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“No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas”. É assim que a mais tradicional coleção de livros do ocidente, a Bíblia, começa a narrar a criação do mundo. Um Deus que, em sete dias, se pôs a criar — da luz ao homem — todas as coisas que existem. Debruçado sobre a beleza deste ato, este Deus se encantava com aquilo que ele mesmo produzia na sucessão que marca a narrativa bíblica destes dias.
Muito antes deste enredo ser inventado pelo homem, no entanto, um deus qualquer entediava-se com a monotonia de um mundo já então criado. Tal deus era Fabrício, que dedilhava seu violão em corcunda desanimada e tédio incomum quando outra entidade, Amitrano, passava:
— Que força para lutar é essa que tanto invoca, seu deus da preguiça e imobilidade? Não o vejo se mover há tanto tempo que não tardará para os mortais confundirem-te com uma estátua e não, de fato, o ser.
Em meio a notas e lamentos, o deus jogava-se para trás mais uma vez enquanto desabafava à presente:
— Força para amar, deusa da insatisfação e carranca. Ah! Velha amiga, ensine-me mais uma vez a andar no paraíso, sim? Estes passos desengonçados pelo vale da coragem já não me levam a lugares como antes.
— Pois, como hão de te levar a algum lugar se andam perpendiculares ao chão? Trate de se pôr em pé que o resto resolver-se-á sozinho!
— Ah! Raio da manhã, abra o céu com seu sorriso, que não aguento mais manhãs tão nubladas. Vá, assim mesmo, ria de mim, traidora irmã.
Amitrano recuperava seu fôlego com um sorriso no rosto enquanto replicava:
— Quão dramático pode ser um deus, tua companhia sempre estende os limites que eu acreditava ter encontrado, caro Fabrício. Vamos, erga-se, que hoje é dia de ouvir súplicas e blasfêmias. Não me olhe assim, como se não soubesse o que nos aguarda. É no pólis mortal que hoje encontra-se o aglomerado de mentes pensantes, e cabe a nós, deuses, tirar ou colocar pedras no caminho de nossos abençoados.
O salto repentino de Fabrício assustou aos deuses Amorim e Daz, que estavam por perto, mas que logo se recompuseram, acostumados às espontaneidades do deus, desperto ou não. É verdade que Fabrício, cego pela própria melancolia, havia esquecido de uma das suas atividades preferidas — contemplar os mortais, suas razões e emoções. Desta forma, tão logo Amitrano terminava de falar, o deus já estava correndo à escadaria do palácio divino, pronto para conhecer novas criaturas insignificantes que, em seu período curto de vida, esforçavam-se ao máximo para se imortalizarem.
Sem mais delongas, Fabrício dirigiu-se ao canto em que tinha certeza que encontraria um velho conhecido, cujas ideias sempre divertiam-no: era no início da Ágora em que se encontrava Aristóteles, organizando papéis e tinteiros, quando o deus iniciou sua cantoria sem qualquer alerta, levando os papéis organizados na mão do filósofo, a voarem sem coordenação por todos os lados.
***
— Por tudo o que é mais sagrado, dai-me uma razão para não amaldiçoá-lo aos deuses, criatura que vem por trás.
— Pois justamente ser eu o deus, o amaldiçoador, deve guardar tais proferimentos e receber-me de bom grado, antecipado mortal. Sim, sou eu, o maravilhoso Fabrício! Diga-me, mundana criatura, quanto o tempo que passou desde minha última visita significou para você, cuja vida escorre como areia? Confesso-te, escute bem, que mesmo a mim, pareceu quase uma eternidade, tempos sagrados e arcaicos aqueles em que discutíamos… o que era mesmo? Ande, Aristóteles, não fique calado! O deus clama que fale!
Aristóteles, recuperando-se do espanto enquanto reordenava seus documentos, virava lentamente ao recém-chegado, admirando tal acontecimento:
— Um sábio nunca diz tudo o que pensa, embora pense tudo o que diz. De fato, eterno Fabrício. De fato, sim, acredito ser este, inclusive, o tema do nosso último encontro, tão arcaico quanto lembras, mas sobre a mediana entre os extremos morais, ambos viciosos, como a temeridade e a covardia mediando a coragem. De fato, maravilhoso Fabrício, excedi minha coragem indevidamente, ouvindo — ah, que Platão seja amaldiçoado! — meus sentidos e negando a razão, esta mais propícia a guardar minhas maldições a um alvo reconhecido.
Admirado pelas palavras sem sentido do mortal, Fabrício concordava com a cabeça enquanto tomava — tirado do além-divino — um sex on the olimpia, quando se engasgou com a insinuação de uma das heranças deixada ao homem pelos deuses a qual Fabrício mais se orgulhava — a fofoca:
— Sim, a coragem! Sempre, a mesma, agora… ou seria a força? Bem, não importa, ainda sobre as maldições… não, não as para mim, caro Aristóteles! Estas são águas passadas, o rio nunca é o mesmo, não é? Digo as para o seu mentor, sim, Platão é o homem, por que haveria ele de ser amaldiçoado?
Aristóteles, que acreditava ser o homem um animal de linguagem, aceitou a deixa do deus para exercer sua natureza e desabafar, para além das páginas de suas sistemáticas anotações, as inúmeras reclamações que tinha aos ideais e ao próprio homem, Platão, seu mentor:
— Veja bem, meu Senhor, não é do meu feito criticar uma criação divina, mas também não cabe a mim privá-lo da verdade, visto que qualquer desvio inicial dela multiplica-se ao infinito na medida em que avança. Sinto-me no dever, portanto, de esclarecer toda e qualquer discordância que tenho para com meu mestre: e, ah, Fabrício, elas são tantas! O homem, Fabrício, nega seus primórdios, não vê os sentidos como forma válida de entender o mundo. Como então, responda-me, Fabrício, como este homem acredita no que lê, no que ouve, como pode fundar uma academia se tudo que lá se aprende, usa-se o olho, o ouvido, a boca! O homem está louco, cego pela ignorância, surdo pela ganância, sem tato para a verdade e sem gosto para a glória! Louco, é o que lhe digo.
— Ah, sim, é realmente… espantoso, este — começava Fabrício, rebuscando em sua mente de milhões de eras as palavras que, ao menos naquela, usava-se com popularidade, e parecia que o deus encontrara uma das boas quando o filósofo pulou do seu lugar e voltou ao seu discurso.
