uma boa noite. Ela engoliria os seus sentimentos outra vez e os esconderia no espaço de um sorriso.
A indagação suave de Enzo ao lado a acordou para a realidade fria do mundo. Um gosto azedo tocou a ponta da língua para anunciar um aperto na garganta, impedindo-a de falar sem mostrar ao amigo que estava a ponto de perder todo o chão que lutou para construir desde a série compulsiva de choros repugnantes nos braços de Drugovich. — Você está bem?
— Eu… — Só não entendia porque tudo havia de ser assim. Queria muito dizer que esse quarto de motel inteiro parecia estar se enchendo lentamente por água e aparentemente ela era a única aqui que não sabia respirar embaixo d'água. Seus pulmões se comprimindo dolorosamente no início de um choro, a garganta fechada para qualquer lufada de oxigênio e olhos começando a embaçar com lágrimas. Victoria desejava explicar que nunca se permitia ser vulnerável e com uma frequência perigosa não admitia estar profundamente deprimida para as pessoas que a amavam porque, em algum lugar da sua cabeça, a garota não acha que isso seria algo do qual elas gostariam de ouvir (porque essas pessoas a amavam). Porque essas pessoas sacrificaram cada sonho para ela chegar onde está. Porque essas pessoas lutaram com sangue e suor até a última lufada para que ela alcançasse seus sonhos. Porque essas pessoas prometeram de coração que estariam lá para ela. Porque essas pessoas a amam e Victoria simplesmente não quer vê-las pensando que a ternura do amor delas não era o suficiente quando por muito tempo foi e algum dia voltaria a ser, quando aquela neblina fúnebre de escuridão melancólica parasse de rondá-la para a forçar a se sentir culpada por tudo isso; por todo o sacrifício que não pediu, mas do qual seria eternamente grata - embora exausta por ter de compensar sozinha o preço alto pago pela família. Eles nunca a pediram para retribuir, porém isso era um consenso geral instalado silenciosamente sobre a sua vida. — Eu… — Ela não tem voz, e principalmente ela não quer soar como uma mal agradecida ou egoísta. Ela não está sofrendo sequer um terço do que seus avós, seus tios e seus pais sofreram para colocá-la bem aqui são e salva, porém ainda sente que esses últimos dias tem sido abertamente muito difíceis. A piloto se sente cada vez mais longe desses dias difíceis chegarem ao fim quando ela pensa na felicidade como uma espécie de destino; uma pequena casa de dois quartos numa pequena cidadezinha de Natal bem ali na esquina se prestasse bastante atenção, onde uma criança (ela, talvez) segura o carretel em mãos vendo a pipa voar tão alto quanto seus sonhos, e o que tudo isso significa é: Victoria deseja muito morar nessa casa outra vez onde a vida era mais simples e a pressão de estar sempre andando em frente, se levantando antes de cair e não ousando perder uma vitória, não existia, mas ela não mora nessa casa há muito tempo. Ela quer dizer com tudo isso que um dia espera de coração ver os dias ficando um pouquinho mais fáceis. Ergueu o corpo do sofá ao se sentir mal, cortou a extensão do quarto em alguns passos e sumiu no corredor. Para ser completamente honesta, hoje a garota estava triste. Hoje estava sendo difícil. Hoje ela sente falta das pessoas. Hoje ela sente das pessoas que estão perto e longe. Hoje ela sente falta das pessoas que já se foram e das que ainda estão aqui. Hoje ela sente falta de todas elas. Hoje era imperdoável ter destruído o sonho de tantas pessoas da sua família para que o dela pudesse continuar. Hoje ela deveria sofrer um inferno para pagar pelo o que pegou.
