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O futuro é um grande céu azul e um tanque de avião cheio

Summary:

𑁍 A capacidade de amar que Majesty possui é um poder herdado dos seus dois pais; Eddie, quem lhe deu olhos chocolates recheados de sede de aventura e cachinhos rebeldes, e Steve, quem lhe deu o último sobrenome e uma confiança inabalável. Ela nasceu através de um amor que recusa a se quebrar, e continuará sendo o motivo de seus pais sorrirem sempre tão grande.

 

Ou o conforto que eu precisava após a primeira morte da quarta temporada abrir um buraco no meu peito, então eu escrevi Steddie criando uma filhinha nos 90s.

「Steve Harrington ✕ Edward "Eddie" Munson」.

Notes:

Sofri fanficando Steddie com o Ravi durante esses 3/4 dias em que demorei 'pra fazer essa OS. Pensei muito em escrever um capítulo bônus, mas talvez isso só aconteça futuramente :///

Basicamente para a Majesty é:

Papai: Eddie.
Pai: Steve.

E é isto, espero que gostem e sintam-se um pouquinho mais consolados assim como eu fiquei escrevendo isso :))))

(eddie volta por favo eu nunca te pedi nada revive ai na moral)

Work Text:

– Capítulo Único: sob a luz do Sol desta cidade.

 

Disparando o brilho de seu sorriso - sorriso este herdado de um puro mundo repleto por alegria e amor dos seus pais - contra o Sol rasgando furiosamente belo o horizonte, os pequeninos dedos gordinhos atrapalhavam-se com a cola nas mãos para conseguir colar de uma vez por todas o grande título "Majesty, a suserana" na caixa preta enfeitada de adornos e desenhos bastante caprichados cujo seu papai ajudou criar. Haviam algumas estrelas, alguns corações, um desenho de um grande mago - para representá-la bem -, e… uma nave espacial lotada por alienzinhos verdes nanicos? Bom, Eddie proclamou muito contra a decisão da filha em adicionar aqueles seres nojentos de outro planeta quando muito bem poderiam ser personagens de Dungeons and Dragons, mas o marido dele apenas o aconselhou a largar o assunto porque você não pode ir contra as decisões da maga suprema Majesty.

O torpor do sono lhe pesando os olhinhos cansados tampouco foi o suficiente para impedir a garotinha cheia de inspiração, criatividade e um sentimento ardente de sede de aventura no peito, de continuar a terminar os últimos detalhes das preparações para o que seria uma das suas melhores apresentações de mágica. Eles vão ver, ela repetia na cabeça feito um mantra, sussurrando como seu papai fazia o dia inteiro quando um pedaço de alguma música do Iron Maiden agarrava os pensamentos igual o barquinho agarrava uma âncora pesada ou o veleiro agarrava o mar durante um vendaval, eles vão ver que eu nasci para o estrelato. Embora soubesse pelos pais que compartilhava apenas o sangue de um deles - tal fato ainda não excluía o fato de serem ambos seus pais, no entanto -, diferente dos coleguinhas da sala de aula que possuíam uma mistura dos dois parentes, toda a família reconheceu que em algum momento a garotinha herdou a confiança inabalável de Steve para nunca nessa vida deixar ser tratada como menos do que realmente era. Majesty sabia do seu brilhantismo, o nome lhe entregue no dia do nascimento era auto explicativo; de como era a luz que se acende num quarto escuro, de como era o primeiro raio de Sol que se atrevia a tocar o horizonte azul anil para a manhã nascer - e ela sempre nascia -, de como era a estrela em qualquer lugar onde chegava, de como era o sonho dos seus pais e orgulho de quem a amava. Deus, como ela sabia! É por este motivo que quando Prudence lhe veio com um sorriso falso perdido no meio de uma careta azeda ao assisti-la ensaiar a apresentação, tampouco se abalou; no final, havia um queixo caído e um grande brilho de empolgação nos olhos da coleguinha de sala. A menininha sentiu o calor de toda a glória brilhando dourada no sorriso genuíno, aquele típico do seu papai, para conseguir agradecer ao grande público de seis amiguinhos da escola.

Veja bem, ainda se lembrava de como no aniversário de cinco anos dela os seus pais contrataram um mágico; eles se beijavam felizes a cada cinco minutos porque estavam casados e tinham juntos uma filha linda, o tio Dustin gritava com Lucas sobre alguma besteira emblemática enquanto a namorada ruiva dele ria - muito bonita -, Jonathan abraçava a tia Nancy enquanto relembravam de algum aniversário de tio Will onde ele ainda era uma criança, a tia com superpoderes estava atenta à apresentação, já o tio Mike só conseguia rir dela depois de três garrafas de cerveja, e o mágico fez o seu truque. O mágico retirou um pequenino filhote de coelho da cartola côncava preta de veludo, ele fez a pomba branca desaparecer, ele colocou o brilho das estrelas em seu olhar num passe de mágica e borbulhou em euforia o sangue nas suas veias; o mágico fez o seu truque e ela jurou que tudo era possível nessa vida desde então.

Quando Steve ouvia a sua pequenina responder o "sua apresentação vai ser fantástica, Majesty!" com um "eu sei, tudo o que eu faço não poderia ser menos", então ele sorria sentindo uma felicidade quente se enrolar no próprio coração feito luzinhas de Natal numa árvore a constatar que, sim, Eddie e ele criaram juntos o ser mais fascinante de todos. O mais confiante também, ele conclui. — Bom dia, Majesty!

Ela sorri quando um amiguinho lhe vem ofegante até a mesa, sujo de terra e com a camisa melada por uma camada fina de suor. Sorria toda a alegria do mundo, no entanto, mesmo sujo assim. — Bom dia, Tyler.

— Eu vou começar a fazer o meu trabalho só agora. — Bagunçou o cabelo com um rubor de vergonha no topo das bochechas por admitir aquilo. A Munson, vestindo preto da cabeça aos pés pela primeira vez em semanas porque o pai havia finalmente cedido após muita insistência, juntou as sobrancelhas numa confusão palpável. — Você poderia me emprestar algumas coisinhas? Eu só trouxe o meu lanche e a minha bola de futebol.

Tal explicação lhe arrancou alguns risos baixinhos, seguidos pelo sorrisinho do garoto tímido nessa altura do campeonato, enquanto se esticava através da mesa para alcançar a bolsa preta com estrelinhas. Dentro dela, agarrou um estojo rosa pastel. — Você é muito estranho, Tyler. Vir 'pra escola e não trazer material é complicado. — Se bem que o tio Dustin havia lhe contado muito por cima quando o papai não estava sobre os dias de escola dele, e nenhum de seus pais eram exatamente estudantes exemplares. A diferença era que o papai era esquisito, um esquisito bom, e o pai passava todos os dias dentro da quadra ou… "tirando o atraso", seja-lá o que isso significava na linguagem estranha do tio Dustin.

— Ora bolas, eu só venho preparado 'pros dois horários mais importantes da escola: o de comer e o de ir embora. — Continuou a brincar antes de questionar em seguida a pergunta de ouro, aquela que ele mais desejava fazer quando a viu saindo da BMW do senhor Harrington para entrar na escola depois de uma série de beijinhos dele. O senhor Harrington era alguém estranho, mas não tão estranho quanto o amigo dele (seus pais afirmaram serem apenas amigos) que vestia preto da cabeça aos pés num calor insuportável e usava óculos escuros de noite. — E por que você 'tá toda de preto? Você vai se vestir assim na apresentação? Parece muito dahora! Se você deixar, eu quero vir assim também no dia.

— Eu estou de preto porque estou em luto pelo envenenamento da nossa sociedade por meio do capitalismo e consumismo sem consciência que degrada nosso planeta ao longo dos anos e nos apressa mais ainda para o encontro inevitável com a morte. — Ela repetiu a frase dramática do papai dita pela manhã quando estavam tomando o café, o pai não brigou e só respirou pesadamente ouvindo tudo, então não havia problema nisso. — Ou algo do tipo.

Ao invés dele contorcer as feições numa insalubre careta, o sorriso só aumentou mais. — Legal.

— Isso não é legal, é triste. — Cruzou os braços num biquinho sutil, pendendo a cabeça para o lado para não conseguir compreender como alguém podia ser tão asno em plenos oito anos de idade. O menininho com a bochecha suja por barro e uma poeira vermelha de constrangimento pareceu mudar a opinião na hora.

— Tem razão. Eu disse legal porque é legal você lutar contra o capitalismo e tals… seja-lá o que ele for. — Crispou os lábios antes de mudar imediatamente a pauta, ele não tinha neurônios suficientes para iniciar tal discussão complexa com uma menina tão inteligente. — Você pode me emprestar o seu lápis de cor?