— Sim! Um espanto! Pelos deuses, bom homem, entidade, por ti! Se o homem existe, já não há certa admiração? O Universo admira o homem em período o suficiente para que os átomos, os apeiron, o princípio, depende de por quem se ouve, mas se esta menor parte aquieta-se ao menos até que o homem SEJA, então há de se admirar o homem, não? Mas, ah, Fabrício, assim que o homem existe! Não há tempo, mortal ou divino, que defina o período de que estamos a falar, tais instantes instáveis em que o homem deixa de ser admirado e passa a ser um amontoado de espantosos espantos. Sim, por ti, quando teremos paz de nossas próprias mentes? Quando os sentidos forem desligados, porque repito, maravilhoso Fabrício, a ti e a quem quiser ouvir! Nossos sentidos são os primeiros e mais básicos meios de entender as coisas. Eles quem plantam a semente! E, sim, a razão verá esta crescer, mas quem a planta, Fabrício!
O deus perdia-se mais uma vez nos pensamentos do mortal, cheios de termos nunca antes ouvidos, em toda a sua imortalidade. O que seria um apeiron, e quem são estes os quais deveria ouvir? Não pretendia reclamar, no entanto, visto que seu tédio já não estava mais presente, e as dúvidas borbulhavam em uma sensação tão mundana que fazia o deus experimentar o sentimento de incapacidade, de lutar por respostas que o tempo não permitiria serem respondidas. O deus, é claro, tinha o tempo a sua disposição, mas os olhos de Aristóteles brilhavam em fome ardente que espantavam até mesmo ao deus:
— Diga-me, maravilhoso Fabrício, se tal saber me for digno, teriam estas palavras, as que fazem seus olhos questionarem, em outros tempos sido pronunciadas, por espécie que for? Pois apostaria mil dracmas que não, nume Fabrício! Estamos fazendo história! Homens de todos os cantos da mente reúnem-se hoje para se unificarem em um grande quebra-cabeça intelectual, e caminhamos cada vez mais próximo aos deuses!
O último comentário faz Fabrício rir, mais bem-humorado do que ultrajado, como é de se esperar de uma entidade que acabava de ser comparada a um mero mortal:
— O homem! Que criação cômica, sim, esta palavra que usas com frequência, não? Que cômicos são os homens, e quão trágicos!
— Ah, mas a tragédia cabe aos deuses, meu bom senhor. Platão, que tu me perdoes por invocar este nome mais uma vez, mas meu mestre é um dos loucos, de alma perdida, que lutam pela abolição da tragédia e comédia.
— Como poderia? Não era a ti, Aristóteles, para quem a tragédia marcava a sucessão dos dias gregos, moldava o caráter, traduzia os desejos e os anseios, formava cidadãos!
— A mim era e a mim continua a ser, maravilhoso Fabrício! Há os que digam que a tragédia amolece a alma, bem como a comédia e até mesmo a música. Mas lhe digo uma coisa, nume mestre, para mim, tais artes são pedagógicas! Sim, ouvira certo, elas ensinam mais do que fazem desaprender, como Platão peca em acreditar. Veja bem, se a arte imita a natureza, e se nossos sentidos interpretam a última, por que não podem as emoções ensinarem-nos algo? Como já fazem! Os sentidos, Fabrício, são a resposta!
— Sim, vejo seu ponto, caro Aristóteles, por mais que apenas a ele já tenha sido exposto.
Assim que o deus proferiu tais palavras, contudo, Aristóteles sentiu-se iluminado, e não tardou de exteriorizar seus pensamentos a Fabrício:
— E que tipo de democrata eu seria, nume rei, se somente a minha palavra deixasse que fosse exposto! Ande, darei-te um caminho, que o verdadeiro sábio não teme demais opiniões, pois sabe que as suas são imbatíveis! Lembra-se do princípio, aquele que se aquieta para que o homem seja? Há certo homem, na verdade dois: Tales e Anaximenes, ambos de Mileto. Discutem pelas redondezas se tal princípio seria água ou ar. Vá, maravilhoso Fabrício, ouça-os! Dirão aquilo que SENTEM, aquilo que seus sentidos mostraram e que a razão comprovou.
Assim, Fabrício permitia-se animar-se mais uma vez, pronto para os próximos passos paralelos ao chão que seu jovem cúmplice guiava-o para.
— Estás certo, Aristóteles, um deus não deve ouvir apenas um, mas todos que puder! Tales e Anaxímenes, dois novos amigos com os quais poderei contar! Diga-me, sábio mortal, como devo dirigir-me a eles?
— De forma alguma, todo-poderoso Fabrício, é a forma que lhe indico.
— Não entendo.
— Sei que pode parecer-te estranho, mas se lembre da singularidade do homem, e é a esta espécie que pertenço. Sou um homem da lógica, é verdade, mas ouço tanto a razão quanto o sentido, e o último pede-me que confie no senhor, grande Fabrício, criador de tudo e todos. Há outros, porém, que já não consideram os deuses dignos de qualquer crédito, e Tales foi um dos primeiros. Veja bem, ainda há muitos que dedicam templos e preces, mas tais dúvidas — tal espanto! — é o que vem movido as mentes jovens, e há de ser melhor para todos que se aproxime como o vento: despercebido, invisível, naturalmente parte do ambiente.
Fabrício, como qualquer deus que se preze, enfurecer-se-ia com tal afirmação, negado pela sua própria criação e rebaixado a intruso em seu próprio mundo. Mas a animação era tamanha, que o deus já piedoso nem sequer percebera as circunstâncias de sua missão, ansioso para executá-la sem exitar. Assim, seguiu feliz o maravilhoso Fabrício, que não tardou a achar a balbúrdia em que se encontrava os primeiros mortais de sua mais nova aventura.
***
Regados pelo sol ameno e ventos triunfantes do verão grego, dois dos filósofos pré-socráticos mais adorados da Grécia se encontravam em mais uma de suas discussões sobre o mesmo assunto de sempre: a origem das coisas. Combinando com as temperaturas das redondezas da pólis, a conversa entre os dois começou a esquentar com o nervos aflorados dos envolvidos: Tales de Mileto, estrelinha da comunidade filosófica, irritado com seu discípulo mais novo que decidiu começar a encontrar problemas em todas suas teorias após algumas delas ganharem atenção demais da população e Anaxímenes, jovem ambicioso com um ar de implicância misturado com algum resquício de seriedade que havia sobrado após semanas batendo nas mesmas teclas que o incomodavam na teoria do mestre. Apesar dos pesares, isso já era algo de rotina. Os debates entre os dois passaram a ser uma atração recorrente durante o entardecer na Ágora e quando o diálogo começava a ficar pessoal demais, era comum que uma pequena plateia se formasse ao redor dos dois. Entretanto, não era o caso de hoje, apenas Anaxágoras e Anaximandro, outros discípulos de Tales de Mileto, estavam presenciando a cota diária de discussão dos dois:
— Eu já disse isso antes e eu não quero ter que repetir para você, Tales. COMO esperas que eu acredite que tudo isso que envolve as nossas vidas seja originado de apenas um elemento? Parece piada, de verdade mesmo. - Anaxímenes estava guardando seus papéis sobre enquanto falava, em meio a risadas sarcásticas e gesticulações rápidas. Ele sabia que as discussões eram as mesmas todos os dias, mas esse momento havia virado mais um dos costumes que ele e Tales compartilhavam, e Zeus o livre de ter que admitir isso para si mesmo ou qualquer pessoa, mas era um momento que ele aguardava com animação durante as tardes que passavam juntos.