Deitada no chão frio do quarto de hotel onde se hospedava, soluçou involuntariamente porque o fato de que ninguém exceto sua família se lembraria dela ou gritaria o seu nome começou a zumbir no crânio inteiro feito uma vespa presa dentro da cabeça, feito uma enxaqueca de semanas. Sabe, a taiwanesa-brasileira não tinha muitos amigos dispostos a entender a completa solidão e pressão constante que ela sentia, não além de Felipe (Felipe que estava tão distante atualmente quanto Taiwan parece estar do Brasil porque ela simplesmente só não podia se permitir ser amada), mas tudo bem porque tinha esperança. Desde que a esperança seja o que desarma a bomba pronta para explodir entre os vãos de seus palmos, desde que seja a ternura iluminada da voz suave da sua mãe a dizendo que não precisava de amigas quando a tinha, tudo estaria bem. Sua mãe falava para ela toda a vida que não precisava de amigas, que não precisava de caprichos, que não precisava de novas roupas, que não precisava daquele último pedaço de torta ou aquele pouco punhado de frango para comer com o restante do arroz… que não precisava de sonhos quando tivesse o dela. Pensando agora, doía bastante pensar todas as vezes que sua mãe desistiu dos próprios sonhos para sonhar os dela. Seu coração estava muito pesado para segurar nas duas mãos nuas e Victoria sinceramente preferia estar segurando um livro leve no meio de uma praia num dia ensolarado. Sorrindo através dos problemas porque a dor deles não a afeta mais, porém nada disso passava de um sonho.
Ela queria falar para a sua mãe que sentia muito por tudo isso.
Na verdade o sonho dela estava aqui, neste exato momento estava vivendo o seu sonho. O sonho que deu esperanças aos seus avós que fugiram de Taiwan para o Brasil com uma pequena faísca de fé, para viver na miséria então, o sonho que se tornou os sonhos de seus pais que trabalhavam sem folga todos os dias do ano e nunca podiam comemorar o Natal em casa - o dia do seu aniversário. O sonho que ela sonha, que a dá motivos para ir dormir cedo, acordar pela manhã e viver mais um dia, embora estivesse se tornando cada vez mais o motivo da sua própria ruína.
Estava eternamente grata a todas as batalhas que sua família lutou para ela poder alcançar essa fração de sonho tão alto e intocável, mas não podia se imaginar como poderia se livrar algum dia dessa culpa inigualável de saber que mais de dez sonhos foram destruídos para que o dela pudesse viver. Mais de dez brilhos foram apagados para que ela brilhasse mais forte que qualquer um pudesse abrir os olhos para enxergar. E agora ainda estava lá ela como se ainda fosse uma garotinha de doze anos; se recusando a aceitar todo o sacrifício, toda a dor, todo o sofrimento que sua mãe passou para que ainda existisse um teto sobre sua cabeça junto de uma refeição quentinha para lhe encher o estômago quando a manhã impiedosa viesse, e não tendo ideia de tudo o que a senhora de Engrácia já fez para a manter segura. O possível e impossível, o comum e o extraordinário, o normal e o divino.
“Eu sei que nunca saberei o que a minha mãe fez para me manter a salvo e feliz, mas eu espero recompensá-la tentando a fazer orgulhosa de mim”, pensou ela, como se só isso bastasse todo o sacrifício.
A moça não consegue aceitar que Felipe a ame porque ela já recebeu coisa boa nessa vida o suficiente, ela já tirou o suficiente, ela já recebeu o suficiente, ela já era privilegiada o suficiente, então agora era a hora de pagar e não pegar mais nada.
Um problema não é um problema de verdade até que te mantenha acordado durante a noite; céus, perdeu as contas de quantas noites vêm passando em claro. O toque baixinho na porta deixou-a inerte num torpor apático. Chorou tanto que toda a água parecia ter jorrado de seu corpo jogado desleixadamente no chão do apartamento escuro e silencioso. — Li? — Murmurou suave atrás da porta fechada com uma pontada de preocupação, chamando-a pelo nome taiwanês. — Sou eu, o Felipe. Trouxe comida porque você saiu cedo da festa cedo… na verdade eu roubei. — Um bufar divertido escapou dos lábios da automobilista sem mesmo nem notar. — 'Cê quer tentar comer um pouquinho? Eu não te vi comendo nada hoje.
