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That Summer Night

Summary:

Wooyoung vai descamando cada parte de San até descobrir que suas imperfeições são exatamente o que fazem dele perfeito.

Notes:

Contém descrição explícita de tentativa de suicídio, se for sensível, por favor, não leia! Também tem alguns papos sobre existência e morte, algo que eu gosto muito mas não tenho com quem tagarelar. Qualquer coisa deixe algum comentário, obrigada ~

Work Text:

Mingi vivia me convidando pra sair mas eu nunca aceitava. A autopiedade fazia parte de quem eu era agora, éramos inseparáveis, mas a pressão do meu pai me fez ceder. Eu podia ver nos olhos da minha família a vontade que eles tinham que eu voltasse a viver e esperava que estivesse escrito na minha cara que eu queria morrer.

Não queria encarar as pessoas e não queria que elas me encarassem, mas acho que foi apenas minha consciência me sabotando mesmo. Na verdade ninguém ligava.

Jongho não bebia e acabou ficando no volante, por isso ele seria nossa mãe naquela noite. Mingi e eu começamos leve, fazia muito tempo que não sentia o gosto do álcool, mais especificamente dois anos. Muitas memórias ruins disso...

Depois de duas horas, quando o Song já começava a falar pelos cotovelos, eu percebi que havia um garoto me olhando, sabe-se lá por quanto tempo. Ele chegou no Jongho e mandou perguntar se eu era solteiro. 

Esperto.

Depois de então só lembro dos flashes: ele me arrastando pro banheiro, nosso beijo molhado, ele perguntando se eu estava a fim de ir pra casa dele, o tchauzinho safado que lancei pros meus amigos e a apreensão em seus rostos. Não achava que esse cara ia me sequestrar, mas se o fizesse, não reclamaria também.

Me lembro vagamente dele me jogando na cama, desbotando a camisa enquanto me beijava e a parte que eu tirava a prótese. A expressão que ele fez no momento foi a coisa mais nítida daquela noite. Ele deu um sorriso, como se aquela fosse uma parte bonita de mim e me beijou.

Depois disso não lembro mais de nada.

 

-

 

— Você quer alguma coisa pra comer? — o anfitrião me perguntou, percebendo meus movimentos na cama. Se eu lembrava bem, seu nome deveria ser Wooyoung.

— Hum... não. — murmurei.

— Tá, eu vou descer e pegar um café pra gente. — falou, colocando a carteira no bolso. Ainda sonolento, me sentei na cama, procurando com os olhos onde podia ter deixado a minha perna.

— Vai deixar um estranho sozinho na sua casa? — provoquei. Ele analisou a situaçao com um sorriso e se virou, sem dizer nada.

Não havia ironia ou piedade. Ele estava lidando com aquilo e foi naquele momento que me vi atraído por ele - de uma forma não sexual.

Quando cheguei em casa, minha mãe me bombardeou de perguntas. Jongho e Mingi dormiam na sala então provavelmente contaram para minha mãe que eu dormiria fora.

Eu pude ver a esperança crescendo em seus olhos e aquilo me sufocava. Não queria que pensassem que esse era o grande passo para que minha vida voltasse ao normal, porque não era.

Entrei no quarto e me joguei na cama. Ainda podia ver os flashes daquela noite, o farol do caminhão, o meu corpo preso, a voz dos paramédicos, a dor fantasma nos primeiros dias. O horror da minha mãe descobrindo que tentei me matar.

Eu trabalhava na mesma empresa fazia cinco anos, e em dois meses seria o sexto aniversário. Trabalhar com eles era tudo o que eu sabia fazer, estava certo que era minha vocação. 

Não tinha entrado na faculdade e pelo rumo das coisas, também não iria. Mingi estava feliz no último período, se preparando para a formatura e eu estava orgulhoso dele. Eu me considerava feliz, tinha tudo o que precisava até meu chefe me dispensar sem nenhum motivo específico.

Senti o mundo desabar diante de mim, era como se tudo o que eu fiz tivesse sido em vão. Foram anos de dedicação àquela merda, eles não podiam me cortar assim. Eu era um bom funcionário, um bom colaborador, porque aquilo estava acontecendo?

Depois da discussão, eu peguei o carro pronto pra dar um fim naquilo tudo. Só me lembro de ouvir o choro da minha mãe abafado nos braços do meu pai. E a sensação do meu corpo incompleto.

Depois disso, eu nunca mais quis viver. Todos os dias da minha vida foram arrastados, existindo apenas por conveniência. Meses em consultas e fisioterapias que não adiantavam de nada. Meus pais e amigos insistindo para que eu saísse, me divertisse, vivesse, mas eu não queria. Eu não queria superar.

Eu queria voltar ao normal e isso não aconteceria, então, de que adiantava?