— Qual é a sua sugestão então, gênio? Vamos ver se é capaz de me superar nessa, Anaxí. Vai lá, vai me falar sobre o ar de novo? - Tales diz após um longo suspiro, tentando segurar um sorriso de satisfação por saber que conseguira atingir o mais novo, evidenciando sua previsibilidade. As conversas dos dois sobre esse assunto eram tão recorrentes que Tales, como o bom observador que era, sabia identificar exatamente quais argumentos o deixariam sem resposta.
— Primeiramente, terei que lhe tacar esse saco de acerolas caso me chame de Anaxí mais uma vez e eu vou sim defender o ar, porque é a coisa mais abundante aqui e você sabe disso, apenas não quer admitir para não ter que aceitar que eu consegui te refutar depois desses anos todos sendo o queridinho da pólis. Fora que eu cheguei aqui faz pouco tempo! Imagine ter passar esse grandioso título para mim, velhote, que cena linda. - Ele sabe que Tales se ofende sempre que mencionam a idade dele, por mais que ele seja poucos anos mais velho que o resto do grupo, mas ainda era um tópico bom para implicar.
Se aproximando mais do oponente para conseguir visualizar o horizonte distante onde os colegas se encontravam abraçados, rindo entre si e ouvindo a conversa entre eles, Anaxímenes gritou para ter certeza que um deles ouviria o recado, mesmo com a distância no caminho:
— E você fique quieto também, Anaximandro! Proibido defender o Tales na minha frente. - O destinatário do grito não respondeu nada, apenas riu, balançou a cabeça acenou tentando chamá-los para irem embora logo, afinal hoje seria uma noite com eclipse e Anaxágoras havia passado o dia inteiro falando sobre isso:
— Ah, Anaxi, muitas palavras não necessariamente indicam sabedoria. Cala a boca aí, vai.
— Vem calar então.
Os dois se encararam por alguns segundos, sem saber direito o que aquilo significava. Os atos falhos de Anaxímenes eram algo comum entre os amigos e sempre eram relevados como brincadeira, mas hoje havia algo diferente. Era como se a iluminação do pôr-do-sol os fizessem prestar mais atenção um no outro, ou então a aproximação não-proposital de um deles que os obrigavam a notar mais detalhes sobre a presença física de cada um. Pareciam estar enfeitiçados, e por um segundo Tales começou a duvidar se estes 5 segundos, que pareciam eternos, seriam obra de algum Deus. Embora houvessem certas desconfianças entre a população de que algo estaria acontecendo entre os dois, nada direto entre os filósofos houvesse ocorrido ainda.
Com olhares confusos em relação ao o que havia acabado de acontecer, a outra dupla de discípulos de Tales encaravam o mestre e o colega esperando que houvesse alguma reação de algum dos dois. Presenteados com um silêncio ensurdecedor na sala vazia, anaxágoras decidiu se pronunciar sobre o sol que estava se pondo e marcando que o grupo estava mais do que atrasado para o encontro rotineiro de todas as quartas, onde se reuniam para comentar sobre o cotidiano da cidade, trocar conselhos e conversar sobre qualquer assunto que surgisse. Os 4 gregos formavam um bom grupo e após passarem tantas tardes juntas discutindo sobre a vida, era de se esperar que eles formassem algum tipo de conexão mais profunda além da pólis, e isso foi solidificado depois que anaximandro tivera a ideia de convidá-los para uma rodada de bebidas e conversas sob a gloriosa árvore de jambolão. Esta, que era uma das árvores mais antigas e mais vistosas das redondezas, era também um ponto de encontro para os pensadores gregos.
Embora ainda estivessem regados pelo estranhamento durante a saída, Anaxímenes e Tales se sentavam muito próximos um do outro. Talvez fosse porque hoje seria um dia de eclipse lunar e pessoas de toda a região estivessem ali, deixando o espaço para se sentarem limitado, ou talvez fosse porque de uma forma inconsciente eles precisassem estar mais perto fisicamente. Tal aproximação repentina trouxe novas descobertas a ambos: Tales descobriu que seu parceiro tinha o costume de inclinar a cabeça para trás enquanto ria, permitindo que seu pescoço e clavículas fossem vistos com mais facilidade, embora ele não entendesse ainda por quê esse detalhe era tão interessante. Anaxímenes descobriu que o mais velho utilizava ervas para perfumar o cabelo após os longos banhos de azeite, fazendo com que cada brisa que batia em sua direção o fizesse ser abraçado por um aroma agradável e apaixonante de menta e jasmim. Talvez o ar não fosse o princípio de tudo que eles conheciam, mas definitivamente era o princípio de algo que mudaria a relação dos dois.
As interações entre a dupla foram ficando cada vez íntimas conforme a bebida ia fazendo seu efeito e a noite ia se aprofundando. Entre toques no ombro e encontros singelos de olhares, a aproximação da dupla ia aumentando cada vez mais até estarem praticamente deitados um no outro pelo fim da noite. Conforme o horário do eclipse ia se aproximando, Anaxágoras começou a ficar inquieto, intimidando Anaximandro a irem embora logo:
— Sinto que teremos que ir agora. Estou há meia hora sendo incomodado pelo maior apreciador de eclipses de Mileto. - Anaximandro diz, sorrindo, enquanto se levanta, começando a arrumar as taças vazias de vinho consumido pelo grupo.
— Claro, estou prestes a contrariar um Deus! É um evento importante, fora que Empédocles finalmente voltou a cidade e nos aguarda em casa. - Anaxágoras se defende, em meio a um longo suspiro, enquanto tenta apressar a saída do grupo e iniciar as despedidas.