Delicada igual uma hóstia de comunhão, tal pergunta se deitou em seu coração e começou a pesar mais do que deveria. Ela vasculhou em todo o complexo de glória uma informação em meio às bilhões de outras informações enfurnadas no cérebro que pudesse lhe ajudar naquela hora, construiu uma pequena máquina do tempo com força o bastante além das leis da física para a levar através dos oceanos, dos momentos, dos minutos, até em um momento específico da história da humanidade onde existisse uma resposta fácil o suficiente para pousar na palma das mãos, ela procurou nas próprias palavras a voz de seus pais para lhe ajudar a dizer o que poderia responder. Seus pais sempre a ajudavam a responder algo quando não podia. Nada a garotinha encontrou, sequer uma resposta.

O que seria exatamente um "lápis cor de pele?". Majesty realmente desejava saber porque seu rosto se tornava quente, a careta dela a fazia se parecer cada vez mais como uma lagosta feiosa ao passar dos minutos em silêncio e a quietude era ensurdecedora para uma menininha que nunca se calava - honrando a quem era filha.

Possuindo uma caixa inteira de cerca de dezoito belos lápis coloridos no fundo do estojo rosa pastel (o primeiro comprado por Eddie no intuito de incentivar uma viagem da imaginação através do infinito cosmos e nunca mais pensar em voltar para o "normal" de onde saiu, o segundo presenteado por Steve no começo do ano letivo porque sempre era assim), a menininha deixou a mente se dissipar entre a poeira estelar vagando aqui na superfície deste planeta, escalar montanhas, atravessar milhas de oceano, tocar a vastidão do céu incrivelmente azul nesta manhã morna, dançar por entre as constelações e explorar cada pedaço do Universo. Olhando para os míseros dezoito lápis de cor comprados pelo papai dentro do estojo presenteado pelo pai, olhando para a sua pele cor de café quentinho feito no finalzinho de tarde para beber ouvindo alguma conversa da vovó ou comendo um bolo de chocolate, agradeceu eternamente por serem apenas dezoito lápis; um ponto de interrogação enorme rodopiando no ar ali bem no alto de sua linda cabecinha confusa, tocando seus cachinhos cor de mel, a forçou a divagar primeiramente em como a situação seria mais confusa ainda para um coleguinha que tivesse uma caixa de 24 cores, ou 32, ou 36, ou 44. Eram muitas cores, não eram? Que sorte a dela ter apenas dezoito!

Certo, um lápis cor de pele, pensou sem se permitir abalar muito por - pela primeira vez em anos - não ter uma resposta concreta. Mas qual? O problema principal é que haviam tantas cores! Logo surgiu o lápis verde na mente brincalhona dela para estender o amigo e ver a reação engraçada. Seria algo como:

— Verde?

— Sim, verde! Porque se agora estivéssemos em Marte e fôssemos marcianos, a gente seria verde! Bom, ao menos é o que meu pai 'tava conversando com o vovô e o tio Dustin uma vez: os marcianos são baixinhos, verdes e cabeçudos.

— Eu não sei não, Munson…

— Mas faz sentido, não faz?

— Na verdade, faz sim.

Seguindo a lógica dessa sinfonia doce de pensamentos enquanto segurava apertado o estojo rosa, enquanto o silêncio sustenia entre o agora e o futuro breve, Majesty imaginou aos dois num lugar totalmente diferente, mas próximo se compararmos à Marte: Onde Judas Perdeu as Botas, embora não fosse um lugar real, parecia ser bem ali na esquina caso apertasse bem os olhinhos brilhantes escuros iguais ao do papai. Ela chegou à seguinte conclusão: se alguém nascesse num lugar diferente assim, também teria uma cor de pele completamente diferente à dela e aos dos marcianos. Sem uma ideia certa de qual cor exatamente seria esta, ainda tinha certeza de como seria uma belíssima! Emprestaria cerca de três ou quatro, ou talvez até cinco, lápis de uma vez para Tyler começar a pintar uma cor tão diferente.

O amiguinho continuava a lhe encarar pacientemente nos olhos ao tempo que a imaginação dela a levava às alturas: o lápis amarelo lhe vislumbrou, ela o vislumbrou de volta, se imaginou então o entregando na mão estendida do garoto meio suja de areia. Se eles dois fossem peixinhos dourados, não daria muito certo porque ela só tem 18 cores e nenhuma delas é dourada o suficiente, mas se esforçando um pouco para imaginar ambos seriam dourados (porque era esse o lápis usado para pintar o Sol amarelo, o ouro do navio pirata dourado, e peixinhos dessa cor!); este seria o lápis certo numa situação hipotética.

Gostando da brincadeira tomando forma na mente criativa com o passar dos minutos silenciosos, a quietude não podia mais incomodá-la. Papai dizia que quando você não se importava o suficiente com algo para se incomodar, você acabava encontrando uma paz interior em meio a uma vida de exaustão; talvez seja isso que seu pai fazia quando sumia por algumas horas com o carro e expressões cansada para voltar com o rostinho um pouco inchado, olhos vermelhos de chorar, porém um sorriso relaxado no rosto. Majesty nunca entenderia completamente o que seus pais faziam para mantê-la segura, embora quisesse ser algum dia a pessoa quem estaria lá para segurar o seu pai Steve bem apertado nos braços e consolar seu choro - mesmo com o papai Eddie já cumprindo esse papel, a família era uma equipe que se ajudava em todas as situações; um dia ela seria capaz de revezar com os pais para enxugar suas lágrimas, um dia poderia protegê-los, um dia poderia chegar a tocar o que poderia ser uma retribuição por tudo o que os dois já fizeram por ela. Quem sabe ela não pudesse? O futuro é um grande céu incrivelmente azul e um tanque de avião cheio, uma folha em branco esperando a história perfeita ser escrita pelo poeta, uma peça inconstante que seria improvisada na hora pelo dramaturgo certo, seu papai bradava todo dia com um sorriso enorme. Enfim, uma hora o lápis vermelho apareceu no campo de visão dela e logo a menininha pensou no grande dragão vermelho de três cabeças do Dungeons e Dragons guardado no quarto dos pais, aquele que Eddie a presentearia quando tivesse idade o suficiente; talvez essa terra vermelha fosse tomado por pessoas vermelhas de vergonha… ou raiva. Pai Steve falava sempre sobre a importância de sentir todos os sentimentos para depois deixá-los ir.

E se fosse um mundo adorável repleto de alegria? Um com uma camada fofa de euforia e felicidade, daquela camada clara fina cuja enrolava o coraçãozinho dela quando seus pais riam de alguma piada dela, sorriam um para o outro, se abraçavam, e a beijavam na bochecha para ir para a escola ou para se permitir ser levada ao mundo dos sonhos pelo soninho gostoso que lhe atingia perto das oito e meia todo dia. E se fosse um lugar onde todo mundo suspirava de paixão igual Steve suspirava vendo Eddie pegar as suas roupas emprestadas? Um onde todos os rostos sorrissem o máximo que pudessem igual Eddie vendo o rosto amassado do Steve pela manhã. Um onde todos faziam coração com as mãos e distribuiam elogios. Então ela lhe daria um lápis lilás porque o mundo inteiro e todas as pessoas teriam esta cor formosa: "toma aqui o seu lápis, bonitão" ela diria à Tyler como um elogio.

Será que existe um planeta azul? Existe sim, netuno! E os netunianos falariam algo como: "Roc de sipál ues o ratserpme em edop êcov?", do qual seria um "você pode me emprestar o seu lápis de cor?" ao contrário... ou não. Ela provavelmente está viajando no mundo da Lua igual o papai viajava de vez em quando, talvez os netunianos não falassem ao contrário. Eles poderiam falar em russo! Russo é uma língua bastante complicada e engraçada, não é? Ou em francês, porque francês é muito lindo.

Agora tentando finalizar todo esse mundo mágico aberto por sua criatividade sem limites, isso realmente está certo? Veja bem, nós vivemos num mundo com tanta gente diferente, com tanta gente feliz, com tanta gente engraçada, com tanta gente única; línguas diferentes, sotaque diferentes, tamanhos diferentes, pensamentos diferentes, jeitos diferentes, cabelos diferentes, amores diferentes, vidas diferentes, origens diferentes, cores de pele diferentes, e todos são extremamente únicos! Majesty titubeou por um momento na questão, debateu consigo mesma se seria correto dar o lápis rosa para Tyler - uma cor parecida com a dele e utilizada por ele para pintar vários de seus personagens. Ela tocou o lápis, mas então olhou para a própria pele e finalmente tomou uma decisão; empunhou com um brilho de orgulho no olhar o lápis marrom no ar para estender de uma vez por todas o lápis cor de pele. Majesty Munson-Harrington finalmente sabia como responder a pergunta.

