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Antes
Ele tinha oito anos na época. Estava chorando no colo da rainha enquanto ela lhe afagava desajeitadamente, como se não quisesse fazer isso. Ele se lembra do sentimento: rejeição, impotência, mágoa por algo que Robert havia feito. Ele se lembra dos raios de sol adentrando a janela, tão dourados quanto os cabelos de sua mãe.
"Não chore, querido, não chore. O seu pai não tem um terço da inteligência e sensibilidade de uma ervilha", disse Cersei, enrolando um cacho negro do cabelo dele em seus dedos. Doeu um pouco. "Logo ele vai conseguir acabar consigo mesmo com o vinho que ele tanto ama, e você..." Ela hesitou. "Você será o rei. Vai poder fazer e ter o que quiser. "
Ele levantou a cabeça de seu colo, fungando e a olhando com esperança infantil.
"Até mesmo aqueles brinquedos da loja do Mott?"
"Sim, meu bem. Você terá tudo que quiser. Qualquer coisa."
A senhora sua mãe já havia contado muitas mentiras a ele ao longo de sua vida, mas essa em especial foi a que machucou-lhe mais.
***
Dez anos depois
Quando Gendry foi a Winterfell pela primeira vez, Sansa era uma menina bela, brilhante, graciosa e educada. Já Arya era uma moleca cheia de energia, divertida, mais inteligente do que muitos lordes que ele conhecia, rebelde, irritante, com cotovelos e joelhos ossudos e um rosto muito longo, embora adorável.
Agora, Sansa é uma mulher bela, brilhante, graciosa e educada, e Arya... Ela definitivamente não é o que ele estava esperando.
Gendry imaginava que sua mente continuava rápida e afiada, mas não que ela de alguma forma tivesse deixado de ser uma criança constantemente suja e com dentes faltando. Ele se sente um pouco idiota então. É claro que ela teria crescido; ele apenas ficou um pouco intimidado.
Na ocasião em que ambas as famílias se encontraram nos portões de Winterfell, o vestido dela era de um amarelo simples, o decote modesto. Os cabelos estavam soltos sobre os ombros, levemente desalinhados pelo vento. Ela parecia selvagem e irredutível. Sua beleza não é o que o resto dos sulistas certamente apreciaria com tanto fervor, mas Gendry sente que poderia olhá-la pelo resto do dia.
De uma maneira platônica, é claro. Ao contrário do que se pode pensar, um rosto bonito, palavras inteligentes trocadas de vez em quando e passeios a cavalo com uma mulher de quem ele mal se lembrava não foram o suficiente para que ele se apaixonasse.
Isso aconteceu só um pouco depois.
***
Depois de Ned Stark aceitar se tornar Mão do Rei no lugar do falecido Jon Arryn, as duas famílias seguiram juntas para Porto Real. Gendry apreciou a companhia de Bran e até a de Sansa, que se dispôs a cavalgar com ele algumas vezes, mesmo que parecesse não gostar. Mas Arya foi a melhor parte daquelas semanas. Ele adorava passear com ela, fosse a pé ou a cavalo, e descobrir e catalogar novas espécies de plantas ou de animais a cada dia, ambos imersos num silêncio pacífico de quem entendia perfeitamente a necessidade do outro em manter seu próprio espaço. Era fácil estar com ela. Gendry nunca se sentiu tão confortável com alguém que não fosse Myrcella, Tommen ou Shireen antes.
Observar Arya galopar com o vento era fascinante, também. Suas bochechas vermelhas e cabelos bagunçados, o lábio constantemente preso entre os dentes - tudo isso despertava nele um sentimento novo. Era inebriante e assustador: algo que ele queria explorar e expulsar ao mesmo tempo. De qualquer forma, fazia seu coração bater mais forte à noite, quando seus pensamentos invariavelmente deslizavam de volta para ela.
Uma noite, porém, ele ouviu um murmúrio de um soldado de seu pai. No dia seguinte, ele acordou antes da alvorada e foi até a forja do Castelo de Darry, onde estavam hospedados, para fazer algo de útil com sua raiva.
"Gendry?" Ele ouviu a voz de Arya sobre o pancada do metal, algum tempo depois. "O que está fazendo aqui? Tommen estava procurando por você, disse que prometeu ler para ele hoje."
Ele se virou para encontrá-la ao lado da porta da forja, com um prato de comida em mãos. Gendry nunca seria mais grato a ela em toda sua vida se a fúria já não estivesse ocupado todo o seu corpo.
"Não dá pra ver o que estou fazendo?" respondeu ele, mais áspero do que pretendia, largando o martelo de lado. Ele quase se preocupou em ter sido grosseiro demais, mas Arya já havia se acostumado, se é que não era exatamente a mesma coisa às vezes. Ela já sabia que ele gostava de ir à forja de vez em quando, especialmente quando chateado, e também sabia que ele deveria ser evitado como uma praga quando estivesse chateado.
Ainda assim, ela se arriscava. Estava se provando ser uma das únicas corajosas para fazer isso, e também uma das únicas a quem Gendry dava a permissão de se aproximar. E foi assim desde a primeira vez que se encontraram, em Winterfell, há sete anos atrás. Eles sempre se deram bem, sempre foram muito parecidos para temerem um ao outro.
Arya pôs a comida perto dele e se sentou numa bigorna, as pernas balançando para frente e para trás, os braços abertos apoiados sobre o ferro plano e o pescoço levemente inclinado para a direita. Soou como um convite, embora ele não soubesse exatamente para o quê. Na verdade, Gendry percebeu que, mesmo passando tanto tempo com ela, sabia muito pouco quando se tratava de Arya. A única coisa de que ele tinha certeza é que ele sempre queria se aproximar, fosse do seu espaço pessoal ou dos assuntos de seu coração.
De qualquer forma, ele continuava desejando tocá-la.
Gendry retirou o avental de couro, sem perder o olhar furtivo que Arya lançou em direção ao seu peito. Isso o fez se sentir estranhamente orgulhoso, e bastante estúpido também.
Ele pigarreou e tomou posse da comida que ela havia trazido. Arya pulou da bigorna e se pôs a observar alguns modelos de espadas e peças de armadura disponíveis na forja enquanto ele almoçava.
Assim que ele terminou, decidiu acompanhá-la, se posicionando ao lado dela. E, por algum motivo que apenas seu ego adolescente seria capaz de explicar, ele não recolocou o avental.
"É um bom projeto", comentou ela, apontando para um esboço de adaga num pergaminho velho. "Mas para quê tantas pedras preciosas?"
Gendry encolheu os ombros, inclinando a cabeça para ver de mais perto o papel que estava em suas mãos.
"Esses lordes fanfarrões estão cheios até a borda de coisas intrincadas e inúteis." Ele leu uma frase escrita na lateral do pergaminho, tocando o papel com o indicador, sem deixar de sentir quando suas mãos se encostaram. "Uma peça digna de um rei, idealizada por Edwyn Darry como um presente para Sua Graça", recitou as palavras em voz alta. "Bem, nisso podemos concordar, se o rei for um grande idiota. Só o cabo de uma arma tão decorada assim a tornaria muito pesada e desajeitada para que ela fosse manuseada habilmente."
"Vou me tornar uma ferreira para que possa fazer uma como esta para você quando for rei, então", zombou Arya, virando-se para ele. Daquela distância, Gendry podia ver perfeitamente as marcas vermelhas de mordidas nos lábios dela, e por um momento isso o desconcentrou. "Septa Mordane costumava dizer que eu tenho mãos de ferreiro. Poderia me sair bem num forja."
Ele não pôde evitar a gargalhada que brotou em seu peito, mesmo sabendo que Arya se sentiria ridicularizada por isso - e uma Arya ridicularizada era certamente uma Arya furiosa.
"Você?", perguntou Gendry, trazendo uma de suas mãos pequenas à altura dos seus olhos, a fim de analisá-la. Arya a sacudiu fora de seu alcance logo depois, impaciente. "Com essas coisinhas moles você sequer seria capaz de erguer um martelo."
"Eu seria sim, se eu quisesse!", ela teimou, mal-humorada.
Ele cruzou os braços sobre o peito nu, divertido.
"Ah, é? Por que não prova que estou errado, então?" desafiou Gendry, indicando com o queixo o martelo que ele há pouco empunhara, apoiado sobre uma bigorna do outro lado da forja.
O olhar de Arya deslizou sobre seus braços antes de dirigir-se ao objeto em questão, e Gendry fingiu para si mesmo que não era exatamente essa a intenção dele. Ele novamente se sentiu orgulhoso, e novamente se sentiu estúpido.
Antes que Arya pudesse formular algum pretexto absurdo para evitar a humilhação de tentar erguer um martelo que ela claramente não conseguiria erguer, Gendry resolveu poupá-la - ou então desabafar sobre o que havia ouvido e o fez se esconder na forja naquela manhã.
"Ouvi alguns homens do meu pai dizendo que eu vou me casar com sua irmã. "
Arya desviou seu olhar de volta para o dele depressa, no entanto, demorou um pouco mais para responder.
"Também ouvi."
"De quem?", ele quis saber.
"Seu pai e o meu estavam conversando."
Eles se encararam por mais alguns instantes, até que Gendry descruzou os braços, vestiu o avental e voltou a trabalhar, ocupando seus braços, ouvidos e pensamentos com o aço.
Ele não viu o momento em que Arya foi embora.
***
Apesar de ter acabado de descobrir que ele estava prometido a Sansa, Arya ainda considerava o Príncipe Gendry uma boa companhia. Era mais velho que Joffrey pouco mais que um ano apenas, e mesmo assim eles eram tão diferentes que era difícil acreditar que eram irmãos. Gendry era mais alto e forte, com os cabelos pretos, olhos azuis e as sobrancelhas grossas dos Baratheon, além de uma sombra de barba crescente em sua mandíbula; já Joffrey tinha os cabelos encaracolados e dourados e os olhos esmeralda dos Lannister, além de um rosto liso como a pele de um bebê e uma boca que parecia estar sempre inchada, se contorcendo para baixo como se desprezasse tudo e todos. Gendry também era honesto e justo, enquanto Joffrey era um mimadinho maldoso e esnobe. Era quase como um reflexo de Sansa e Arya, com Sansa ficando com todas as qualidades e Arya todos os defeitos. Talvez houvesse alguma maldição dos deuses para com os irmãos mais novos.
De qualquer forma, Arya sabia que nem mesmo ela em todas as suas falhas poderia equiparar-se ao ser mesquinho que Joffrey era. Mesmo assim, numa noite ela teve um pesadelo em que se casava com ele. Ela acordou bastante enjoada no dia seguinte.
Para sua sorte, só um casamento real já era mais do que a Casa Stark deveria almejar, portanto, outro estava fora de cogitação. No entanto, Arya sabia que logo, logo Lady Catelyn e Septa Mordane desviariam sua solícita atenção da Princesa Sansa para ela. Até mesmo Jeyne Poole, ocupada demais deslumbrando-se com a perspectiva de casamento da melhor amiga, em breve se voltaria para Arya para apontar-lhe, aos risos, lordes velhos e barrigudos com quem ela poderia se casar, porque, é claro, nenhum jovem e bonito cavaleiro ia querer Arya Cara de Cavalo como esposa.
De qualquer forma, ela estava ciente de que o desejo da senhora sua mãe era de que ela se casasse no Sul. O coração de Arya doía com a provável possibilidade de que só veria Jon, Robb e Rickon dali a muitos anos.
Se é que ela veria Jon novamente algum dia. O simples pensamento disso a fazia querer chorar. Ela encostou a cabeça nos joelhos, sentada na beira do lago onde estava, observando a água refletir a natureza ao redor. Arya ouviu passos se aproximarem, mas não se importou em saber quem era.
"Está com saudades de casa?", perguntou a voz sempre calma e compreensiva de seu irmão mais novo. Bran se acomodou ao lado dela.
Arya assentiu. Então se virou para ele, mordendo o lábio inferior.
"Você acha que ainda somos jovens o suficiente para fugirmos sem sermos punidos depois?"
Bran riu.
"Nunca fomos jovens o suficiente para escapar de uma bronca da mãe. Mas eu estou disposto, se você estiver. Quer dizer, contanto que eu encontre algum cavaleiro andante de renome que possa me sagrar o sucessor dele um dia."
"E então você poderia me sagrar cavaleira também", sugeriu ela.
"Pode ser", a voz dele assumiu um tom sonhador. "Poderíamos ser andarilhos aqui nas Terras Fluviais, e depois ir às Terras do Oeste e à Campina juntos, defendendo os pobres. Ou eu poderia fazer de você apenas minha escudeira para que você fosse obrigada a cuidar do meu cavalo e da minha armadura."
Arya sorriu, desejando que tudo aquilo fosse possível, que ela pudesse ter a vida que queria. Sem se casar, sem filhos ou um castelo, sem ser lady, ser apenas Arya Stark. Ela queria lutar, reinar, ser Alto Septão, um cavaleiro, um ferreiro, uma marinheira ou qualquer coisa que ela pudesse pensar. Ela queria Winterfell e Robb e Rickon, e estar com Jon Snow outra vez.
Mas o pai dela já havia lidado com Lady Lyanna no passado. Tudo que ele menos precisava - e Arya podia ver isso em seus olhos cansados quando ele a encarava durante seus momentos de revolta - era que ela fugisse também.