Perdi a formatura do meu melhor amigo porque não conseguia sair da cama. Não queria ver ninguém, não queria fazer nada. Às vezes eu ficava um dia inteiro sem comer, porque sentia que não merecia. 

Foi quando eu desisti de tudo pela segunda vez.

Eu estava no banheiro, fazendo a barba - coisa que não fazia em uma semana, quando me deparei com a lâmina. Parecia convidativo, a ideia de acabar com tudo de uma vez. Dessa vez seria decisivo.

Enchi a banheira e entrei. Os dedos já estavam machucados pelo processo de retirar a lâmina do barbeador, mas isso não importaria mais em alguns minutos. De primeiro, o corte não doeu, senti apenas um ardor se intensificando. Repeti o processo no outro braço, assistindo o sangue escorrer, manchando a água.

Mas eu esqueci de trancar a maldita porta.

Mingi entrou no banheiro desesperado com a cena e repetia frases prontas como "respira", "fica comigo", " vai ficar tudo bem".

Aquele provavelmente foi o pior dia de sua vida eu nem conseguia me culpar por isso. Não pedi para ser salvo.

Acredito que esse era o motivo da surpresa quando entrei pela porta sorrindo. E vivo.

Acho que nem eles imaginavam que isso era possível.

 

-

 

Wooyoung era uma pessoa muito interessante de conversar, mas às vezes me cansava. Já tínhamos passado da fase do flerte e dormimos juntos depois daquela noite mais duas vezes. Ele era um bom boqueteiro e era muito bonito, o problema era eu.

Não queria tornar as coisas sérias e não queria dar esperança para minha família. Sentia que não era justo com ele estar com alguém como eu. A verdade é que eu não me sentia digno.

— Vocês ainda conversam? — Mingi perguntou durante o almoço. Ele era praticamente um segundo filho para minha mãe, morava mais na minha casa do que na dele.

— Às vezes. — respondi preguiçoso.

— Ele é bonitinho, né?

— É.

— Ah, San, fala sério! — ele resmungou. — Tô tentando criar um diálogo aqui. 

Desculpa se eu não quero falar disso, Mingi.

 

-

 

Wooyoung me mandava Reels - tentei não julgar - e memes de procedência duvidosa. O humor dele era besta, tão besta que chegava a ser engraçado. Nossas conversas não tinham muita profundidade e nunca chegamos a nos conhecer verdadeiramente. Não sabia com o que ele trabalhava, seus filmes favoritos ou o que achava da morte.

E ele não sabia sobre minha vida, minhas músicas favoritas e o motivo de eu ignorá-lo tanto.

Às vezes era proposital, às vezes, a depressão batia.

Em uma das manhãs acordei chorando, atordoado do pesadelo que tive. Eu tentava me matar mais uma vez e meus pais assistiam, sem poder fazer nada, apenas chorar. Senti culpa com aquilo.

— Me desculpa, me desculpa por ser quebrado. — chorei nos braços do meu pai. Ele não entendia nada, mas estava do meu lado.

Eu era muito ingrato mesmo.

 

-

 

Mingi e Jongho me desafiaram a sair de casa e pintar o cabelo. Eles leram em algum site - escrito por algum coach, eu podia apostar - que pintar o cabelo poderia ser terapêutico para esse tipo de caso. Honestamente, eu não me achava mais bonito e tinha medo que isso me deixasse feio.

Foi exatamente o que aconteceu.

O profissional de merda manchou meu cabelo com descolorante e o loiro parecia tão amarelo que me sentia um semáforo. Jongho apostou no corte de sempre e Mingi estava deixando o cabelo crescer, então o safado se livrou. Mas eu estava horrível, essa era a verdade.

 

Wooyoung

 

ja comeu?

 

ja

e vc

 

 

Era mentira, mas Wooyoung não precisava saber

 

 

tb

fazendo oq de bom

 

existindo

mas não sei se é bom

 

kkkkk

eu acabei de sair do salão

 

salão?

 

onde eu trabalho

 

você trabalha num salão? tipo salão de beleza

cabelos unha etc

 

kkkkk tipo isso

pq o interesse

 

pq eu acabei de ter o pior corte de cabelo da vida minha vida

e a pior descoloração tb

 

eita

eu posso cuidar disso

vem aqui mais tarde

[localização]

 

Pensei se realmente valia a pena. Encontrar Wooyoung em outras circunstâncias poderia me fazer apegar, mas eu não podia ficar com o cabelo assim. Estava horrível, sem exagero.

Mas se eu não queria sair antes, com o cabelo feio assim é que não iria mesmo.

Juntei o mínimo de força que ainda restava e saí, sem saber o que esperar. 

 

_

 

Wooyoung era literamente o cabeleireiro gay. O local era repleto por mulheres e me senti intimidado em entrar. Não frequentava um lugar assim desde que acompanhava minha mãe, quando ainda era criança. Velhos tempos.