Tyler a observou com atenção, olhou para o lápis marrom, sorriu bastante satisfeito após soltar um singelo "obrigada" e começou a pintar vários super-heróis do desenho em cima de sua mesa no canto da sala de aula com o lápis cor de pele. O lápis com a cor da sua pele.

A fina cepa de saudade de casa envolvendo-lhe o peito se findou quando o pai dela com seu par de óculos escuros, uma jaqueta de couro de costas estampadas pelas letras "Black Sabbath" de grafia diferente, um pacote do seu salgadinho favorito numa mão, chegou no exato horário de saída do colégio ao som de um som pesado que, sinceramente, lhe agradava numa maneira estranha. Não porque ela propriamente gostava, mas porque sempre ao escutar lembraria-se do seu pai independentemente do verso ou sample da música; heavy metal exalava Eddie Munson, Eddie Munson exalava heavy metal. — Minha pequena grande maga! Majesty, a Suserana.

— Eddie, o Banido! — Cumprimentaram-se usando os seus respectivos nomes e saudações exageradas que obrigavam toda vez Steve a revirar os olhos amêndoas para o teto do carro, ele faria o mesmo se estivesse ali, contudo por hora era apenas a garotinha e o seu pai um tanto quanto excêntrico. No final do dia veriam-o junto ao estúpido cabelo forjado por todos os deuses que não possuíam um nome.

— 'Tá com fome? — Ofereceu o pacote de salgadinho aberto para a garotinha no assento ao lado. Ela inflando as bochechas gordinhas para titubear num dilema entre aceitar e quebrar a regra, negar e seguir o conselho do pai mais novo, foi a coisa mais linda que Eddie julgou ver naquele início de tarde. O metaleiro havia tido sua dose de fofura pela manhã com o marido e filha acordando-o, então deveria separar as horas do dia tão bom.

— O pai não quer que eu coma essas coisas, ele diz que estraga o dente e faz a barriga doer.

— Bom… — Aproximou-se com um sorriso arteiro no rosto e grandes olhos cheios de diversão, prestes a quebrar o pragmatismo das regras severas do marido. O motor da BMW ainda soando contra as ruas de Boston quando ele começou a fazê-la ceder um pouco. — o pai não está aqui, 'tá?

— Bom… — O biquinho confuso se transformou num sorriso extremamente parecido com o dele. — não, o pai não 'tá aqui.

— Eu não conto 'pra ele se você comer alguma besteira hoje se você prometer não contar 'pra ele que eu comi besteira hoje... e quebrei aquelas malditas xícaras que a sua vó deu 'pra ele.

— De novo, papai?!

— O que eu posso fazer? Aquelas xícaras são tão frágeis quanto a masculinidade do pai dele! — Permitiu-a pensar seriamente na situação, encarando os grandes olhinhos curiosos de chocolate atravessarem o painel de vidro do carro para o céu azul, os lábios se retorcerem em prós e contras, os cachinhos cor de mel caírem feito cascata através das bochechas infladas. Ele sempre apreciava vê-la ter suas próprias opiniões porque isso era coisa de uma pessoa forte, e sua filha era sinceramente a pessoa mais durona já vista na vida - depois de Steve, sua mãe e Nancy Wheeler. Por fim, apertou a mão do pai mais velho com um sorriso confiante no rosto.

— 'Tá combinado! — Pegou o restante do salgadinho para comer.

— Quer ir em alguma lanchonete? Se for 'pra comer besteira, é melhor a gente fazer direito.

— Pode ser. — Revirou-se no banco ao ver a expressão um pouquinho empolgada demais do que o usual dela.

— O que aconteceu com a sua cara?

— O que? Ela 'tá suja? — Imediatamente esticou a manga da blusa preta fina para limpar o canto dos lábios. Aquele olhar de julgamento do adulto a fazia querer rir bastante, mas talvez não fosse o melhor nesta situação quando o homem parece se incomodar gradativamente.

— É aquele menino de novo, não é? — O bufar e rolar de orbes foi o suficiente. — Eu vou fazer a inumação dele, certeza que ele ainda se mija nas calças e pede ajuda da mãe dele 'pra tomar banho. — O que era para se tornar o começo de uma bronca, virou uma explosão de gargalhos pelo comentário meio sem pé ou cabeça. — Você sabe o que é uma inumação?

— Hum… — Apertou os lábios adoravelmente. — É algo tipo funeral, né? — Virou a cabeça para assistir a confirmação do pai no volante.

— E você sabe o que é funeral?

— Claro que eu sei, é quando você morre e as pessoas celebram.

— É tipo isso. — Eles continuaram a rir até o topo do estômago começar a reclamar. Deu uma partida serena no carro, começando a levá-los pelas ruas de uma Boston tranquila pelo convidativo calor sutilmente abafado do dia. Boston, o seu novo lar onde firmou uma família com o amor de sua vida; Boston, o lugar onde ninguém o julgaria por uma acusação de homicídio após o governo e a porra do próprio prefeito de Hawkins lhe inocentar publicamente; Boston, a única cidade onde ele gostaria de estar porque era tratado com uma certa dignidade. Boston é a música gospel que sua mãe costumava cantarolar docemente quando fantasiava sobre abandonar o seu pai criminoso para viver uma vida feliz onde cuidaria dele como uma mãe normal deveria cuidar do próprio filho, porém nunca o fazia; é o sonho pelo qual ele abandonou Hawkins para alcançar; o canto onde ele poderia dizer abertamente "eu te amo" ao invés de sussurrar um "tome cuidado" ou "avise quando chegar em casa" para Steve. "Adeus" não é uma palavra forte o suficiente para pronunciar quando se está deixando o limite entre o pedaço de inferno e lugar nenhum que é Hawkins, mas "vai se foder para sempre" não é exatamente o que ele desejava soltar no dia em que se foi. As coisas são assim para ele só porque em algum lugarzinho de Hawkins no meio de vários trailers, dividindo uma casa em meio aos bosques, formando uma família e terminando o período da faculdade para sair da casa da mãe, estão poucas das pessoas neste mundo que se orgulhariam dele caso o vissem ali em casa dobrando roupas, limpando a estante da sala com o maldito produto de limpeza que o marido insistia sempre em usar, trabalhando numa loja de discos, comendo uma boa fatia de pizza, modelando os lindos cachinhos da sua garotinha, contando-a histórias para dormir, ajudando-a no dever de casa, sendo feliz e não subindo pelas paredes por ser obrigado a escutar as músicas melosas favoritas dela. Alguém em algum pedacinho de Hawkins estaria orgulhoso dele ser mais que o pai dele um dia nunca sonhou em se tornar.

Ele mesmo estava muito orgulhoso do esforço do trabalho árduo de sete anos voltados para uma única coisinha só: sua pequena Majesty. Eddie tinha muito a dizer para a menininha de olhinhos grandes com o brilho de um mundo inteiro de felicidade; queria falar sobre como a amava, sobre como a protegeria de todo o mal do mundo, sobre como a existência da vida dela foi o melhor momento que aconteceu na vida dele, sobre como passou a olhar a vida de um jeito diferente há sete anos atrás, sobre como ela o mudou radicalmente e ele gostou disso, sobre como estaria sempre orgulhoso dela, sobre como estava contente só por vê-la ali olhando para si, sobre como ela é o motivo dele sempre sorrir, sobre como ela é uma das poucas razões para ele acreditar que há coisas valiosas o suficiente nesse mundo para lutar por, sobre como sempre lutaria por ela, sobre como jamais a deixaria cair, sobre como se ofereceria primeiro antes que algo pudesse acontecer com ela, sobre como (mesmo não acreditando em Deus) ele esperava que algo maior e além dele e Steve estivesse sempre protegendo-a para quando os dois faltassem. Se o amanhã trouxer novas esperanças para o mundo, para a minha vida, eu espero que ele traga você.

Lentamente ergueu as mãos até onde parassem no que era indubitavelmente, inegavelmente e irreprimivelmente seu mundo inteiro (cada lado daquele rostinho sorridente, cada bochechinha farta), aproximou-se dos cachinhos dela a sentir um doce cheiro bom cujo ele não poderia apontar com exatidão qual perfume era por ser muitas essências misturada numa só - concluiu no final ser o cheiro de seu motivo para viver um dia e mais outro -, tocou um beijinho amoroso no topo daquela cabecinha linda cheia de histórias recheadas por aventuras e sede de descobertas. Eddie sabia que um dia a sua filha sairia para explorar esse mundo porque era inteirinho dela, porque ela tinha o direito, porque lhe pertencia, então só cabia a ele e Steve construirem um barco forte o suficiente para aguentar a maré, o vendaval, a corrente e não afundar; só cabia a Eddie pedir aos céus algo como "Deus abençoe o formato da sua cabecinha no travesseiro macio de casa", "Deus abençoe esse seu sorriso, que ele nunca se apague", "Deus abençoe seus cachinhos lindos, eles são o mais próximo do paraíso que eu posso chegar", "Deus abençoe a sua risada, ela é a minha luz". — Deus te abençoe por inteira. — Deixou escapar.