A forma que seu melhor amigo e paixão de longa data parecia se importar consigo acalmava a angústia do pobre coração tristonho. A atleta apenas pronunciou um grunhido sem vontade alguma para o certificar de que poderia entrar, do contrário o pobre rapaz ficaria do lado de fora mesmo. — Eu posso acender as luzes ou você prefere elas apagadas? — Indagou suave antes de chutar os sapatos, deixando uma pequena sacola de papel sobre a mesinha ao lado da televisão desligada. Ouviu uma queixa como "Jesus, aqui 'tá muito escuro" após um tropeço barulhento.
Ela ergueu um pouquinho do chão com muita surpresa pelo estrondo alto - preocupando-se rapidamente ao escutar um gemido de dor. — 'Drugo, você 'tá bem?
O suspiro do mais velho preencheu suas orelhas a enviar uma espécie de calor terno através de toda a extensão do seu corpo, um sentimento pequenino de felicidade para iluminar o dia triste ao ouvi-lo a tranquilizar. — 'Tô sim, só bati o pé na cômoda.
Abriu um leve sorriso soprado antes de recair em todo o seu pesar outra vez. — Deixe as luzes apagadas, por favor. — Se esforçou para pedir antes da voz começar a embargar.
— Tudo bem, vamos lá. — A frase fora jogada ao ar antes de Drugovich se deitar com uma certa dificuldade no chão, talvez pelo incômodo meio doloroso em seus corpos após o final de semana de corrida. — O que houve? Eu sei que 'tá tudo complicado entre nós dois, mas isso não interfere em nada na nossa amizade. — A última conversa deles dois havia terminado em gritos, os dois falaram coisas que não queriam realmente dizer. Ele ouviu que há uma mulher na Palestina da qual faz vasos de flores com granadas de gás lacrimogêneo vazias; disto Felipe aprendeu que a explosão não é como a história deve sempre acabar, e isso o deu esperanças para ambos se resolverem. — Você continua sendo uma das pessoas mais especiais da minha vida, e uma das que eu mais amo também. Eu ainda te desejo uma bandeira quadriculada, um prêmio, uma fita sem fim e o tipo de vitória que apaga a voz dentro do seu coração que diz que você não merece isso, não merece a felicidade; e nunca vou parar de desejar. — A luz fantasmagórica tão celestial da Lua pálida tornando visível aos poucos o rostinho da sua amada dentre a escuridão os engolindo no quarto silencioso. As respirações sendo escutadas em meio à quietude feito sinfonia, mas então o pequeno soluço de despedaçar mil e um corações da baixinha irrompeu. Felipe só queria fazê-la se sentir em casa, fazê-la sentir o seu amor, como sempre estaria lá para ela. — Fale comigo, por favor. Aqui — O toque macio, embora desajeitado, formigou no topo da bochecha direita para encarar aqueles pares de olhos chocolates com o brilho de mil lâmpadas incandescentes (e cada uma delas parecia lhe acelerar as batidas desenfreadas do coração de maneiras diferentes). — me olha nos olhos, Victoria. Me conta o que houve, eu quero saber.