Após a dupla sair rumo a sua casa, Tales e Anaxímenes se encaram por um tempo tentando aceitar que teriam que se separar em breve, logo após retornarem à Ágora para seguirem seus caminhos destintos como de costume. Apesar de ser um acontecimento banal e que ambos soubessem que se encontrariam novamente no dia seguinte, as despedidas dessa noite foram tidas com um peso diferente. Os dois estavam com os sentimentos a flor da pele e ao começarem a trilhar o caminho de volta pra o ponto de encontro que viriam a ver novamente no dia seguinte mas era como se tudo estivesse completamente diferente. Tinha algo diferente no jeito em que andavam, que olhavam ao redor, que respiravam. Era como se tudo estivesse mágico, de repente. Entre conversas sobre o eclipse e o clima em uma tentativa de romper o nervosismo mútuo, Tales sugere que eles sigam até a praça mais próxima, talvez em uma tentativa de aproveitar mais aquele momento com seu companheiro de curta data:
— A praça? Certo, a menos que estejas me levando até lá para discursar na frente do lago como da última vez.
Tomara que esteja. Quem sabe assim voltarei para meu estado normal.
— Não é isso, e talvez a arché nem seja somente a água. Estou começando a aceitar isso, nossas conversas conquistaram um espaço no meu coraç- na minha teoria.
Preciso me focar.
— Inacreditável, mestre. Inacreditável. Entretanto, agradeço a compreensão e a validação atrasada de meus argumentos.
Pelos Deuses, que frases são essas? Preciso retornar à sobriedade antes que algo aconteça.
— Certo… vamos indo, então.
O caminho para a praça seguira silencioso, nenhuma das partes tinha coragem de falar algo após a última conversa sem jeito que tiveram. Havia chegado a hora de se despedirem até o dia seguinte, embora nenhum dos dois quisesse abandonar aquele momento.
E deram um último abraço. Mais longo que o normal.
Encararam-se.
E em um ato impulsivo, se beijaram.
E eles se sentiam vivos. Toxicamente vivos. Cada vento que os atingia era diferente, o cair da cada folha era especial como uma dança e cada vez que eles se olhavam, seus corações batiam em um ritmo que se completava. Era como um estranho transe, se sentiam afogados nos olhos um do outro e nos suspiros, ambos completamente relaxados e conscientes de cada uma das coisas que aconteciam ao seu redor. Sentiam-se eternos.
***
Era quase madrugada quando os jovens filósofos estavam chegando em casa mais risonhos que o normal com o efeito do vinho da taberna próxima do local que estavam frequentando. Anaxágoras, o mais apressado da dupla, tinha seus motivos para se encontrar afobado deste jeito, pois o eclipse que aconteceria em poucas horas tinha promessas de ser um dos mais importantes para a crença grega. Anaximandro, que o acompanhava, até gostaria de ter passado mais tempo debaixo da majestosa árvore de jambolão observando as interações de Tales e Anaxímenes, que tinham escalado subitamente, mas respeitava e admirava muito as paixões do amigo. E ambos estavam ansiosos por mais um motivo: a volta de Empédocles, que havia passado alguns meses explorando Araegas.
Logo que entraram na casa, foram recebidos por um forte aroma de pães, peixes e orégano. Empédocles já havia chegado há algum tempo e fora preparar um banquete para os amigos, sabendo que essa seria uma noite deveras especial para todos os envolvidos. A emoção dos amigos ao se encontrarem não foi controlada, não era mais possível distinguir quem estava falando o quê naquele primeiro encontro após 5 meses. A presença de Empédocles era algo que fazia muita falta para os dois, embora nunca tivessem admitido isso. Na verdade, a presença de cada um deles era algo que fazia muita falta sempre que alguém saía para viajar, eles gostavam de estar juntos e era como se algo estivesse vazio dentro de si todas as vezes em que se separavam por qualquer motivo, mesmo que soubessem que estariam juntos em algumas horas, dias, semanas ou meses.
As conversas sobre o tempo de estadia de Empédocles na cidade vizinha correram durante o tempo do jantar, juntamente com comentários sobre a suposta situação de Tales e Anaxímenes, o que foi um choque para o recém-chegado, que nunca havia prestado atenção o suficente na dinâmica dos dois. Anaxágoras foi o primeiro a se levantar da mesa para ir se assentar na beira da janela da sala mais próxima da cozinha, onde os outros dois ainda conversavam, aguardando ansiosamente o momento do fenômeno astronômico.
Pouco tempo depois, os outros se juntaram a ele para conversarem de forma mais próxima novamente e, acima de tudo, distrair o olhar vidrado para o céu de Anaxágoras. Anaximandro adorava irritar seus parceiros, sendo recebido sempre por um olhar fuzilante que poderia ser muitas coisas, mas nunca uma irritação sincera que pudesse causar algum tipo de desconforto na relação dos três homens. Empédocles tinha o costume de rir de forma muito expensiva e era algo que todos adoravam nele, o modo como conseguia transmitir alegria e contagiar até o mais melancólicos dos humanos, e hoje não era diferente, apesar de um pequeno acidente envolvendo uma taça de vidro que se encontrava no rumo de seus braços durante uma de suas risadas:
— Vislumbrem, caros amigos: o milagre da criação. Imaginem quantas coisas poderiam ser criadas a partir destes pequenos cacos de vidro aos seus pés, quantas formas diferentes… o apeiron é a teoria da qual mais me orgulho, sou genial.
— E também é possível criar infinitas coisas com os quatro elementos! — Empédocles diz, enquanto procura um pano molhado para recolher os pequenos traços de vidro deixados no chão.
— Discordo. O infinito é a origem de todas as coisas, inclusive desse eclipse que você irá perder se continuar olhando para cá, Anaxagoras. — Sendo recebido por um leve tapa no ombro do mesmo.
— Apenas sei de que há mais de um princípio, Mandro, não vou me evolver com isso agora.
— Exato, meu caro. Existe sim mais de um princípio e acredito que eles sejam os principais elementos da natureza, as quatro raízes de tudo: água, terra, fogo e ar. — Interfere Empédocles, enquanto Anaximandro estava começando a se levantar para contestar o colega de quarto — E eu sei o que você vai falar, mas creio que não seja o momento para isso, então fiz um drink para representar meus pontos e mudar de assunto: Apresento-lhes: Sex on the olímpia. Uma dose de hidromel, uma de vinho, uma de suco de pêssego e muito gelo. Simbolizam fogo, ar, terra e água, respectivamente.
— Sex on the olímpia?
— Sex on the olímpia.
— Genial. Aproveite e faça um para nós, em, por favor. — Pediu Anaxágoras, enquanto se ajeitava em seu espaço especial para visualizar o grande momento.