Ela riu alto, um gargalho gostoso de ouvir. Rindo com os dois pulmões inteiros, com todo o ar preso na garganta, com toda a felicidade em seu corpo. — Desde quando você virou religioso, papai? — A onda de felicidade atravessando seu corpo tão rápido quanto as ondas tocam a orla fofinha da praia quando a maré sobe (na sua cabeça ele, Majesty e Steve sempre estão lá para tomar um solzinho, comer alguma coisinha e rir das pessoas tentando fugir do mar). Talvez quando as férias escolares da pequenina e as do trabalho de Steve se coincidissem, poderiam ir outra vez à Miam… ou Rhode Island mesmo porque ficava menos de duas horas de Boston. — Você não sabe nem o nome dos doze apóstolos.

— E são tantos assim? — Surpreendeu-se genuinamente. — Não importa, eu só sei que Jesus era o protagonista dessa história de ficção. Pega leve comigo, a idade 'tá chegando 'pro seu pai… e você me deixa biruta das ideias com toda essa coisa de Cyndi Lauper e Madonna, e vestidos, e sapatos e discos. — Lhe apertou as bochechas fartas vendo uma careta hilária nascer no rostinho iluminado dela.

— 'Tá bom, eu já entendi. — Resmungou após o aperto leve cessar. — Quando o pai vai chegar mesmo?

Ele melodramaticamente tocou o palmo no peito - acima de onde o coração está - para fingir uma lamúria no maior nível de dramaturgia de todas. — Você não quer mais ficar comigo? Você 'tá cansada de mim? Eu criei essa menina por sete anos para ser tratado assim, nunca fui tão humilhado na minha pobre vida inteira!

Os olhos dele transmitiam o oposto das palavras. Acontece que quando se ama o tanto quanto ele ama, você fica muito bom em confessar um "eu te amo" pelo poder do olhar. — Não é assim também, papai. — Sentaram-se então despojados no sofá. Os pés em cima do almofadado porque o "adulto da casa" ainda não estava lá para reclamar dessa mania irritante dos dois; Eddie já tinha o hábito, a menina acabou se acostumando também.

O barulho suave da vizinhança se misturou com o barulho abafado das vozes na televisão em seu volume mais baixo, então o começo de "Don't Ever Be Lonely" na vitrola de discos incitou o moreno a compor um monólogo extenso recheado por xingamentos ao péssimo gosto musical do marido. — Não é tão ruim assim se você se permitir escutar bem. As músicas deles são fofas.

— Entre Cornelius Brothers and Sister Rose, Beatles e Madonna, eu prefiro a Madonna. — Resmungou a se inclinar sobre a mesa envidraçada de centro, alcançando um suquinho de caixinha separado ao lado de um prato rosa de pizza. Decidiu pegar os dois para trazer até a ponta da mesinha e abriu o lacre do suco de laranja para colocar o canudinho, erguendo prontamente até o biquinho exigente da filhinha dele. — Aqui, bebê.

— Eu sou uma mocinha.

Olhos chocolates com o brilho de mil constelações rolaram pelo teto, até caírem outra vez na pequenina com um belo rotineiro sorriso debochado. Balançou incrédulo a cabeça. — Você sempre vai ser o meu bebê e é isso, nem adianta falar o contrário sua pirralha! — Apertou-a no braço para ouvir as reclamações baixinhas. Steve fazia isso também de vez em quando ao chamá-lo de bebê, talvez fosse algo específico dos dois. — E como foi a escola? — Esticou o braço até um dos dois pratos na mesa onde estava a sua pizza, dando uma baita mordida pela fome inexplicável por besteira. Ele comeria a pizza inteira se pudesse, o marido descobriria, veria que Eddie mesmo com uma má alimentação ainda se manteria em forma, e então o xingaria até a morte.

— Foi normal.

— Nada a declarar sobre o Tyler? — Murmurou tentando parecer o mais confortável possível com a ideia de um garoto mijão perto da sua filha.

— Nada, ele só pediu emprestado um lápis. — Eds deixaria um "oh" baixinho perambulando pelo ar se o rostinho dela não parecesse tão incomodado com algo.

Aproximou-se um pouco mais num abraço caloroso. As mãos vestidas pelos anéis pesados, anéis estes proibidos de serem usados por pelo menos três anos inteiros de vida da baixinha para evitar algum machucado, seguraram carinhosamente os joelhos dela grudados um no outro. — Só aconteceu isso mesmo? Não tem mais nada 'pra me contar?

Pigarreou tentando dissipar a frustração evidente. — Acho que não. Não aconteceu algo muito legal hoje para ser dito, não além do meu terceiro número da apresentação de mágica ter dado certo de primeira outra vez.

— Tudo bem, isso é bom. — A ouviu cantarolar inocente em concordância. Estava pisando pacientemente em ovos para guiar aquela conversa séria da melhor maneira possível porque existia sim algum problema no meio da situação, ele sentia só de ver a camada fina de tristeza nos olhinhos grandes dela. — Mas você sabe que pode me contar qualquer coisa, não é? O papai 'tá aqui 'pra te ouvir. — O pequeno soluçar quando aquela criança tão abençoada na sua vida deu ao inspirar fundo, ao lhe fitar na parte mais escondida do olhar, apertou-lhe o peito numa aguda pontada lancinante de dor. Pulsando um sentimento estranho de melancolia e preocupação para fora na caixa torácica. — Ei, bebê. 'Tá tudo bem. — Puxou a cabeça dela gentilmente até seu peito para puxar um abraço terno, um onde ela poderia sentir que estava segura de todos os problemas do mundo (porque realmente estava; Eddie e Steve se dobrariam ao meio, escalariam montanhas, andariam milhares de quilômetros, cortariam o próprio braço e sangrariam até a última gota se preciso para tê-la segura, sã e salva). — Eu 'tô aqui com você, amor. — Sussurrou quase mudo. O som do arquétipo do amor mais puro atravessando as notas da voz grave para instalar uma calma pesada no coraçãozinho magoado da garotinha. Ela sentiu que estava segura, ela se sentiu um pouco consolada.

— Jolene me pediu para não ir mais à festa dela, ela disse que os pais dela não querem ela falando comigo porque você é malvado. — Embalou a cabeça do pai num abraço sereno, enroscando os dedos gordinhos nos cachos escuros como se quisesse o proteger. Munson tentou evitar sorrir brilhante enquanto ela entrava no próprio mundinho com um monólogo bastante irritado sobre como os pais da amiguinha eram um idiota por pensarem isso. — Eu disse 'pra ela que não o meu papai, ele é o homem mais gentil do mundo e o meu pai também. Eu não consigo entender como alguém pode dizer isso de outra pessoa sem ao menos conhecer ela!

Tampouco ligava para a série de julgamentos descritos pela criança, ele nunca ligou de ser chamado de aberração e não era agora que iria ligar. Ele estava feliz de verdade, pela primeira vez em muitos anos de vida, pela primeira vez entre tantas perdas e acontecimentos terríveis. Steve veio por meio de uma tragédia, Majesty chegou depois e desde então Eddie Munson sente aquele tipo de felicidade tão grande ao ponto de cheirar nas próprias roupas. Um mundo genuíno de felicidade e orgulho se alastra pelo seu sangue, por cada centímetro da pele, por baixo de cada sorriso, lavando todos os seus problemas quando querem aparecer novamente. Hoje em dia ele sorri tão grande que qualquer um pode ver no meio de uma multidão, do outro lado do mundo e na direção oposta da calçada; hoje em dia ele gargalha tão alto em êxtase que todos os demônios na sua cabeça são obrigados a juntarem as malas e se mudarem; hoje ele está grato por cada pequena coisa das quais é capaz de fazer para as pessoas que ama. — Você está certa, meu bem. Eu também não consigo entender como alguém pode fazer isso, mas há gente 'pra tudo nesse mundo tão grande. Não se preocupe porque o pai pode levar você, 'tá bom? Não vai ter festa estragada não e, se disserem algo, a gente se junta 'pra fazer um show naquele lugar. — Pareceu lhe apetecer a ideia ao sorrir bonitinha. Eddie Munson só sabia duas opções de encarar esta vida difícil; ele sabia jogar duro ou ir para casa, ele sabia ir a 200 milhas por hora ou queimar a borracha pisando fundo no freio. Ele não conhecia algo entre ambas as coisas e preferia assim, não conhecia um meio-termo ou atalho e amava viver desse jeito. — E depois vamos receber uma bronca do pai. — A afastou um pouquinho para acariciar as bochechinhas gordinhas com a ponta dos dedos, arrastar os cachinhos perfeitos para fora do campo de visão e retirar um pequeno cílio das sutis maçãs rubras por poeira vermelha do calor acolhedor dentro de casa. — Faz um pedido.