Apesar de toda a tristeza, apesar da angústia apagar o seu brilho, ela sorriu porque era isso que Drugovich conseguia até em seus piores dias; fazê-la estupidamente feliz. — Eu não acho que conseguiria explicar isso te olhando nos olhos. — Portanto novamente se virou para o lado contrário do homem, as costas de frente para as orbes exorbitantes dele. — Meu pai fica triste com tanta frequência, mas ele é um mágico. Ele faz a sua magia e sabe como enganar a mim, a mamãe e meus irmãos para fazer toda essa tristeza e cansaço desaparecer… ou para fazer parecer alegria. Eu achei que poderia ser forte o suficiente 'pra fazer o mesmo pelo tanto de tempo que ele consegue fazer; durante a minha vida inteira e a dos meus irmãos. — Abraçou o próprio corpo numa espécie de consolo falho, apenas se permitindo finalmente desabar sentindo um pouco de consolo verdadeiro quando o calor dos braços do maior lhe rodearam por trás. O peito dele descansando em suas costas, a respiração na base do ombro, o formigamento da inspiração contra a pele. — Eu 'tô tão cansada e eu quero tanto só… parar por um segundo 'pra poder descansar de tudo isso, mas o mundo não para de girar e não vai parar por mim. Amanhã eu ainda vou continuar a carregar esse fardo que não deveria ser um fardo, amanhã eu ainda vou ficar mais cansada ainda, amanhã eu ainda vou temer perder a cabeça quando o dia da queda chegar, amanhã eu ainda vou me preocupar com tudo quanto a minha família e vou me sentir mais culpada ainda se ficar exausta. Eu não tenho o direito de me sentir assim, não quando deveria estar grata… não quando eles não hesitaram em sacrificar tudo 'pra me verem chegando aqui.
A dor da culpa, ele processou em silêncio. — Você tem o direito de se sentir como você quiser. 'Tá tudo bem se você chorar, meu bem, eu vou estar aqui para te segurar. — A inspiração contra a nuca causou um pequeno arrepio gostoso, lhe arrancando um pequeno sorriso aliviado em meio às lágrimas persistentes vertendo dos olhos após o pequeno beijo no seu cabelo preto como a sombra no canto do quarto.
— Me desculpa. — Murmurou sem mais energias para pronunciar alguma coisa além de soluços angustiantes. O encontra sempre em volta de si, o cercando com seu amor, e ela não achava ser merecedora de tamanha dádiva.
Os pés grandes se enroscando nos pequenos quando ele a trouxe cada vez mais perto do peito, um abraço firme e terno. Pela primeira vez em todos os mais de vinte minutos naquele quarto escuro e frio, o coração da garota se aquietou embalado pelo amor intenso dele, e o seu também. — Está se desculpando pelo o quê? — O riso vibrando contra o pescoço da jovem a arrepiou dos pés à cabeça. Sorriu timidamente também, as lágrimas agora evaporando na noite ficando um pouco melhor.
— Eu não posso ficar com você enquanto eles estão lá no Brasil trabalhando sem folga… Eu não posso me dar o luxo de me distrair enquanto eles lutam 'pra não perder o teto sobre suas cabeças, enquanto lutam 'pra pagar as contas que já estão atrasadas e tentam dar uma vida digna 'pros meus irmãos.
— Você quer dizer que não pode se dar ao luxo de viver porque sua família colocou muito esforço em você e agora você acha que tem de compensar sendo perfeita. — Victoria vem se sentindo como supõe que um balão se sentiria quando uma criança perdesse o fraco controle sobre a corda fina; vendo o chão ficar cada vez mais longe de seu alcance enquanto ela mergulhava na incerteza sem esperança de resgate, mas então Felipe estava lá para escalar o céu como se não fosse impossível e um tamanho absurdo para puxá-la de volta. Ele sempre estaria lá para puxá-la para sair do fundo do poço. Ele sempre estaria lá para puxá-la para a realidade. Ele sempre estaria lá para puxá-la para o lado bom da vida. Ele sempre estaria lá para puxá-la para a felicidade. Ele sempre estaria lá.
— Acho que sim. Eu não posso me permitir falhar antes de retribuir tudo o que meus pais fizeram por mim, eu não posso me permitir chorar antes de dar aos meus irmãos uma vida digna com tudo o que eles quiserem e tudo o que eu não possui a oportunidade de ter, eu não posso me permitir desistir antes de honrar o nome da minha família, eu não posso vacilar antes de achar o meu lugar no mundo. Eu não posso morrer antes de criar um legado. — Suspirou pesado. — Só é uma pena que eu seja tão fraca a ponto de deixar essa pressão me vencer, e eu sempre tive medo de me tornar uma pessoa fraca.