Então ela ficou.
***
Havia algo de satisfatório em notar que Gendry não estava exatamente feliz ao saber que seria noivo de Sansa, Arya tinha que admitir, especialmente quando ela mesma sentiu um estranho incômodo com a notícia.
No entanto, não fazia sentido. A maioria dos homens ficaria mais do que contente em ser prometido à perfeita Lady Sansa Stark. Sendo assim, Arya se sentiu na obrigação de tentar convencê-lo a enxergar a razão, principalmente porque a irmã nunca se conformaria se por acaso perdesse a chance de ser a rainha dos Sete Reinos.
"Eu sei que você pensava que ia se casar com a princesa Arianne Martell", começou Arya enquanto eles cavalgavam lado a lado, acompanhando a comitiva, fazendo com que Gendry a olhasse imediatamente. "Ou então com Margaery Tyrell. Mas veja, a própria Sansa pensava que ia se casar com Willas Tyrell, e..."
"Como você sabe disso?", indagou Gendry.
"Do quê?"
"Que pretendiam fazer de Arianne Martell ou Margaery Tyrell minha esposa."
Arya mordeu o lábio.
"Talvez eu visite muito o solar do meu pai. E talvez eu ouça algumas conversas atrás da porta e leia algumas cartas que são deixadas sobre a mesa. Mas só talvez."
Gendry balançou a cabeça e olhou para a estrada à sua frente.
"Lorde Jon Arryn batalhou por anos por essa possível aliança com Dorne através da Princesa Arianne, mas ele tinha que convencer tanto os Martell da ideia quanto meu pai, então acabou não tendo muito sucesso sozinho. Robert era mais a favor de Lady Margaery, oferecida ao posto de futura rainha gentilmente por Tio Renly e pelos próprios Tyrell. Jon Arryn não era avesso à ideia, afinal o poderio de Jardim de Cima era muito para não ser considerado, e era uma oportunidade de tornar ainda mais fiel um antigo aliado dos Targaryen. Mas ele nunca desistiu de Dorne. Queria tentar consertar o que Robert e Tywin fizeram aos filhos de Elia com um casamento", explicou ele, as sobrancelhas franzidas. Arya achava intrigante o modo como ele dizia os nomes do pai e do avô materno com certa amargura de vez em quando. "Acontece que, ao passo que Arryn nunca desistiu de Dorne, Dorne nunca insistiu em Arryn. E foi assim que antes mesmo do corpo de Lorde Jon esfriar, meu pai dispensou uma esperançosa e solícita Casa Tyrell para vir ao norte propor uma união entre um Baratheon e uma Stark, como deveria ter sido com ele e com sua tia Lyanna."
"Então, se você já sabia de tudo isso, por que parecia surpreso com a notícia de seu noivado com Sansa?" Arya estava confusa agora.
Gendry encolheu os ombros, a expressão ao mesmo tempo vazia e com raiva.
"Às vezes quero acreditar que meu pai não é um bêbado inconsequente que vive no passado e não se dá o trabalho de tomar nenhuma decisão racional. Só isso."
Oh. Certo. Ele queria casar com Margaery Tyrell, então.
Arya não sabia o que pensar disso. De qualquer forma, numa perspectiva estratégica, ele estava certo. Uma aliança com a Casa Stark não seria especialmente vantajosa no momento, já uma aliança com a Casa Tyrell...
"Você disse que sua irmã pensava que ia se casar com Willas Tyrell?", perguntou Gendry, tirando-a de seus pensamentos.
"Ah, sim. Todo mundo em Winterfell pensou, na verdade. Lady Olenna e minha mãe andaram trocando corvos, e Sansa passou um tempo cantarolando mais do que de costume e bordou mais do que algumas rosas douradas em seus trabalhos. Ela não me disse nada claramente, mas foi o que supus."
"É uma pena que ela tenha trocado uma vida em Jardim de Cima por uma vida em Porto Real."
"Também acho um tanto deprimente. Jardim de Cima com certeza cheira bem melhor." Com isso, Gendry deu uma risada, e Arya percebeu o quanto sentiu falta disso naqueles dias que eles não conversaram direito, depois do encontro na forja dos Darry. "Mas Sansa está longe de estar incomodada. Ela sempre sonhou em ser rainha."
Gendry ficou sério de novo, e Arya quase se arrependeu de ter dito o que disse.
"Mas ela também..." Arya se deteve, mordendo o lábio, se perguntando se deveria continuar. Gendry se virou para ela, inquisitivo, e Arya sentiu algo quente florescer em seu peito quando o pegou olhando brevemente para a sua boca. "Não é só isso. Sansa também gosta de você. Não só da coroa, ou da ideia de ser rainha. E ela vai ser boa nisso, em governar e casar e ser mãe. Ela é gentil, simpática e confiante." E bonita, ela estava gritando internamente. Ela é linda e sabe fazer tudo certo, você não consegue ver? "E, você sabe, nem meus pais se conheciam direito quando se casaram, e estão bastante felizes juntos agora. Pode acontecer o mesmo com vocês."
Gendry bufou como um touro, repentinamente furioso.
"Por que você não procura outra pessoa para incomodar? Minha senhora", ele adicionou, como uma reflexão tardia.
Arya estava muito surpresa para ficar com raiva, mesmo que os dois guardas que o flanqueavam certamente tivessem ouvido sua explosão.
"Mas eu..."
"Eu disse pra você procurar outra pessoa para incomodar, minha senhora", Gendry ordenou, entredentes. "Vá. Agora."
Arya sentiu a ira borbulhar dentro de si, e, sem mais uma palavra, trotou até alcançar Jory Cassel sem dirigir a ele um outro olhar.
***
E foi assim por todo o resto da viagem, porque poucos dias depois houve uma confusão envolvendo Arya, Sansa, Joffrey e seu amigo Mycah, o filho do açougueiro que foi brutalmente assassinado pelo Cão de Caça. Os homens dos Stark seguiram mais à frente, deixando os Baratheons e Lannisters para trás com a desculpa de que estavam verificando o terreno, mas Arya sabia que seu pai estava muito irritado com o Rei Robert para cogitar sequer respirar o mesmo ar que ele.
Bom. Eles haviam começado muito bem.
***
"Por que fez isso?" Ele estava se esforçando para controlar o tom de voz. Tudo que ele menos precisava no momento é que o acampamento inteiro soubesse que o príncipe herdeiro estava brigando com a rainha.
"A cadela lobo e seu amiguinho machucaram um príncipe da coroa! O que mais eu deveria fazer?", rebateu Cersei. "Jaime ainda devia ter cortado fora a mão dela, como os Targaryen costumavam fazer", murmurou zombeteiramente.
Gendry cerrou a mandíbula com tanta força que fez seus dentes doerem.
"Nem você acredita nas histórias de Joffrey, mãe. Fez o que fez por puro orgulho."
Cersei riu.
"Pode ser. E daí? Tenho todos os motivos para ter orgulho. Sou uma rainha, e uma Lannister."
"Matou uma criança porque é uma rainha e uma Lannister?", acusou Gendry. Ele pode nunca ter tido muito apreço por Mycah - ele ria demais das coisas que Arya dizia -, mas o filho do açougueiro ainda era só um garoto de dezesseis anos.
"É isso que devemos fazer com quem nos desafia, querido. Ou usamos de violência ou o poder escoa pelos nossos dedos como areia." A rainha virou-se para servir-se de uma taça de dourado da árvore. A luz da tocha fez sua sombra tremular nas paredes da tenda.
Gendry torceu o nariz. Era difícil acreditar que aquela mulher era sua mãe, que um dia houve algum resquício de um sentimento caloroso ou saudável entre eles.
"A primeira coisa que eu fizer quando for rei vai ser enviar você para as Cidades Livres", disse ele, observando-a se virar para ele imediatamente. "Você e esse seu filho. "
"Você não teria coragem..."
"É isso que eu faço quando me desafiam", replicou ele, inflexível.
A boca de Cersei se comprimiu em uma linha de desprezo.
"Eu tenho pena de quem você está se tornando", ela cuspiu. "O criei para ser igual a mim, igual ao seu tio Jaime. Igual aos Lannister, e tão digno de ser um rei quanto", sua mãe fez uma breve pausa para levar a taça aos lábios sem delicadeza, mas bela ainda assim. "Mas você prefere seguir os passos do idiota do seu pai como um louco. Lembre-se disso depois que você perceber que ninguém te respeita e que fracassou."
Verdade seja dita, ser rei era tudo que Gendry menos queria. Mas esse tipo de responsabilidade não era questão de querer simplesmente. Se a vida fosse mais fácil, ele realizaria o desejo da mãe e deixaria Joffrey, o seu favorito, ficar com o trono, como ela tanto desejava, e seguiria a vida como um ferreiro ou cavaleiro.
"Você já é igualzinho ao seu pai", disse Cersei, o olhando de cima a baixo. Ele engoliu em seco. Ela sabia como ele odiava ouvir isso. "É a imagem viva dele na juventude, e pelo visto é igualmente burro. Não vai demorar para que você perceba que terá o mesmo futuro que ele."
Gendry saiu da tenda como um raio, já certo de que não tinha mais nada a fazer ali. A rainha havia vencido essa batalha, e tudo que ele estava conseguido com ela era se enfurecer. Além do mais, Mycah já estava morto.
Não havia nada que se pudesse fazer.
***
Porto Real era uma cidade de verdade, como Jon Snow havia dito, mas a Arya não pareceu mais interessante após ter passado duas semanas ali. A Fortaleza Vermelha parecia guardar vários segredos, mas ela também não teve muito ânimo para explorar. A única coisa que a fazia se sentir um pouco melhor eram as aulas de dança da água com Syrio Forel, um presente do pai por ela estar se comportando relativamente bem, ela imaginava.
Lorde Eddard e Rei Robert já estavam se falando normalmente, mas o mesmo não poderia ser dito de Arya e Gendry, ou mesmo de Arya e Sansa. A irmã mais velha e Jeyne Poole praticamente a culparam de ter afastado a família do noivo de Sansa da dela e também do assassinato de Mycah. Arya derramou mais do que algumas lágrimas por isso, mas depois de conversar com o pai, se convenceu de que tinha que parar de se importar com certas coisas estúpidas que os outros - principalmente a irmã e a amiga - diziam ao seu respeito. Haviam coisas mais importantes a se pensar.
Não que ela estivesse muito feliz em pensar nessas coisas, ela refletiu mais tarde, depois de ouvir uma conversa séria entre a senhora sua mãe e a Septa Mordane sobre as possibilidades de um casamento para ela.
Arya estava sentada na grama do bosque sagrado da maneira mais confortável que aquele terrível e apertado vestido sulista permitia, encostada no tronco da árvore-coração, que mesmo não sendo um represeiro, trazia-lhe certa segurança. Ela não rezou, no entanto. Não sabia como pedir para ser livre, nem se isso poderia ser concedido a ela.
Pelo canto do olho, ela notou Gendry se aproximar. Ele sentou ao seu lado em silêncio. Arya o fitou, curiosa e também desconfiada. Eles não dirigiram muitas palavras um ao outro desde o dia em que ele a mandou embora. O que ele queria agora, ali todo silencioso e manso como um cordeirinho?
"Eu trouxe isso pra você. " Ele a entregou um pequeno baú de madeira, sem olhá-la nos olhos.
Hesitando, Arya tomou o presente em suas mãos e o abriu, encontrando uma adaga embainhada. Ela a tirou da bainha, se sentindo estranhamente emocionada ao ver a marca dele cravada na lâmina prateada e cintilante.
"Você que fez", ela afirmou, a voz falhando um pouco.
Gendry assentiu, quase tímido.
"Estive trabalhando nisso nas últimas semanas. Claro que tive que interromper o processo várias vezes nesse meio tempo, e remodelei o aço pelo menos uma dúzia de vezes... De qualquer forma, achei que seria útil para você esconder em suas botas ou, hã, suas roupas de baixo ou algo assim. Também não é muito ornamentada, porque pensei que você..."
"É perfeita", Arya o interrompeu, ainda deslumbrada com o presente. Então ergueu os olhos para os dele e disse: "Obrigada."
E eles ficaram ali por mais um tempo, se encarando e brincando com a grama, até que o sol se pôs.
***
Aquela teria sido uma oportunidade perfeita para Gendry se afastar e terminar o que tinham de um jeito amistoso, assim evitando mais aborrecimentos para os dois e mais dor para si mesmo após descobrir a real natureza de seus sentimentos - que, no fim das contas, não poderia ser exatamente descrita como ingênua. Mas ele não resistiu à tentação de passar a tarde inteira conversando com ela, nem à de cavalgar com ela no dia seguinte ou à de treinar tiro ao alvo com ela na outra semana.
No fim, eles acabaram se tornando muito próximos naquela época. E, por sorte ou azar, Ned Stark teve êxito em convencer Robert a adiar o casamento de Gendry e Sansa, principalmente para ter tempo de repor um pouco do rombo que o rei havia deixado nos cofres reais.
"É um absurdo! E ele com certeza fez pelas costas de Jon. Tenho certeza de que Jon nunca permitiria isso!", Lorde Stark exclamou a ele uma vez, indignado.