A bebida criada por Empédocles era definitivamente… algo. Algo confuso e estranhamente gostoso. E viciante, vale adicionar, não demorou muito até mais taças serem feitas pelo cozinheiro do trio. Empédocles realmente tinha um talento para essas coisas, os seus períodos de viagem coincidiam também com os períodos nos quais Anaxágoras e Anaximandro comiam na casa de amigos. Não que não soubessem cozinhar ou alguma coisa do tipo, ambos conseguiam se virar com frutas e peixes, mas a culinária era algo tão… Empédocles. Tentar montar uma refeição minimamente tão caprichada seria um ultraje a todos os costumes que foram construídos naquela casa, por mais que o mesmo nunca tivesse reclamado sobre nada e inclusive tivesse tentado ensinar os parceiros a fazerem alguns de seus pratos e bebidas originais.
A casa dos três filósofos era tão organizada quanto o esperado, e apenas não era algo análogo a uma cena de guerra pelo fato de todos passarem a maior parte do tempo fora dela, em especial Empédocles, que tinha uma paixão por teatro e viagens, tendo conhecido a maior parte das experiências artísticas que a Grécia tinha a oferecer. Tal fato também ajudava para a decoração do ambiente, que era repleto de pequenas memórias que ele havia coletado e compartilhado com os seus companheiros. Anaxágoras e Anaximandro também colocavam alguns detalhes, aqui e ali, principalmente de relíquias que encontravam durante as voltas da Ágora e de passeios que faziam com Tales e Anaxímenes. Não era de se duvidar que aquela era a casa deles, cada um dos cômodos carregava histórias que nem eles mesmos conseguiam se lembrar e era o espaço onde aprenderam a conviver, se aproximaram, puderam elaborar teorias juntos e a aproveitar a companhia um do outro. Hoje, mais do que nunca, isso era evidente. Era como se todos aqueles presentes estivessem em paz, sabendo que realmente estavam em casa.
Anaxágoras estava levantando para comer mais um pouco do pão que havia sobrado antes de voltar para seu lugar ao pé da janela, minutos antes do eclipse finalmente começar. Todos estavam cansados, embriagados e com sono mas ninguém iria se atrever a ir dormir antes de ver o eclipse que o colega estivera falando sobre em todas as ocasiões possíveis. Talvez fosse a bebida, o sono e a confusão mental de estarem acordados de madrugada esperando algo acontecer, mas todos compartilhavam mais um sentimento: um que ninguém soubera descrever ainda, mas os deixava se sentindo completos e mornos por dentro, completamente confortáveis e felizes por estarem na presença um do outro. Entretanto, apenas comunicar isso não seria o suficiente para traduzir o tamanho do que todos estavam sentindo naquele momento No auge da emoção, Anaximandro levantou e se dirigiu aos colegas, um por vez, e não foi necessária palavra alguma. Todos sabiam que os sentimentos eram recíprocos e selaram esta união, este voto de confiança, esta prova da intimidade que haviam construído nos últimos anos da única maneira adequada para o momento: um beijo.
***
Do lado mais vívido da Ágora, onde o sol estival brilhava com mais afinco, Demócrito, o filósofo sorridente, conversava animadamente com algumas damas de passagem, alegre por levar àquelas não-cidadãs um pouco do que é ser homem pensante. Estas, no que lhe concerne, sorriam de volta, mas apenas uma delas realmente se interessava pelo que hoje conhecemos como Química. Demócrito não parecia perceber, mas a Leucipo, seu mestre, as reais intenções das passageiras eram tão explícitas que começavam a irritá-lo.
— E então, vejam bem, imaginem uma pedra, e então imaginem-na quebrando, e então mais uma vez, infinitos golpes contra o objeto…
— O senhor deve possuir uma força absurda, senhor Demócrito! — interrompia uma das damas.
— Sim, não consigo me imaginar quebrando sequer uma louça sem exigir o maior esforço. — complementava outra presente.
— Ah, mas a força física não é exigida, minhas senhoras, pois Leucipo e eu utilizamos apenas da mental! Todo o esforço veio do cérebro, e dividíamos os golpes entre uma mente e outra. E foi assim, no plano teórico, que Leucipo e eu, ora, onde está. — Demócrito, então, virou-se em busca do parceiro, encontrando-o sentado não muito distante, quebrando um galho seco como fazia ao ficar nervoso. — Leu! Ah, Leucipo, mestre! Não quer se juntar a nós? Estamos falando dos átomos!
— Obrigado, Demo, mas você fala melhor que eu; continue a brilhar, que me contentarei com a sombra.
Algo parecia errado. Demócrito sempre fora extrovertido, gostava de se comunicar e de marcar presença. Fora alguns anos antes, porém, que o filósofo sentiu ter encontrado algo parecido como sua função na terra. Apaixonado como era pela origem das coisas, sempre querendo saber o porquê e quando e como, chegara em seus ouvidos que um homem abria uma escola e procurava por um discípulo, um disposto a contradizer todas as teorias já registradas e defender a parte indivisível de tudo que existe. Demócrito odiava discordâncias violentas, mas via na ciência um espaço seguro para fazer perguntas que encurralariam amadores.
Foi então que Demócrito conheceu Leucipo, e nunca mais se separou. Definitivamente bem mais introvertido que Demócrito, o mestre possuía uma mente brilhante, mas pouco jeito para registrar e se aprofundar. Ele sabia que tudo era feito de átomos, mas qual seria o tamanho disso? Como eles se uniam, era possível chegar a um? Sem ânimo para eventos e “brigas” intelectuais, Demócrito foi o responsável por arrastar seu mestre a todo tipo de discussão, e assim seus nomes chegaram a bocas como de Aristóteles e Tales.
Agora, vendo o parceiro quieto, Demócrito lembrava-se dos primeiros dias juntos, em que timidez e nervosismo cortavam o fluxo das conversas. Demócrito não se dava por vencido, mas se todo homem é um microcosmo, Leucipo era para ele um dos mais complexos já existentes. Mesmo agora, em que os filósofos ficavam horas juntos em uma mesma sala, pesquisando e brincando, Demócrito sentia uma certa barreira. Ainda um nervosismo, mas de um tipo diferente. A presença do mestre causava nos átomos de Demócrito algo que o último ainda tentava desvendar.
— Bem, damas, basta dizer que a origem do Universo deriva de microscópicos, infinitos e indivisíveis elementos, que se agregam sempre, formando os seres e objetos do mundo. Peço licença agora, porque Leu e eu temos preparativos para o último dia de discussões. Tenham um bom dia!
Antes que qualquer uma pudesse protestar, Demócrito já corria para seu mestre, segurando-se para apenas se sentar ao seu lado, temendo os efeitos de um simples toque.