— Todos nós estamos sempre sob pressão nesse esporte, alguns mais, outros menos, mas sempre estamos. Seres humanos não são perfeitos, e você não é fraca por uma reação humana normal. — Afrouxou um pouco o abraço para apoiar o peso do corpo meio suspenso do chão no cotovelo, facilitando de olhá-la melhor de costas e escorada em seu peito. A cabeça inclinando contra ele para que as orbes se encontrassem. — E apesar de eu ter minhas dúvidas quanto a isso, você é humana então também não é perfeita. — Seus pensamentos se encheram do cintilar daqueles olhinhos negros feito a noite, enquanto o coração inchava de felicidade ouvindo a risada pura. — Pare de sofrer com essa pressão de tentar ser perfeita e com essas expectativas ridiculamente altas que você mesma impõe na sua vida, meu bem. Eu tenho certeza que o senhor Huang e a dona Cecília não ficariam contentes de te ver desse jeito. — Pausou apenas para apreciar a visão divina das orbes estreladas pequenas lhe encarando tão de perto. Sabe, Felipe tem um sonho de acordar todos os dias da sua vida com o rosto dela pressionado tão de perto contra o seu, toda manhã ele abre os olhos pensando ter chegado esse dia tão sonhado. — A sua família te ama do jeitinho que você é, sabia?
— Eu sei, mas… — Interrompeu seu murmúrio manhoso, ganhando um biquinho em troca.
— E é por eles te amarem que eles fariam qualquer coisa por você sem pensar em ganhar algo em troca. O amor não é uma troca, Victoria, o amor é o sentimento mais arriscado, perigoso e principalmente bonito de comprometimento e compreensão desse mundo. — Desceu os dedos para o par de bochechas gordinhas rosadas pelo choro de outrora. Um pequeno rastro de lágrimas secas sob seu tato. — Eu posso não te compreender, mas sempre estarei comprometido a mover o mundo por você… sua família é do mesmo jeito. — Sorriu instantaneamente ao vê-la abrir um riso genuíno. O sorriso dela é tão grande que caberia a história dos dois juntos bem ali. — A dona Cecília cortaria o próprio braço dela fora antes que você ficasse com fome, o senhor Huang sangraria até a última gota para te ver feliz, os seus avós enfrentariam um exército inteiro se preciso para te manter segura, seus tios se dividiriam ao meio só 'pra te ver bem. Sua família inteira trabalharia duro todos os dias e todas as noites para te ver alcançar seus sonhos… — Sussurrou amorosamente enquanto a enxergava se aquietar prestando muita atenção. — e foi o que eles fizeram, não foi? Eles fizeram isso e não esperaram nada em troca porque era tudo por você e para você. Nós fazemos loucuras e nos sacrificamos para aqueles que amamos sem querer nada em troca — Então apertou de leve - para evitar machucar - as bochechas da garota quietinha. A vendo lhe oferecer outro sorriso com todos aqueles dentinhos brancos perfeitos. —, a não ser esse sorriso aqui.
— Obrigada por estar aqui 'pra mim, 'Felipopo'. — Drugovich só pôde rir daquela besteira de apelido idiota lhe dado no quinto ano do ensino fundamental.
— Eu te amo.
Toda a máscara de garota durona caiu da face adorável da automobilista ao ouvir as três palavrinhas mágicas. Sorriu meio sem graça, rubra de vergonha. — Eu também te amo.
Os dois comeram os salgadinhos roubados da festa do Daruvala, conversaram horas a fio sobre qualquer coisa boba - já em cima da cama -, falaram mal de algumas pessoas, riram de piadas eventuais e depois de um tempo se deitaram para descansar sem mais energia para conversar. Os corações apaixonados decididos a desmoronar na cama o mais rápido possível antes de qualquer coisa.