Sendo assim, era como se o próprio tempo tivesse parado e permitindo a Gendry todos os momentos que teve com Arya - todas as lutas no pátio, os passeios a pé ou a cavalo, as conversas durante as sessões na sala do trono, as provocações quase perigosas, o cheiro de rosas de inverno e pinheiros e neve.
Sim, era como se o tempo tivesse parado, e todo dia ele sussurrava em seu ouvido: Vá em frente, se apaixone um pouco mais por ela.
E Gendry não pôde fazer nada senão obedecer.
***
Um tempo depois
"Ela está tentando roubar o príncipe da irmã, a vadiazinha! Será que ela não se lembra de que Lady Sansa é a noiva?"
"E o que Lady Sansa está esperando? Ela devia dar um jeito nela."
"O Príncipe Gendry está apaixonado por Lady Arya, não por Lady Sansa. Isso é óbvio."
"Apaixonado? Ele está enfeitiçado, isso sim. E se Lady Arya não se importar, ela devia me contar qual foi o feitiço que usou pra conseguir isso. Um desses resolveria metade dos meus problemas, se fizesse com que meu marido parasse de se aventurar por aí."
"Ela deve tê-lo enfeitiçado na cama. Do jeito que gosta de cavalgar..."
"Eles deviam se casar. Seriam um lindo par."
"Deviam mesmo, caso contrário prevejo Lady Sansa com uma fileira de sobrinhos ilegítimos para lidar."
"Não acho que Lady Arya faria uma coisa dessas. Ela é honesta."
"Geralmente a gente se esquece disso quando está apaixonado."
"Lady Arya seria uma boa rainha. Acho que precisamos de alguém como ela. O príncipe devia fazer alguma coisa a respeito."
"O rei é quem vai fazer alguma coisa, escreva o que estou dizendo. Dizem que a garota é Lady Lyanna revivida, e logo Robert vai perceber isso. Se é que já não percebeu."
"Será que os dois vão brigar por ela como Rhaegar e Robert? Isso seria no mínimo interessante."
"Então de qualquer maneira teremos Lady Arya como rainha?"
"E Lady Sansa? Como fica nisso tudo?"
"Talvez ela se case com o Príncipe Joffrey."
"Coitada. Isso já seria humilhação demais. Que os espiões da Rainha Cersei não me ouçam."
***
"Jeyne", Sansa chamou, descansando o bordado em fio dourado que fazia no colo por um momento.
"Sim?" respondeu Jeyne Poole, desviando o olhar do magnífico vestido que observava.
"Eu..." Sansa hesitou. "Eu ouvi alguns comentários. Sobre Arya e o Príncipe Gendry. Você acha que..."
"Oh, não, por favor, nem termine essa frase", pediu Jeyne, sorrindo amavelmente e segurando sua mão. "As pessoas não sabem metade do que dizem. Nós duas sabemos que um príncipe nunca se interessaria por Arya, ainda mais se for um príncipe como Gendry, que aliás está prometido a você. Portanto, isso é loucura. Apenas esqueça isto, tudo bem?"
Sansa anuiu e agradeceu.
***
"Ela veio me perguntar, Ned. Isso não é um bom sinal."
Eddard Stark ergueu os olhos dos pergaminhos sobre a mesa.
"Não?"
"Não", repetiu Lady Catelyn. "Sansa é muito confiante e segura de si. Se veio até mim preocupada com esse assunto, é porque sente que há algum fundo de verdade nessa história. "
"Pode ser que não, Cat. Muitos boatos têm surgido por aí, é natural que gerem dúvidas."
"Boatos raramente nascem ao acaso", afirmou Catelyn. "Ou você não acha que eles aparentam estar apaixonados?"
"Eu sei que ele tem um carinho grande por ela, e ela por ele. Se isso evoluiu para uma paixão, seja unilateral ou por parte dos dois, já não sei dizer."
"Os dois vivem juntos, sorrindo, se encarando, se tocando, estão sempre perto demais um do outro... Não tem como ser outra coisa."
"Você não está vendo a situação com precisão, minha senhora."
"E você está fechando os olhos para o que não quer ver, meu senhor."
Ned suspirou, cansado.
"Não estou fechando os olhos. Gendry é um bom rapaz. Ele não faria nada desonroso, tenho certeza. Além do mais, a amizade deles faz bem a Arya, qualquer um consegue ver isso. "
"Pode fazer bem agora... mas e no futuro, quando não aceitarem se separar? Haverá outra rebelião então?"
Uma sombra transpassou os olhos cinzentos de Ned. Catelyn quase se sentiu mal pelo que disse.
"Arya nunca se casaria com um príncipe, quanto mais um príncipe herdeiro."
"Foi exatamente o que eu disse à Sansa mais cedo", disse Catelyn. "Mas isso não tranquiliza o suficiente, nem a ela nem a mim. Até porque, em muitos casos, o casamento pode ser a menor das complicações. "
Lorde Eddard suspirou e desviou o olhar para a janela.
"O que quer que eu faça, então? Os proíba de se encontrarem? Você sabe que isso nunca funcionaria."
"Eu sei", concordou Cat. "Pelo contrário, apenas faria Arya se apegar a ele ainda mais." Ela ficou em silêncio por um tempo, pensando. "Talvez, se eu falasse com ele..."
Ned olhou de volta para ela e então para seus papéis com tristeza estampada em seu rosto. Catelyn o entendia; tudo aquilo inevitavelmente resultaria em algum sofrimento, e não só de Arya e Gendry como de Sansa também. Ela sabia que a filha mais velha estava mais apaixonada pela ideia de ser rainha do que pelo príncipe em si, mas ali também havia algum sentimento. Uma admiração e fascínio juvenil que Sansa, com apenas dezessete dias de seu nome, chamaria de amor. E talvez ela não estivesse completamente errada.
"Ninguém deveria estar passando por isso, eu sei", disse Catelyn, segurando a mão do marido sobre a mesa. "Mas agora temos que resolver essa situação do jeito que for melhor para todos. E me refiro ao reino também."
Ned assentiu. Ele sabia que, no fim, não havia escolha a ser feita.
***
Os últimos dias na Fortaleza Vermelha estavam sendo divertidos. Com mais um dia do nome do rei Robert se aproximando, vários nobres - e aliados - vieram de vários lugares dos Sete Reinos para se banquetearem e gastarem o ouro que o pai de Arya tanto lutava para preservar. Dentre esses nobres estava Beric Dondarrion, um lorde bonito e ruivo por quem Jeyne Poole se apaixonou quase instantaneamente. E com Lorde Beric vieram Thoros de Myr, que era um dos grandes companheiros de bebida do rei, Anguy, Jack Sortudo, Limo, Edric Dayne e mais alguns outros.
Harwin, um dos homens de Lorde Eddard, logo fez amizade com o grupo, o que possibilitou a aproximação de Arya também. Logo ela estava ouvindo as histórias de batalha de Dondarrion e os sermões religiosos de Thoros, aprimorando sua técnica no arco com Anguy ou discutindo qualquer coisa com Limo. Na maioria das vezes, Gendry se juntava a ela, exceto quando Edric Dayne estava a acompanhando.
Arya gostava de Edric. Ele era inteligente e educado, não era um grande estúpido como a grande maioria dos garotos de sua idade e não parecia se importar com o fato de que ela se interessava mais por armas e lutas do que por atividades tipicamente femininas.
"Em Dorne nós não temos esses preconceitos", explicara o rapaz. "Lá somos livres para sermos quem somos, tanto homens quanto mulheres. "
Certa vez, depois dos dois voltarem de um passeio a cavalo pela fortaleza, Arya foi até a forja a fim de encontrar Gendry. Quando o avistou, ele já estava de saída, e parecia mais mal humorado que o habitual.
"Quer treinar tiro ao alvo comigo no bosque?", convidou ela. "Não quero que Anguy vá hoje. Às vezes ele me atrapalha com o tanto de exigências que faz."
"E por que não chama Lorde Dayne?", ele devolveu, áspero. Arya quase sentiu sua ira vibrar na própria pele. "Eu vou tomar um banho. Convidei minha noiva para passear comigo. E não quero quebrar o nosso compromisso do mesmo modo que você fez."
Todo o comentário inflamou em Arya uma raiva maior do que o que ela podia explicar.
"Eu não quebrei nenhum compromisso. Não tínhamos nada combinado para hoje."
Gendry se virou para ela, e proferiu, como se tivesse sido a pior das traições:
"Você foi cavalgar com ele."
"E daí?", Arya cuspiu. "Ainda não quebrei nenhum compromisso! Eu tinha o dia livre e decidimos sair juntos a cavalo, qual o problema disso?"
"Nenhum", Gendry respondeu, furioso. "Imagino que não haja nenhuma objeção quanto ao meu passeio com a sua irmã, então, não é?"
Arya engoliu em seco.
"Não. Não há."
Ele assentiu.
"Bom."
Gendry saiu, pisando com mais força do que o necessário e deixando-a ali, irritada, sozinha e muito confusa.
***
Por mais que tentasse, Catelyn não conseguia entender como um homem como seu marido conseguiu conviver uma década com um homem como Robert Baratheon e os dois ainda acabaram como melhores amigos no fim de tudo. Enquanto Ned estava exausto de todas as pessoas e de tanto barulho, Robert estava alegre e disposto como se a noite não tivesse nem começado - porém já estava bêbado como se fosse o dia seguinte.
E Robert bêbado poderia ser um pouco perigoso, como Catelyn vinha percebendo nos últimos tempos. À medida que Arya crescia, todos diziam que ela ficava cada vez mais parecida com a tia Lyanna, por quem Robert era apaixonado até hoje. Catelyn notava os olhares estranhos do rei para a filha mais nova, porém ele nunca dera nenhum passo a mais, mesmo dominado pelo vinho. Ao invés disso, enfiava a cabeça entre os peitos de alguma criada - como ele estava fazendo agora, assim que a Rainha Cersei deu as costas - o que ironicamente era um alívio inestimável.
Mas outro garoto Baratheon continuava olhando para Arya, exibindo um pequeno sorriso afetuoso e divertido ao vê-la dançando desajeitadamente com o Príncipe Tommen. Ele só sorri quando está com ela, Catelyn percebeu. Isso era muito perigoso.
Lady Stark suspirou. Ela teve esperanças de não precisar ter essa conversa com o Príncipe Gendry, pois soube que ele e Arya brigaram por qualquer motivo do qual ela não tinha conhecimento, e também que ele se encontrara com Sansa, coisa que raramente acontecia. No entanto, parecia que era inevitável.
A bem da verdade, Catelyn gostava do rapaz. Era sincero, esforçado, responsável e seria um rei muito melhor do que Robert. O próprio banquete do qual eles desfrutavam agora foi organizado por Ned, mas Gendry o ajudou em tudo, assim como Arya, que tinha uma mente abençoada para números. Gendry costumava se manter bem informado dos problemas a serem resolvidos e gostava muito de acompanhar Lorde Eddard em suas tarefas, mas parecia a Catelyn que toda essa devoção ia além do simples interesse de fazer o certo. Era como se ele estivesse tentando conquistar a aprovação de Ned, tentando provar a ele que era um homem digno o suficiente para se casar com sua filha.
Mas a filha errada, Catelyn pensou, triste. Ela gostaria muito de trabalhar a favor da felicidade deles se isso não intervisse na felicidade de outros - e não só de Sansa. Dois dos filhos Tyrell, Willas e Margaery, foram oferecidos a Sansa e a Gendry, casando-se depois com membros de casas menores pelo fato dos dois estarem se unindo em matrimônio. Se eles não se casassem e a recusa daquela união tivesse sido em vão... Catelyn não queria saber qual tipo de consequência a mágoa de Jardim de Cima era capaz de causar.
Ela se levantou de seu assento e se aproximou do príncipe herdeiro, sentando-se na cadeira vazia ao seu lado. Ele desviou o olhar de Arya assim que percebeu que Catelyn o observava, tendo a decência de pelo menos parecer desconcertado.
"Lady Stark", cumprimentou ele.
"Príncipe Gendry", devolveu ela. "Está se divertindo?"
"Estou, obrigado."
"Ah, sim? E por que não dança um pouco? Tenho certeza que muitas donzelas aqui presentes estão ansiosas para que o senhor as tire para dançar", Inclusive Sansa, Catelyn se controlou para não dizer. A fiha mais velha havia dançado com alguns cavalheiros, mas há pouco decidira se sentar, e olhava apreensiva para o príncipe a cada vez que o quarteto de cordas iniciava uma nova música.
"Não gosto de dançar", respondeu o rapaz, parecendo incomodado.
Catelyn não poderia acusá-lo de estar mentindo: ao longo desses dois anos que Ned fora escolhido como Mão do Rei, ela só se lembrava de ter visto Gendry dançar três vezes. Uma com Arya e mais outras duas com Sansa.
A música se findou e Tommen e Arya fizeram uma reverência desajeitada um para o outro. Arya se virou, claramente ansiosa para sair dali. Do outro lado do salão, porém, Lorde Edric Dayne seguia em sua direção.
Catelyn notou o olhar ciumento de Gendry, que parecia pronto para voltar atrás no que havia acabado de dizer e interromper aquela situação, ao mesmo tempo em que Sansa o observava, entendendo tudo.