— Nossa, algo aconteceu aqui... — uma das cabeleireiras disse, pegando uma mecha. Ela tinha uma franja curta e as sobrancelhas descoloridas. Seu delineado era rosa florescente e seu braço estava coberto por tatuagens old school.

— Eu vou dar um jeito nisso. — Wooyoung falou. — Você quer que eu faça o quê?

Dei de ombros, rindo, sem saber o que dizer.

— Faça o seu melhor.

— Você já pensou numa cor fantasia?

Não, nunca havia pensado, mas estava aceitando qualquer coisa.

Wooyoung corrigiu o tom amarelado e jogou um tonalizante. Também melhorou o corte e eu nem conseguia me reconhecer durante o processo.

As mechas agora estavam azuladas, em um tom fechado e meu cabelo nunca havia estado tão curto. 

Não me sentia bonito como antes, mas estava melhor.

Quando Jongho viu a nova cor, até brincou que faria igual, mas gargalhei sabendo que não era verdade. Seu trabalho não permitia essa estética. Nem o de Mingi.

Aquilo me fez perceber como eu era fracassado. Deus, eu nem tinha um emprego.

Pelo menos minha crise tinha um motivo dessa vez.

 

 

Wooyoung

 

ei san

vamos sair hj?

san

responde logo

tá me ignorando?

sannnnn

vc ta online

 

Não conseguia fazer nada. Apertei o botão do áudio com as mãos trêmulas, tentando falar algo que fizesse sentido.

"Wooyoung, por favor, eu preciso que você venha aqui, por favor, por fav..."

Seguindo a localização à risca, ele encontrou a porta apenas encostada. Eu estava sentado no chão, sem a prótese, com o celular no peito e a respiração ofegante.

— San... Sannie... — ele disse, se abaixando. — O que aconteceu?

— Wooyoung...

— Eu tô aqui, eu tô aqui, vai ficar tudo bem. O que aconteceu?

— E-eu não quero morrer, eu tô falando a verdade. — eu chorava enquanto dizia.

— Ninguém vai morrer, calma. 

— Eu me odeio, mas não acho que quero morrer.

— Sannie... você sente alguma dor? Você tá bêbado? — sorri com a pergunta. Céus, Wooyoung era tão ingênuo. Mais lágrimas começavam a brotar nos meus olhos, ainda com o pânico assombrando minha mente.

— Eu não tomei meus remédios hoje...

— E o que você toma? Onde estão? — ele se levantou, pronto para pegá-los.

— Os antidepressivos. Eles estão na gaveta.

Ele não conseguiu disfarçar sua surpresa com a menção dos remédios.

 

-

 

— Podemos manter isso entre nós? — Wooyoung fazia carinho nas mechas curtas do meu cabelo.

— Como assim? 

— Meus pais estão trabalhando e meu melhor amigo viajou. Eles não precisam saber que isso aconteceu, então, quando meus pais chegarem, podemos dizer que só estávamos passando um tempo juntos, tá? — Wooyoung assentiu, não sabendo se fazia bem.

— Como é isso? — perguntou genuinamente. — Como funcionam os antidepressivos?

— Como assim? — estávamos sentados ali por mais de duas horas. Eu já havia chorado, contado seus medos e desabado no colo de Wooyoung depois de tomar os comprimidos.

— É que... eu não achei que precisasse de remédio, sabe, pra depressão. Achei que passava com o tempo. — havia um medo na sua voz, ele não queria soar rude, mas não sabia como perguntar aquilo. — Como aconteceu...?

— Acho que quando eu tentei me matar pela segunda vez. Aí eu percebi que as coisas tavam difíceis... mas eu era feliz antes. Eu sei que eu era.

— Quando você me ligou você tinha tentado alguma coisa?

— Não! Eu prometo que não! Por isso eu liguei pra você, se tivesse ligado pros meus pais eles não me deixariam em paz e minha vida já é infeliz o suficiente... — choraminguei no colo dele, me sentindo inútil. Porra, esses remédios não fazem efeito mesmo. 

— Me desculpa fazer tantas perguntas.

— Eu não ligo. Obrigado por ter vindo. — suspirei, ainda cansado.

 

 

-

 

Mingi ainda fez perguntas sobre Wooyoung, mas eu não queria falar sobre isso. Éramos amigos, apenas isso. Amigos que transavam.

E depois dormíamos juntos. Abraçados. E acordávamos. E nos beijávamos. Mas ainda éramos amigos.

Não podia misturar as coisas.

Em um dia, conversamos sobre depressão. Wooyoung estava curioso sobre tudo e parecia tão bom falar sobre isso com alguém que não fosse o psiquiatra. Aquele consultório me dava arrepio.