Os olhinhos chocolate caíram para as pontas dos dedos leitosos do mais velho, um sorriso bobo elevou o canto dos lábios para cima. Adorável. Fechou-os para formular um pedido na mente, soprando delicadamente o pequeno cílio escuro. — Agora ele vai se realizar?

— Agora vai sim. E o que você pediu?

— É um pedido mágico, papai. Se eu disser, ele não vai se realizar. — Eddie só pôde concordar porque existia uma certa lógica no argumento.

— Você tem razão. — Esticou o braço livre para alcançar o botão da vitrola nova ao lado do sofá, Harrington comprou há cerca de três semanas atrás e Eds era quem ficava com a imputabilidade de comprar os discos favoritos - visto que trabalhava numa loja de vinil enorme naquele bairro em Boston -, e poupar-lhe da tortura de continuar ouvindo a música melosa incômoda.

— Coloca Michael Jackson, pai! — Ouviu a sugestão animada da filha.

— Nem por cima do meu cadáver. O papai Steve realmente arruinou o seu gosto musical com toda essa merda pop, indie e rock suave, não foi? O que aconteceu com o Metallica? O Iron Maiden? O Judas Priest? Você gostava tanto de "The Sentinel" quando eu botava 'pra tocar, até ria mesmo sem seus dentinhos. — Resmungou debatendo sozinho com ela. Ao recordar da bebêzinha oferecendo toda a visão de seus dentinhos nascendo num gargalho inocente, ele sorriu bobo. — Você era tão bonitinha sorrindo sem dentinhos... parecia um velho sem a dentadura, mas de alguma forma isso era fofo. — Foi engraçado o beliscão e resmungo manhoso dado pela criança. Afastou a agulha do disco, parando antes mesmo de tirá-lo da vitrola com o comentário seguinte:

— Então bota Beatles.

— Quer saber? — Largou de mão a ideia de mudar o disco, Cornelius Brothers and Sister Rose soava muito melhor em relação à Beatles. Ninguém precisava escutar um monte de bunda branca inglesa com voz melosa quando poderia escutar o puro suco do talento do gueto da América na glória dos anos 70. — Vamos deixar como está.

Uma pequena mordida de nostalgia subiu aos poucos por suas pernas, se enervou nas veias, se instalou nos ossos, aqueceu seu coração, quando o aconchegante doce toque familiar de "Too Late To Turn Back Now" surgiu no vazio silencioso da sala de estar com uma mala feita. Eddie só pôde se lembrar do perfeito rosto sorridente de seu marido: do seu marido e seus estúpidos dentes branquinhos, de como a risada dele queimava um buraco gostoso no seu peito, de como a ansiedade fervilhava na sua face na noite em que se beijaram pela primeira vez e essa música em particular tocava de fundo. Steve o olhava como se ele tivesse acabado de pendurar todas as estrelas no céu e de vez em quando, se fitasse-o de soslaio bem quietinho, ainda veria o mais novo olhá-lo assim. Ele se lembra de cair as suas fichas naquele exato momento do beijo - a segunda vez onde o refrão era tocado na música - que realmente era muito tarde para voltar atrás. Nos dias de hoje, Eddie se vê estudando uma complexa, porém formosa, ciência; Steve era a mais bela das ciências sociais das quais já teve o prazer de estudar, e mesmo após nove anos de casado ele ainda se veria almejando escutar o sotaque cantado mesclado na voz suave do marido para tornar cada ligação uma pesquisa de análise de como o som de sorrir a cada frase se parecia. Amava Steve até doer porque um simplório sorriso já era o bastante para aliviar a alma de Munson de todo o caos na mente dele; Steve o amava tanto quanto, era a maior certeza na vida. — O que é isso na sua cara?

— Isso o quê? — Demorou alguns segundos para se recompor dos pensamentos bobos. Ainda sorrindo como um idiota, olhou para a garotinha tirando sarro de sua cara apaixonada de lagosta. — O sorriso?

— É, ele mesmo.

— Bom, eu lembrei que hoje não vamos escutar uma bronca do papai porque você vai dormir cedo. — Tocou o nariz dela que tinha muito o formato do seu com a ponta dos dedos, escutando muitas reclamações.

— Essa música não é a sua e a do pai?

— Desde quando essa virou a minha música e a do pai?! — Se distanciou um pouco para fingir ofensa, já que era impossível cruzar os braços com ela deitada no peito. — O papai nunca se vincularia com uma música tão horrorosa quanto essa, minha filha! Sabe qual é a música do pai e do papai? — Questionou, sendo respondido por um cantarolar curioso. — Master of Puppets! Era isso que 'tava tocando quando você nasceu no fundo da minha antiga van.

A face adorável dela de confusão se desmanchou num riso sincero. — Não é não, papai. O pai me contou uma vez quando ele me colocava 'pra dormir que você até chorava ouvindo Celine Dion! Ele falou também o porquê do tio Dustin sempre encher o saco 'pra tocar "Too Late To Turn Back Now" toda hora… e disse o porquê de ser tão importante.

— Ah, ele disso isso?! — Indagou com uma pontinha de raiva do marido linguarudo. Ele só havia chorado uma vez com Celine Dion porque estava bêbado, e era Titanic! 'Tá bom?. — E por que é tão importante?

— Porque vocês deram um beijinho enquanto ouviam essa música lá na casa do vovô. — Por sorte o senhor Harrington não havia aberto a porta do quarto para vê-los quase sem as roupas uns minutos depois já no final da canção. Mas, ei, ela era só uma garotinha e não estava indo escutar essa versão mais realista da história de forma alguma. — Ele disse que antes disso você sorriu, pegou na mão dele, fez uma piada terrível e o convidou 'pra dançar. Então vocês dançaram por todo o quarto antes de se sentarem na cama. — O rubor vermelho ía crescendo na carinha de bolacha do metaleiro com um sorriso muito, muito, muito bobo na face. Aquela noite Steve estava espetacular, não que em outras noites já não estivesse, mas naquela em especial o amor estava o arrebatando do chão e mudando sua forma de pensar, de enxergar a vida, então o jovem só parecia o canto mais alto do paraíso onde Eddie nunca pensou em tocar… mas ele tocou. O paraíso entre suas mãos com um sorriso divino no rosto; não acreditava muito em todas essas besteiras de religião ou na existência de Deus, todavia, se realmente houvesse alguns poucos momentos durante a vida onde Deus colocou ao menos um dedinho ali, então apontaria que um desses momentos fora quando encarou os olhos de mel tão brilhantes de Harrington naquela noite - enquanto as estrelas cintilavam em toda glória no escuro céu azul anil. — Foi assim mesmo?

— Na verdade, foi sim. — Riu baixinho com a menina. — O seu pai é um merdinha, sabia? Ele parece um príncipe de algum filme da Disney com aquele cabelo estúpido que se mexe igual ao da Pocahontas e me fez sentir como se eu estivesse num filme muito brega de romance quando me beijou naquele dia.

— Eu vou contar 'pra ele o que você disse! — Brincou sabendo que levaria um ataque de cócegas.

— Oh, mocinha, você não se atreveria!

A música se repetiu pela terceira vez no momento onde ambos decidiram dançar pela sala para honrar os velhos hábitos; Steve e Eddie dançavam juntos algumas vezes ao estarem sozinhos, na festa de casamento, continuaram dançando quando uma jovem do Texas se voluntariou para lhes dar um bebê, Harrington dançava com sua filhinha sempre que podia e existiam dias onde Munson se dispunha também a isto. Fazia um tempinho desde que dançavam, portanto colocaram suas melhores roupas, os seus sapatos mais limpos, desligaram a televisão e dançaram lentamente com sorrisos nos rostos até se cansarem o suficiente para pensarem em ir dormir.