"Não me interprete mal, Alteza", Catelyn começou, antes que o príncipe cedesse aos seus impulsos, ", mas este é um ambiente bastante adequado para que certas alianças sejam reforçadas aos olhos da nobreza... e também do povo."
Ela se perguntou se foi clara o suficiente, mas a julgar pelo longo olhar relutante e obstinado que ele lhe direcionou, a mensagem foi compreendida com exatidão.
Após mais alguns instantes tensos, Gendry engoliu e seco e se levantou. No entanto, antes que ele pudesse ir, Catelyn achou que algo mais deveria ser enfatizado:
"E esse não é um conselho válido somente para esta ocasião, meu senhor. A data do casamento está cada vez mais próxima, como Vossa Alteza bem sabe. Seria bom se os outros fossem lembrados de que o senhor está noivo da minha filha mais velha."
Aí estava. Toda a sutileza de um aviso necessário. Minha filha mais velha. O príncipe sustentou o olhar de Catelyn por mais um tempo, parecendo tanto furioso quanto envergonhado, mas por fim seguiu até Sansa para convidá-la para uma dança, o que foi prontamente atendido.
Sansa manteve um sorriso educado em seu rosto todo o tempo, mesmo que Gendry não correspondesse seu bom humor. Catelyn se orgulhava dela, de como superava as dificuldades sem se deixar abalar por suas circunstâncias. A armadura de uma senhora era sua cortesia, ela costumava dizer.
Já Arya e Edric Dayne estavam mais à vontade, conversando durante quase todo o tempo que giravam pelo salão - mesmo que Arya ocasionalmente olhasse para onde a irmã e Gendry estavam, com a mágoa escrita em seu rosto.
Catelyn suspirou. Ela gostaria que as coisas pudessem ser diferentes.
***
"Foi uma honra finalmente poder conhecê-lo, senhor. Ouve-se falar de sua honra mesmo em Dorne."
O nariz de Ned se torceu em desconforto, mas ele tentou disfarçar. Catelyn vivia dizendo que ele precisava aprender a controlar melhor suas expressões faciais.
"Fico lisonjeado em saber disso", disse, virando-se para o jovem Dayne enquanto caminhavam pelo pátio. "Confesso que pensei que o senhor seria hostil em relação a mim por causa do que aconteceu aos seus tios, Lady Ashara e Sor Arthur. Foi uma surpresa agradável descobrir que você não ansiava por vingança."
Edric Dayne assumiu um olhar distante então, se ocupando em chutar uma pedrinha com sua bota.
"Vocês estavam em guerra, e na guerra é quase inevitável perdermos as pessoas que amamos." O rapaz voltou a encará-lo. "Além do mais, não seria inteligente cultivar antigas mágoas ao invés de novas relações. "
"Sábias palavras, Lorde Dayne."
Ambos pararam, em silêncio, assim que alcançaram o ponto onde se separariam e cada um seguiria em direção aos próprios aposentos.
"Ainda assim, eu gostaria de me desculpar", começou Eddard. "Nem sempre a guerra é justa. Na verdade, quase sempre não é. E eu sei que muitos boatos se espalharam, mas há algumas verdades. E erros dos quais me arrependo de ter cometido."
"Todos cometemos erros hora ou outra. Tudo que podemos fazer é aprender com eles. "
Com isso, Ned sorriu.
"Seu tio estaria orgulhoso de você agora."
Ned Dayne pareceu tímido, mas feliz de ouvir aquilo.
"Obrigado. Como eu disse, me sinto honrado em falar com o senhor. É uma pena que eu só tenha arranjado coragem para fazer isso hoje, quando só falta um dia para o meu regresso a Tombastela."
"Não se preocupe, eu o perdoo. Até mesmo porque soube que passou muito da sua estadia aqui ao lado da minha filha."
Lorde Edric ficou levemente vermelho com seu comentário. Ned instantaneamente se arrependeu.
"Me desculpe. Acho que eu não deveria..."
"Não, não se preocupe", assegurou o jovem, ainda que estivesse claramente envergonhado. "É verdade. Lady Arya é... fascinante. Aprendi isso à medida que conversava com ela durante esses dias. "
Eddard ficou em silêncio, deixando o jovem Ned à vontade para decidir se continuava falando ou não. Por fim, ele decidiu falar.
"Eu comentei com Lady Arya sobre a possibilidade de uma visita dela a Tombastela assim que ela quisesse. Mas somente com a permissão do senhor, é claro", Edric acrescentou às pressas, começando a ficar nervoso. "E o senhor seria bem-vindo a Tombastela também, caso assim desejasse. E também Lady Catelyn. Eu jamais iria querer que Lady Arya... " Ele se deteve, tentando encontrar as palavras. Enfim pigarreou, desistindo. "Bem, eu devo ir. Acho que nos vemos mais uma vez amanhã. Novamente, foi um prazer, Lorde Stark."
Eddard ficou o observando ir embora a passos rápidos, cheio com os próprios pensamentos.
***
Gendry fez o que devia ter feito há muito tempo: decidiu enterrar aquela história de uma vez.
Ele sabia que era jovem, que tinha muitos anos pela frente para ser capaz de mudar ou esquecer. Mas, de alguma forma, tinha a certeza que aquele sentimento que invadiu seu peito de maneira tão brusca existiria apenas com Arya. Todos os momentos em silêncio onde eles se apoiavam mutuamente, todos os risos involuntários, todas as brigas que só serviam para uni-los ainda mais, todos os olhares cúmplices, todas as confissões e segredos, nos quais ele se abrigava e fingia que aquela seria para sempre a vida dele e que ficaria tudo bem. Assim como havia feito nos últimos dois anos.
Arya seria para sempre uma de suas maiores saudades, mas isso não significava necessariamente que ela deveria ser para sempre uma dor também.
Por isso ele se afastou, acreditando que aquela era a alternativa que machucaria menos a ambos.
Por isso, ele passou a ocupar mais seu tempo com Sansa, enchendo seus dias com passeios, jantares e conversas que faziam seu coração quase doer fisicamente por outra pessoa.
Por isso, depois de ter sonhos particularmente vergonhosos durante a noite inteira com a irmã de sua prometida, ele apenas suspirava, com os olhos bem fechados, e levantava para encarar mais um dia onde nada daquilo seria real.
Por isso, quando Arya o põe contra a parede, exigindo um motivo para seu afastamento, ele apenas responde, entre os dentes, sem coragem de olhá-la nos olhos:
"Eu vou me casar com sua irmã."
E vendo seu rosto profundamente magoado depois, Gendry não seria capaz de se odiar menos.
***
Eu vou me casar com sua irmã.
Não. Esqueça isso. Se concentre. A única maneira de vencer é estar atento ao seu adversário.
Eu vou me casar com sua irmã.
Calma como águas paradas. A espada é parte do seu braço. O homem que teme perder já perdeu.
Eu vou me casar com sua...
"Irmã", chamou Bran, quando conseguiu arremessar a espada de treino dela do outro lado do bosque sagrado. "O que há com você hoje? Está mais agressiva e desatenta que o normal."
Arya suspirou profundamente, se apoiando numa grande pedra que havia ali.
"É só um dia ruim. Nada demais."
"Bem mais que um dia, eu diria. Você está esquisita há vários dias", ele a acusou, a empurrando levemente para o lado para se acomodar junto a ela.
"Impressão sua."
"Desde que você e Gendry aparentemente pararam de se falar, para ser mais exato."
Com isso, ela bufou, irritada.
"Eu nunca ficaria esquisita por causa de uma coisa dessas", rebateu. Gendry era um garoto, pelos deuses. E ela não era Sansa para se importar com um garoto a esse ponto.
Bran a encarou por longos momentos, com um olhar de quem acreditava ser capaz de ler almas.
"O que aconteceu entre vocês dois, afinal? Vocês não são as pessoas mais educadas ou previsíveis do mundo, mas todos estão comentando sobre essa... separação de vocês. Quero dizer, já faz um tempo."
É. Já faz um tempo.
"Ele parou de falar comigo. Só isso."
"E por quê?"
Arya deu de ombros.
"Não faço ideia."
"Vai me dizer que você não o obrigou a falar a verdade e deixou por isso mesmo? Porque eu não vou acreditar. "
Ela fez uma careta. Às vezes, aquele garoto realmente sabia demais.
"A única coisa que ele me disse foi..." Ela hesitou. Não queria falar em voz alta; tudo se tornaria mais real se falasse em voz alta. Mas ela falou mesmo assim. "'Eu vou me casar com sua irmã.'"
"Ah. Entendo."
Bran continuou a observando, quase como se estivesse com pena dela.
"Ele deve estar querendo diminuir os comentários que andavam fazendo sobre vocês dois. "
Os comentários. Aqueles malditos comentários.
"Provavelmente", ela concordou. "A coisa mais estúpida que já escutei, inclusive. 'A irmã da prometida do príncipe quer roubar o trono', e há piores. Eles sempre procuram algo para apedrejar. Aparentemente, minha amizade que é... era obviamente só amizade com Gendry foi o alvo da vez, e ele foi covarde o suficiente para colocar isso acima de nós."
Bran ergueu uma sobrancelha.
"Eu não teria tanta certeza disso."
"De que, exatamente?"
"A amizade de vocês. Não é muito óbvio que é só uma amizade... Na verdade, parecia ser mais do que isso mesmo."
Perplexa e sem reação, Arya só pôde fitá-lo.
"Não me olhe assim. Não sou o primeiro a dizer algo assim. " Ele fincou a espada de torneio na terra. "Me parece que Gendry se obrigou a se afastar de você exatamente por isso. Só ficaria mais difícil se ele continuasse alimentando esse sentimento. E você nunca se perguntou por que a incomoda tanto o fato de que ele vai se casar com Sansa?"
"Ele não me vê dessa forma! E eu não estou incomodada com o noivado dele e de Sansa! Ele poderia casar com qualquer uma, pelo que me importo", Arya explodiu, sentindo o rosto quente. "Estou chateada por ele ter parado de falar comigo!"
"Tudo bem, tudo bem", Bran se levantou, puxando a espada de onde tinha enfiado. "Diga o que quiser. Eu aconselho que você admita logo para si mesma que está apaixonada por ele, no entanto. Fica mais fácil de lidar com a dor assim."
Ele pegou a sua espada do chão e arremessou para ela. Arya não conseguiu pegá-la no ar.
***
A última lua estava sendo como um suspiro de alívio para Sansa. Era como se suas preces tivessem sido finalmente atendidas, como se a sorte tivesse lhe sorrido pela primeira vez desde que saíra de Winterfell.
O Príncipe Gendry enfim se lembrou de que estava noivo dela e que ambos deveriam se casar dentro de poucas luas. Também parecia ter deixado Arya de lado, o que estava sendo ótimo para diminuir os rumores de uma vez. Sansa agora poderia dormir mais tranquila, sem a preocupação de talvez ser trocada pela irmã mais nova que nunca se adequou como ela a uma vida na corte.
"Eu disse a você que se preocupar era bobagem", tagarelou Jeyne Poole, comendo um pedaço educado de torta de limão. Elas estavam sentadas numa mesa coberta por um toldo para bloquear a luz do sol, desfrutando de guloseimas deliciosas enquanto assistiam o Príncipe Tommen, Bran e outros escudeiros treinarem com suas lanças no pátio. "Ele nunca escolheria ela."
O Príncipe Tommen olhava enrubescido para Sansa toda vez que ganhava uma investida, como se verificando se ela o estava assistindo. Ele ainda tem uma pequena paixão por mim, ela notou, lembrando-se de quando ele escrevera uma carta para ela há quase dois anos, a caligrafia infantil e um olhar tímido no rosto quando a entregou. Era algo adorável e Sansa apreciava isso, mas ela estaria mentindo se dissesse que não a incomodava nem um pouco que o seu prometido gostasse menos dela do que seu irmão mais novo parecia gostar.
Sim, era verdade, eles se viam e conversavam mais frequentemente agora, mas isso não significava exatamente que o príncipe Gendry estava presente por completo ali. Sansa sabia em quem ele estava pensando quando seu olhar se distanciava, ela sabia qual era a razão de seu humor ter azedado potencialmente nas últimas semanas, qual o motivo das suas respostas vinham ficando cada vez mais curtas e ríspidas. E Sansa também sabia por que Arya estava cada vez mais calada e fria - principalmente no que dizia respeito a ela.
"Sim, você está certa", respondeu Sansa à Jeyne Poole. "Eu não precisava ter me preocupado tanto." De qualquer forma, seria eu a me casar com ele, embora não tenha sido eu quem o coração dele escolheu.
Mas isso poderia mudar, não é? Era só uma questão de tempo. O tempo curaria as feridas de todos. Arya iria para longe, se casaria e estaria o mais satisfeita possível com sua nova vida. Sansa seria a esposa e mãe dos filhos de Gendry, e, com o tempo, ele esqueceria Arya e aprenderia a amá-la.
Tinha que ser assim.
***
Tommen tinha delegado a eles a tarefa de procurar seu agatinho desaparecido. Era a quarta vez que isso acontecia naquela semana, mas Gendry não fez questão de se aborrecer. Ultimamente, qualquer coisa seria bem-vinda se pudesse distraí-lo dos próprios pensamentos.