— Vamos, Leu, por que parece tão desanimado? É dia de expor sua ideia ao mundo! Seremos lembrados pela história, o ca– o par, a dupla! Sim, nossos nomes ficarão eternamento unidos, não haverá um único átomo que não pensará em Demócrito sem antes se lembrar de Leucipo.
— Duvido que pensarão em mim antes de ti, meu raio da manhã. — Leucipo franziu o cenho perante as próprias palavras, e desviava o olhar enquanto se corrigia, inconsciente da vermelhidão em que seu discípulo se encontrava. — Digo, tu que és tão presente, todos o veem como um descendente direto do Sol.
— Ninguém pensa assim, Leu.
— E como não pensariam! Você é ingênuo, Demo, é preciso que saiba. Que acha que uma mulher faria em plena pólis, buscaria conhecimento? Elas buscam esposos, Demo, e veem aqui um partido dos bons. Minha sugestão é que deixe de ser tão inocente e devolva à que melhor lhe apetecer o flerte casamenteiro.
Demócrito, caso o leitor tenha se esquecido, odiava discordâncias violentas, mas o retorno ao tópico matrimonial, que vinha se repetindo cada vez mais, tirou do jovem filósofo a calma rotineira:
— Mas por que insistes tanto em implicar com isso, Leucipo! Pelos deuses, não pode uma mulher querer pensar? Se quer ser como um homem, que a deixe ser! Não somos todos fruto do mesmo átomo? Que importa se o homem tem um a mais ou se a mulher tem dois trocados, se Zeus lhe deu o dom de perguntar, que o agregue à ciência.
— Não distorça minhas palavras, Demo, pois você mesmo diz que um homem só é infeliz quando é injusto. Apenas peço que não tarde para encontrar uma parceira, pois o coração envelhece e com ele se vai a capacidade de amar.
— E pensas que é por uma completa estranha que meu coração vai bater mais rápido?
— Se não por uma, então por quem?
— Não sei, Leucipo, não sei! Alguém que me entenda, que goste do mesmo que eu, que me apoie na busca do saber, alguém que signifique mais que uma obrigação social para mim!
— E em que tipo de mulher você acha que se encontra isso, Demócrito?
— Eu nunca disse ser em uma mulher que procurava!
Um tanto sem fôlego, Demócrito arrependia-se imediatamente das revelações feitas no impulso. O filósofo não conseguia olhar para o mestre, mas ouviu uma risada fraca seguida da voz de Leucipo:
— Sim, bem, que seja. Em que tipo de pessoa então?
Demócrito, então, lembrou-se do velho Aristóteles, que sempre dizia: o menor desvio inicial da verdade multiplica-se ao infinito na medida em que avança. Assim, reuniu todo o ar e coragem que conseguia e decidiu acabar de uma vez por todas com a inquietação dentro de si:
— Leucipo, você e eu sabemos que definimos o doce, o amargo e as cores, mas que a composição destas definições está nos átomos. E não há como enganar a si mesmo… mas, Leu, é você quem traz o gosto doce e fresco das manhãs para mim. Não sabemos quantos átomos temos em nós — ainda! —, mas sei que cada um deles é seu, Leu. Os átomos do meu pensamento só conseguem me levar a ti, e os dos meus lábios enchem-se de desejo pelos dos seus. Ah, Leucipo, suplico aos deuses que esqueça o que falei, que não deixe meus sentimentos interferirem em nossa relação. És meu mestre, serei seu seguidor, farei e direi apenas o que me pedir. Não sei o que deu em mim, mas… bem, o que é dito não se desdiz. O que acha de revisarmos as teorias de Parmênides e Heráclito?
A súbita mudança de assunto não havia sido processada por Leucipo. Demócrito gostava dele. Sentia desejo por ele. Seus átomos… ele estava oferecendo todas as menores partes, não, todo o conjunto, para Leucipo. É recíproco.
Ah. Ah.
Como se influenciado por uma força divina, Leucipo encontrava as palavras certas para responder a Demócrito:
— Demo… O amor que há entre amigos, eu — pelos deuses, não. — com um grande suspiro, Leucipo pegou as mãos do mais jovem e forçou-se a fazer contato visual, deixando claro suas intenções. — Demócrito. Eu… sinto como se fôssemos um único átomo, porque cada vez que nos separamos… parece errado. É como se fôssemos a parte irredutível que nem mesmo o Universo consegue dividir. Sim, eu… o mundo lembrar-se-á não de mim e nem de você, meu raio da manhã, mas de nós. Seremos Demócrito e Leucipo para a eternidade, e não haverá alma mortal ou divina que ousará separar-nos. Eu… falei demais, não acha? Por Zeus, Demo, como consegue falar tanto assim sempre.
Com uma risada, os filósofos deixaram as palavras de lado e se permitiram saciar os anseios que atordoavam a ambos por longos meses, num beijo que prometia desafiar as recentes ideias de distância dos átomos.
Com a coragem divina espairecendo-se aos poucos, Leucipo voltou a sua tímida forma, mas foi de mãos dadas com Demócrito para mais adentro da pólis, onde já se ouvia os gritos de Parmênides e Heráclito.
***
Parmênides estava insatisfeito.
Era o segundo e último dia da reunião de filósofos em pólis, e já havia perdido o primeiro dia. Chegara cedo, pronto para defender sua ideologia, e encontrara bons ouvintes no caminho. Mas, não importava aonde fosse, não encontrava seu alvo. Passara por Tales de Mileto e seus discípulos, mas o primeiro ocupava-se em discutir fervorosamente com um dos últimos, Anaxímenes, em tom de voz familiar. Mais tarde, fizera sua última tentativa no eclipse, mas encontrara apenas Anaxandro e Anaxágoras, distraídos com os famosos sex on the olimpia de Empédocles. Pensou em beber, mas estava mal-humorado demais, e voltou para casa sem nem mesmo esperar o fenômeno celestial finalizar-se.
Assim, no segundo e último dia, Parmênides aquietava-se com a possibilidade de ter perdido suas últimas semanas em preparação para uma discussão que não viria. É claro que deveria estar satisfeito, porque assim as ideias do encontro manter-se-iam formais e científicas, ao contrário das incoerências que o ausente proporcionaria. No entanto… faltava algo, e Parmênides não achava lógica para tal… impulso nervoso.