A garotinha estava no colo do seu pai, então ele se relembrou dela dizendo "Não o meu papai, ele é o homem mais gentil do mundo". Em breve a criança pequena teria um tempo difícil para processar que Eddie reservava aquela parte mais doce dele somente para ela; ele veste o seu maior sorriso só para ela, e é um sorriso tão grande que os dois e o pai Steve poderiam morar para sempre nele; ele escreve todo o ano uma música de aniversário para ela, e em toda manhã do dia 20 de Julho estaria lá acordando-a com beijinhos para cantar. Isso era fofo, pensou consigo mesmo ao fechar os olhos para ouvi-la resmungando de sono ainda em seus braços, os dois ainda dançando lentamente a doce música, isso era adorável e continuaria sendo até ela fazer dezoito anos, ele aparecer cantando uma música vergonhosa na porta do dormitório dela da Universidade, os amigos dela comentarem algo como "seu pai é um pouco estranho" e ela concordar com um "é, ele é estranho e não é pouco", então terminar com "mas é a melhor maneira de ser amada e ter alguém que se importa verdadeiramente com você". Eddie queria ter a oportunidade de ser para Majesty tudo o que seu pai não foi para ele. Eddie queria fazê-la sentir amada e importante. Eddie queria fazer piadas terríveis todas as manhãs, vê-la crescer, envergonhá-la com algum cover do Metallica, perguntá-la sobre o dia, fazer o jantar para ela, ajudá-la na lição de casa, levá-la para a escola, trazê-la da aula de balé, desenhar com ela, organizar suas festinhas de aniversário, cantar bem alto todos os anos o "parabéns para você", decorar o nome de cada um dos personagens daquela merda de Meninas Superpoderosas, levá-las com suas amiguinhas para o parquinho, assistir o filme favorito dela, ouvir as suas músicas prediletas e estar presente; Eddie queria que ela vivesse tudo o que ele não viveu, queria fazê-la melhor que ele um dia já foi, queria estar lá para apoiá-la e ter a oportunidade de entregá-la a vida feliz e estável que ele nunca possuiu. Eddie queria ser o pai que ele sempre desejava, mas que nunca realmente teve.

Ele também desejava que ela fosse forte, forte como o pai dela, forte como o avô dela, forte como toda a família; forte como jamais Munson sonhou em ser. Ele quer que ela descubra o lado bom de encarar a vida. Eddie quer que sua filha seja tudo o que ela quiser ser, porque não há problema em ser quem você nasceu para ser se isso te faz feliz; uma pessoa dona de seu próprio corpo, uma mulher dona de sua própria vida, uma personalidade selvagem, um coração indômito, um gatilho de uma arma esperando para atirar contra os problemas da vida quando preciso ou uma faca afiada para cortar as cordas que te impedem de voar, um pássaro livre, um avião no céu incrivelmente azul, a primeira estrela no céu da noite, uma constelação do caralho, uma punk muito foda, uma soldada corajosa ou até uma filha da puta muito má e heavy metal, ele estaria orgulhoso dela de qualquer forma. Ele esperava de coração que ela não precisasse enfrentar o lado ruim da vida, mas reconhece a maneira como as mulheres parecem sempre estar enfrentando diariamente os piores momentos porque a sociedade estava afundada até o pescoço nesse fundamento do sexismo e no patriarcado criado por fracotes inseguros que têm muito medo das mulheres mandarem em seus próprios corpos, então Eddie quer mais do que tudo ver sua filha sabendo a como gritar um "não" e querer isso de verdade. Ele não desejava ver sua filha tão pequena agora em seus braços sofrendo tudo o que sua mãe sofreu por não conseguir dizer um "não", por não conseguir se desvencilhar de uma drástica dependência emocional e lutar pela própria liberdade, então esperava que Majesty soubesse gritar a porra de um "não" tão alto quanto o dia em que ela nasceu. Rezava para ela saber lutar, assim como Steve e ele eram abençoados por todo o espírito de luta queimando dentro deles apesar de todos os traumas.

— Vocês estão muito quietos — O sotaque mais americano possível cantado na familiar voz aveludada foi o responsável principal por enviar ondas de prazer pelo seu corpo, arrepiando-o dos pés à cabeça mesmo sem desejar admitir para si mesmo. Nove anos de casado, onze anos de namoro, uma filha de sete anos, e ainda assim parecia um adolescente com os hormônios à flor da pele quando parava para assistir Steve Harrington e a cor fantástica de seu cabelo. Steve Harrington e o seu perfume natural. Steve Harrington e a linda curva sutil do seu sorriso. Steve Harrington e seus lábios macios no dele. Steve fodendo Harrington gemendo na cama dele e pedindo por mais. 'Tá bom, os pensamentos dele bateram tempo recorde de pensar no marido em situações um pouco mais… sugestivas. —, devo me preocupar?

A garotinha, que acordou com um pequeno adorável pulinho assustado, deixou o colo do pai mais alto com um sorriso fofo no rosto para correr até o outro. Só conseguiu jogar as malas no chão antes de receber a filha empolgada nos braços. — Pai, você chegou!

— Sim, meu bebê, eu cheguei. — Pressionou um sorriso contra as bochechinhas fartas dela porque não conseguia se conter nem para os beijinhos de "bem-vindo de volta". — Como foi o dia?

— Foi tudo de bom! Eu e o papai estávamos dançando.

— Ah é? Espero que você tenha guardado uma dança 'pra mim então, eu quero dançar também.

— Ah, eu 'tô cansada. — Iniciou a chuva hilária de reclamações. — Uma pessoa tão importante e requisitada quanto eu tem uma agenda muito lotada, então não posso fazer exceções. Mas o papai 'tá disponível.

— Melhor do que nada, né? Ele pisa no meu sapato e tem dois pés esquerdos, mas pelo menos não vou ficar sem dança. — Bufou num meio sorriso soprado ouvindo o "vai se ferrar" do outro lado. Os olhos de mel cheios de ternura subiram até o metaleiro, ocasionando um pequeno solavanco de fascinação no homem preso naquela visão perfeita. — 'Tá olhando o que?

— Essa sua cara de idiota. — Rebateu afiado para o marido. Harrington então soltou uma risada ofegante para atravessar a sala com a filha ainda no colo. — Que bom que você 'tá de volta.

— Eu também estou feliz de estar de volta, mas acho que você está mais. — Perdurou esse joguinho divertido de provocação escondido no mais puro conflitante sentimento que é o amor, isto é, até a ponta dos dedos branquinhos de Eddie se arrastarem com a mais pura brandura pela extensão da pele quente lavada após um treino exaustivo de Steve. O toque ainda estava macio por baixo do tato, então tinha certeza de como sentiria o cheirinho gostoso do sabonete abraçando a pele suave do mais baixo.

— Eu também acho. — Murmurou com avidez sôfrega para calar aquele mal do desejo que queimava um buraco no seu peito e lhe destinava os pensamentos. Seus lábios de fogo encontraram-se no meio do caminho entre incitações provocativas e sorrisos sórdidos, apagando a amargura da tristeza que os quilômetros de saudade tomava em seus corações. Os estalos molhados, os sorrisos devotos, as respirações irregulares. Ele puxaria o cabelo de Steve e o faria ofegar até se desmanchar nas suas mãos para esquecer como pronunciar o nome próprio, então lembrou da criança risonha entre ambos.

O menor foi o primeiro a pigarrear com os lábios vermelhos pelo inchaço e topo das bochechas mais vermelho ainda. — Vocês já jantaram?

Silenciosamente os Munson se encararam para selar um acordo com os olhos, então se voltaram para o exausto-de-um-dia-cheio-de-trabalho Harrington. — Sim. — Mentiras.

Estreitou as orbes meio sem acreditar, porém sem forças para brigar. — Okay então. — A garotinha fora para o chão porque seu pai queria se sentar propriamente e descansar até amanhã de manhã. O dia no trabalho foi exaustivo porque o treinador estava uma pilha de nervos por terem perdido para o Atlanta Hawks no jogo do último final de semana, e em poucos dias estariam numa jornada para enfrentar Michael Jordan em um do possível último ano dele pela liga, portanto até os jogadores do time de reserva estavam suando feito uma cadela para se manterem no nível de atleta de alto rendimento (uma má notícia para a dorzinha chata no joelho o perseguindo durante semanas). Repentinamente o rostinho cansado do homem se iluminou em uma felicidade genuína, instigando o mais velho a perguntar:

— Ei, amor. — Estalou os dedos na frente dos olhinhos vertendo em euforia do menor.

Cantarolou uma indagação. — Hun?