Ele e Myrcella estavam vasculhando um dos inúmeros aposentos vagos da Fortaleza Vermelha quando ela disse:
"Olhe, Lady Arya e Bran Stark estão cavalgando. Será que são muito corajosos ou muito burros? Parece que hoje vai chover bastante."
Gendry se recusou a ir até a irmã e olhar pela janela, se limitando a fingir que estava procurando o tal gato dentro de um baú velho.
Os passos suaves de Myrcella se aproximaram dele.
"Você e Arya brigaram?"
"Isso não é da sua conta."
Ele se virou para sair, e ela o seguiu pelo corredor.
"Sabe que sua falta de educação não me espanta, não sabe? Lido com ela desde que nasci."
"Não é falta de educação, é apenas um fato", replicou Gendry. "Eu e Arya não estamos nos falando, e daí? O que vai fazer sobre isso?"
"Nada", respondeu Myrcella, inabalada, parando junto a ele no limiar de outro quarto desocupado. "Mas posso consolar você, caso queira lamentar estar apaixonado pela irmã da sua prometida com alguém. Não te fará bem lidar com tudo isso sozinho."
Gendry sentiu o sangue esquentar.
"Não estou apaixonado por ela", disse, vagarosamente, como se cada sílaba tivesse que lutar para sair de sua garganta.
Myrcella o observou por algum tempo, com a cabeça inclinada. Parecia bastante com Cersei quando fazia isso, embora fosse visivelmente mais bondosa que a mãe.
"Você está", afirmou, convicta. "E acho que você também já percebeu isso."
"Myrcella..."
"Entendo que não queira falar disso, mas quero que saiba que eu sinto muito. Vocês dois seriam ótimos juntos. É injusto que tenha que ser da forma que é."
Um miado veio de dentro do quarto. Myrcella entrou e arrastou uma cômoda de madeira para o lado, voltando no momento seguinte com um gato de pelagem branca e laranja nos braços.
"Vamos andando? Não estou muito ansiosa por uma bronca da mãe por me atrasar para o jantar hoje."
Ela girou nos calcanhares e deu meia-volta. Gendry a seguiu. Ele olhou pela janela onde ela há poucos momentos vira Arya bem no instante em que começou a chover.
***
Eu vou me casar com sua irmã.
Arya subiu as escadas em caracol da Torre da Mão até o quarto de Lady Catelyn, carregando nos braços o vestido caro que ela havia irreversivelmente manchado, antes que Septa Mordane tivesse o trabalho de dedurá-la. Ela esperava que a mãe fosse mais compreensiva ao ouvir de sua própria boca o estrago que havia feito, e talvez elas pudessem tingir aquela porcaria apertada e cheia de enfeites de preto.
Eu vou me casar com sua irmã.
Arya suspirou. Já fazia mais de três luas, quase quatro. Ela vinha trabalhando para deixar de lado esse tipo de coisa estúpida, treinando, cavalgando, estudando, lendo qualquer livro da biblioteca que parecesse interessante, se ocupando com suas aulas de dança na água. Na maior parte das vezes havia dado certo, mas também havia dias que era particularmente difícil esquecer. Dias como quando ela encontrava Sansa e Gendry juntos, ou quando não fugia de Sansa e de Jeyne Poole rápido o suficiente para que a melhor amiga da irmã não pudesse zombar dela por ter sido substituída - enquanto Sansa não interferia em nada, escolhendo apenas olhar para o lado como se estivesse surda e cega à situação. Não ria das piadas de Jeyne como antes, mas não era como se parecesse se importar em ouvir a própria irmã sendo chamada de feia, inútil e inadequada. Talvez até gostasse disso; talvez precisasse disso como uma espécie elegante de vingança por tudo aquilo. Arya não estava interessada em entendê-la, nem em se aproximar da irmã. Ela se permitiu odiá-la por isso, pelo seu desprezo e pelo seu sentimento silencioso de superioridade, em grande parte porque acreditava que Sansa a odiava também.
Arya andou mais lentamente à medida que se aproximava dos aposentos da mãe, reconhecendo sua voz e também a de outra pessoa, alguém desagradável e infelizmente familiar.
"Então quer dizer que Lorde Walder Frey enviou uma proposta?", perguntou Septa Mordane. "Isso me parece bom. Mas a nova esposa dele já morreu? Pensei que tudo tivesse corrido bem com sua gravidez."
"E correu", respondeu Lady Catelyn. "Lorde Walder tem dois novos filhos para sua coleção, e sua esposa vem passando o período de recuperação do parto bastante saudável. A proposta que ele enviou foi em nome de seu vigésimo segundo filho."
"Ah." Septa Mordane soou desconcertada.
"Sim. O nome dele é Elmar Frey. Eu diria que é um rapaz... aceitável", disse Catelyn, e só pelo tom de voz Arya afirmaria que ela estava mentindo. "Luta razoavelmente bem, fala razoavelmente bem, se porta razoavelmente bem. Mas ainda assim..." Ela suspirou. "É um Frey. E um vigésimo segundo filho."
"Sinceramente, minha senhora, não entendo como isso seria o maior dos problemas", começou Septa Mordane, indiferente. "Considerando a reputação e o comportamento de Arya, acredito que essa será a melhor proposta de casamento que ela vai receber."
Esquecendo o maldito vestido, Arya desceu às escadas praticamente voando, mal sentindo seus pés tocarem o chão ou as lágrimas caírem de seus olhos. Quando ela alcançou o bosque sagrado e se agarrou à árvore-coração, já estava em prantos.
***
Ele ficou paralisado ao vê-la ali, naquele estado. E apesar de ter a impressão de que criara raízes na terra assim como a árvore que ela estava abraçando, Gendry sentiu seu corpo se mover sozinho em direção a ela, virá-la de frente para seu peito para que ele pudesse segurá-la forte contra si, como se isso fosse perfeitamente natural. E, ao contrário do que ele imaginava, Arya não o repeliu, aceitando o contato e o consolo que ele lhe ofereceu sem qualquer relutância.
Ele se sentiu culpado por gostar daquele momento, da proximidade de seus corpos, do fato de que seus corações estavam batendo juntos. Era como se ele estivesse se aproveitando da fragilidade de Arya, mesmo que suas intenções iniciais fossem de apenas oferecer um conforto, um ombro amigo. Ou talvez sua mente tivesse o comandado àquele ato só para satisfazer sua necessidade egoísta de estar perto dela.
Já se passaram quase quatro luas, pensou Gendry, inspirando profundamente o cheiro do seu cabelo. Seu corpo inteiro relaxou, como se o mundo enfim fizesse sentido de novo. Ele sentiu tanto a falta dela que não conseguia explicar em palavras.
E, quando Arya finalmente se afastou - minimamente, nada mais do que meio palmo - tudo o que ele conseguia pensar era em beijá-la, como havia sonhado tantas noites. Gendry precisaria se inclinar só um pouco para a frente, depois para o lado, e então estaria feito.
Porém as coisas não eram assim tão simples. Naquele momento, era nada mais do que meio palmo, mas a distância real entre eles, Gendry lembrou a si mesmo, era muito maior.
***
Ela sabia que deveria tê-lo empurrado, expulsado, protestado contra a sua ousadia em ignorá-la por quatro luas e depois aparecer como se ainda fossem amigos, de repente preocupado com o que quer que fosse que ela sentia.
Mas Arya não fez isso. Por mais que mentisse para si mesma, a verdade é que Gendry era tudo que ela precisava naquele momento. Portanto, Arya afundou em seu abraço, apreciando a sensação dos seus braços ao seu redor, o calor que emanava de seu corpo sempre aquecido e a forma como ele a segurava contra seu peito, como se precisasse de seu toque tanto quanto ela necessitava do dele.
Quando Arya se afastou, ela tentou, com certa dificuldade, não olhar para seus lábios. Ela esperava que ele não tivesse percebido.
"O que aconteceu?", perguntou Gendry, acariciando uma mecha de seu cabelo, tão suave quanto uma pluma.
Arya apenas balançou a cabeça, incapaz de contar a ele. Seria humilhante demais. Além do mais, eles ainda eram amigos? Eles ainda faziam esse tipo de coisa?
Gendry a puxou para si de novo, e Arya se permitiu ficar ali por longos minutos, como se tudo entre eles estivesse normal. Ela esperava que aquele momento durasse para sempre.
Depois desse episódio, eles voltaram a fingir que não se conheciam.
***
Naquele dia, o príncipe herdeiro chegou bem cedo pela manhã ao solar de Ned para ajudá-lo com os documentos, um auxílio pelo qual ele lhe foi muito grato, visto que mesmo trabalhando em conjunto, ambos concluíram a tarefa só depois do meio-dia.
"Lorde Stark", começou Gendry, antes que ele pudesse se levantar. Só pelo seu tom de voz, Ned soube que independente do que fosse falar, era aquela a verdadeira razão do rapaz ter ficado todas aquelas infindáveis horas enfiado em seu solar. "Eu gostaria de perguntar sobre Ar... sobre Lady Arya. Se não for incomodar ao senhor. "
Arya. Ned franziu o cenho, o encarando.
"O que gostaria de saber sobre Arya?", perguntou.
Gendry pareceu um pouco desconcertado.
"Eu a vi chorando no bosque sagrado há poucos dias. E ela não parece ter se alegrado novamente desde então. "
Ned suspirou. A filha mais nova não andava muito feliz ultimamente, algo que ele desconfiava estar profundamente relacionado ao seu afastamento de Gendry, mas essa dor em especial, a mais recente... Ele acreditava saber do que se tratava.
"Por que não perguntou a ela?", questionou Eddard.
O príncipe engoliu em seco, desviando o olhar.
"Eu perguntei. Ela não quis me responder."
Ned assentiu, triste. Ele não gostava de vê-los separados, por mais que fosse necessário.
Mas a dor um dia passaria. Com sorte, acompanharia o rumo da juventude.
"Só achei que seria bom contar ao senhor, de qualquer forma", disse Gendry, levantando-se. "Pensei que o senhor poderia fazer algo para animá-la."
E ele saiu, fechando a grande porta de madeira atrás de si.
***
"Fiquei sabendo da notícia", anunciou Jeyne Poole, sorrindo para Arya assim que ela se sentou à frente de Sansa na mesa de jantar. "A pequena Arya irá se casar com um dos filhos de Walder Frey, não é?"
Sansa se remexeu em sua cadeira. Septa Mordane continuou focada em seu jantar.
"Deve estar sendo difícil pra você", Jeyne continuou, divertida. "Saber que vai fazer parte de uma família enorme como aquela." Ela deu uma risadinha. "E você sabe, do jeito que eles são, provavelmente vão exigir que você tenha mais uma dúzia de filhos. Para manter o nome Frey vivo." Sua risada foi mais forte agora.
Sansa notou a irmã mais nova olhando em sua direção, e passou a encarar seu prato assim como a septa fazia.
"O lado bom é que você vai poder passar despercebida em meio a tanta gente e assim poderá fugir de vez em quando", refletiu Jeyne, num falso tom amigável. "Se bem que passar despercebida nunca foi difícil para você, não é? Principalmente aqui na corte. E tenho certeza que o Príncipe Gendry concordaria comigo depois de se permitir conhecer melhor sua irmã. " Ela finalizou sua fala com um olhar sorridente para Sansa, como se esperasse que ela lhe agradecesse por defendê-la. Sansa não sabia o que sentir, portanto não fez nada. Com o seu silêncio, Jeyne acrescentou, olhando bem para Arya: "Aposto que ele deve se arrepender de ter desperdiçado tanto tempo com você. "
Sansa sentiu o olhar de Arya em sua direção, tão afiado quanto uma adaga. Ela ousou encará-la de volta, vendo nada mais do que a mais pura raiva e mágoa - acumulada ao longo de todos aqueles anos - em seu rosto. Arya direcionou seu olhar para Jeyne Poole então, cuja arrogância foi levemente abalada pela frieza de seus olhos cinzentos. Arya por fim se levantou, deixando o jantar pela metade e seguindo a passos largos para a porta.
Em seguida, como de costume, Septa Mordane gritou para que ela voltasse e aprendesse de uma vez a agir como uma dama bem-educada, e Jeyne escondeu o riso sob as mãos.
***
Arya acreditava que havia um limite de dor que alguém pudesse suportar. Entre lidar com as provocações de Jeyne, a rejeição da mãe, de Sansa, de Gendry e um provável casamento com Elmar Frey, havia coisas que ela podia mudar.
Que ela tinha que mudar, caso quisesse continuar viva por dentro.
Aposto que ele deve se arrepender de ter desperdiçado tanto tempo com você. Gendry sempre disse a Arya para não se importar com as coisas que Jeyne dizia, que era tudo mentira e fruto da sua inveja, criado para que ela se sentisse melhor machucando-a. Mas Gendry não estava aqui para dizer isso agora, portanto ela concluiu que Jeyne estava certa afinal.
No entanto, era hora de esquecer isso. De esquecer muitas coisas, na verdade, decidiu Arya, enquanto esperava Gordo Tom abrir a porta do solar da Mão após dada a permissão de Lorde Eddard.
"Pai", cumprimentou ela.
"Filha", ele devolveu. "O que a traz aqui?"
Ela decidiu não se importar com preâmbulos. Queria abordar o assunto com um golpe frontal, como numa luta.
"Vim pedir para que o senhor me case no Norte."