Insistindo uma última vez, o filósofo seguiu um grupo de mulheres, que pareciam conversar com um charmoso pensador. Não que Parmênides alimentasse quaisquer opiniões acerca das aparências e artimanhas de seu alvo, mas seria ilógico não perceber a fama que o citado fazia, seja homem ou mulher, criança ou idoso. Foi com ilógica decepção, no entanto, que Parmênides encontrara Demócrito, o sorridente filósofo, no centro do tumulto. Leucipo, seu mestre, encontrava-se próximo, entediado, e então Parmênides dirigiu-se a ele:
— Leucipo, saudações. Não busco roubar-te o tempo, apenas queria certificar-me se o festival passa-lhe na mesma monotonia que para mim, ou se os sentidos adiantam-se em nos enganar até mesmo em pequena trivialidade.
— Parmênides, saudações. Sabe, Demo, meu discípulo, sempre diz que o bem não significa simplesmente não fazer o mal, mas não desejá-lo. O que apontas, Parmênides? De fato, ainda não ouvi as costumeiras exaltações de Heráclito toda vez que se encontra contigo.
Heráclito. Ouvir o nome do inimigo já lhe fervilhava cada parte do corpo, como se Deus houvesse programado seu ser para não-ser quando o outro fosse. Acalmado os nervos, sorriu para o colega e preparou-se para ir embora:
— Não comprometa este cérebro de titânio com a luxúria da imparcialidade, Leucipo. Você e seu discípulo fizeram grandes avanços na ciência, e concordar com… Heráclito… só os trará atrasos!
Sem esperar resposta do silencioso filósofo, Parmênides dirigiu-se ao centro de pólis, optando pelo maior caminho de volta à casa, na vã esperança de que seu Deus, quem sabe até os antigos deuses, pudessem atender seu desejo de…
— A guerra é mãe e rainha de todas as coisas; alguns transforma em deuses, outros, em homens; de alguns faz escravos, de outros, homens livres. Paremos de indagar o que o futuro nos reserva e recebamos como um presente o que quer que nos traga o dia de hoje. Se não é Parmênides, o escravo da guerra, o confronto que a mãe-rainha oferece-me nesta tarde.
Parmênides virou-se demoradamente, aproveitando os segundos a mais para dispersar o sorriso que havia se formado quando ouvira a voz do rival. Sim, seu Deus ouvira-o, e não o deixaria ir embora sem ao menos uma diversão.
— Heráclito. A linguagem é a etiqueta das coisas ilusórias, nunca te disseram? Não importa quantas palavras esta boca conseguir proferir, pensar é ser, e assim seus sentidos são mais uma vez dispensados.
— Vamos, querido Parmênides, pode fazer melhor. Se penso agora, não pensava antes. E não é isso que defende? “O ser é e não pode não ser e o não ser não é e não pode ser de modo algum”. Como pode então, um não pensamento tornar-se pensamento?
Ninguém, a não ser o próprio Parmênides, conseguia declarar suas ideias tão bem quanto Heráclito, e o mesmo valia para as ideias de Heráclito. Os rivais conheciam-se tão intimamente que poderiam se passar de discípulo um do outro melhor que os verdadeiros do cargo, e muitas vezes eram o que faziam: defendiam as ideias do rival, mesmo que inconscientemente, para então bombardeá-las em pontos específicos, fraquezas memorizadas tão cuidadosamente. Parmênides sorria, preparado há semanas para o embate:
— Sim, a mudança. Pois “nada existe de permanente a não ser a mudança”, não é? Mas saiba que a mudança é fruto da aparência, e os seus sentidos enganam-te direitinho. Sim, não se entra no mesmo rio, e o sol é novo todo dia. Mas será mesmo? Não importa por onde eu comecei, pois para lá eu voltarei sempre. Pode-se confiar mesmo nos sentidos, os mesmos que criam sonhos reais e membros imaginários? Pense, Heráclito amado, pense antes que passe vergonha!
O início de uma risada formava-se nas cordas vocais de Heráclito, mas que se cessaram repentinamente, com uma careta imperceptível ao público. Parmênides, no entanto, memorizara cada centímetro de seu inimigo, e sabia o que cada expressão significava — derrota, triunfo. Dor.
— É claro, porque a mentira e o erro só existem pela ilusão dos sentidos, e não pela existência do não ser.
— Cirurgicamente.
— É como digo, então, muito estudo não ensina compreensão. Se não sabes escutar, meu Parmênides, então não sabes falar. Ser sábio consiste em saber que o pensamento governa todas as coisas, e se insiste em dizer não haver sabedoria quando penso que sinto, não tenho mais assuntos a tratar com o senhor.
Parmênides zombava do rival aos mais próximos, quando virou-se para ele e percebeu que, de fato, o homem ia embora. Perdido nas ações do inimigo, que nunca de fato cumpria as ameaças de ir embora, o filósofo ficou estático, olhando o outro partir.
Algo está errado, Parmênides pensou, ou ao menos sentiu ser esta a voz de sua razão. Sim, aqui é a sua razão falando, confirmou o próprio Parmênides, em interna confusão. Não há nada a se questionar. Sou só eu pensando. Nenhum deus invadindo minha cabeça. Deuses nem existem! Evitando uma dor de cabeça, Parmênides silenciou sua outra voz, a que realmente parecia ser sua, e deixou sua voz, que dizia ser sua — e, se a mentira é ilusão do sentido, não haveria de ser mentira —, guiar seus pensamentos. Sim, como sou sábio, sábia decisão de mim, o Grande Parmênides. Mas indo ao ponto, algo está errado. Eu deveria seguir Heráclito, não? Porque, bem, foram semanas de preparo! Por que não prolongar a discussão por mais alguns instantes. Sim, deveríamos procurá-lo — eu e minha razão — perto dos templos de Ártemis, em meio às montanhas, porque parece um chute lógico, e eu, o grande Parmênides, adoro lógica! Sim, faz sentido, melhor apressarmo-nos, vamos, vamos.
Sem mais discutir consigo próprio, Parmênides seguiu pelo caminho chutado logicamente, chegando com certa dificuldade a um lugar nada lógico de se viver. Parecia ir contra o intelecto humano buscar o ser que fosse num templo de condições tão precárias, quando uma tosse horrorosa veio de dentro. Mais uma vez, se o leitor tiver se esquecido, Parmênides decorara cada construção feita por Deus em seu rival, nem que fosse o som de uma tosse ao se engasgar com sex on the olimpia. Sem mais delongas, portanto, Parmênides correu para dentro do templo, a tempo de ver Heráclito no chão, sujo do próprio sangue.
— Por Deus, Heráclito, o que está havendo? Não me diga que está morrendo.
Parmênides correu para mais perto do enfermo, ajudando-o a deitar-se, e assim o último expeliu mais algumas palavras entre espumas colorizadas de vermelho:
— Ah, Parmênides… por que sempre você? Por que… por que leva tão a sério… Começar e terminar… ah, não consigo.