— Aconteceu alguma coisa empolgante hoje no trabalho? — Moveu-se até a bancada onde estava a caixa de pizza, abriu e separou duas fatias de pepperoni num prato, esticou o braço até a geladeira para alcançar duas boas garrafas conservadas de cerveja, então acomodou o peso na cadeira ao lado do marido. Não poupou em colocar os pés vestidos por uma meia confortável no colo acolhedor do outro, sentindo imediatamente o começo de uma das melhores massagens de sua vida. Steve tinha mãos ótimas, ele sabia disso porque, bom, eram nove anos de casados, embora este último citado afirme sempre que as mãos de Eddie são divinas: quem era ele para discordar?. — Você parece feliz.

— E estou. — A versão animada dele não se demorou em aparecer, com a euforia de um pequeno cachorrinho para contar-lhe o incrível dia no trabalho. O moreno só conseguiu rir enquanto comia uma das fatias no prato do jogador de basquete e assistia de relance a filhinha deles brincar de escalar o batente da porta do quarto dela. — Eu conheci o Larry Bird! O Larry "fodendo" Bird em pessoa foi dar uma olhada no rendimento do time!

— Isso é muito foda, meu amor! — Extasiou falsamente, rezando para que o marido não começasse a conversar sobre dados e percentuais do jogo porque ele não tinha noção de quem diabos era Larry Bird, quanto mais o que significava ter uma média de sete assistências por jogo. — Mas... qual deles é o Larry Bird mesmo?

O mais baixo parecia perplexo do que propriamente ofendido, como se tudo não passasse de uma brincadeira. — Você 'tá zoando com a minha cara, né? — Questionou em azedume. — Como assim "qual deles é o Larry Bird"?!

— Eu só assisto esses jogos porque você 'tá lá, acha mesmo que vou ligar 'pra memorizar o nome de um cara que só joga uma bola num aro e corre em círculos com homens altos todos suados querendo pegar a bola dele? — Uma parte do cérebro do metaleiro começou a divagar profundamente sobre o assunto e a visão extremamente detalhada na cabeça pareceu lhe interessar. Ele correria suado num uniforme ridículo para pegar na bola de Steve se tivesse o corpo feito para correr, mas coincidiu de Eddie ser o mais perfeito sedentário de Boston. — Se bem que, pensando agora, parece divertido... — Ignorou imediatamente todo o ciúme recaindo sobre si em razão do sorriso malicioso no rosto do maior, exclamando levemente irritado:

— É o branquelo! O Larry Bird é o branquelo alto que jogava quando a Janis estava grávida da nossa filha, e eu conheci ele hoje! Sabe o que isso significa? — Pegou a garrafa de cerveja dos palmos do outro ao ver toda a dificuldade para abrir, colocou a tampa na boca para abri-la com os dentes. Munson sorriu daquele jeitinho gostoso e obsceno quando teve de volta a bebida (não deixando de sussurrar um "você é muito sexy" para o marido).

Novamente mergulhou num silêncio profundo com aquelas expressões cínicas de entendimento, para suspirar pesadamente em seguida. — Não exatamente.

— Significa que há uma grande chance dele me notar! E se ele me notar, significa que... — Foi interrompido por uma piada infame do mais bem humorado.

— Você vai me largar e finalmente se casar com ele, a sua primeira paixão que abalou a sua certeza hétero e te fez perceber que você 'tava num armário. É sério, amor — Pausou para dar um bom gole da cerveja. —, essa sua obsessão pelo branquelo de 1,90 é assustadora. Você tem fetiche em caras altos ou algo do tipo? Eu não sei se sou alto o suficiente 'pra suprir essa sua fantasia.

Limitou-se apenas a fuzilar o pai de sua filha com o olhar por estar muito cansado de discutir sobre o mesmo tópico, ignorando praticamente a sentença toda. — Ele tem dois metros e seis, na verdade. Enfim... Isso quer dizer que eu posso ter uma chance de ser um titular, não só um reserva que é usado de apoio quando alguém tem uma lesão! E isso quer dizer que o salário vai aumentar, então... — Prendeu o sorriso embebedado de paixão crescendo no canto dos lábios, fazendo-os se enrolar para cima igual videiras ou os cachinhos encaracolados de Eddie Munson.

— Então é algo muito, muito, muito bom! Eu entendi o espírito da coisa, amor. — Beijou o topo da cabeça de Steve; Steve e seu cabelo dadivado pelo canto mais divino do paraíso. Ele tinha um cheirinho tão bom e Eddie só... não conseguia ficar longe por muito tempo.

— É sim. E eu posso ser o próximo Larry Bird da nova geração porque, sinceramente, o Boston Celtics 'tá precisando muito. Sério, a rotação deles 'tá um lixo!— O metaleiro apenas limitou-se a olhar com fascínio para o marido sussurrando coisas estúpidas - das quais ele não entendia uma fagulha - de maneira tão sensual. A forma como seus lábios se moviam para fazer sons graves, a forma como se esticavam para curvar um sorriso esbelto, o jeito que as palavras eram pronunciadas sem uma mera intenção de ser vulgar, mas era. Inspirou fundo, esta inspiração barulhenta fez Steve se calar com os lábios merlot entreabertos. Os gostosos lábios de fogo que faziam Eddie um perfeito escravo quando o outro queria. — Desculpe, eu só continuo falando e não paro mais.

O olhar envergonhado para os dedinhos brincando uns nos outros acima da mesa fez o peito do antigo mestre de D&D se contorcer em felicidade, limitou-se a sorrir ladino. Dedilhou os dedos pela madeira escura da mesa fria como uma pequena caminhada até se encontrar com a mão macia e quente do marido, um sorriso tímido cresceu nos lábios merlot dele ao que finalmente entrelaçaram afetuosamente os palmos. Eddie ergueu a mão do marido até beijar onde estava a aliança dourada e grossa do dedinho gordinho. — Não se preocupe, bebê. Eu gosto de te ouvir falar, o som da sua voz é como uma orquestra… ou sinfonia do diabo 'pra me atentar das coisas não pecaminosas.

Assistiu com um sorriso na face as orbes melhores rolarem através do teto pelo apelido meloso. — Eu realmente não sei o porquê de ter acabado me casando com você.

— Oh, vamos, amor; nós dois somos o casal perfeito e totalmente opostos. Você me ama e não há como negar mais depois de onze anos juntos. — Brincou com a mão livre para afastar a pequena mecha do cabelo perfeitamente cheiroso e macio de Harrington, o antigo Rei de Hawkins, caindo em seu belíssimo rosto rubro pela febre da timidez que lhe acometia pelas provocações. Steve cintilava na glória dourada de seus 32 anos e era muito gostoso.

— Como foi o trabalho? 'Tá tudo bem com aquele gerente chato? — Decidiu mudar de assunto o mais rápido possível para essa conversa não acabar muito rápido neles dois numa cama após às 20h, onde Majesty dormiria sã e salva da obscenidade sem limites de ambos os pais.

— 'Tá sim, eu acho que meti medo nele sem querer depois daquele dia conversando com o pessoal do D&D e agora ele evita passar no mesmo corredor. Não se preocupe, ele nunca mais vai pegar no meu pé. — Sorriu empunhando orgulho. — No final, Hobbes estava certo quando dissertou sobre como o medo é o melhor recurso para se encontrar o respeito.

— Contanto que não aconteça nenhuma porradaria, estou feliz em ouvir isso. — Sorriu por debaixo das sobrancelhas erguidas em confusão. De alguma maneira era fofo ouvir ele falando tão abertamente essas coisas macabras ou mórbidas, num passado distante ele se apaixonava um pouco mais a cada dia que ía ver Dustin numa sessão de D&D e se deparava com Eddie "o esquisito" Munson narrando uma jornada fúnebre para as profundezas do inferno.

— Ai, filho da puta! — Resmungou gargalhando num assobio de dor ao sentir as mãozinhas demoníacas do marido estalarem cada um de seus dedos dos pés. O outro particularmente achou graça no praguejo instantâneo.

— Desculpa, paixão.

Zombou assistindo o sorriso atrevido nos lábios vermelhos do acastanhado crescer. Ah, se o menos pudesse arrancar aquele estúpido sorrisinho perfeito das expressões dele. — Você não sente muito nem um pouco, Harrington.