Ele piscou, como se não tivesse compreendido.
"Perdão?"
"Sei que o senhor e minha mãe me trouxeram para cá com a esperança de consolidarem para mim um casamento no Sul", explicou Arya, ", mas eu estou implorando para que não façam isso. Eu aceito qualquer um. Cley Cerwyn, Domeric Bolton, o filho de Lorde Hornwood. Não me importo. Só quero regressar ao Norte." Ela engoliu em seco. "Eu não posso ser feliz assim como estou agora."
Por um momento, Ned pareceu tão triste que Arya pensou que ele fosse chorar.
"Imagino que você soube da proposta de Lorde Walder Frey", disse o pai.
"Em nome do seu filho Elmar. Sim, eu soube."
Lorde Eddard suspirou.
"Não precisa se preocupar com isso. Eu jamais permitiria que você se casasse com ele."
"Não?" Era como se o peso das muralhas de Winterfell tivesse sido tirado das costas de Arya.
"Nem sua mãe. Sim, estou falando sério, não fique surpresa. Ela chegou a quase brigar comigo, disse que você é uma Stark e filha dos Tully também, que em hipótese alguma deveria se sujeitar a uma aliança com uma família desprezível como os Frey. Ainda mais com o 'vigésimo segundo filho'", Ned riu. "Isso ela repetiu quase duas dúzias de vezes."
Arya também riu.
"Posso imaginar."
Eles ficaram alguns instantes em silêncio.
"E eu sei que você seria extremamente infeliz com ele." Lorde Eddard fez uma pausa. "Sinto muito. Gostaria de garantir que você fosse feliz. "
Arya reconheceu uma nota nostálgica e arrependida em sua voz, e imediatamente soube em quem ele estava pensando.
"Eu não sou minha tia Lyanna, pai. Não vou sumir ou ir embora a lugar algum." Por mais que seja tudo que eu mais queira, completou ela em pensamento. Mas esse desejo ainda era menor do que o amor que nutria por seu pai, e do eterno remorso que sentiria se causasse mais esse sofrimento a ele.
"Eu sei. É só que eu... queria poder mudar algo, dessa vez."
Arya deu de ombros, resignada. Seu pai poderia ser o homem mais importante do Norte e o segundo maior nos Sete Reinos, mas certas coisas eram impossíveis até mesmo para ele.
"Também sinto muito por compará-la a sua tia", continuou Ned. "Sei que você se incomoda."
"Tudo bem." Era verdade, Arya não gostava. Era como se todos estivessem vendo uma garota morta no lugar de quem era de verdade. Uma vez ela até confessara isso a Gendry, escondendo a parte sobre o jeito que o Rei Robert a encarava quando estava para lá dos seus copos, é claro. Entretanto, ela conseguia entender quando se tratava do pai.
"De qualquer forma, já estou trabalhando em outra aliança, com um jovem respeitável que pareceu interessado no casamento. Uma aliança que seria vantajosa tanto para a Casa Stark quanto para você, acredito eu. Consigo ver você sendo livre para ser como é nesse cenário. Quero dizer... pelo menos no que for possível ser livre."
Isso interessou a Arya.
"Ah, sim?"
"Sim. Você sempre gostou de Dorne, não é?"
Arya alisou o tecido da saia azul-esverdeada, o lábio preso entre os dentes.
"Se você ainda quiser casar no Norte, tudo bem", disse o pai, diante do seu silêncio. "Faremos uma lista com os melhores candidatos e enviaremos corvos. Não acho que algum deles recusaria."
"Não precisa", ela respondeu, por fim. "De fato, eu sempre gostei de Dorne."
Ned anuiu, exibindo um pequeno sorriso. O assunto pareceu encerrado, portanto Arya se levantou e seguiu até a porta. Antes que saísse, porém, se virou, incapaz de conter uma dúvida que manteve por anos guardada sob a língua.
"O senhor queria que eu fosse como Sansa?"
Ele não respondeu imediatamente, pelo que Arya ficou grata. Ela não queria uma mentira, ainda que fosse para evitar magoá-la.
"Não", disse Lorde Eddard, convicto. "Não de verdade. Admito que já desejei isso muitas vezes, sim, porque sabia que dessa maneira o mundo seria mais fácil com você. Mas então não seria a Arya que eu conheço. E sei que você não mudaria se tivesse a oportunidade. Tenho certeza de que preferiria se machucar do que passar por cima de seus valores para tornar a vida mais palatável."
Arya perdeu as contas do quanto já quis ser como a irmã - mas apenas para ser aceita por ela e por outros, não por si mesma. Ela assentiu.
"Eu te amo, pai. Obrigada."
"E eu amo você, querida. De todo o meu coração. "
***
Lady Arya,
Admito que fiquei surpreso - positivamente, é claro - quando soube que considerou o noivado. Espero que me perdoe por ter trocado algumas cartas sobre esse assunto com Lorde Eddard sem seu conhecimento. Não me entenda mal, eu jamais pensaria em aprisioná-la a esse compromisso sem que você sequer o aceitasse, estava apenas me certificando de ter a permissão de seu pai para cortejá-la, ao mesmo tempo em que pensava em uma maneira de cortejá-la de fato sem que você me atacasse por isso.
Minha tia Allyria e seu noivo, Lorde Beric, ficaram muito felizes ao saberem da notícia. Eu sigo ansioso para vê-la, seja em Porto Real ou aqui em Tombastela, onde será muito bem-vinda.
Atenciosamente,
Edric Dayne
"Ele é muito educado", comentou Lady Catelyn.
"Está vendo? E você implicando com o rapaz só por ele ser dornês", apontou Arya, perspicaz e direta ao ponto como sempre.
Catelyn suspirou. Aquilo tinha um fundo de verdade. A princípio, quando Ned a comunicara de sua decisão, ela não aceitou bem. Mas depois de refletir, Cat chegou à conclusão de que Dorne seria um bom lugar para a filha mais nova, ainda que tão distante. E o próprio Edric Dayne era um jovem adequado, de boa linhagem, aparentemente bem-educado. Ele seria um bom marido para Arya. E com o tempo... Com o tempo ela poderia vir a esquecer o Príncipe Gendry.
Além do mais, a Casa Stark como um todo seria beneficiada com aquele casamento. Após os eventos da Rebelião de Robert e as feridas que ela causou, uma aliança com a Casa Dayne seria algo maravilhoso. No entanto, essa era a parte mais difícil de aceitar para Catelyn, por seus próprios motivos.
"Sou apenas uma mãe preocupada", defendeu-se ela. "Mas fico aliviada por você estar em boas mãos."
"Não estou nas mãos dele", teimou Arya, erguendo uma sobrancelha. Catelyn teve que se impedir de suspirar alto.
"É apenas modo de falar. Quis dizer que ele parece ótimo. E muito gentil."
Arya assentiu enquanto caminhava até a janela, onde se debruçou. Após um tempo, disse:
"É engraçado. Eu fico com o marido gentil e delicado das histórias de amor de Sansa e ela fica com o rabugento, ríspido e mal-humorado. Mas, como ele continua sendo um príncipe, ela obviamente nunca vai perceber isso."
A respiração de Catelyn ficou presa.
"Arya."
Sua filha mais nova parecia querer continuar, mas se conteve diante de sua repreensão. Catelyn lhe foi grata por obedecer daquela vez. Ela mesma já havia pensado nisso, não precisava que alguém mais repetisse e fortalecesse sua angústia.
Passados alguns segundos, Arya falou novamente, em tom mais calmo e até mesmo contrito:
"Obrigada por não ter concordado com a proposta de Walder Frey. Eu teria morrido de desgosto se tivesse que casar com qualquer um dos filhos dele."
"Eu imaginei isso", Catelyn disse, levantando-se para ficar ao lado da filha e lhe beijar os cabelos, como fazia quando ela ainda era um bebê de colo. "Além do mais, sempre soube que você merecia coisa melhor."
***
Uma das melhores partes de tudo aquilo foi o puro e voluntário silêncio de Jeyne Poole. Nos últimos dias ela andava sempre com uma carranca no rosto, batendo o pé como uma criança mimada e com as bochechas infladas tal qual um sapo. Não deve ter sido fácil para ela saber que, ao invés de ser prometida a Elmar Frey, Arya iria se casar com o sobrinho de Arthur Dayne, que aliás era também sobrinho da noiva de Beric Dondarrion, por quem ela havia estupidamente se apaixonado.
Sansa também pareceu espantada a princípio, mas logo disfarçou com um sorriso polido, felicitando a irmã pela novidade. Arya apostava que, no fundo, a irmã mais velha ficou horrorizada por ela ter sido prometida a alguém de tamanha importância como um Lorde Dayne. Talvez, na opinião de Sansa, um vigésimo segundo filho de um Lorde Frey fosse mais condizente. Ela deve pensar que Tombastela é um lugar bom e belo demais para que eu seja digna de pisar lá, pensou Arya, com certa amargura. Ela conseguia imaginar perfeitamente Sansa dali a alguns meses acordando de um pesadelo terrível no qual Arya poria abaixo pedra por pedra do castelo ancestral dos Dayne. "Oh, que lástima!", exclamaria, ofegante, acendendo uma vela para iluminar a escuridão da madrugada. Teria uma lágrima solitária em uma bochecha, também. "Eu sabia que isso ia acabar assim! Arya devia ter ido morar nas Gêmeas com Elmar Frey! Por que a vida é tão cruel?", questionaria, chorosa.
Gendry já poderia até estar ao lado de Sansa nessa noite, do jeito que os preparativos para o casamento andavam acelerados. E o que ele diria então? Será que concordaria com a esposa?
O que Gendry pensava era quase como uma incógnita agora. Eles raramente dirigiam a palavra ou o olhar um ao outro. A última vez que isso aconteceu já fazia alguns dias, quando a notícia do noivado de Arya tinha acabado de explodir. Arya soube que ele ouvira falar do assunto só pela maneira como ele a encarou durante quase todo o jantar, como se ela fosse a razão de todos os seus tormentos e a fonte de todo o seu ódio.
Arya não soube ao certo como reagir a isso - apenas externalizou em seus olhos o seu sentimento, que aliás era bem similar ao dele, o encarando de volta com igual raiva.
De qualquer forma, havia algo ainda melhor do que a indignação de Jeyne Poole para Arya aproveitar: a indignação velada de Septa Mordane. Assistir seu queixo cair quando Lady Catelyn lhe contou do noivado foi impagável. Quase fez valer a pena todos aqueles anos de sofrimento que Arya viveu apenas para ver o completo horror tomar conta de seu rosto.
"Acredito que devo agradecer a você, Septa Mordane", disse ela à mulher noutro momento, enquanto as duas estavam caminhando para a Torre da Mão sozinhas. "Eu jamais teria conseguido um casamento tão bom se não fossem os seus preciosos ensinamentos de como ser uma dama adequada."
Septa Mordane nada disse, limitando-se a comprimir os lábios finos numa linha quase invisível em desprezo.
"Não concorda, septa?", pressionou Arya, com falsa cortesia. "Acho que devo muito a você. "
A mulher parou para encará-la, séria e cheia de rancor.
"Pois eu acho que eu devo muito à Lady Catelyn e a Lorde Eddard", disse ela, o queixo trêmulo de ira, ", por tê-los dado a esperança de que eu seria capaz de transformar você numa dama como sua irmã. Se realmente quer minha opinião, acho que o pobre rapaz que propôs a você um casamento tão vantajoso não tem ideia da corda que ele comprou para se enforcar. Se Lorde Dayne tiver sorte, vai perceber a enrascada em que se enfiou antes da noite de núpcias e assim ainda terá tempo de se livrar de você."
Arya fez o possível para manter a própria voz doce como mel ao responder, prometendo a si mesma que aquela seria a última má-criação que cometia.
"Eu sinceramente não me importaria com isso, contanto que Lorde Dayne não me envie de volta para cá, onde eu seria obrigada a ouvir sua voz repulsiva e ver sua língua hedionda lançar seu veneno por todo lado", Arya fez uma pausa, deleitando-se por um instante silencioso com o rosto vermelho de raiva da septa. "É uma felicidade que, depois de tantos anos tendo que se lidar com você, eu esteja indo justamente para Dorne. Já vou ter experiência com uma espécie de víbora quando eu chegar lá, o que já é um passo à frente. De fato, eu tenho muito o que agradecer à você. "
Os olhos da Septa Mordane estavam arregalados como dois ovos cozidos, e Arya se permitiu encará-la durante mais um momento antes de simular um sorriso e continuar seguindo seu destino, enquanto a mulher mais velha ainda a observava, atônita. Obviamente grande parte do que Arya dissera fora exagero, mas ainda foi válido pelo susto que pregou na septa. O que seria bastante útil, visto que seu choque muito provavelmente seria tamanho que nem à Catelyn Stark ela teria coragem de contar o que aconteceu.
***
O tempo estava voando. Tudo o que Sansa sabia era que finalmente seu noivado com o Príncipe Gendry estava sendo formalmente anunciado pelo próprio Rei Robert, que ainda prometeu que a cerimônia aconteceria dali a poucas luas, o mais rápido possível, afinal "já esperamos tempo demais". Sansa ficou um pouco apreensiva com a informação. Por mais que já estivesse impaciente, um casamento às pressas só viria a gerar boatos desmoralizantes para ela.