Ele era um bom ouvinte. Aos poucos, fui me tornando mais aberto a falar sobre isso, sobre meus medos, as tentativas falhas, como meu corpo reagia. O que eu sentia.

— Eu não queria ser um peso. Queria livrar eles de mim porque eu só atrapalhava tudo. Ainda me sinto um peso, mas acho que posso lidar com isso agora.

— Não acho que você seja isso, San... você ocupa lugar na vida deles, na nossa vida.

— Eu sei que sim, mas a sensação de existir era vazia. Eu não queria existir.

— Você continuaria existindo mesmo se morresse. — ele disse. O encarei confuso. — Olha, isso é apenas uma coisa que eu acredito, pode parecer estranho e não tô te forçando a achar que é o certo, mas nossa existência predispõe a nossa vida. Então mesmo que não estamos vivos, ainda estamos existindo. Se morrermos agora, nossa existência continua permantente, porque nós sempre vamos estar aqui. Sempre existirão vestígios de nós. Memórias, itens, marcas... É isso.

Eu nunca havia pensado naquilo. Depois daquele dia, viver tomou uma nova perspectiva.

 

_

 

Jongho apareceu, duas semanas depois, com uma oferta de emprego e me deixou paralisado. Eu estava pronto?

— San, eu não vou te obrigar a aceitar. Você não precisa, meu filho, eu posso muito bem cuidar de você.

— Mãe, nós sabemos que isso não é verdade. — sorri, sem achar graça. — Eu sou um peso pra você e pro pai.

— Não diga isso outra vez. Não diga isso, meu filho...

— Mãe, tá tudo bem.

— Eu não quero que você se force e aconteça algo ruim. 

— Eu quero aceitar, mãe. — eu disse confiante. 

 

 

Wooyoung

 

consegui um emprego

eu acho

 

UAU

isso é

nossa

QUE ÓTIMO

 

tô com medo de estragar tudo

o pessoal daqui tá animado

mae - pai - jonggi

 

wooyoung tbm!

mãe - pai - jonggi - wooyoung*

 

 

O primeiro dia de trabalho foi mais tranquilo do que imaginei. O primeiro dia de trabalho em três anos. Isso parecia real?

Já havia se passado três anos depois daquilo e depois que Wooyoung entrou na minha vida, o tempo parecia passar mais depressa. Talvez porque eu estivesse mais feliz. Eu estava?

Quando cheguei em casa naquele dia, fui surpreendido com um almoço preparado por eles (mãe, pai, JongGi e Wooyoung) Nenhum deles - além da minha mãe - sabia de fato cozinhar, mas cada um deu seu melhor: Wooyoung no tempero, Mingi com a decoração, Jongho com a organização e o meu pai contribuiu com os ingredientes. A mão na massa ficou com a minha mãe mesmo.

— Vocês fizeram um almoço só porque eu não sou mais desempregado? — brinquei.

— Nós estamos muito orgulhosos de você. — meu pai me abraçou.

O almoço foi cheio de gargalhadas, eu me sentia bem, apesar de ser o centro das atenções. Isso normalmente me deixaria ansioso, mas eu estava bem. Eu sentia que merecia. Minha autoestima estava boa. As coisas iam bem

— Vou colocar as tigelas na pia. — me levantei, pegando algumas.

— Eu te ajudo. — Wooyoung se levantou em seguida.

Seus cabelos estavam penteados para trás e eu amava quando fazia isso. Era impossível estar mais bonito que Wooyoung. Ele sabia arrumar o cabelo, fazer maquiagem e era estiloso. Porra, eu tava mesmo caidinho por ele. Já havia aceitado.

— Tô muito orgulhoso de você, Sannie. — ele disse, receoso. Sorri agradecendo. — Eu posso perguntar uma coisa?

— Claro, Wooyoung.

— Eu não quero estragar o momento, sua família tá aqui, vocês tão felizes...

— Fala logo. — o interrompi, mas percebi que fiz errado porque ele seguia um roteiro.

— ... você é uma pessoa incrível. Eu aprendi muito com você e aprendi muito com sua amizade, mas você sente algo por mim além disso? 

Eu não sabia o ele estava esperando. Se eu dissesse que sim, ele poderia dizer que não e eu passaria vergonha. Se dissesse que não e ele dissesse que sim, ele não acreditaria depois.

— Como assim?

— N-nada, esquece. — ele disse.

— Não, Woo! V-você quer dizer se eu gosto de você?

— Você gosta?

Acho que a melhor forma de explicar era com um beijo. O aproximei pela cintura, colando nossos lábios, desfrutando aquele momento. Parecia tão intenso, tão real. Não eram mais beijos de sexo ou selinhos roubados. Tinha um sentimento ali.

Um sentimento que eu estava pronto para deixar que o mundo todo soubesse.