— Estúpido sentimental, se está doente por que sequer saiu de casa? Ah, nem se pode chamar isso de casa! Por que não buscou algum médico, suplicou alguma erva aos seus deuses desgraçados, diga-me, onde estão seus deuses agora?
Heráclito conseguiu suspirar uma risada antes de se contorcer de dor, e replicou:
— Ah, Parmênides, racional até no leito de morte. Não, não se suplica nada aos deuses… eles sabem quando é hora de ir e vir. Mas, ah, Parmênides, já não tinha muito tempo. Procurei médicos, sim… e no máximo um mês, é o que me disseram. Não há previsão de… melhoria… e não poderia perder…
— O que, esta guerra mãe e rainha que tanto adora? Estar certo vale mais que sua vida, é isso que quer que eu acredite, Heráclito?
— Nâo… por Zeus, Par… não poderia perder você… ah, sim, esses argumentos tolos… não vê, belo Par, que tudo isso… só contribui para a minha teoria?
— Não vejo, e nem quero, pois, a visão engana.
— Sim, estou ciente, meu velho amigo… ah, mas a oposição… produz a concordância. Não vê? A discórdia… é dela que surge a mais bela harmonia. Parmênides, eu… ah, deuses.
De súbito, Heráclito sentou-se, expelindo mais sangue que tudo já ao seu redor, preocupando o outro. Parmênides não entendia, nem ele, nem sua razão, como um mortal resistiria à própria vida, mas Heráclito já abraçava à morte, que prometia para o filósofo um último suspiro, o suficiente para que os sentimentos fossem expressos:
— Parmênides, torno a dizer, quem não sabe escutar não sabe falar, então fique quieto uma última vez em sua vida, que não muito mais tarde terá todos os seus anos para falar sem minhas interrupções. Minha vida toda, sempre fui um homem orgulhoso, recusei ao trono e à política em prol dos meus ideais. Ah, Parmênides, já viu como trata um rei? Sua palavra é lei, fim de discussão. Não há discordância! As transformações são consequências da tensão entre os opostos, da ação e reação, e aquele mundo era monótono demais para mim. E então você veio, Parmênides, e você foi o primeiro homem a rir das minhas teorias. “O fogo, onde já se viu, ser o princípio de tudo. Não há lógica nisso!”.Lembra-se, Parmênides? Pois eu lembro, e como esqueceria, sua existência deu significado à minha, e pude então experimentar todos os sentimentos que lutava em provar. Raiva, frustração, admiração, amor. Ah, Parmênides, dizem que tenho algo incurável chamado hidropsia, mas hão de estudar sua anatomia, pois a dor dissipava somente e sempre com a sua presença. Que seja uma ilusão, Parmênides, mas algo tão real assim? Espero, de coração, que encontre o amor. Que seja feliz e que sinta o que senti, pois só assim verá como não é ilusão, como o que uma pessoa faz com outra jamais pode ser puro engano dos sentidos. Pois eu te amei, detestável rival, e só assim pude provar o poder das emoções sob a razão.
E então seu rival venceu.
Após anos de guerra intelectual, Heráclito mostrara a Parmênides que sua cega crença à razão era a verdadeira ilusão. Heráclito fez Parmênides sentir, e Parmênides nunca odiou tanto estar errado. Porque as lágrimas em seu resto eram reais, e o vazio em seu peito não poderia ser substituído por nenhum ser, ou não-ser. Nenhum Deus poderia causar tamanha desgraça em um homem, e nem mesmo os 12 deuses do Olimpo saberiam ministrar uma maldição tão perfeita. Porque as vozes em sua cabeça desordenavam-se, balbuciavam ilogicamente, e o único sentido que sua vida conseguia encontrar jazia morto no chão.
Naquele fim de tarde, o deus Fabrício voltou para o palácio, mas nenhuma alma viva retornou do templo que, já abandonado, serviu de abrigo aos amantes shakespearianos.
***
Não importa por onde eu comecei, pois para lá eu voltarei sempre. Do pó viemos, e ao pó retornaremos. Fabrício terminava sua aventura de dois dias com a mesma melancolia, se não pior, que estava antes. Sim, o deus revera o amigo, conhecera muitos outros: um sorriso tímido formava ao pensar em Tales e Anaxímenes, as peças que pregou no tempo quando o discípulo cantou-lhe sem filtro; seu estômago ainda revirava um pouco dos vários drinks de sex on the olimpia que Empédocles introduzira ao mundo; e o inocente amor entre Demócrito e Leucipo recuperaram esperanças que Fabrício nem havia percebido que perdera, como se em outra vida tivesse perdido um amor e, ainda nesta, pudesse sentir o coração partido.
Teriam sido dias de glória se o deus não se sentisse derrotado. Todos os dias centenas de mortais morriam, fazia parte do trágico — ou cômico, segundo Aristóteles — ciclo mundano, o qual Fabrício acompanhara desde seu surgimento, junto ao Caos. Ah, o Caos! Pensar na mudança, na desordem, fazia-o lembrar de Heráclito, de como mesmo com sua mínima interferência não conseguira salvá-lo. Com a mente abatida, Fabrício ia ainda mais longe, de volta a Aristóteles. Pobre homem, não haveria no mundo alguém que pensasse como ele? Um outro alguém que considerasse arte e filosofia os remédios da vida, que entendesse que odiamos, ao menos pelas novas experiências de Fabrício, aos que nos parece igual ou superior a nós mesmos?
Tal homem nasceria, mas não neste século. Sequer no próximo, na verdade, esperar-se-ia mais vinte. E é claro que Aristóteles não sobreviveria, mas Fabrício sim. O deus estaria presente em cada reencarnação, redirecionaria-o para cada certo caminho, até que um dia sua alma encontrasse sossego nos braços destinados. E Fabrício não descansaria até que Heráclito e Parmênides se contradissessem uma vez mais, unidos até que a morte os separasse. Demócrito e Leucipo imortalizar-se-iam em todas as escritas conjuntas, Fabrício juraria, até que o tratado político de maior influência mundial manifestasse o amor atemporal de ambos. Mas não ficaria parado, e já via em certo discípulo e mestre atuais o mesmo afinco em discordar que Tales e Anaxímenes apresentavam. E se a relação de Anaxágoras, Anaximandro e Empédocles era naturalmente perfeita, então restaria a Fabrício criar um pacto de convivência entre aqueles que viessem em seguida. Porque Fabrício era o deus da Filosofia, e não permitiria nunca mais que uma mente pensante fosse perturbada por um coração vazio.