Sansa bebeu do vinho do primeiro brinde ao próprio noivado, um rico dourado da Árvore do qual ela desfrutou com felicidade, perguntando-se quase distraidamente se os boatos sobre a irmã e o príncipe eram verdadeiros. Teriam os dois dormido juntos uma vez? Ou mais de uma? Ou várias? Conhecendo a rebeldia de Arya, ela não podia duvidar. De qualquer maneira, aquilo já não importava. A irmã e suas desonras seriam em breve um problema apenas de Lorde Dayne, e quanto ao Príncipe Gendry Sansa não tinha mais preocupações. O leito matrimonial seria diferente de quaisquer outras experiências que ele tivera - ou até viesse a ter, na pior das hipóteses -, Sansa já havia compreendido isso.
Ela se virava para seu lado direito, onde o príncipe estava sentado, a cada brinde proposto, sempre receosa dele virar sua taça de ponta-cabeça e derramar tudo sobre a mesa em protesto, mas isso não aconteceu nenhuma vez. Pelo contrário, seu noivo bebia até a última gota de seu copo à medida que novos brindes eram berrados pelo salão. "Aos futuros rei e rainha dos Sete Reinos!", "Aos muitos novos principezinhos que ganharemos!", "Ao Norte e ao Trono de Ferro!", não importava o quê, Sansa tomava um gole e rezava para que o Príncipe Gendry fizesse o mesmo, mesmo que ele, ainda que sem entusiasmo aparente, estivesse bebendo bem mais do que um gole.
Até mesmo Arya bebeu à felicidade dos noivos, Sansa notou, embora a sua taça cheia com água ao invés de vinho revelasse seus verdadeiros desejos.
Passados os brindes e iniciado o concerto musical, Sansa enfim relaxou em sua cadeira, virando-se para o prometido a fim de ver se parecia propício a uma dança, mas foi assaltada pela surpresa ao vê-lo. O Príncipe Gendry estava respirando com dificuldade, com a cabeça curvada para a frente e a pele tão branca quanto uma vela.
"Vossa Alteza?", chamou Sansa, incerta. "O senhor está bem?"
Ele balançou a cabeça, ainda incapaz de responder. Quando enfim abriu a boca, sua voz saiu arrastada e trôpega.
"Estou bem. Eu só... só quero ficar..."
E antes que pudesse concluir, vomitou tudo o que comeu e bebeu sob a grande mesa.
Inclusive todo o vinho.
***
"Preciso da ajuda do senhor", despejou o príncipe herdeiro sobre Ned, assim que ambos acabaram seus deveres burocráticos do dia. Sua voz tinha um tom determinado e teimoso que Ned não apreciou.
"Eu ficarei feliz em contribuir, Vossa Alteza", Eddard fez uma pausa. "Caso me seja viável."
Gendry assentiu e respirou fundo antes de se pronunciar, sem um traço sequer de hesitação.
"Preciso que o senhor convença o Pequeno Conselho a permitir que eu me case com Arya."
Um silêncio ensurdecedor se fez. Ned permaneceu estático, sem saber como reagir.
"Por favor", acrescentou o rapaz, engolindo em seco.
O príncipe se esforçou para parecer firme, mas uma sombra de insegurança ficou evidente em seus olhos. A julgar pelas olheiras, ele provavelmente não vinha dormindo bem.
Ned fechou os olhos e respirou fundo, desejando que aquilo fosse um pesadelo. Ele sempre temeu que algo assim acontecesse, mas ultimamente tinha se permitido ficar mais tranquilo. Arya estava tão satisfeita quanto podia estar com seu noivado, bem como Sansa, principalmente agora que Gendry parecia ter se interessado em honrar seu compromisso.
"Príncipe Gendry", ele disse, finalmente. "Desculpe, mas isso é impossível."
O rapaz sacudiu a cabeça freneticamente, desesperado. Ned se sentiu mal.
"O senhor não entende. Eu não posso me casar com a irmã dela."
"Vocês dois estão..."
"Lorde Stark. Por favor", interrompeu Gendry. "Se tenho que me casar, tem que ser com ela. Eu não vou suportar... Eu já não estou suportando. Sinto que vou me tornar um homem igual ao meu pai."
Robert e Lyanna, Gendry e Arya. Era como a história estivesse, de alguma forma, se repetindo. E isso era doloroso demais de se assistir.
"Há um acordo", continuou o príncipe, ", mas acordos podem ser alterados. Uma garota Stark pela outra. Não seria um grande salto. E Lady Sansa poderia..."
"É um salto enorme. Você sabe disso."
Gendry se calou, porém não desviou o olhar.
"Com o tempo, tudo vai se ajeitar", ofereceu Ned, se esforçando para aparentar controle. "Arya já começou a aceitar o destino dela, em breve você vai aprender a aceitar também. "
O príncipe balançou a cabeça outra vez.
"Ela aceitar não significa que ela está feliz."
"E como pode afirmar isso com tanta convicção?"
"Eu a conheço. E posso sentir em meus ossos que ela seria mais feliz comigo do que com Dayne, do mesmo modo que eu só seria verdadeiramente feliz ao lado dela. "
Para isso, Ned não teve resposta. Isso pode até ser verdade, pensou, mas Arya não seria feliz como rainha. Além do mais, desde quando a felicidade de alguém exceto o reino importava nesse tipo de situação?
"Acho que eu devo falar com o rei", decidiu o príncipe, levantando-se num segundo e batendo a porta do solar em outro.
Ele ainda é jovem, Ned disse a si mesmo. E um jovem apaixonado e insensato. Não vai demorar para que cresça e entenda.
***
Foi quase fácil demais convencer o pai, como se ele estivesse esperando por aquilo todo esse tempo.
"Você é como eu, e ela é como minha Lyanna", afirmou o rei, olhando pela janela com a mesma expressão que reservava para falar da única mulher que ele quis e não pôde ter. "Os deuses nos deram uma nova oportunidade. Foi feito para ser assim."
Gendry detestava ser comparado a Robert, e sabia que Arya também detestava ser comparada a Lyanna. Entretanto, se era necessário usar desse argumento para que ele pudesse tê-la, Gendry não hesitaria.
O próximo passo foi o Pequeno Conselho.
"Eu e meu pai decidimos que vou me casar com Lady Arya", ele disse, com o queixo erguido, num tom que ele esperava ser autoritário o suficiente para calar quaisquer opiniões contrárias.
Não foi o suficiente.
Iniciou-se uma discussão sem fim na Sala do Conselho naquela tarde, alimentada em especial por Cersei Lannister, e Gendry nunca a desprezou tanto quanto naquele momento. Lorde Eddard assistiu tudo calado, com uma expressão ao mesmo tempo fria e triste em seu rosto.
Gendry não tinha feito uma pergunta, mas a resposta final foi não.
***
Então era verdade, Sansa pensou, tentando controlar a respiração enquanto a rainha falava sem parar do que acontecera no dia anterior, confirmando o boato que ela havia ouvido e tentado com toda as suas forças ignorar. O que Arya fez dessa vez? Por que ela nunca deixa que as coisas sejam como deveriam ser? Aquilo era tão injusto. Ela nunca deveria ter vindo para o Sul. Talvez nunca devesse ter sequer nascido.
"Você devia ter visto o ódio com que Gendry me encarou quando eu mostrei a grande loucura que era aquela ideia", contou a Rainha Cersei, entornando o vinho. "O meu próprio filho!", ela exclamou, e em seguida riu amargamente. "Ele estava possesso, completamente fora de si. Seja lá qual foi o truque de cama que sua irmã usou para conquistá-lo, é melhor que você o aprenda, e rápido, se quiser exercer alguma influência sobre ele."
Sansa estava sem palavras. Ela baixou os olhos, constrangida.
"Não deve se envergonhar, querida. Este é só o começo da humilhação a qual uma mulher deve se submeter nessa vida. Embora seja um pouco injusto com você", disse a rainha, erguendo seu rosto com dedos gentis. Sansa olhou em seus belos olhos esmeralda, esperando que estivesse fazendo um bom trabalho em conter as lágrimas. "Você é bonita demais para passar por isso sendo tão jovem. Nenhuma de nós duas merecia esse sofrimento. Você não é tão bela quanto eu era na sua idade, é claro, mas ainda é infinitamente mais bonita do que a selvagem da sua irmã. Aparentemente, tanto Robert quanto Gendry preferem o tipo de mulher que se parece com um rato de cozinha", zombou a Rainha Cersei. "Mas não se deixe abalar por isso", ela a consolou, acariciando seus cabelos. "Isso não diminui você. Em breve, você será como uma filha para mim, e também uma rainha melhor do que a sua irmã desprezível jamais seria."
***
Poucas vezes Arya já havia sentido tanta raiva na vida. Ela queria bater em alguma coisa, de preferência o elmo favorito de Gendry ou até o próprio Gendry. Logo quando as coisas finalmente pareceram se acertar, caminhar para algum lugar bom, ele decidiu fazer o que fez.
O conselho de Lady Catelyn foi que ela escrevesse a Ned Dayne para explicar antecipadamente que nada daquele escândalo foi sua responsabilidade, o que Arya seguiu sem protestar. No entanto, ela tinha a impressão de que a mãe não ficaria satisfeita se soubesse do modo como ela procedeu em seguida.
Que seja, Arya pensou quando entregou um bilhete à criada de Gendry, pedindo que eles se encontrassem ao pôr do sol no bosque sagrado. Toda a Fortaleza Vermelha já pensa que nós estamos fodendo desde que saímos de Winterfell, aparentemente. Isso não vai mudar nada.
Pontualmente, passos pesados denunciaram a presença do príncipe herdeiro. Sem sequer se virar, Arya começou:
"O que nos sete infernos você estava pensando?"
"Em não acabar tentando me matar dia após dia como meu pai faz", ele explicou, ficando em frente a ela, com raiva cintilando em seus profundos olhos azuis.
Arya balançou a cabeça, sem deixar de encará-lo.
"Você é um grande estúpido", ela o acusou, dando um passo à frente. Ela quis chutá-lo, estapeá-lo, empurrá-lo. A queda não seria tão ruim, calculou; o solo estava coberto de folhas macias. "Quais as chances daquilo surtir algum resultado? Depois do seu noivado ter sido anunciado diante de tantos nobres, depois do meu noivado ter sido acordado, depois de tanto a proposta de Willas Tyrell para Sansa quanto a proposta de Margaery Tyrell para você terem sido rejeitadas... E a sua mãe me odeia. Eu a odeio. Pensou mesmo que isso ia dar certo? Pensou mesmo que eu também quisesse isso, para nem pensar em me consultar acerca desse absurdo?"
"Você não quer?" Gendry pareceu tão furioso quanto magoado então. Ele deu um passo à frente, fazendo com que seus corpos quase se tocassem. "Prefere mesmo Dayne a mim?"
O coração de Arya bateu forte, e toda sua ira pareceu evaporar. De repente, tudo que ela podia ver e sentir era Gendry. Os cabelos rebeldes caindo sobre as sobrancelhas franzidas, o rosto carrancudo tão familiar sendo iluminado pelos últimos raios de sol do dia. Os braços fortes que a abrigaram bem ali, há várias luas, onde ela queria ficar durante muito e muito tempo. Os lábios que pareciam chamá-la para perto, convidando-a a experimentar. Seria tão fácil se inclinar para frente e fazer isso. E, pelo modo como o olhar de Gendry a percorria, seus pensamentos também não estavam longe dos dela.
O que ela tinha a perder? Afinal, toda a Fortaleza Vermelha pensava que eles estavam fodendo desde que saíram de Winterfell, não é? A mão direita de Gendry encontrou sua cintura, firme e hesitante ao mesmo tempo, e a outra tocou seu lábio inferior suavemente, libertando-o dos seus dentes, e só então Arya percebeu que o estava mordendo outra vez. Gendry traçou sua boca com o polegar, tão delicadamente que Arya se sentiu desconfortável e maravilhada em igual medida.
Mas não podia ser assim. Ainda havia muito em jogo entre os dois.
Ela virou o rosto para o lado e engoliu em seco.
"Eu jamais ia querer ser rainha", respondeu, finalmente.
As mãos de Gendry se afastaram dela. Arya quase se arrependeu.
Depois de um tempo preenchido unicamente pelo som do vento, das folhas e dos insetos, ela ergueu os olhos para ele.
"Você não fala comigo há mais de meio ano."
Gendry suspirou profundamente.
"Pensei que ia conseguir acabar com... com tudo isso. Caso eu me afastasse de você. "
"Pensei que tivesse enjoado de mim na época. Que tinha percebido que Sansa era melhor", Arya admitiu, algo que não havia feito nem para si mesma.
Gendry escarneceu.
"Essa é a coisa mais estúpida que já ouvi você dizer em toda a sua vida. Tudo que eu queria a todo momento era só estar com você. "
Ao passo que ele manteve firmemente o contato visual, Arya teve dificuldade para fazer o mesmo.
"Aposto que você também pensava algo estúpido assim quando me via com Ned Dayne."
Gendry estalou a língua.
"Não cite o nome desse maldito."
"O que ele fez de tão errado?"
"Vai ser seu marido", respondeu Gendry, soando como uma criança birrenta.