Encararam-se por um pequeno momento, numa febre de tensão sexual orbitando entre o pouco espaço entre ambos até instalar-se nas suas peles. Os lustres dourados da cozinha brilhando feito faróis nos olhos profundos de Munson, o coração batendo no mesmo ritmo da alma cantando em louvor - abrindo um buraco na caixa torácica pela força do pulsar -, faminto para calar o mal da luxúria lhe desatinando quaisquer pensamentos racionais, almejando a satisfação de ter o corpo encaixado no do amante. A razão se derretendo pouco a pouco na avidez pelo prazer imediato porque, pelo bom Senhor, Steve parecia estar roubando todas as estrelas do céu àquela noite como se não fosse absolutamente nada e ele sentia um certo desespero para tomá-lo nas mãos. — Dustin me ligou — O menor lembrou da necessidade de respirar para se manter vivo, portanto suspirou para arrancar o marido dos pensamentos claramente entorpecentes. —, disse que chegaria no domingo. Eu nem sabia que aquele pestinha iria vir. — Seduzido pela forma da qual o cabelo castanho tão brilhoso se mexia de maneira formosa com o mínimo de movimento, seguiu-o usando os implacáveis olhos silenciosos pela vastidão da cozinha inteira. — Você esqueceu de me contar, deveria ter me ligado 'pra avisar. No centro da cidade é sempre mais fácil de comprar as coisas 'pra uma festinha. — Estremeceu ao virar-se de frente para o silencioso homem esguio, encontrando o poder palpável do olhar indecifrável dele sob seu corpo. Encolheu os ombros um tiquinho na vergonha boba.

— E mais barato também. Ele disse que todos, inclusive ele, estavam bravos porque nunca mais nos viram e nós nunca mais fomos à Hawkins. Então eu respondi que dificilmente colocaríamos o pé naquela cidadezinha, agora com a Majesty crescendo rápido muito menos, e ele praticamente se ofereceu para vir 'pra cá; eu fiquei tão empolgado que acabei deixando ele me manipular para um churrasco.

— Churrasco?

— Bom, foi prometido que um churrasco aconteceria no domingo.

— Nesse?

Concordou suspirando. — Sim.

— Mas nós temos que arrumar tudo, comprar um montão de coisas, preparar o quarto de hóspedes, e domingo é daqui a dois dias!

— Você sabe como o garoto é difícil. — Mexeu na aliança vestida muito bem no dedo, sustentando a guerra de olhares silenciosos por o que parecia uma eternidade. Sorriu provocante ao vê-lo mergulhado numa aflição de timidez evidente a se escorar no balcão. — Desculpe, bebê, eu não te avisei só porque não queria te interromper no trabalho. — Steve envergonhado parecia tão pequenino e adorável.

— Você nunca atrapalha. — Eddie arregala levemente os olhos porque ouvir isso era como faltar o chão embaixo dos seus pés ou o ar dos seus pulmões. Ele tinha-o ao lado por onze longos anos e ainda não havia se acostumado em ser amado de uma forma tão intensa assim. Sentia que em algum lugar dentro do corpo, o sangue errou de veia e se perdeu no pulsar forte do pobre coração apaixonado. Ele tinha muita sorte, não tinha?

Sussurrou parecendo um garotinho envergonhado. Afundando mais e mais no assento, a cadeira parecia ficar cada vez maior. — Te amo.

— Eu também te amo, meu bem. — Se declarou casualmente. Embora sussurrassem as mesmas palavras num beijo de despedida em todas as manhãs durante esses nove anos de casados, escutar um "eu te amo" ainda causava um turbilhão de emoções em suas cabecinhas apaixonadas. Observou-o num silêncio aconchegante se abaixar para alcançar um copo na lava louça. — Edward Munson! Você colocou as xícaras que a minha mãe deu de presente na máquina de lavar louça outra vez?! — Então o sangue de Eddie gelou por inteiro ao se esquecer deste detalhe. — Eu disse que elas são delicadas, seu idiota! Duas ficaram rachadas e uma quebrou!

— Elas não eram fortes o suficiente 'pra esse mundo, meu anjo. Elas pereceram enfrentando a face da realidade fria e implacável! Elas... — Seu monólogo de mestre de RPG fora cortado na mesma hora por um resmungo chateado.

— Me poupe, Munson! Quem é o idiota que bota essas coisas na máquina de lavar louça? No manual diz que não podem ir lá!

— Tudo é capaz de ser lavável na máquina de lavar louça se você não se importa o suficiente com isso!

Encaixou profundamente irritado as mãos na cintura para encará-lo nos olhos, suspirando momentos depois ao sentir tal sentimento se dissipar. Desejava bater em todo aquela carinha bochechuda estúpida dele e… não podia ficar bravo com Eddie e seu sorriso resplandescente tão belo quanto a fúria do Sol, poderia? Não, não quando os olhinhos dele se iluminavam numa felicidade tão linda. Não quando o sorrisinho dele parecia o de uma criança e o rostinho suave se assemelhava a um pãozinho macio de canela recém saído do forno. — Esse é o seu lema?

— Esse é o meu lema 'pra vida toda, bebê.

Achou uma gracinha vê-lo cruzando os braços num biquinho irritado. — Não me chama assim, eu 'tô bravo com você.

— Vem cá que eu resolvo isso agora. — O barulho da cadeira arrastando enviou uma onda de adrenalina por todo o corpo, mas o som seguinte de Munson batendo na própria coxa com suas mãos cheias de anéis e um sorriso devasso na face injetou um nervosismo gritante em cada gota de sangue dele. Deixou o orgulho de lado para rir baixinho e hesitantemente caminhar até onde o maior estava. — Desculpa, 'Stevie. — Rodeou suavemente os braços compridos e firmes por toda a extensão da cintura do menor, sorrindo entre beijinhos gentis nos lábios merlot. Arrepiou-se sentindo o gelado dos anéis encostar na pele lânguida tão quente. Harrington parou de se inclinar para alcançar a maldita boca entorpecente do metaleiro no intuito de se acomodar no colo oferecido, só aí continuando a beijá-lo calorosamente. — Eu prometo que não faço mais isso.

— Eu acho bom mesmo, porque quando a gente revezar na cama você vai estar ferrado. — Murmurou entre o pouco espaço separando-os.

Riu debochado. — Você vai me punir por causa de umas duas ou três xícaras?

Reclamou lhe entregando beliscões. — Elas não eram "umas xícaras", elas eram "as xícaras"!

— 'Tá bom, 'tá bom, eu entendi. — Permaneceram rindo por um tempinho, até ouvirem uma voz doce.

Ela conteve-se em sorrir instantaneamente com a visão de ambos rindo sozinhos, envoltos por seu próprio mundinho. Majesty poderia escrever uma vasta lista de todas as coisas que herdou e aprendeu com seus dois pais, mas talvez a principal fosse sua capacidade de amar. Seu amor era um superpoder criado pelo amor dos seus dois pais: herdado pelo seu papai, quem lhe deu o seu próprio sangue, olhos chocolates e cabelo encaracolado, e o seu pai, quem lhe deu o último sobrenome e uma enorme confiança; ela foi concebida através de um amor intenso, forte e poderoso que recusava a se quebrar desde muito antes da sua existência. — Pai?

— Oi, meu bem. — Ambos cessaram a série de gargalhos para tentarem parecer mais apresentáveis para a garotinha inocente. Sorriram orgulhosos ao verem ela aonde terminava a cozinha e começava a sala de estar, ela havia crescido tão rápido em tão pouco tempo.

— Vocês podem ler uma história 'pra mim?

— Claro que sim, bebê! — Steve foi o primeiro a se levantar para encontrá-la num abraço apertado, Eddie indo atrás a seguir ambos os Harrington pelo pequeno corredor até onde iniciava o quarto.

Questionou com a voz rouca. — Está com sono?

— Uhum. — Cantarolou sonolenta, prestes a ir para o mundo dos sonhos quando sentiu o papai sentar-se atrás do pai no colchão macio e quentinho da cama.

Inclinou-se para pegar qualquer livro na estante ao lado da cama rosa. O tilintar dos anéis contra o metal do móvel a fez acordar um pouquinho mais para conseguir responder. — O que você quer ler hoje, princesa?

— Eu quero que vocês contem alguma história com a tia El.

— Eu não sei se a maioria das histórias com ela são calmas 'pra fazerem criancinhas dormirem. — Steve esfregou calmamente a barriguinha dela embaixo dos cobertores quentinhos. Só eles sabiam o quanto batalhavam para vê-la assim: confortável, alegre, a salvo, quentinha sob um teto feliz.

— Então com o tio Dustin! Ou a tia Max e o tio Lucas.

— Tudo bem, tudo bem. — Acalmaram-a na esperança de poderem a levar para o mundo dos sonhos até às nove.

— Mas só se prometer ir dormir depois disso e não nos acordar bem cedinho pela manhã. — Harrington riu da barganha proposta pelo marido.

A menininha estendeu os dedinhos gordinhos para um aperto de mão. — Trato feito. — Ela quase que sumia por entre os lençóis de tão pequenina, era particularmente fofo.

Com sorte, depois das nove, eles poderiam discutir o problema das xícaras e Dustin aparecendo em sua porta com o resto dos pirralhos de uma forma diferente lá entre as quatro paredes grossas de seu quarto.