Pelo menos você tem isso para consolá-lo, lamentou Arya. Não posso odiar Sansa, mesmo sendo ela quem vai se casar com você.
Alguns segundos se passaram. Ela cruzou os braços, tentando se aquecer um pouco contra o ar gélido do outono. Agora, a única fonte de luz eram os archotes nas muralhas da fortaleza.
"Quando você vai para Tombastela?", perguntou Gendry.
"Depois de toda essa confusão, minha mãe provavelmente vai fazer tudo o que puder para que eu vá o mais rápido possível. Eu diria que em algumas semanas."
Ele assentiu, melancólico.
"Vou sentir sua falta", disse.
"Também vou sentir sua falta", ela replicou.
Gendry a abraçou com força. Arya se agarrou a ele, descansando a cabeça na curva do seu pescoço. Eles passaram mais tempo do que deveriam assim, até que se desvencilharam um do outro. No entanto, as duas mãos de Gendry ainda continuaram em sua cintura, e Arya apoiou as suas em seus ombros.
"Eu sei que você tem medo de se tornar igual ao seu pai", ela começou, ", mas isso não vai acontecer. Você é melhor do que ele."
Ele anuiu.
"Além do mais, você vai conseguir gostar de Sansa com o tempo", continuou ela, sem coragem para encará-lo então. "Ela é gentil, e boa em muitas coisas."
Ele zombou, apertando as mãos ao redor de sua cintura.
"Você sabe que não é assim que funciona."
É. Arya sabia que não.
***
Os homens nunca aceitavam os planos dos deuses, Robert concluiu, enquanto observava seu primogênito sentado ao lado da filha mais velha de Ned. Ele fez o que pôde para Gendry conseguir o que queria - ele entendia exatamente o sentimento do rapaz. O amor desesperado, o desejo, a afinidade de almas que só se sentia uma vez em toda a vida. Agora também a angústia era comum a eles, por terem perdido as mulheres que amavam. Lyanna era escorregadia como cetim, sempre fugindo das suas mãos em qualquer cenário. Exceto nos sonhos. Nos sonhos, ele a tinha. E apostava que, nos sonhos, o filho tinha Arya também.
O rei se levantou com certa dificuldade, dirigindo-se à sacada para tomar um pouco de ar. O frio o fazia se lembrar de Lyanna, e por hoje ele estava cansado de todas aqueles bajuladores da corte. Imediatamente, dois cavaleiros da Guarda Real o seguiram. Sete infernos. Robert bufou. Aquela era a prisão de um rei. Embora se banqueteasse com os melhores vinhos e mulheres, já fazia muito tempo desde a última vez que se sentira vivo.
Robert se apoiou nos pilares da balaustrada da sacada, inspirando profundamente e sentindo o vento atingir-lhe o rosto, com os olhos fechados. Quando os abriu, quase tomou um susto. Lyanna tinha se materializado em carne e osso, bem ao lado dele.
Não, ele percebeu, analisando a garota com cuidado. A cerveja está nublando a minha mente. Não era Lyanna, mas sim a reencarnação dela, a filha mais nova de Ned. Arya, a Lyanna de Gendry. Robert demorou-se por um momento a observando. O vestido lhe caiu bem, realçando suas formas belas; e o tecido de um azul dolorosamente familiar da saia ondulava com o vento. O luar lhe iluminava o rosto, como se a Donzela tivesse movido as nuvens no céu acima deles a fim de revelar sua protegida aos seus olhos, uma espécie de piada cruel sobre aquilo que, mesmo sendo rei, ele nunca poderia ter.
"Então você vai se casar em Tombastela? Pensei que teríamos a honra de ver você num vestido de noiva", Seria como um antigo sonho tornado realidade, Robert completou em pensamento.
A garota se virou para ele, e passou um instante o estudando antes de enfim responder.
"Sim, Vossa Graça. Eu também pensei que seria aqui, no bosque sagrado, mas tanto o senhor meu pai quanto a senhora minha mãe preferiram que não fosse assim."
"Ned e Catelyn acompanharão você para participar da cerimônia e da festa, imagino", Robert deduziu, tentando não fazer que a própria língua se perdesse num idioma ininteligível devido ao efeito do vinho.
"Meu irmão Bran também. Eles regressarão a Porto Real após alguns dias."
"E sua irmã?"
Arya desviou o olhar.
"Sansa não vai. Não pode ficar fora nem por um dia ultimamente. Tem muito a resolver para o casamento. Vestidos, flores, atrações, pratos para o jantar..."
"É claro, é claro." É óbvio que Sansa não pode ir. Robert não sabia se esqueceu ou se fizera de propósito, para trazer à tona a dor que ele precisava que ela sentisse também.
Lyanna mordeu o lábio. Não. Lyanna não; Arya. Lyanna tinha o costume de morder o lábio? Ele não se lembrava, mas achava que não.
"Eu sinto muito", disse Robert, depois de um tempo que ele não sabia dizer se foram segundos ou horas. Ao ouvi-lo, Arya o encarou. "A culpa é minha. Eu devia ter visto mais cedo ela em você. Eu devia ter visto o plano dos deuses. Agora que me lembro, você sempre teve os olhos dela." Ele estendeu a mão para acariciar a bochecha de Arya, que se retesou com o seu toque, tímida e pura como deveria ser. "E sempre teve o jeito dela, desde criança. Como eu não pude perceber isso?" Robert suspirou. "Se eu tivesse prestado mais atenção em você anos atrás, não teria hesitado em prometer Gendry a você. Vocês dois foram feitos para ficar juntos, assim como minha Lyanna e eu."
Arya fechou os olhos com força e os manteve assim por alguns segundos, como se estivesse sonhando com a vida que poderia ter. Assim como ele sonhava, e como Gendry sonharia também. E assim como Lyanna sonhava durante seus últimos dias, aprisionada naquela sete vezes maldita torre.
"Mesmo assim, você poderia ficar", sugeriu Robert. "Ainda poderia fazer Gendry feliz se ficasse aqui."
Ela estalou a língua.
"E como sugere isso? Gendry seria como Aegon, o Conquistador, Sansa seria Rhaenys e eu Visenya?"
Robert gargalhou. Ela tinha a mesma acidez e bravura da tia, e ele estava tão agradecido em ver isso que nem se importou com a menção aos Targaryen.
"Não, não. Você seria Rhaenys. Era a Rhaenys que Aegon amava." Cambaleante, ele se aproximou um passo. "Mas isso seria algo muito difícil de ser repetido; a Fé consideraria um ultraje. No entanto, eu ainda poderia casá-la com um lorde ou cavaleiro local, algum homem humilde e sem orgulho que se satisfaria apenas em ter Lady Arya Stark em sua cama, mesmo sabendo que não seria a única que ela frequentaria. E então... você poderia se encontrar com meu filho na calada da noite, quando os olhos curiosos estivessem fechados. Não é a pior vida que alguém poderia ter", ele concluiu, sentindo a mandíbula afrouxar de cansaço depois de ter falado tanto. Sua mão ainda estava em contato com a pele macia da bochecha de Lady Arya, ele notou, mas antes que pudesse fazer algo sobre isso, a jovem saiu dali a passos largos, sem se dignar a uma despedida.
Robert merecera aquilo, mas isso não diminuía a dor de vê-la escapando de seus dedos outra vez.
***
Ele estava no pátio, observando boa parte da comitiva de Lorde Eddard se preparar para partir para Tombastela. Ele poderia dizer que despertara cedo o suficiente para isso, mas a verdade é que não havia dormido na noite anterior. Não poderia perder a chance de ver Arya uma última vez, mesmo que de longe.
Ela estava em seus couros de montar, Gendry percebeu, sorrindo. Já Lady Catelyn não parecia muito satisfeita com isso.
A última vez que ele e Arya se falaram foi na tarde anterior, quando ela foi à forja entregar a ele um lenço que tinha bordado, ou tentado bordar, com a figura de um touro.
"Eu sei que está ridículo, você não precisa falar. Eu só o fiz porque tenho a adaga que você me deu como uma lembrança sua", ela explicou, um pouco envergonhada, ", mas você não tem nada para se lembrar de mim. Então eu fiz essa porcaria. Espero que não fique ofendido."
Gendry riu.
"Este lenço é ótimo. É o único que eu vou usar", ele disse, alegre como se ela estivesse saindo para uma viagem rápida de três dias, e não partindo para sempre para se casar com outro homem. "Mas não é como se eu precisasse de algo para me fazer lembrar de você. "
Não é como se eu não fosse lembrar de você até o meu maldito último dia de vida.
"Príncipe Gendry."
Ele se virou. Princesa Sansa, quase disse, e sentiu uma vontade mórbida de rir.
"Lady Sansa", cumprimentou, esperando que ela chegasse até ele. Mesmo que o sol nem tivesse surgido no céu, sua noiva já estava bela e majestosa num vestido verde cheio de arabescos dourados, os cabelos presos num elaborado penteado sulista. Está parecendo a minha mãe. Tudo em que Gendry podia pensar era em Arya naquela noite no bosque, os cabelos num coque simples e com aquele vestido cinza de tecido pesado, mangas longas e uma gola que escondia até o pescoço. Uma escolha, fosse deliberada ou inconsciente, de se mostrar formal, distante e simples. Não funcionou, ele quis lhe dizer. Você ainda é a coisa mais linda que eu já vi.
Assim que se pôs ao seu lado, Lady Sansa o encarou durante algum tempo antes de voltar seu olhar para Arya.
"Não vai se despedir de sua irmã?", Gendry perguntou, provavelmente influenciado por forças malignas.
Sua noiva corou de raiva, mas manteve a voz equilibrada, como sempre.
"Não acho que há necessidade. "
Ele assentiu, voltando-se para Arya também, que agora abraçava os filhos dos cavaleiros e das cozinheiras do castelo. Por mais que ela dissesse que não queria ser rainha, Gendry não podia deixar de encontrar isso nela em alguns momentos. Ela poderia ser habilidosa em qualquer coisa que se dispusesse a aprender. Talvez, em outro universo, eles não tivessem essa barreira os separando. Mas isso é hipotético, Gendry reclamou consigo mesmo. Não adiantava sonhar com o que poderia ser.
"Eu fiquei sabendo da proposta que fez ao Pequeno Conselho há algumas semanas", começou Lady Sansa, soando quase inabalada.
"É claro que você soube." A esta altura, a notícia deve ter se espalhado até a Muralha. Jon Snow com certeza me daria um soco se tivesse a oportunidade. Por que ela não dizia de uma vez o que queria dizer?
Gendry observou Arya esfregar a cabeça de uma garotinha de cabelos pretos, e sentiu uma dor violenta socar suas entranhas. Ele se virou para Sansa, que se empertigou antes de prosseguir:
"O que o senhor fez foi, me perdoe a ousadia, uma loucura completa. Causaria o caos nos Sete Reinos, e na sua vida também. Por mais que pense que ame Arya agora, por causa de seja lá qual o método que ela usou para seduzi-lo, no futuro a coroa desgastaria qualquer amor que se dispusesse a crescer entre vocês. Ela não é exatamente qualificada para a corte, e você não pode negar isso."
Gendry tentou não se enfurecer muito visivelmente.
"Do mesmo jeito que eu também não sou qualificado."
"Eu... Eu não disse..." Lady Sansa gaguejou. "O senhor tem mais experiência, e mesmo que não se sinta à vontade, eu poderei ser seu equilíbrio." Ela respirou fundo. Gendry voltou seu olhar para Arya outra vez. "Sei que me odeia agora, mas..."
"Eu não a odeio", Gendry interrompeu, ainda que não a olhasse.
"Então o que é? Desprezo?" Ele nada respondeu. "Não me acha bela, inteligente, ou capaz? Considera Arya é superior a mim?"
"Essa não é a questão. Você é todas essas coisas", Gendry disse, forçando-se a encará-la nesse momento. "Mas você não é ela."
Com o silêncio magoado de sua noiva, ele acrescentou:
"Arya seria a única pessoa com quem eu ficaria feliz em me casar. Sinto muito. Gostaria que as coisas fossem diferentes para que você pudesse passar a vida com alguém que te ame como você deveria ser amada. Mas esse alguém não pode ser eu. Nem agora nem daqui a trinta anos e quinze filhos."
Gendry não se virou para ver Lady Sansa ir embora, mas ouviu seus passos se distanciarem até que desapareceram.
Finalmente, Arya terminou de se despedir de todos. Ele lamentou o fato, desejando que durasse mais tempo para que ele pudesse assisti-la. Ele queria poder se aproximar e abraçá-la, mas depois de ter sido idiota ao ponto de deixar que sua tentativa de torná-la sua noiva se tornasse pública, isso era impossível. Só o fato de estar ali parado no pátio observando-a de longe já renderia conversas demais.
Os portões daquele lado da fortaleza foram erguidos. Arya subiu no cavalo. Olhe para cá. Olhe para cá, Gendry desejou. Ela se virou, como se o procurasse, e enfim encontrou seu olhar, dando um pequeno sorriso e acenando com a cabeça em despedida. Gendry devolveu o sorriso e o aceno, sentindo um nó se formar em sua garganta. Espero que você consiga ser feliz.
A comitiva partiu, e Arya despareceu no horizonte. Em seguida, o sol nasceu, exatamente na mesma direção.
